{"id":257590,"date":"2021-05-23T12:57:13","date_gmt":"2021-05-23T15:57:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=257590"},"modified":"2021-05-24T10:42:11","modified_gmt":"2021-05-24T13:42:11","slug":"tse-corre-o-risco-de-engolir-a-ideia-do-voto-impresso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tse-corre-o-risco-de-engolir-a-ideia-do-voto-impresso\/","title":{"rendered":"TSE corre o risco de engolir voto impresso"},"content":{"rendered":"<p>Parte da letra de &#8220;Pra n\u00e3o dizer que eu n\u00e3o falei das flores&#8221;, o verso &#8220;quem sabe faz a hora n\u00e3o espera acontecer&#8221; n\u00e3o tem qualquer conte\u00fado sem\u00e2ntico. Autor da letra e m\u00fasica, Geraldo Vandr\u00e9 disse exatamente o que ele queria dizer. No literal, significa que n\u00e3o devemos empurrar com a barriga um problema que \u00e9 nosso e cuja solu\u00e7\u00e3o exige resposta r\u00e1pida. No portugu\u00eas mais rom\u00e2ntico, o trecho pode ser entendido como n\u00e3o podemos ficar parados, vendo as coisas acontecerem. De modo ainda mais racional, se queremos mudar ou evitar que algo nos ocorra, temos de tomar iniciativas. A melhor solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a proatividade, isto \u00e9, fazer algo e n\u00e3o ficar esperando cair dos c\u00e9us, nascer em \u00e1rvores ou brotar do universo. Escritos em 1968, os versos de Vandr\u00e9 transmitiam esperan\u00e7a e incentivavam os brasileiros a se mobilizarem contra a ditadura. Censurada, a letra tornou-se um hino de resist\u00eancia dos movimentos civil e estudantil da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Passados 53 anos do estouro da m\u00fasica, Vandr\u00e9, que, felizmente permanece entre n\u00f3s, poderia inspirar a c\u00fapula, a base, o entorno e a periferia do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a se insurgir de modo mais objetivo contra a proposta bolsonarista de recuperar o voto impresso, reconhecidamente um retrocesso eleitoral. N\u00e3o se trata de cr\u00edtica gratuita, mas de constata\u00e7\u00e3o de quem acompanha e defende a lisura do sistema eletr\u00f4nico de vota\u00e7\u00e3o. Se querem realmente evitar o trator pilotado pela deputada Bia Kicis (PSL-DFD), com apoio dos presidentes da Rep\u00fablica e da C\u00e2mara, deputado Arthur Lira (PP-AL), \u00e9 preciso sair dos gabinetes, se armarem e partirem para a guerra. Entrincheirados n\u00e3o se ganha nada. No m\u00e1ximo, um resfriado em forma de v\u00eddeo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da faca nos dentes, o outro lado acredita no sucesso de uma proposta de emenda constitucional (PEC), porque, para eles, a luta \u00e9 de vida ou morte. Na verdade, de vit\u00f3ria ou golpe. Para o povo que ainda n\u00e3o conhece os bastidores da Justi\u00e7a Eleitoral, urna eletr\u00f4nica \u00e9 igual banheiro: se n\u00e3o tiver papel n\u00e3o funciona. O TSE tem fartos mecanismos e argumentos para provar o contr\u00e1rio. Mas, repito, n\u00e3o \u00e9 com videozinhos mambembes para circuito interno que conseguir\u00e3o convencer parlamentares e o pov\u00e3o. Recentemente, o PSDB, de A\u00e9cio Neves, escreveu o lead de uma minuta de defesa para o tribunal. A dire\u00e7\u00e3o do partido reiterou publicamente a confian\u00e7a na urna eletr\u00f4nica e no processo eleitoral. Fez isso gratuitamente, ap\u00f3s uma hil\u00e1ria manifesta\u00e7\u00e3o do chefe do Executivo, para quem A\u00e9cio teria ganho de Dilma Roussef.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro de ter visto cita\u00e7\u00f5es teessianas sobre o texto tucano. Foi para o arquivo morto. Semana passada, o site <em>Poder 360<\/em> comparou as pe\u00e7as publicit\u00e1rias sobre seguran\u00e7a da urna a &#8220;guerreiros da pr\u00e9-hist\u00f3ria combatendo ex\u00e9rcitos digitais&#8221;. Sem entrar no m\u00e9rito, \u00e9 bem por a\u00ed. Pode ter at\u00e9 ter passado da conta, mas o &#8220;elogio&#8221; representa a preocupa\u00e7\u00e3o de todos que temem o retrocesso. Obviamente que a iniciativa merece aplausos. Entretanto, o didatismo dos v\u00eddeos remete a uma sala de aula do maternal 2. Com um pouco de comedimento, lembra um cursinho de admiss\u00e3o. Se querem ser did\u00e1ticos, que sejam mostrando o b\u00ea a b\u00e1 da m\u00e1quina de votar, incluindo as sistem\u00e1ticas reuni\u00f5es t\u00e9cnicas com Minist\u00e9rio P\u00fablico, OAB e partidos pol\u00edticos, sempre acompanhados por experientes e exigentes hackers. N\u00e3o podem esquecer de contar a historinha dos boletins de urna, da vota\u00e7\u00e3o paralela e da fracassada experi\u00eancia com o voto impresso na elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2002.<\/p>\n<p>Bolsonaro, Bia Kicis e a &#8220;fam\u00edlia&#8221; bolsonarista n\u00e3o est\u00e3o brincando quando afirmam que o pa\u00eds enfrentar\u00e1 s\u00e9rios problemas se n\u00e3o houver a chamada auditagem do voto em 2022. \u00c9 uma ladainha, uma prociss\u00e3o sem andor. Podem at\u00e9 estar exagerando, mas desde menino aprendi que ganha a briga quem grita mais alto. Por enquanto, o TSE est\u00e1 s\u00f3 no fiu fiu. O presidente do tribunal, ministro Luiz Roberto Barroso, \u00e9 bem-intencionado. Pelo menos faz o que alguns sequer tentaram. Todavia, \u00e9 necess\u00e1rio mostrar a cara, visitar e convencer quem vota, informar e alertar quem desconhece os objetivos do mantra da &#8220;fam\u00edlia&#8221;. Que seus assessores e t\u00e9cnicos n\u00e3o esque\u00e7am que, do outro lado do front, h\u00e1 soldados e oficiais prontos para uma guerra profissional. Nessa analogia, o amadorismo ser\u00e1 vencido com um traque, dois estalinhos e algumas por\u00e7\u00f5es de p\u00f3lvora vencida. Custe o que custar, a ordem no Planalto \u00e9 impedir que a iminente falta de votos gere uma anunciada e fragorosa derrota.<\/p>\n<p>Felizmente, os partidos n\u00e3o parecem afinados com o Planalto. J\u00e1 perceberam que a bravata bolsonarista far\u00e1 \u00e1gua como fez a de Donald Trump. Tomara. O que n\u00e3o pode ocorrer \u00e9, novamente, o tribunal se utilizar do argumento da independ\u00eancia dos poderes para n\u00e3o agir. Embora veross\u00edmil, ele n\u00e3o deve ser de m\u00e3o \u00fanica. Se o chefe do Executivo pode se intrometer publicamente em quest\u00f5es supostamente de exclusividade do Parlamento, parece excessiva a preocupa\u00e7\u00e3o dos representantes do TSE em pelo menos n\u00e3o tentar evitar uma proposta reconhecidamente ruim para os cofres do pa\u00eds e para o povo chamado eleitor. Como quem sabe faz a hora, j\u00e1 passou o &#8220;timing&#8221; para reavivar a mem\u00f3ria de antigos parlamentares e mostrar aos mais novos que, em 2002, o TSE, se antecipando \u00e0 lei, incluiu, como teste, uma impressora nas urnas de 150 munic\u00edpios, entre eles todo o Distrito Federal e o estado de Sergipe, totalizando 7.128.233 eleitores (6,18% do eleitorado da \u00e9poca).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o presidente do tribunal, o ministro aposentado Nelson Jobim, n\u00e3o esperou a casa cair e mostrou o qu\u00e3o complicado e caro para nossa realidade era (e \u00e9) a inclus\u00e3o de uma nova geringon\u00e7a \u00e0 m\u00e1quina de votar. A experi\u00eancia foi uma cat\u00e1strofe. Al\u00e9m do desconhecimento de parte dos votantes e de mes\u00e1rios sobre o novo mecanismo, houve falhas de natureza mec\u00e2nica, eleitores saindo da cabine sem confirmar o voto, demora excessiva na vota\u00e7\u00e3o, necessidade de procedimentos de transporte, guarda e seguran\u00e7a f\u00edsica das urnas de lonas com os votos impressos e ocorr\u00eancias na conex\u00e3o do m\u00f3dulo impressor, deixando o sistema vulner\u00e1vel a tentativas de fraudes. Ex-deputado e um dos maiores entusiastas da urna eletr\u00f4nica, Jobim j\u00e1 foi &#8220;convocado&#8221; algumas vezes para &#8220;visitas&#8221; t\u00e9cnicas \u00e0 toca dos le\u00f5es. Com robustas anota\u00e7\u00f5es, cutucou as &#8220;on\u00e7as&#8221; com n\u00fameros e racioc\u00ednios t\u00e9cnicos inquietantes e ainda hoje lembrados. A verve e a coragem do ministro n\u00e3o amarelam nunca. N\u00e3o seria o caso de experiment\u00e1-las? Podem ser mais proveitosas do que v\u00eddeos produzidos para prateleiras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parte da letra de &#8220;Pra n\u00e3o dizer que eu n\u00e3o falei das flores&#8221;, o verso &#8220;quem sabe faz a hora n\u00e3o espera acontecer&#8221; n\u00e3o tem qualquer conte\u00fado sem\u00e2ntico. Autor da letra e m\u00fasica, Geraldo Vandr\u00e9 disse exatamente o que ele queria dizer. 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