{"id":257853,"date":"2021-05-27T11:58:23","date_gmt":"2021-05-27T14:58:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=257853"},"modified":"2021-05-27T13:02:28","modified_gmt":"2021-05-27T16:02:28","slug":"covid-leva-mais-um-astro-da-musica-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/covid-leva-mais-um-astro-da-musica-brasileira\/","title":{"rendered":"Covid leva mais um astro da m\u00fasica brasileira"},"content":{"rendered":"<p>A Covid levou mais uma figura hist\u00f3rica brasileira. O sambista Nelson Sargento, de 96 anos, morreu na manh\u00e3 desta quinta-feira, 27, no Instituto Nacional de C\u00e2ncer (Inca), onde estava internado com covid-19 desde o \u00faltimo dia 20. A assessoria do sambista confirmou a morte \u00e0s 10h45. Nelson Sargento foi um dos primeiros cariocas a tomar a vacina contra o coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado, 22, o sambista foi transferido para a UTI do Inca, ap\u00f3s testar positivo para o novo coronav\u00edrus e mostrar um agravamento do quadro respirat\u00f3rio. Ele chegou a ser intubado como a autoriza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cO paciente foi internado no \u00faltimo dia 20, com quadro de desidrata\u00e7\u00e3o, anorexia, e significativa queda do estado geral. Ao chegar na unidade, foi realizado o teste de covid-19, que apontou positivo\u201d, informa nota do Inca.<\/p>\n<p>Nelson Sargento tratava de um c\u00e2ncer desde 2005, quando foi descoberto um tumor na pr\u00f3stata. Ele j\u00e1 tinha tomado as duas doses da vacina contra a covid-19, a \u00faltima em 26 de fevereiro. Desde 2013 ele era presidente de honra da Mangueira &#8211; substituiu o mestre-sala Delegado, morto em novembro de 2012, aos 90 anos. Casado com Evonete Belizario Mattos, Sargento deixa seis filhos biol\u00f3gicos e tr\u00eas adotivos.<\/p>\n<p><strong>Vida e obra<\/strong><br \/>\n\u201cSamba, agoniza mas n\u00e3o morre \/ Algu\u00e9m sempre te socorre, antes do suspiro derradeiro\u201d, diz o samba mais famoso de Nelson Sargento, lan\u00e7ado em 1978 por Beth Carvalho. Morto um m\u00eas antes de completar 97 anos, o compositor, cantor, pintor, ator, presidente de honra da Esta\u00e7\u00e3o Primeira de Mangueira e torcedor do Vasco foi mais um brasileiro v\u00edtima da covid-19, que j\u00e1 matou 454.623 pessoas no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nelson Mattos nasceu na Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, no centro do Rio, em 25 de julho de 1924, filho de Rosa Maria da Concei\u00e7\u00e3o e Olympio Jos\u00e9 de Matos. Ela trabalhava como dom\u00e9stica na casa de um comerciante na Tijuca (zona norte), onde morava com esse e outros filhos. Olympio era cozinheiro-chefe do Armaz\u00e9m Drag\u00e3o Secos e Molhados, na Rua Haddock Lobo, tamb\u00e9m na Tijuca. Entre filhos do pai ou da m\u00e3e, Nelson tinha 16 irm\u00e3os, e conviveu pouco com o pai. Este era separado da m\u00e3e e morreu devido a um acidente de trabalho. Uma panela de \u00e1gua fervente caiu sobre ele e Olympio n\u00e3o tratou adequadamente as queimaduras.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o, a m\u00e3e saiu do emprego e, com o filho, passou a morar com um homem chamado Arthur Pequeno. A casa era no morro do Salgueiro, tamb\u00e9m na Tijuca. Foi ali que, enquanto a m\u00e3e lavava roupas para fam\u00edlias do bairro, Nelson conheceu o samba e a primeira escola de samba.<\/p>\n<p>Aos 9 anos, aprendeu a tocar tamborim e come\u00e7ou a desfilar pela Azul e Branco. A escola foi vice-campe\u00e3 do desfile de escolas de samba de 1933 e 20 anos depois seria fundida com a Depois eu Digo, do mesmo bairro, para dar origem \u00e0 Acad\u00eamicos do Salgueiro. Arthur Pequeno era muito amigo de Alfredo Louren\u00e7o, um pintor de paredes portugu\u00eas que se mudou de Lisboa para o Rio de Janeiro como contratado da Marinha Mercante e se instalou no morro da Mangueira, em uma \u00e1rea conhecida como Santo Ant\u00f4nio. Em 1936, Arthur Pequeno morreu e Rosa Maria e o filho foram morar com Alfredo.<\/p>\n<p>Nelson tinha 12 anos e, levado pelo padrasto \u2013 que adorava m\u00fasica, j\u00e1 compusera fados, ritmo t\u00edpico de Portugal, e no Rio passara a fazer letras de samba &#8211; passou a frequentar a Unidos da Mangueira. Era uma escola de samba concorrente da Esta\u00e7\u00e3o Primeira que existiu ao longo dos anos 1930. A Unidos foi frequentada tamb\u00e9m por Geraldo Pereira (1918-1955), autor de sambas cl\u00e1ssicos como Sem Compromisso e Falsa Baiana.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Geraldo Pereira, na Mangueira Nelson tamb\u00e9m se tornou amigo de Cartola (1908-1980) e Nelson Cavaquinho (1911-1986), que lhe ensinaram a tocar viol\u00e3o. O menino ent\u00e3o come\u00e7ou a musicar as letras compostas pelo padrasto. Alfredo Portugu\u00eas, por sua vez, ensinou o enteado a pintar paredes, tarefa que ele come\u00e7ou a realizar profissionalmente em 1941, aos 17 anos.<\/p>\n<p>\u00c0quela altura, a Unidos da Mangueira j\u00e1 deixara de existir, e Nelson passara a integrar a Esta\u00e7\u00e3o Primeira de Mangueira. Percebendo seu gosto e sua aptid\u00e3o pela m\u00fasica, o padrasto e Carlos Cacha\u00e7a (1902-1999), um dos fundadores da Mangueira, convenceram Nelson a se integrar \u00e0 ala de compositores da Mangueira em 1942.<\/p>\n<p>Sem disposi\u00e7\u00e3o para pintar paredes, Nelson trabalhou numa f\u00e1brica de vidros em Vila Isabel (zona norte). Em 1945 ingressou no Ex\u00e9rcito, onde permaneceu at\u00e9 1949, quando encerrou a carreira militar, no posto de sargento. A patente se tornaria parte de seu nome art\u00edstico anos depois.<\/p>\n<p>Quando a Mangueira lan\u00e7ou seu enredo para o carnaval de 1949 \u2013 Apologia aos Mestres, homenagem a Miguel Couto, Rui Barbosa, Osvaldo Cruz e Ana Neri -, Alfredo Portugu\u00eas fez uma letra e prop\u00f4s ao enteado fazer a letra. Nelson Sargento aceitou e a m\u00fasica foi escolhida para ser cantada durante o desfile, realizado na Pra\u00e7a Onze. A Mangueira, que neste ano disputou um campeonato s\u00f3 com a Portela, enquanto Imp\u00e9rio Serrano e outras escolas faziam outra disputa, conquistou o t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Em 1950 a dobradinha se repetiu: Alfredo Portugu\u00eas e Nelson compuseram o samba que conduziu a Verde e Rosa. O desfile exaltou o Salte (Sa\u00fade, Alimenta\u00e7\u00e3o, Transporte e Energia), plano de metas lan\u00e7ado dois anos antes pelo presidente Eurico Gaspar Dutra e que s\u00f3 foi aprovado pelo Congresso Nacional depois do carnaval de 1950. N\u00e3o h\u00e1 registro de que o desfile da Mangueira tenha influenciado na vota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O samba-enredo de maior sucesso de Nelson, no entanto, foi o que a Mangueira cantou no desfile de 1955. Foi composto em parceria com o padrasto e com Jamel\u00e3o (1913-2008), int\u00e9rprete dos sambas-enredo da Mangueira de 1949 a 2006 . A exce\u00e7\u00e3o foi em 1985, quando n\u00e3o chegou de uma viagem de trabalho a Portugal a tempo de cantar.<\/p>\n<p>C\u00e2ntico \u00e0 Natureza, tamb\u00e9m conhecida como Primavera ou Quatro Esta\u00e7\u00f5es do Ano, levou a escola ao vice-campeonato, mas \u00e9 cantada at\u00e9 hoje: \u201cOh, primavera adorada \/ inspiradora de amores \/ Oh, primavera idolatrada\/ sublime esta\u00e7\u00e3o das flores\u201d, diz o refr\u00e3o.<\/p>\n<p>Com tanto sucesso na Mangueira, Nelson se tornou parceiro de Cartola, com quem comp\u00f4s Vim lhe pedir, Samba do oper\u00e1rio e outras can\u00e7\u00f5es. A parceria acabou por lan\u00e7ar Nelson Sargento como cantor profissional. Foi no palco do Zicartola, restaurante que Cartola e sua mulher, Dona Zica, mantiveram na casa onde moravam, na rua da Carioca, no centro do Rio, de setembro de 1963 a maio de 1965, que Nelson deixou de ser apenas compositor para se tornar int\u00e9rprete.<\/p>\n<p>A carreira de Nelson teve tr\u00eas impulsos em 1965: um show, um disco e um nome art\u00edstico. Em 18 de mar\u00e7o ele estreou no espet\u00e1culo Rosa de Ouro, idealizado por Herm\u00ednio Bello de Carvalho e cujas principais protagonistas eram a veterana estrela do samba-can\u00e7\u00e3o Aracy Cortes (1904-1985) e a ent\u00e3o desconhecida Clementina de Jesus (1901-1987). Para acompanh\u00e1-las, al\u00e9m de Nelson, foram convidados Jair do Cavaquinho (1922-2006), Anescarzinho do Salgueiro (1929-2000), Elton Medeiros (1930-2019) e Paulinho da Viola.<\/p>\n<p>O show gerou um disco, o primeiro de que Nelson Sargento participou, lan\u00e7ado no mesmo ano \u2013 outro volume viria em 1967. A oficializa\u00e7\u00e3o do nome art\u00edstico decorreu do show.<\/p>\n<p>\u201cNo espet\u00e1culo Rosa de Ouro eu j\u00e1 tinha sa\u00eddo do Ex\u00e9rcito, e o que sabia era pintar parede e fazer samba. Entre a turma toda, era conhecido como Sargento. E no livreto do espet\u00e1culo tinha minha foto e a descri\u00e7\u00e3o \u2018Nelson Sargento\u2019, da\u00ed ficou\u201d, contaria Nelson d\u00e9cadas depois.<\/p>\n<p>No mesmo ano de 1965, Z\u00e9 Ketti foi incumbido por uma gravadora de criar um grupo de samba. Ele chamou Oscar Bigode, Z\u00e9 da Cruz e os quatro parceiros de Nelson no musical Rosa de Ouro: Jair do Cavaquinho, Anescarzinho do Salgueiro, Elton Medeiros e Paulinho da Viola. Em 1966, Nelson \u2013 ent\u00e3o j\u00e1 Sargento \u2013 se uniu a eles no grupo e participou de dois discos, Roda de Samba 2 (o primeiro volume havia sido lan\u00e7ado em 1965, sem Sargento) e Os Sambistas.<\/p>\n<p>O grupo A Voz do Morro se dissolveu em 1967 \u2013 mas, neste mesmo ano, Nelson e outros tr\u00eas remanescentes (Elton Medeiros Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Salgueiro) se uniram a Mauro Duarte. Criaram o grupo Os Cinco Crioulos, que perdurou at\u00e9 1969 e lan\u00e7ou tr\u00eas discos.<\/p>\n<p>Apesar da carreira musical consolidada, Sargento s\u00f3 lan\u00e7ou seu primeiro disco solo em 1979. Sonho de Um Sambista reunia Agoniza mas n\u00e3o morre, lan\u00e7ada no ano anterior por Beth Carvalho, Primavera, Falso Amor Sincero (outra m\u00fasica de muito sucesso) e outras nove can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de compor mais de 400 can\u00e7\u00f5es, Sargento pintou quadros, escreveu livros de prosa e poesias e atuou como ator. Em 1973, enquanto pintava as paredes do apartamento do jornalista S\u00e9rgio Cabral (pai do ex-governador do Rio S\u00e9rgio Cabral Filho), foi estimulado a montar uma exposi\u00e7\u00e3o, que aconteceu naquele mesmo ano, com sete quatros. A carreira de artista pl\u00e1stico se prolongou paralelamente \u00e0 musical &#8211; em 2019, 14 quadros seus foram expostos no Espa\u00e7o Favela do festival musical Rock in Rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Covid levou mais uma figura hist\u00f3rica brasileira. 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