{"id":258055,"date":"2021-05-30T11:15:32","date_gmt":"2021-05-30T14:15:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=258055"},"modified":"2021-05-30T21:04:56","modified_gmt":"2021-05-31T00:04:56","slug":"pobreza-cresce-e-ovo-toma-lugar-da-carne-no-prato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pobreza-cresce-e-ovo-toma-lugar-da-carne-no-prato\/","title":{"rendered":"Pobreza cresce e ovo toma o lugar da carne"},"content":{"rendered":"<p>Se a situa\u00e7\u00e3o do brasileiro j\u00e1 era ruim desde a posse de Jair Bolsonaro na presid\u00eancia da Rep\u00fablica, a situa\u00e7\u00e3o ficou ainda mais grave coma chegada da pandemia do novo coronav\u00edrus. Sem emprego e coma dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o no valor do aux\u00edlio emergencial, milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o se recordam mais nem do sabor nem do cheiro da carne.<\/p>\n<p>Agora o prato s\u00f3 recebe feij\u00e3o e ovo frito. Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mostrada em reportagem de Felipe Souza, da<em> BBC Brasil<\/em>. Resumindo: a panela \u00e9 colocada no fog\u00e3o, o fogo \u00e9 aceso p\u00f5e um fio de \u00f3leo e quebra um ovo. Este se tornou o novo h\u00e1bito di\u00e1rio da aposentada Maria Jos\u00e9 de Ara\u00fajo, de 73 anos, e de milhares de brasileiros nos \u00faltimos meses na hora de preparar as refei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com o agravamento da crise financeira causada pela pandemia do coronav\u00edrus e as constantes altas do pre\u00e7o da carne, aliados \u00e0 perda da renda e do emprego, o ovo tornou-se a principal fonte de prote\u00ednas de muitas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>&#8220;Eu sempre comprava costela, bife ou frango. Mas hoje bife \u00e9 para rico. Aqui em casa, nem pensar. Quando compro alguma coisa diferente, \u00e9 coxa e sobrecoxa. At\u00e9 o p\u00e9 do frango est\u00e1 caro&#8221;, afirmou Maria Jos\u00e9, que mora com o marido e a filha na Brasil\u00e2ndia, zona norte de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;Antes, a gente sempre colocava carne na mesa. Mas hoje a gente faz tudo com ovo. Omelete, ovo frito, cozido. Daqui a alguns dias, a gente n\u00e3o vai aguentar mais&#8221;, contou \u00e0 reportagem.<\/p>\n<p>Um estudo do grupo de pesquisas Food for Justice: Power, Politics, and Food Inequalities in a Bioeconomy (Comida por Justi\u00e7a: Poder, Pol\u00edtica e Desigualdades Alimentares em uma Bioeconomia, em tradu\u00e7\u00e3o livre), da Universidade Livre de Berlim, apontou que o ovo foi o alimento que teve maior aumento no consumo dos brasileiros durante a pandemia: 18,8%.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o dos pesquisadores, esse crescimento no consumo de ovos aponta para uma clara substitui\u00e7\u00e3o no consumo de carne, que teve redu\u00e7\u00e3o de 44%.<\/p>\n<p>O n\u00famero de pessoas que disse ter comido mais carne, entre novembro e dezembro de 2020, foi de apenas 3,2%. O vendedor de ovos Leonardo Carlos Ribeiro Cabral, de 37 anos, sentiu essa mudan\u00e7a. Suas vendas dispararam. Antes da pandemia, ele vendia cerca de 1,5 mil a 2 mil caixas de ovos por m\u00eas. &#8220;Hoje, eu vendo 4 mil&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Tr\u00eas vezes por semana, ele percorre os 70 km que separam a Freguesia do \u00d3, na zona norte de S\u00e3o Paulo, e a cidade de Mairinque, para buscar ovos.<\/p>\n<p>Cabral entrou nesse mercado h\u00e1 seis anos como ambulante, vendendo cartelas de porta em porta e anunciando o produto por meio de um alto-falante, em uma Kombi.<\/p>\n<p>Mas a perda de renda e a fome durante a pandemia fizeram o neg\u00f3cio de Cabral prosperar. Hoje, ele tem tr\u00eas funcion\u00e1rios que vendem o alimento em carros nas ruas.<\/p>\n<p>&#8220;A gente mudou da \u00e1gua para o vinho. Eu tinha duas peruas velhas que usava para vender ovos. Hoje, comprei uma van, comprei um carro novo e estou construindo quatro casas para investimento porque n\u00e3o sei at\u00e9 quando vai durar essas vendas&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>Cabral contou que percebeu uma mudan\u00e7a no perfil de seus clientes no \u00faltimo ano. &#8220;Antes, as pessoas de classe m\u00e9dia n\u00e3o compravam. Hoje, elas s\u00e3o as que mais compram, principalmente quando a Prefeitura fecha os com\u00e9rcios e as pessoas n\u00e3o podem sair de casa. Se eu soubesse que vender ovo seria t\u00e3o bom, hoje eu teria um galinheiro&#8221;, afirmou sorrindo.<\/p>\n<p>Ele cita um de seus clientes, que compra ovos para revender: um taxista que deixou de fazer corridas e encheu o carro com o produto para comercializar na zona norte da capital paulista.<\/p>\n<p>Agnaldo Machado dos Santos, de 34 anos, tem hist\u00f3ria parecida. Ele trabalhava como motorista de aplicativo, mas foi alertado por um amigo sobre o aquecimento do mercado de venda de ovos e agora usa o carro para vender o produto na rua.<\/p>\n<p>&#8220;Eu encho o porta-malas com caixas de ovos, abro em um lugar com grande movimento e fico ali com uma placa por uns 20 minutos. Depois vou mudando de lugar ao longo do dia. Chego a ganhar 50% a mais do que fazendo corridas&#8221;, contou Santos.<\/p>\n<p><strong>Inseguran\u00e7a alimentar\u00a0<\/strong><br \/>\nO economista Marcelo Neri, diretor do centro de estudos FGV Social, afirmou que a queda na renda provocada pela pandemia agrava uma tend\u00eancia crescente de inseguran\u00e7a alimentar que o Brasil atravessa nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>A Food for Justice apontou que, em abril de 2021, 59,4% dos domic\u00edlios do pa\u00eds se encontravam em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar. Isso ocorre quando uma fam\u00edlia diz ter preocupa\u00e7\u00e3o com a falta de alimentos em casa ou j\u00e1 enfrenta dificuldades para conseguir fazer todas as refei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De acordo com o estudo da Food for Justice, os mais altos percentuais de inseguran\u00e7a alimentar s\u00e3o registrados em fam\u00edlias com apenas uma fonte de renda (66,3%). Isso se acentua ainda mais quando essa respons\u00e1vel \u00e9 uma mulher (73,8%) ou uma pessoa parda (67,8%) ou preta (66,8%).<\/p>\n<p>Uma pesquisa feita pelo Data Favela, uma parceria entre Instituto Locomotiva e a Central \u00danica das Favelas (Cufa), em fevereiro, apontou que, entre os 16 milh\u00f5es de brasileiros que moram em favelas, 67% tiveram de cortar itens b\u00e1sicos do or\u00e7amento com o fim do aux\u00edlio emergencial, como comida e material de limpeza.<\/p>\n<p>Outros 68% afirmaram que, nos 15 dias anteriores \u00e0 pesquisa, em ao menos um dia faltou dinheiro para comprar comida. Oito em cada dez fam\u00edlias disseram que, se n\u00e3o tivessem recebido doa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o teriam condi\u00e7\u00f5es de se alimentar, comprar produtos de higiene e limpeza ou pagar as contas b\u00e1sicas durante os meses de pandemia.<\/p>\n<p><strong>Consumo de carne j\u00e1 era<\/strong><br \/>\nA crise fez o consumo de carne no Brasil chegar ao menor patamar em 25 anos, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), desde o in\u00edcio da s\u00e9rie hist\u00f3rica, em 1996.<\/p>\n<p>Hoje, cada brasileiro consome, em m\u00e9dia, 26,4 kg de carne por ano. Isso significa uma queda de quase 14% na compara\u00e7\u00e3o com 2019, um ano antes da pandemia. A queda em rela\u00e7\u00e3o a 2020 \u00e9 de 4%, segundo o Conab.<\/p>\n<p>Economistas apontam que, com a alta do d\u00f3lar, os produtores preferem vender a carne para outros pa\u00edses, como a China, que paga em d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Mas nem o ovo escapou ileso da crise. De acordo com o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, no \u00faltimo ano, seu pre\u00e7o teve uma alta acumulada de 11,45%, enquanto a infla\u00e7\u00e3o do consumidor foi de 6,35%.<\/p>\n<p>&#8220;Se o ovo n\u00e3o tivesse ficado mais caro, eu estaria vendendo ainda mais&#8221;, disse Leonardo Cabral. O pre\u00e7o da sua caixa de ovos, com 30 unidades, passou de R$ 10 para R$ 15, um aumento de 50%.<\/p>\n<p>A aposentada Maria de Ara\u00fajo conta que, onde ela mora, o ovo encareceu bastante tamb\u00e9m. A cartela com uma d\u00fazia, que custava R$ 8, hoje sai por R$ 13.<\/p>\n<p>&#8220;Se continuar assim, at\u00e9 ovo vai ser dif\u00edcil comprar&#8221;, afirmou \u00e0 <em>BBC News Brasil<\/em>.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Sa\u00edda \u00e9 aumentar a renda&#8217;<\/strong><br \/>\nO economista Marcelo Neri, da FGV, diz que a procura maior pelo ovo causou essa subida repentina do pre\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8220;O aumento do pre\u00e7o das commodities e a varia\u00e7\u00e3o cambial causaram uma alta nos alimentos&#8221;, afirmou o professor da FGV.<\/p>\n<p>Isso faz com que as fam\u00edlias procurem por prote\u00ednas que tenham um custo mais baixo. Mas Neri pondera que o mercado deve se ajustar e os pre\u00e7os devem diminuir, seguindo tend\u00eancias hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>&#8220;O aumento das commodities \u00e9 uma boa not\u00edcia para a macroeconomia brasileira, mas ruim para o consumidor. A not\u00edcia boa \u00e9 que esse aumento n\u00e3o veio para ficar. O pre\u00e7o das commodities flutua, e eu diria que isso n\u00e3o \u00e9 um choque permanente&#8221;, afirmou Neri.<\/p>\n<p>Mas o economista ressalta que h\u00e1 uma tend\u00eancia de piora da inseguran\u00e7a alimentar desde 2014. Um fen\u00f4meno, segundo ele, ligado ao aumento da desigualdade e pobreza.<\/p>\n<p>Neri explica que o aux\u00edlio emergencial ajudou a reduzir esse problema, mas que parte desse benef\u00edcio foi anulado pelo encarecimento dos alimentos.<\/p>\n<p>Para o economista, a melhor solu\u00e7\u00e3o hoje para amenizar o impacto na alta dos pre\u00e7os \u00e9 investir na melhoria de renda da popula\u00e7\u00e3o e aguardar para que os valores voltem a patamares pelo menos mais pr\u00f3ximos dos anteriores.<\/p>\n<p>&#8220;As outras alternativas, como o controle de pre\u00e7os, n\u00e3o s\u00e3o boas. A gente j\u00e1 experimentou isso no passado e viu que causa escassez porque as pessoas consomem e gera uma corrida que n\u00e3o chega a lugar nenhum. Temos que pensar em pol\u00edticas estruturais e de melhora de renda da popula\u00e7\u00e3o&#8221;, afirmou Neri.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se a situa\u00e7\u00e3o do brasileiro j\u00e1 era ruim desde a posse de Jair Bolsonaro na presid\u00eancia da Rep\u00fablica, a situa\u00e7\u00e3o ficou ainda mais grave coma chegada da pandemia do novo coronav\u00edrus. Sem emprego e coma dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o no valor do aux\u00edlio emergencial, milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o se recordam mais nem do sabor nem do cheiro [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":258056,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-258055","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/258055","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=258055"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/258055\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":258098,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/258055\/revisions\/258098"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/258056"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=258055"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=258055"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=258055"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}