{"id":258143,"date":"2021-05-31T13:51:14","date_gmt":"2021-05-31T16:51:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=258143"},"modified":"2021-05-31T13:53:20","modified_gmt":"2021-05-31T16:53:20","slug":"bolsonaro-perde-dominio-da-rua-e-reeleicao-balanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bolsonaro-perde-dominio-da-rua-e-reeleicao-balanca\/","title":{"rendered":"Bolsonaro perde dom\u00ednio da rua e reelei\u00e7\u00e3o balan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Desde que me conhe\u00e7o por gente, o padr\u00e3o mundial s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es contra governos, governantes ou malfeitos de ambos. Nos \u00faltimos tempos, foi assim na Fran\u00e7a, China, Egito, Tun\u00edsia, Gr\u00e9cia, Turquia e, claro, no Brasil. Uma das maiores da hist\u00f3ria mundial ocorreu em maio de 1968, quando cerca de 9 milh\u00f5es de pessoas (a maioria estudantes) transformaram Paris em campo de guerra. O movimento enfraqueceu politicamente o ent\u00e3o presidente, general Charles De Gaulle, que renunciou um ano depois. No mesmo ano, O Rio de Janeiro parou contra a ditadura. Durante um suposto confronto, policiais militares mataram o estudante secundarista Edson Lu\u00eds de Lima Souto. Esse assassinato marcou o in\u00edcio de um ano turbulento e de intensas mobiliza\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias aos militares. O desfecho foi o endurecimento do regime, incluindo a decreta\u00e7\u00e3o, em 13 de dezembro de 1968, do chamado Ato Institucional n\u00famero 5 (AI-5).<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria conta que, em 2010, na Tun\u00edsia, um jovem vendedor de frutas teve seu carrinho confiscado pelas autoridades locais. Desempregado e desesperado, ateou fogo ao pr\u00f3prio corpo em protesto contra as condi\u00e7\u00f5es de vida no pa\u00eds. Sua morte espalhou o \u00f3dio pelo presidente Zine el-Abdine Bem Ali, obrigado a fugir para a Ar\u00e1bia Saudita dez dias depois da confus\u00e3o. Estimulados pelos tunisianos, os eg\u00edpcios precisaram de apenas 18 dias paras derrubar o regime de Osni Mubarak, no poder havia 30 anos. Talvez a cena mais emblem\u00e1tica teve como protagonista um jovem chin\u00eas solit\u00e1rio e desarmado.<\/p>\n<p>Em 1989, ele parou uma fileira de tanques de guerra na China. O protesto da Pra\u00e7a da Paz Celestial, tamb\u00e9m conhecido como Massacre da Paz Celestial, foi uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es em Pequim, ocorridas entre 15 de abril e 4 de junho de 89. Segundo dados da \u00e9poca, 2,6 pessoas teriam morrido. Her\u00f3i do povo, o rapaz desapareceu. No Brasil, quem n\u00e3o se lembra do dia 13 de mar\u00e7o 2016, data em que boa parte do pa\u00eds parou para protestar contra o governo Dilma Rousseff e a corrup\u00e7\u00e3o. Para pol\u00edticos e historiadores, foi o maior ato sobre pol\u00edtica na cr\u00f4nica nacional, superando as Diretas J\u00e1, entre maio de 1983 e abril de 1984.<\/p>\n<p>As refer\u00eancias aos fatos hist\u00f3ricos n\u00e3o s\u00e3o apenas ilustrativas. Elas servem para comprovar que n\u00e3o temos mais o feeling e a cultura das manifesta\u00e7\u00f5es. Se compararmos com o \u00faltimo mandat\u00e1rio norte-americano, tamb\u00e9m desmistifica a tese de que tudo que \u00e9 bom para os Estados Unidos \u00e9 \u00f3timo para o Brasil. Novamente aprendemos errado e conseguimos piorar o que j\u00e1 estava mais ou menos desde a metade da administra\u00e7\u00e3o de Michel Temer. Perdemos definitivamente o timing a partir da posse de Jair Bolsonaro, quando, a pretexto de fechar o Congresso e prender ministros do Supremo Tribunal, os simpatizantes do extremismo \u00e0 direita e da atual gest\u00e3o passaram a &#8220;protestar&#8221; a favor de um presidente. Partid\u00e1rios de Donald Trump haviam feito pior. Perderam a elei\u00e7\u00e3o, invadiram o Capit\u00f3lio e, por isso, dezenas deles acabaram presos. In\u00e9dita e diferente de se manifestar contrariamente, a &#8220;nova&#8221; pr\u00e1tica no Brasil durou e fez sucesso somente at\u00e9 esse s\u00e1bado (29).<\/p>\n<p>Nesse dia, centenas de milhares de brasileiros mostraram que tamb\u00e9m h\u00e1 extremos no lado oposto. Didaticamente, a resposta ao Pal\u00e1cio do Planalto foi a seguinte: as ruas, pra\u00e7as e avenidas s\u00e3o de todos. Ainda que uma maioria vestisse vermelho, a palavra de ordem n\u00e3o tinha cor ou vi\u00e9s partid\u00e1rio. O som era \u00fanico: vento que vento l\u00e1 venta c\u00e1. De volta \u00e0 normalidade, a primeira grande manifesta\u00e7\u00e3o contra o governo Bolsonaro e a favor da vacina assustou e mudou o humor do presidente e de suas principais lideran\u00e7as, que at\u00e9 agora nadavam de bra\u00e7ada pelos atalhos que poderiam lev\u00e1-los \u00e0 perpetuidade. N\u00e3o contavam com as curvas e com os buracos do caminho. Paralelamente ao avan\u00e7o da candidatura de Luiz In\u00e1cio, os atos do fim de semana acenderam a luz amarela no front daqueles que j\u00e1 estavam se a costumando com a ideia de Jair Messias eterno. Em s\u00edntese, acusaram o golpe.<\/p>\n<p>O discurso do l\u00edder do governo na C\u00e2mara, deputado Ricardo Barros (PP-PR), \u00e9 cristalino. Segundo ele, os protestos antecipam a elei\u00e7\u00e3o e consolidam a polariza\u00e7\u00e3o entre Lula e Bolsonaro. Os governistas n\u00e3o conseguem, mas \u00e9 relevante explicar algumas diferen\u00e7as entre os movimentos pr\u00f3 e contra o atual presidente da Rep\u00fablica. Ao contr\u00e1rio do que imagina o capit\u00e3o, todos os protestos a seu favor foram claramente montados por uma maioria de pessoas com algum tipo de interesse na administra\u00e7\u00e3o federal. Claro que, entre os manifestantes, havia dezenas de pessoas fechadas com os improp\u00e9rios antidemocr\u00e1ticos do l\u00edder. Entretanto, \u00e9 viajar na maionese afirmar que grandes produtores, madeireiros, garimpeiros e quetais deixaram suas fazendas e \u00e1reas ilegais de desmatamento e de extra\u00e7\u00e3o de ouro apenas para ouvir e aplaudir os eruditos discursos do presidente. Aposto e dobro que pouqu\u00edssimos ou nenhum pequeno produtor integrou o grupo de defensores do fechamento do Supremo e do Congresso. Eles n\u00e3o t\u00eam tempo nem recursos para isso, pois precisam produzir para sobreviver.<\/p>\n<p>O tamanho das manifesta\u00e7\u00f5es contra o governo j\u00e1 tem consequ\u00eancias. De concreto, al\u00e9m de perder o monop\u00f3lio das ruas e o discurso de apoio do povo, Bolsonaro ter\u00e1 de se reinventar. O mito defuntou. O coro da multid\u00e3o passou pelos Estados Unidos e Europa e certamente chegar\u00e1 \u00e0 C\u00e2mara dos Deputados, onde repousam mais de 120 pedidos de impeachment. At\u00e9 a fala de Ricardo Barros representa um novo horizonte para os parlamentares do Centr\u00e3o, cujos votos ter\u00e3o novo valor de mercado a partir de agora. O mais importante \u00e9 que, se n\u00e3o for pelo voto, dificilmente o presidente alcan\u00e7ar\u00e1 a ribalta eterna. Melhor ainda \u00e9 que, pelo andar da carruagem, tudo indica que seus pr\u00f3ximos dias, semanas, meses e ano ser\u00e3o de inevit\u00e1vel confronto com a CPI da Covid e, principalmente, com a falta de votos que ele sempre imaginou ter de sobra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que me conhe\u00e7o por gente, o padr\u00e3o mundial s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es contra governos, governantes ou malfeitos de ambos. Nos \u00faltimos tempos, foi assim na Fran\u00e7a, China, Egito, Tun\u00edsia, Gr\u00e9cia, Turquia e, claro, no Brasil. 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