{"id":258450,"date":"2021-06-04T20:29:25","date_gmt":"2021-06-04T23:29:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=258450"},"modified":"2021-06-04T20:29:25","modified_gmt":"2021-06-04T23:29:25","slug":"assedio-de-medico-brasileiro-revolta-arabes-por-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/assedio-de-medico-brasileiro-revolta-arabes-por-que\/","title":{"rendered":"Ass\u00e9dio de m\u00e9dico brasileiro revolta \u00e1rabes. Por qu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p>A deten\u00e7\u00e3o de um m\u00e9dico brasileiro no Cairo, investigado por assediar uma vendedora em loja de papiros, ganhou manchetes n\u00e3o s\u00f3 no Egito como em diversos outros lugares no mundo \u00e1rabe \u2014 inclusive em na\u00e7\u00f5es onde h\u00e1 relatos de graves abusos aos direitos das mulheres.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico ga\u00facho e influencer digital Victor Sorrentino postou na semana passada em seu Instagram \u2014 com quase um milh\u00e3o de seguidores \u2014 um v\u00eddeo em que aparece na cidade tur\u00edstica de Luxor fazendo coment\u00e1rios obscenos de conota\u00e7\u00e3o sexual e duplo sentido a uma vendedora em uma loja de papiros.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00eas gostam mesmo \u00e9 do bem duro, n\u00e9? E comprido tamb\u00e9m fica legal, n\u00e9?&#8221;, diz Sorrentino, em meio a risos, \u00e0 vendedora, enquanto ela lhe mostrava papiros.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a repercuss\u00e3o negativa do v\u00eddeo nas redes sociais brasileiras \u2014 e antes de o caso ganhar notoriedade no Egito e nos pa\u00edses \u00e1rabes \u2014 o m\u00e9dico voltou no dia seguinte \u00e0 loja e gravou um novo v\u00eddeo, em que aparece pedindo desculpas \u00e0 vendedora.<\/p>\n<p>Na segunda-feira (31 de maio), Sorrentino foi detido por autoridades eg\u00edpcias e segue impedido de deixar o pa\u00eds, enquanto investigadores decidem qual desfecho dar ao caso. At\u00e9 agora ele n\u00e3o foi acusado formalmente.<\/p>\n<p>Depois que o v\u00eddeo foi traduzido para o \u00e1rabe com ajuda de ativistas e blogueiros brasileiros, o caso teve enorme repercuss\u00e3o no Egito e no pa\u00eds \u00e1rabe \u2014 sendo principal t\u00f3pico de discuss\u00e3o na segunda-feira no Twitter e ganhou reportagens de capa em jornais do Egito, Ar\u00e1bia Saudita, Emirados \u00c1rabe e outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>O caso tamb\u00e9m foi amplamente noticiado nas televis\u00f5es em \u00e1rabe da BBC, Al-Jazeera, Al-Arabiya e Sky.<\/p>\n<p>Mas por que o epis\u00f3dio envolvendo o m\u00e9dico brasileiro recebeu tanta aten\u00e7\u00e3o no Egito \u2014 um dos pa\u00edses com um dos piores hist\u00f3ricos de ass\u00e9dio sexual contra mulheres no mundo?<\/p>\n<p>Ativistas no Egito dizem que o problema do ass\u00e9dio sexual \u00e9 quase uma &#8220;epidemia&#8221; no pa\u00eds. Um relat\u00f3rio da ONU de 2013 cita uma pesquisa em que 83% das mulheres eg\u00edpcias relataram ter sofrido algum tipo de ass\u00e9dio sexual \u2014 entre mulheres estrangeiras, o percentual era de 98%.<\/p>\n<p>A BBC News Brasil ouviu mulheres eg\u00edpcias, brasileiras no Cairo, jornalistas e ativistas para entender porque o caso do m\u00e9dico brasileiro repercutiu t\u00e3o fortemente no Egito e outros pa\u00edses do mundo \u00e1rabe.<\/p>\n<p>A BBC News Brasil tamb\u00e9m buscou contato com pessoas pr\u00f3ximas ao m\u00e9dico, mas n\u00e3o obteve retorno (confira no fim da reportagem).<\/p>\n<p><strong>Primeiro v\u00eddeo: obscenidade em p\u00fablico, flagrante e religi\u00e3o<\/strong><br \/>\nO comportamento do m\u00e9dico foi muito criticado por brasileiros que assistiram aos dois v\u00eddeos postados por ele nas redes.<\/p>\n<p>No entanto, no mundo \u00e1rabe o v\u00eddeo teve repercuss\u00e3o ainda maior \u2014 em parte por causa de algumas diferen\u00e7as culturais entre Brasil e Egito que nem sempre s\u00e3o percebidas pelos brasileiros.<\/p>\n<p>&#8220;A gente nota que ele provavelmente n\u00e3o estudou sobre o pa\u00eds antes de visitar, n\u00e3o sabe nada sobre os costumes daqui&#8221;, diz Patr\u00edcia Oliveira, brasileira que mora e trabalha no Cairo h\u00e1 tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>Ela dirige, junto com outras duas brasileiras, a p\u00e1gina Vida no Egito, que traz dicas e relatos em portugu\u00eas do cotidiano no pa\u00eds. Foi ela quem traduziu o v\u00eddeo para o \u00e1rabe, em parceria com outros ativistas e blogueiros baseados em Nova York, Londres e Cairo.<\/p>\n<p>Essa tradu\u00e7\u00e3o foi importante para que os eg\u00edpcios ficassem sabendo do caso, j\u00e1 que at\u00e9 ent\u00e3o o v\u00eddeo circulava apenas nas m\u00eddias sociais brasileiras.<\/p>\n<p>Acredita-se que as autoridades eg\u00edpcias resolveram deter o m\u00e9dico brasileiro depois de verem o v\u00eddeo ter grande repercuss\u00e3o nas redes eg\u00edpcias \u2014 com a hashtag &#8220;Responsabilize o assediador brasileiro&#8221; entre as mais tuitadas no fim de semana.<\/p>\n<p>Pessoas com familiaridade com costumes no Egito em outros pa\u00edses \u00e1rabes que assistiram ao v\u00eddeo falaram \u00e0 BBC News Brasil sobre alguns desses aspectos culturais que fizeram com que alguns eg\u00edpcios se sentissem ainda mais ofendidos:<\/p>\n<p>&#8211; Obscenidade em p\u00fablico. O fato de Victor Sorrentino falar sobre sexo em p\u00fablico, mesmo indiretamente atrav\u00e9s de palavras de duplo sentido, \u00e9 algo pouco aceito em sociedades \u00e1rabes, disse uma jornalista s\u00edria do servi\u00e7o \u00e1rabe da BBC.<\/p>\n<p>Esse tipo de conversa, com refer\u00eancias a \u00f3rg\u00e3os sexuais, n\u00e3o costuma ser feito em ambientes abertos. Em alguns lugares onde h\u00e1 apenas a presen\u00e7a de homens, ela at\u00e9 poderia ocorrer. Mas usar esse tipo de linguagem e abordar esses temas na presen\u00e7a de uma mulher \u2014 seja ela parente ou n\u00e3o \u2014, como fez Sorrentino, \u00e9 uma ofensa grave para a maioria dos \u00e1rabes.<\/p>\n<p>&#8211; Perigo para a v\u00edtima. A brasileira que vive no Egito tamb\u00e9m ressalta outro aspecto: &#8220;Ficamos sabendo que a fam\u00edlia da v\u00edtima est\u00e1 apoiando ela, o que \u00e9 \u00f3timo. Mas qual vai ser a consequ\u00eancia disso tudo para ela? Poderia acontecer de, se fosse com outra pessoa, que a v\u00edtima n\u00e3o tivesse esse suporte da fam\u00edlia, ou que de alguma forma eles vissem ela como culpada de sofrer o ass\u00e9dio. Quem poderia afirmar antes do caso acontecer que esse seria o desfecho, de ela ter o apoio da fam\u00edlia?&#8221;<\/p>\n<p>Gehad Hamdy,, ativista fundadora do Speak Up, o site de ativistas antiass\u00e9dio que publicou primeiro a vers\u00e3o traduzida do v\u00eddeo \u2014 dando ampla repercuss\u00e3o ao caso no Egito \u2014 concorda: &#8220;Por isso foi t\u00e3o importante n\u00f3s borrarmos o rosto dela e protegermos a identidade dela no v\u00eddeo que publicamos denunciando o caso&#8221;. Nos dois v\u00eddeos postados no Instagram por Victor \u2014 o que cont\u00e9m o ass\u00e9dio e o de desculpas \u2014 o rosto da ativista aparece.<\/p>\n<p>&#8211; Autoflagrante. Ass\u00e9dio sexual de mulheres \u00e9 hoje um tema muito debatido na sociedade eg\u00edpcia, com diversas mudan\u00e7as em curso (leia abaixo). Pesquisas indicam que a maioria das mulheres j\u00e1 sofreu algum tipo de ass\u00e9dio, mas a grande dificuldade sempre foi a de comprovar os casos.<\/p>\n<p>O que chamou a aten\u00e7\u00e3o para muitos ativistas \u00e9 que o pr\u00f3prio m\u00e9dico produziu e publicou um v\u00eddeo. Sem esse material, teria sido dif\u00edcil det\u00ea-lo para investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Fiquei surpresa que ele tenha sido preso em menos de 24 horas. A unidade de monitoramento e an\u00e1lise de dados do Minist\u00e9rio P\u00fablico acompanha as redes sociais e monitora esses casos&#8221;, disse Gehad Hamdy \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>&#8211; Uso do hijab. O uso obrigat\u00f3rio de v\u00e9u para cobrir os cabelos das mulheres mu\u00e7ulmanas \u00e9 controverso em algumas partes do Ocidente e do Oriente. Mas em muitas sociedades, as mulheres usam v\u00e9us como um s\u00edmbolo de respeito e honra.<\/p>\n<p>A v\u00edtima que aparece no v\u00eddeo cobre seu cabelo com um hijab. Um jornalista do servi\u00e7o \u00e1rabe da BBC disse que um estrangeiro filmar uma mulher com hijab e fazer brincadeiras com ela diante de milhares de pessoas na internet j\u00e1 seria considerado um ato desrespeitoso \u2014 at\u00e9 mesmo sem o teor sexual das palavras.<\/p>\n<p>&#8211; Exposi\u00e7\u00e3o da vendedora. Muitos que viram o v\u00eddeo se sentiram mal pela exposi\u00e7\u00e3o da vendedora, que parece uma pessoa jovem e inocente. Eles apontaram que ela parece n\u00e3o entender o que est\u00e1 sendo dito pelo m\u00e9dico, e a conota\u00e7\u00e3o obscena das suas palavras. &#8220;Muitos viram no v\u00eddeo um estrangeiro se aproveitando que a menina n\u00e3o entende nada do que ele est\u00e1 falando&#8221;, disse um jornalista da BBC Arabic.<\/p>\n<p>&#8211; Religi\u00e3o. Patr\u00edcia Oliveira aponta uma outra quest\u00e3o que pode ser problem\u00e1tica para os eg\u00edpcios que assistem ao v\u00eddeo quando o m\u00e9dico diz: &#8220;Voc\u00eas gostam mesmo \u00e9 do bem duro, n\u00e9? E comprido tamb\u00e9m fica legal, n\u00e9?&#8221;.<\/p>\n<p>Oliveira diz: &#8220;Quando ele fala isso, quem \u00e9 o sujeito da frase? &#8216;Voc\u00eas, as mulheres&#8217;, ou &#8216;voc\u00eas, as mu\u00e7ulmanas&#8217;? N\u00e3o fica claro se ele est\u00e1 se referindo tamb\u00e9m \u00e0 religi\u00e3o, e muitas pessoas poderiam entender isso como uma ofensa ao Isl\u00e3.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Segundo v\u00eddeo: nova exposi\u00e7\u00e3o e toque<\/strong><br \/>\nPara as pessoas ouvidas pela BBC News Brasil, o segundo v\u00eddeo, em que Victor Sorrentino volta ao local de trabalho da v\u00edtima tamb\u00e9m \u00e9 problem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Sorrentino volta \u00e0 loja no dia seguinte e liga a c\u00e2mera imediatamente, novamente expondo a vendedora na internet.<\/p>\n<p>&#8220;Eu acabei de chegar aqui e falei com ela que n\u00e3o quero nem conversar antes contigo (diz ele \u00e0 vendedora) para a gente ser espont\u00e2neo, que eu quero te ouvir mesmo. Ontem deu uma confus\u00e3o aquele neg\u00f3cio&#8221;, diz o m\u00e9dico no novo v\u00eddeo, que foi postado na sua conta de Instagram. Posteriormente a conta dele foi fechada apenas para seus seguidores.<\/p>\n<p>&#8220;E dentro das brincadeiras\u2026 eu posso te encostar (diz ele, tocando no bra\u00e7o dela, ap\u00f3s o consentimento da vendedora)? Eu fiz uma brincadeira que \u00e9 uma brincadeira de mau gosto com mulheres e que eu fa\u00e7o com minhas amigas e meus familiares no Brasil.&#8221;<\/p>\n<p>Victor diz que n\u00e3o tinha o direito de brincar com a vendedora, mas logo em seguida ele repete o teor do que havia sido dito no primeiro v\u00eddeo.<\/p>\n<p>&#8220;Apesar de que eu acho que tu n\u00e3o entendeu (sic) o que se passou l\u00e1. Eu vou te explicar o que que \u00e9. Quando voc\u00ea falou do papiro &#8230; n\u00e3o precisa ficar vermelha, t\u00e1 &#8230; voc\u00ea falou &#8216;ah, tem que ser duro&#8217;, a\u00ed eu brinquei &#8216;ah, ent\u00e3o \u00e9 duro&#8217;. &#8216;E tem que ser grande&#8217;. Grande e duro. Grande e duro \u00e9 uma analogia\u2026 uma brincadeira\u2026 tu sabes, n\u00e9?&#8221;, diz ele, em meio a risos de ambos.<\/p>\n<p><strong>A vendedora responde: &#8220;T\u00e1, entendi.&#8221;<\/strong><br \/>\n&#8220;T\u00e1, ficou vermelha. Mas isso \u00e9 uma brincadeira brasileira que pode ser vista como uma brincadeira de mau gosto, e eu acho que \u00e9. Uma brincadeira assim &#8216;bah, n\u00e3o precisava fazer isso&#8217;. Mas sabe, eu sou assim. Voc\u00ea viu ontem, eu sou um cara muito brincalh\u00e3o que sai brincando n\u00e9? E filmei isso. E as pessoas ficaram ofendidas por voc\u00ea. Por que &#8216;poxa, como o Victor fala isso para uma mulher?&#8217; Ela \u00e9 mu\u00e7ulmana, ela n\u00e3o pode falar esse tipo de coisa, n\u00e3o pode ouvir isso e tal e ficou chateada.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o eu primeiro de tudo, eu vim aqui porque quero saber como \u00e9 que tu est\u00e1s e pra te pedir desculpas. Se eu te chateei de qualquer forma. Mas eu quero saber de ti, se tu te sentiu (sic) atingida por isso, ou acuada com isso e eu quero que tu sejas muito verdadeira. Eu acabei de chegar aqui, eu estou na entrada do neg\u00f3cio.&#8221;<\/p>\n<p>A vendedora responde ent\u00e3o em meio a risos: &#8220;Mas nada, nada, n\u00e3o se passa nada. Tudo bem. Eu ou\u00e7o como uma piada. N\u00e3o passa nada. Eu entendi isso.&#8221;<\/p>\n<p>No v\u00eddeo, Sorrentino toca duas vezes na vendedora. Na primeira ocasi\u00e3o, ele pede a permiss\u00e3o dela e ela consente. Na segunda, os dois seguram suas m\u00e3os juntos por cerca de 10 segundos, enquanto o m\u00e9dico pede desculpas. O m\u00e9dico parece ser alertado por um interprete de algo, e imediatamente solta as m\u00e3os da vendedora ap\u00f3s isso.<\/p>\n<p>As pessoas que assistiram ao v\u00eddeo disseram \u00e0 BBC News Brasil que o ato de tocar em uma mulher com quem ele n\u00e3o \u00e9 casado, mesmo tendo pedido o consentimento dela, pode ser considerado ofensivo por v\u00e1rios eg\u00edpcios. Em algumas sociedades e contextos \u00e1rabes, um gesto semelhante poderia at\u00e9 ser interpretado como crime.<\/p>\n<p>&#8220;Os \u00e1rabes s\u00e3o pessoas muito calorosas, como as pessoas de cultura latina&#8221;, disse uma jornalista da BBC no Cairo. &#8220;Mas a quest\u00e3o do toque e do contato f\u00edsico entre duas pessoas de sexo oposto n\u00e3o-casadas \u00e9 bem diferente, e n\u00e3o \u00e9 bem vista aqui.&#8221;<\/p>\n<p>Gehad Hamdy, do Speak Up, questiona ainda se o pedido de desculpas \u00e9 realmente genu\u00edno. &#8220;Eu n\u00e3o acho que isso possa ser chamado de desculpas. Ele estava tentando se encobrir depois que seus seguidores o atacaram. Ele n\u00e3o disse a verdade \u00e0 garota&#8221;, opina ela.<\/p>\n<p>A imprensa eg\u00edpcia noticiou que a v\u00edtima teria mantido uma queixa formal contra o m\u00e9dico \u2014 mesmo ap\u00f3s o v\u00eddeo de desculpas.<\/p>\n<p><strong>Mudan\u00e7as na sociedade<\/strong><br \/>\nO caso de Victor Sorrentino aconteceu em um momento em que o Egito vive uma esp\u00e9cie de &#8220;primavera&#8221; em rela\u00e7\u00e3o aos direitos das mulheres e a luta contra ass\u00e9dios sexuais, com alguns avan\u00e7os importantes \u2014 mas tamb\u00e9m com retrocessos e decep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A lei que tipifica o crime de ass\u00e9dio sexual \u00e9 recente, tendo entrado em vigor apenas em 2014.<\/p>\n<p>Dois epis\u00f3dios recentes provocaram intensos debates na sociedade eg\u00edpcia, e muitos dos entrevistados disseram \u00e0 BBC News Brasil que a atitude de leni\u00eancia das autoridades em casos assim est\u00e1 mudando.<\/p>\n<p>Em uma rara vit\u00f3ria dos direitos das mulheres no Egito, um estudante de 22 anos foi condenado em dezembro do ano passado a tr\u00eas anos de pris\u00e3o por assediar sexualmente duas mulheres usando as redes sociais.<\/p>\n<p>Ahmed Bassem Zaki foi preso em julho no Cairo, onde estudou na faculdade de elite American University.<\/p>\n<p>As acusa\u00e7\u00f5es contra ele desencadearam uma campanha no estilo do MeToo, com mulheres relatando suas experi\u00eancias de ass\u00e9dio sexual.<\/p>\n<p>O tribunal considerou Zaki culpado de enviar fotos e textos pornogr\u00e1ficos para telefones de mulheres.<\/p>\n<p>O caso come\u00e7ou em julho de 2020, quando diversas mulheres postaram den\u00fancias an\u00f4nimas contra Zaki em uma conta do Instagram chamada Assault Police (&#8220;Pol\u00edcia do Ass\u00e9dio&#8221;).<\/p>\n<p>Outro caso de enorme repercuss\u00e3o no Egito foi o suposto estupro coletivo de uma mulher no hotel de luxo Fairmont Nile City Hotel em 2014 por um grupo de homens de fam\u00edlias poderosas que, teriam filmado e divulgado o v\u00eddeo online.<\/p>\n<p>Os promotores ordenaram a pris\u00e3o de v\u00e1rios suspeitos em agosto de 2020 \u2014 mas testemunhas e outras pessoas associadas ao caso tamb\u00e9m foram detidas e supostamente submetidas a exames invasivos. Ativistas disseram que isso deu \u00e0s mulheres a mensagem de que denunciar um estupro ou atuar como testemunha pode coloc\u00e1-las em risco de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>O incidente envolvendo o m\u00e9dico brasileiro aconteceu poucos dias depois de um an\u00fancio que gerou revolta entre diversos grupos que lutam pelos direitos das mulheres. No dia 12 de maio, promotores no Egito arquivaram o caso do Fairmont Nile City, dizendo que n\u00e3o h\u00e1 &#8220;provas suficientes&#8221;. Os quatro suspeitos do caso foram libertados, disseram os promotores.<\/p>\n<p>Apesar desta decis\u00e3o, alguns ativistas no Egito dizem que as atitudes em rela\u00e7\u00e3o aos direitos das mulheres e \u00e0 agress\u00e3o sexual est\u00e3o come\u00e7ando a melhorar. No epis\u00f3dio relacionado a Zaki, v\u00e1rias celebridades e influenciadores se manifestaram em apoio \u00e0s mulheres que faziam acusa\u00e7\u00f5es contra ele.<\/p>\n<p>No ano passado, a mais alta autoridade religiosa do pa\u00eds, a mesquita Al-Azhar, divulgou uma declara\u00e7\u00e3o condenando o ass\u00e9dio sexual, declarando que as roupas de uma mulher nunca poderiam ser uma justificativa para o ass\u00e9dio.<\/p>\n<p><strong>O lado do m\u00e9dico<\/strong><br \/>\nVictor Sorrentino segue sem poder retornar ao Brasil, enquanto o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Egito apura o caso. At\u00e9 o momento, ele n\u00e3o foi acusado formalmente de nenhum crime. O Itamaraty est\u00e1 acompanhando o caso.<\/p>\n<p>A BBC News Brasil entrou em contato via e-mail e WhatsApp com pessoas pr\u00f3ximas do m\u00e9dico Victor Sorrentino, na tentativa de conversar com ele: o advogado Paulo Uebel, amigo do m\u00e9dico, uma irm\u00e3 de Victor e um contato do consult\u00f3rio do m\u00e9dico, em Porto Alegre.<\/p>\n<p>Na segunda-feira, quando o m\u00e9dico foi detido no Cairo, uma advogada de Victor no Brasil havia dito que o m\u00e9dico estava com acesso a seu telefone celular e conversando com parentes.<\/p>\n<p>At\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem, n\u00e3o houve resposta de nenhuma das partes.<\/p>\n<p>Na quinta-feira (03), Uebel publicou em sua conta pessoal do Instagram uma nota em portugu\u00eas, \u00e1rabe e ingl\u00eas com um pedido de desculpas assinado pelos familiares do m\u00e9dico, pedindo que esse conte\u00fado fosse divulgado por todos.<\/p>\n<p>&#8220;Nosso sincero pedido de desculpas \u00e0 v\u00edtima, fam\u00edlia da v\u00edtima e a todos que possam ter se sentido ofendidos&#8221;, diz a nota assinada pela esposa do m\u00e9dico, Kamila Monteiro, e outros cinco familiares \u2014 mas sem a assinatura do pr\u00f3prio Victor Sorrentino.<\/p>\n<p>Em um trecho em ingl\u00eas, os familiares prometem &#8220;reparar todos os danos morais e materiais&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A deten\u00e7\u00e3o de um m\u00e9dico brasileiro no Cairo, investigado por assediar uma vendedora em loja de papiros, ganhou manchetes n\u00e3o s\u00f3 no Egito como em diversos outros lugares no mundo \u00e1rabe \u2014 inclusive em na\u00e7\u00f5es onde h\u00e1 relatos de graves abusos aos direitos das mulheres. 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