{"id":258484,"date":"2021-06-05T17:05:30","date_gmt":"2021-06-05T20:05:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=258484"},"modified":"2021-06-05T17:05:30","modified_gmt":"2021-06-05T20:05:30","slug":"deixar-pazuello-impune-ainda-vai-dar-problemas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/deixar-pazuello-impune-ainda-vai-dar-problemas\/","title":{"rendered":"Deixar Pazuello impune ainda vai dar problemas"},"content":{"rendered":"<p>Tens\u00e3o, d\u00favidas e medo s\u00e3o as palavras escolhidas para caracterizar as rela\u00e7\u00f5es entre militares e o poder pol\u00edtico no Brasil recentemente por um dos maiores especialistas no assunto. Para o historiador e cientista pol\u00edtico Jos\u00e9 Murilo de Carvalho, a decis\u00e3o de n\u00e3o punir o general da ativa Eduardo Pazuello por participa\u00e7\u00e3o em ato pol\u00edtico ao lado do presidente da Rep\u00fablica vai fazer crescer uma crise j\u00e1 instalada: o cisma entre o comando das tropas e aqueles que Carvalho classifica como &#8220;generais do presidente&#8221;, em refer\u00eancia aos que ocupam cargos no governo de Jair Bolsonaro (sem partido).<\/p>\n<p>O Regimento Disciplinar do Ex\u00e9rcito pro\u00edbe que militares da ativa participem publicamente de atos de cunho pol\u00edtico-partid\u00e1rio. &#8220;Sabe-se que os componentes do alto comando do Ex\u00e9rcito eram favor\u00e1veis a algum tipo de puni\u00e7\u00e3o. O comandante os teria convencido a n\u00e3o punir. Imagino que com isso tenha perdido autoridade&#8221;, diz, mencionando o atual comandante do Ex\u00e9rcito, general Paulo S\u00e9rgio.<\/p>\n<p>Autor de obras diversas sobre o tema &#8211; entre elas, o cl\u00e1ssico For\u00e7as Armadas e Pol\u00edtica no Brasil -, Carvalho entende que a falta de puni\u00e7\u00e3o a Pazuello \u00e9 grave, apesar de n\u00e3o ser in\u00e9dita.<\/p>\n<p>Como precedente, ele recorda o caso do general Jurandir Mamede. Em 1955, ainda coronel, Mamede se pronunciou politicamente a favor de um golpe militar em discurso durante o funeral de um oficial superior. Ele reagia \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Juscelino Kubitschek para a Presid\u00eancia e Jo\u00e3o Goulart como seu vice, semanas antes. Apesar do desejo de puni-lo ter sido manifestado por comandantes, a decis\u00e3o acabou n\u00e3o sendo tomada e Mamede se livrou.<\/p>\n<p>Veja trechos da entrevista:<\/p>\n<p><strong>Como o sr. caracterizaria a \u00e9poca recente do Brasil em termos da rela\u00e7\u00e3o entre a caserna e a pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9poca de tens\u00e3o, d\u00favidas e medo.<\/p>\n<p><strong>Como o sr. reagiu ao saber que o general Eduardo Pazuello n\u00e3o receberia qualquer puni\u00e7\u00e3o por ter participado de um ato pol\u00edtico mesmo sendo um militar da ativa?<\/strong><\/p>\n<p>Desapontamento e receio. O primeiro por ter acreditado na exist\u00eancia de generais de car\u00e1ter capazes de resistir a press\u00f5es descabidas, mesmo que pelo pedido de demiss\u00e3o, como foi o caso do general (Edson) Pujol e de seus colegas da Marinha e da Aeron\u00e1utica. O segundo pelas consequ\u00eancias que poder\u00e3o advir para a manuten\u00e7\u00e3o da disciplina no Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p><strong>\u00a0O vice-presidente, general da reserva Hamilton Mour\u00e3o, havia declarado ele pr\u00f3prio que Pazuello deveria ser punido, sob risco de o contr\u00e1rio alimentar uma &#8216;anarquia&#8217;. Estamos, ent\u00e3o, entrando no territ\u00f3rio da anarquia entre os militares?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 curioso que o general Mour\u00e3o tenha sido punido duas vezes por ter feito declara\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Prefiro a posi\u00e7\u00e3o atual dele, ironicamente adotada depois de se ter feito pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>A decis\u00e3o de n\u00e3o punir Pazuello vem sendo tratada por analistas ou at\u00e9 por outros militares como um ponto in\u00e9dito no hist\u00f3rico das For\u00e7as Armadas. H\u00e1 precedente?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 o caso do coronel Jurandir Mamede, em 1955. Mas, antes de 1964, e at\u00e9 mesmo alguns anos depois, a indisciplina e a conspira\u00e7\u00e3o eram rotina nos quart\u00e9is. Uma das medidas dos golpistas de 64 foi punir e expurgar os inimigos e estabelecer um pensamento \u00fanico nas For\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>A gest\u00e3o Bolsonaro \u00e9 marcada, desde o in\u00edcio, por abrigar militares em cargos diversos. Com essa situa\u00e7\u00e3o do general Pazuello, com o sr. avalia que deve ficar a rela\u00e7\u00e3o entre o comando da ativa e os militares que ainda est\u00e3o no governo?<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 h\u00e1 tens\u00e3o entre os generais do presidente e os generais da tropa, e ela dever\u00e1 aumentar. Pelas not\u00edcias divulgadas, sabe-se que os componentes do alto comando do Ex\u00e9rcito eram favor\u00e1veis a algum tipo de puni\u00e7\u00e3o. O comandante os teria convencido a n\u00e3o punir. Imagino que com isso tenha perdido autoridade.<\/p>\n<p><strong>Analistas diversos apontaram que o presidente pode estar tentando criar uma situa\u00e7\u00e3o de tens\u00e3o para explor\u00e1-la em uma tentativa de levante com vistas \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de 2022. O sr. cr\u00ea que isso seja poss\u00edvel ou vi\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>Acho dif\u00edcil. O perigo maior \u00e9 que ele consiga mobilizar as pol\u00edcias militares.<\/p>\n<p><strong>\u00a0O Brasil de 1964 era um pa\u00eds muito diferente do atual em termos econ\u00f4micos e nas rela\u00e7\u00f5es internacionais. Uma suposta &#8220;aventura militar&#8221; hoje teria consequ\u00eancias distintas?<\/strong><\/p>\n<p>Em 64, dominava a Guerra Fria. Os golpistas tiveram forte apoio dos Estados Unidos. Hoje, isso n\u00e3o seria poss\u00edvel. No m\u00e1ximo, haveria alguns sil\u00eancios. O pa\u00eds se tornaria ainda mais p\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, os militares t\u00eam repetido o discurso da profissionaliza\u00e7\u00e3o para se afastar de quest\u00f5es pol\u00edticas e recuperar o prest\u00edgio. Em qual grau isso fica comprometido ap\u00f3s o atual governo?<\/strong><\/p>\n<p>Profissionaliza\u00e7\u00e3o significa dedica\u00e7\u00e3o total \u00e0s tarefas militares. Ela avan\u00e7ou bastante nas \u00faltimas d\u00e9cadas na Marinha e na Aeron\u00e1utica. No Ex\u00e9rcito, avan\u00e7ou pouco e \u00e9 ele que tem, por causa de sua presen\u00e7a no territ\u00f3rio nacional, capacidade de controlar o pa\u00eds. O direito de exercer um papel pol\u00edtico est\u00e1 embutido nas convic\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito desde 1889.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tens\u00e3o, d\u00favidas e medo s\u00e3o as palavras escolhidas para caracterizar as rela\u00e7\u00f5es entre militares e o poder pol\u00edtico no Brasil recentemente por um dos maiores especialistas no assunto. 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