{"id":258760,"date":"2021-06-09T13:27:41","date_gmt":"2021-06-09T16:27:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=258760"},"modified":"2021-06-09T13:29:33","modified_gmt":"2021-06-09T16:29:33","slug":"patrulhamento-que-odeia-tambem-deixa-que-morram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/patrulhamento-que-odeia-tambem-deixa-que-morram\/","title":{"rendered":"Patrulhamento que odeia tamb\u00e9m deixa que morram"},"content":{"rendered":"<p>O tempo \u00e9 o melhor professor do mundo. Mesmo que voc\u00ea n\u00e3o fa\u00e7a boas perguntas, ele lhe dar\u00e1 as melhores respostas. Aprendi a mensurar o tempo &#8211; sem question\u00e1-lo &#8211; com meu velho e s\u00e1bio av\u00f4. Tamb\u00e9m foi ele quem adiantou que chegaria o dia em que eu teria vontade de virar a ampulheta de ponta cabe\u00e7a. Tive certeza disso quando fui apresentado aos geniais textos do m\u00e9dium Chico Xavier e descobri que &#8220;absolutamente nada \u00e9 definitivo, inclusive a vida&#8221;. Tardiamente compreendi a inutilidade do orgulho, a tolice das disputas, a estupidez da gan\u00e2ncia e a incoer\u00eancia das m\u00e1goas.<\/p>\n<p>Percebi que havia chegado o dia de a areia do tempo come\u00e7ar a mudar de lado quando fui obrigado por terceiros a denominar de afrodescendente um querido amigo que conheci negro na inf\u00e2ncia. Sorte minha que ele cresceu, ascendeu socialmente, virou um correto e honrado chefe de fam\u00edlia e, como ele sempre sonhou nos bate-papos de esquina ou \u00e0s mesas de botecos, morreu negro como as asas da gra\u00fana. Nunca o incomodou \u2013 nem \u00e0 fam\u00edlia &#8211; o adjetivo que, por vontade pr\u00f3pria, incorporou ao nome de batismo. Jorge Lu\u00eds Firmino da Silva ningu\u00e9m conhecia. Jorge Neg\u00e3o foi amado por todos, principalmente pelas tr\u00eas filhas claras e lindas que n\u00e3o produziu, mas criou como se fossem suas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da ideologia barata, ensinada pelos mestres de coisa nenhuma ou formatada durante encontros multivacionais ou em reuni\u00f5es de autoajuda, hoje tudo \u00e9 racismo, bullying, discrimina\u00e7\u00e3o, indireta. Choram pelo cachorro maltratado, mas desejam que o homem seja esquartejado. H\u00e1 sempre algu\u00e9m do nosso lado nos patrulhando, dizendo o que podemos ou n\u00e3o dizer, lembrando o que pode ser ofensivo ou politicamente incorreto. A vontade \u00e9 usar um voc\u00e1bulo menos distinto, mas serei politicamente correto. Dane-se. Assim como eu, os da minha gera\u00e7\u00e3o tiveram o que quiseram ou puderam, amaram tudo o que valia a pena ser amado e perderam apenas o que, no fundo, nunca foi nosso.<\/p>\n<p>O que temos certeza \u00e9 que nunca deixamos de tentar. Nem no per\u00edodo mais negro de nossa juventude \u2013 o da ditadura \u2013 \u00e9ramos t\u00e3o vigiados como agora. Nossa adjetiva\u00e7\u00e3o era simpl\u00f3ria, brincalhona e sem divis\u00f5es. Todos tinham suas prefer\u00eancias pol\u00edticas \u2013 se \u00e9 que tinham -, e n\u00e3o se incomodavam com as dos outros. Sem \u00f3dio &#8211; claro ou velado -, conviviam na mesma tribo gordos, magros, feios, bonitos, negros, louros, ricos, pobres, h\u00e9teros, entendidos \u2013 era assim que denomin\u00e1vamos os amigos e suas prefer\u00eancias sexuais \u2013 e desentendidos. Nunca fui chegado a apelidos jocosos. Por isso, abomino coxinhas, p\u00e3o com mortadela, bolsominions ou gado. Somos apenas seres humanos, dispostos em ra\u00e7as, cren\u00e7as, g\u00eaneros e classes variadas.<\/p>\n<p>Respeitosamente, eita povo chato da gota (mais uma vez o voc\u00e1bulo era outro). A maioria dos que inventaram uma nova forma de ser esqueceu que j\u00e1 usou neocid na cabe\u00e7a com um pano enrolado para matar piolho. Essa turma tamb\u00e9m n\u00e3o lembra que procurava o hospital p\u00fablico mais pr\u00f3ximo para tomar inje\u00e7\u00e3o de benzetacil quando o ranho escorria pelo nariz. Muitos daqueles que insistem em posar de bons samaritanos compravam e tomavam rem\u00e9dios sem receita m\u00e9dica. Nos sub\u00farbios ou mesmo nas cidades m\u00e9dias de anos anteriores, quantos de n\u00f3s nunca usou querosene para matar bicho-de-p\u00e9? Certamente poucos. E quando ench\u00edamos o quarto de flitz e, n\u00e3o satisfeitos, acend\u00edamos um &#8220;durma bem&#8221; da marca Sentinela para espantar mosquitos.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil esquecer que, por recomenda\u00e7\u00e3o da av\u00f3 ou da vizinha idosa \u2013 \u00e0s vezes nem tanto -, tom\u00e1vamos caf\u00e9 com duas gotas de creolina para matar os vermes. N\u00e3o sei se eles morriam, mas o desinfetante de instala\u00e7\u00f5es pecu\u00e1rias deve ter &#8220;limpado&#8221; muitos de n\u00f3s. \u00c9ramos visitantes quase di\u00e1rios das benzedeiras, as quais procur\u00e1vamos para curar cobreiros. Lembram que os bernes sa\u00edam ap\u00f3s uma certeira aplica\u00e7\u00e3o de fita crepe com toucinho de porco? Era um santo rem\u00e9dio. Talvez us\u00e1ssemos por falta de alternativas. Hoje temos numerosas op\u00e7\u00f5es comprovadamente eficazes, mas alguns de n\u00f3s \u2013 pode ser que n\u00e3o seja nenhum de n\u00f3s \u2013 insistem em n\u00e3o tomar a vacina contra a Covid-19, seja ela chinesa, russa, indiana, inglesa ou norte-americana, do D\u00f3ria, do Bolsonaro ou do raio que a parta.<\/p>\n<p>Se preciso, tomo novamente goles de creolina, gasolina e tuba\u00edna. Sou capaz at\u00e9 de chupar umas balinhas de naftalina. E quem quiser usar cloroquina ou hidroxicloroquina que use. Como dizia o humorista Mussum, o forever \u00e9 seu. Gente brava brasileira, chegou a hora de deixarmos de lado a hipocrisia e o fanatismo. Vamos pensar na vida. Depois de um ano e quatro meses sab\u00e1ticos \u2013 usado basicamente para exagerar no apetite e no uso do \u00e1lcool em gel \u2013 o pr\u00f3prio presidente da Rep\u00fablica mudou de ideia e, pelo menos publicamente, decidiu substituir a cloroquina por algo mais palat\u00e1vel e eficaz. Fernandistas, lulistas, dilmistas e bolsonaristas sem bandeiras agradecem e hoje s\u00e3o vistos na mesma fila de imuniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Podemos ser ideol\u00f3gicos, malucos, servi\u00e7ais, obedientes e ne\u00f3fitos no quesito negacionismo, mas n\u00e3o devemos ser bestas. Est\u00e1 provado que a vacina da disc\u00f3rdia salva vidas. Mesmo com idades acima do peso, ainda somos muito jovens para morrer. Chega de patrulhamento, chega de \u00f3dio. Patrulhar e odiar matam e, sem limites, deixam morrer. Somos um s\u00f3 povo. A imuniza\u00e7\u00e3o est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos grandes que a desprezam, dos eruditos que exigem provas de sua efici\u00eancia e dos pequenos e simples que a aceitam de olhos fechados. Quem a renegar, que morra em paz. Am\u00e9m!<\/p>\n<p><strong>*Mathuzal\u00e9m J\u00fanior \u00e9 jornalista profissional desde 1978<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tempo \u00e9 o melhor professor do mundo. Mesmo que voc\u00ea n\u00e3o fa\u00e7a boas perguntas, ele lhe dar\u00e1 as melhores respostas. Aprendi a mensurar o tempo &#8211; sem question\u00e1-lo &#8211; com meu velho e s\u00e1bio av\u00f4. 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