{"id":259050,"date":"2021-06-13T18:58:57","date_gmt":"2021-06-13T21:58:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=259050"},"modified":"2021-06-13T20:05:13","modified_gmt":"2021-06-13T23:05:13","slug":"cloroquina-da-maloca-e-a-ironia-do-destino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cloroquina-da-maloca-e-a-ironia-do-destino\/","title":{"rendered":"&#8216;Cloroquina da maloca&#8217; e a ironia do destino"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cSubmeti ao exame e \u00e0 praxe tudo o que do ampl\u00edssimo teatro da natureza observei ou recebi dos ind\u00edgenas\u201d. (Guilherme Piso, Hist\u00f3ria da Medicina Brasileira, 1648)<\/em><\/p>\n<p>Vamos supor que a CPI da Pandemia que ouve os vivos, especialmente os viv\u00edssimos, tenha o poder de convocar tamb\u00e9m os mortos, entre eles o m\u00e9dico Guilherme Piso, considerado o pai da medicina tropical. Advertido que poderia ter sua alma presa no inferno se mentisse, ele jurou dizer a verdade. Deram-lhe, como de praxe, 15 minutos para se apresentar:<\/p>\n<p>\u2013 Meu nome \u00e9 Willem Pies, em portugu\u00eas Guilherme Piso. Nasci em Leiden, Holanda, em 1611, e morri em Amsterd\u00e3 numa segunda-feira, 28 de novembro de 1678. Viajei em 1637 para Pernambuco como m\u00e9dico particular do pr\u00edncipe Maur\u00edcio de Nassau e ali vivi oito anos, com o sal\u00e1rio pago em florins pela Companhia Neerlandesa das \u00cdndias Ocidentais. Orientei a pol\u00edtica sanit\u00e1ria nos servi\u00e7os p\u00fablicos como coleta de lixo, drenagem de terrenos, constru\u00e7\u00e3o de jardins e pra\u00e7as, pavimenta\u00e7\u00e3o de ruas, constru\u00e7\u00e3o de pontes. Ajudei a sanear e a urbanizar Recife.<\/p>\n<p>Piso faz breve pausa para beber \u00e1gua (e para poupar o leitor de um par\u00e1grafo demasiado longo). Prossegue:<\/p>\n<p>\u2013 Retornei a Amsterdam, l\u00e1 me casei e passei a clinicar. Ocupei o cargo de inspetor do Col\u00e9gio M\u00e9dico, do qual fui de\u00e3o \u2013 a autoridade m\u00e1xima deste \u00f3rg\u00e3o colegiado. Sou autor da primeira Hist\u00f3ria da Medicina Brasileira (1648) e da Hist\u00f3ria Natural e M\u00e9dica da \u00cdndia Ocidental (1658) edi\u00e7\u00e3o impressa em latim. Descrevo l\u00e1 22 doen\u00e7as e as propriedades de 114 plantas Todo esse saber fitoter\u00e1pico aprendi com os \u00edndios, o uso de plantas adstringentes, afrodis\u00edacas, venenosas e at\u00e9 abortivas. Dito isto, coloco-me \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos senhores senadores.<\/p>\n<p><strong>Omar Aziz<\/strong> \u2013 Com a palavra o nobre relator.<\/p>\n<p><strong>Renan Calheiros<\/strong> \u2013 Sim ou n\u00e3o, o senhor teve experi\u00eancia na luta contra alguma epidemia?<\/p>\n<p><strong>Guilherme Piso<\/strong> \u2013 Sim.<\/p>\n<p><strong>Renan<\/strong> \u2013 Qual?<\/p>\n<p><strong>Piso<\/strong> \u2013 A epidemia de var\u00edola, conhecida popularmente como \u201cbexiga\u201d, matou em 1641 muitos escravos dos engenhos e milhares de \u00edndios, cujos corpos ficavam cheios de manchas vermelhas, p\u00fastulas e bolhas com pus que atingiam as mucosas nasal e da boca. Era como se estivessem atacados por uma lepra mortal, que deformava o corpo inteiro. Quem escapava da morte podia ficar cego e com a cara esburacada.<\/p>\n<p><strong>Renan<\/strong> \u2013 O senhor fez tratamento precoce? Usou cloroquina? Salvou algum paciente?<\/p>\n<p><strong>GP<\/strong> \u2013 A var\u00edola n\u00e3o tinha cura, senador. Os rem\u00e9dios n\u00e3o matavam o v\u00edrus, mas aliviavam os sintomas parecidos com os da gripe \u2013 febre, dor de cabe\u00e7a, dor muscular, mal-estar. O cont\u00e1gio se dava atrav\u00e9s de secre\u00e7\u00f5es e da saliva. A gente isolava os doentes. Foi o que fiz com Margarida, filha do pastor Soler, que se salvou e que era, por sinal, muito gostosinha. N\u00e3o gosto de fofoca, mas preciso dizer que ela era amante do Pr\u00edncipe Nassau e, quando ficou com a cara de areia mijada, cicatrizes e olhos chor\u00f5es, foi por ele abandonada. S\u00f3 um s\u00e9culo ap\u00f3s minha morte \u00e9 que descobriram a vacina.<\/p>\n<p><strong>Omar<\/strong> \u2013 Quero foto da \u201cgostosinha\u201d para anexar ao relat\u00f3rio. Depois falo com o senhor em particular. Agora passo a palavra ao senador Oto Alencar.<\/p>\n<p><strong>Oto Alencar<\/strong> \u2013 Sou tamb\u00e9m m\u00e9dico e j\u00e1 vi que, ao contr\u00e1rio do general Pazuello e da doutora Nise, o senhor sabe a diferen\u00e7a entre o v\u00edrus e o protozo\u00e1rio. Gostaria que comentasse o deboche de Jair Bolsonaro, quando em vez da vacina recomendou contra a covid-19 o \u201cch\u00e1 de carapana\u00faba, saracura ou jambu dos \u00edndios Balaios\u201d, um povo que nem sequer existe.<\/p>\n<p><strong>Piso<\/strong> \u2013 Senador, minha resposta est\u00e1 no meu livro editado em 1957 pelo MEC. Permita-me ler um trecho curto do que escrevi:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cDe fato, creio ser n\u00e3o s\u00f3 indigno, mas detest\u00e1vel, num assunto t\u00e3o s\u00e9rio de que depende a salva\u00e7\u00e3o de tantos homens, ensinar coisas n\u00e3o acordes com os experimentos, expondo assim a perigo a vida dos doentes\u201d (pg.8).<\/p>\n<p><strong>Oto<\/strong> \u2013 N\u00e3o podia ser mais atual. A cloroquina, muito boa no combate \u00e0 mal\u00e1ria, \u00e9 ineficaz para a covid. O ch\u00e1 seria, ent\u00e3o, uma esp\u00e9cie de \u201ccloroquina da maloca\u201d? Existe mesmo medicina ind\u00edgena?<\/p>\n<p><strong>Piso<\/strong> \u2013 \u201cCada qual, sobretudo os velhos, preparam sem dificuldades rem\u00e9dios de diversos g\u00eaneros obtidos por toda parte nas florestas. Usam rem\u00e9dios simples e se riem dos nossos. Nisso merecem v\u00eania. [\u2026]. Todos os \u00edncolas das \u00cdndias exercem a medicina e pesquisam o conhecimento das doen\u00e7as e tendo ambas as \u00cdndias mais providas de medicamento do que de m\u00e9dicos te\u00f3ricos, ningu\u00e9m se admire de que at\u00e9 agora n\u00e3o estejam divulgadas as propriedades de muit\u00edssimos rem\u00e9dios de not\u00e1veis virtudes, ocultos em seu seio e dignos de sair \u00e0 lume. [\u2026] S\u00e3o util\u00edssimos e podem at\u00e9 impressionar os m\u00e9dicos mais eruditos [pg.74]<\/p>\n<p><strong>Humberto Costa<\/strong> \u2013 Sou m\u00e9dico p\u00f3s-graduado em medicina geral comunit\u00e1ria e n\u00e3o sabia. Na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco nunca me falaram disso. Gostaria de ouvi-lo sobre como os paj\u00e9s curaram soldados com pernas gangrenadas, depois do ataque da armada luso-espanhola aos holandeses, em 1640.<\/p>\n<p><strong>Piso<\/strong> \u2013 Senador, responderei com outro trecho do meu livro:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cLembro-me que os b\u00e1rbaros, nos acampamentos, por meio de gomas frescas, sucos e b\u00e1lsamos, livraram do ferro e do fogo e restabeleceram com \u00eaxito os membros dos soldados feridos por balas de espingardas, que estavam para ser amputados por cirurgi\u00f5es europeus, lusitanos e batavos\u2026 Na prepara\u00e7\u00e3o, prescindem de laborat\u00f3rios e, ademais, sempre tem \u00e0 m\u00e3o sucos verdes e frescos de ervas\u2026 (pg. 9).<\/p>\n<p><strong>Humberto Costa<\/strong> \u2013 Embora trate os \u00edndios de \u201cpovos ignorantes, b\u00e1rbaros, atrasados e de nenhumas letras\u201d, o senhor se maravilhou ao descobrir como os paj\u00e9s ind\u00edgenas impediram que soldados com pernas gangrenadas virassem saci como receitava a medicina oficial europeia da \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>Omar<\/strong> \u2013 Isso acontece ainda hoje. Quando eu era governador do Amazonas, uma menina de 12 anos, LB, foi picada por uma cobra jararaca em Pari Cachoeira. Os m\u00e9dicos do Hospital Jo\u00e3o L\u00facio, que queriam amputar o p\u00e9 esquerdo dela, n\u00e3o permitiram a pajelan\u00e7a, ela foi ent\u00e3o transferida para o Hospital Universit\u00e1rio Get\u00falio Vargas, onde foi tratada por paj\u00e9s e por um cirurgi\u00e3o e de l\u00e1 saiu caminhando normalmente. Ocorreu caso semelhante com Fernando Jos\u00e9 Baniwa, 62 anos. M\u00e9dicos queriam decepar a perna dele, a fam\u00edlia resistiu, levou-o de volta \u00e0 comunidade e l\u00e1 n\u00e3o deixaram que virasse saci.<\/p>\n<p><strong>Marcos Rog\u00e9rio<\/strong> \u2013 Protesto. Indubitavelmente essa \u00e9 uma narrativa po-li-ti-ca para desmoralizar a narrativa robusta do presidente Bolsonaro, mas n\u00f3s temos outra narrativa t\u00e9cnica robusta sobre a \u201ccloroquina da maloca\u201d que se contrap\u00f5e \u00e0 narrativa do depoente. N\u00e3o perderemos essa guerra de narrativas.<\/p>\n<p><strong>Piso<\/strong> \u2013 Senador, nunca ouvi falar o nome de Bolsonaro, no entanto, a estrat\u00e9gia dele aqui exposta parece demonstrar um discurso que j\u00e1 era obscurantista no s\u00e9c. XVI, produto de mentes colonizadas. Suas opini\u00f5es retr\u00f3gradas me fazem pensar que ele viveu em s\u00e9culos anteriores e desapareceu h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p><strong>Randolfe Rodrigues<\/strong> \u2013 Segundo as atas dessa CPI, o senador bolsonarista Marcos Rog\u00e9rio j\u00e1 usou 16.853 vezes a palavra \u201cnarrativa\u201d, que ele descobriu recentemente, por ela se deslumbrou e por ela morre de paix\u00e3o, assim como pela palavra \u201crobusta\u201d. Suplico que se contenha. Que seja argumentativo em lugar de narrativo. Doravante, ele ser\u00e1 multado em R$ 50,00 reais cada vez que \u201cnarrativizar\u201d e \u201crobustizar\u201d, destinando-se a multa ao pagamento da d\u00edvida externa brasileira. O troco ser\u00e1 aplicado em obras sociais. (Randolfe, que substituiu Omar na presid\u00eancia, faz uma pausa e bebe \u00e1gua. Prossegue)<\/p>\n<p>\u2013 Na qualidade de historiador formado pela Universidade Federal do Amap\u00e1, reconhe\u00e7o a import\u00e2ncia do depoimento do m\u00e9dico Guilherme Piso, cujo livro foi lembrado na segunda-feira (7) no evento Ra\u00edzes-RJ \u2013 I Encontro de Saberes Populares e Tradicionais em Sa\u00fade, organizado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, com a participa\u00e7\u00e3o de C\u00e9lia Xacriab\u00e1 (APIB) Cleonice Pankararu (Aldeia Cinta Vermelha) e do autor do Taquiprati. Declaro a sess\u00e3o suspensa.<\/p>\n<p><strong>P.S.<\/strong> 1 A abertura do evento Ra\u00edzes, que contou com a fala do s\u00e1bio Carlos Tukano, foi feita por Jos\u00e9 Jorge de Carvalho (UnB): \u201cEncontro de Saberes. Uma alian\u00e7a entre a Academia, o SUS e os Mestres e Mestras dos Saberes\u201d. No encerramento, Ant\u00f4nio Bispo dos Santos discorreu sobre \u201cColoniza\u00e7\u00e3o e a Resist\u00eancia dos Saberes Tradicionais\u201d.<\/p>\n<p><strong>P.S<\/strong>. 2 \u2013 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n<p>a) Guilherme Piso. Hist\u00f3ria Natural e M\u00e9dica da Indias Ocidentais (escrito em 1648). Cole\u00e7\u00e3o de Obras Raras. Rio. MEC \u2013 Instituto Nacional do Livro. 1957 (Traduzida e anotada por M\u00e1rio L\u00f4bo Leal, com esbo\u00e7o cr\u00edtico do historiador Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues.<\/p>\n<p>b) CHAMBOULEYRON, Rafael; BARBOSA, Benedito C.; BOMBARDI, Fernanda A.; SOUSA, Claudia R. de. \u2018Formid\u00e1vel cont\u00e1gio\u2019: epidemias, trabalho e recrutamento na Amaz\u00f4nia Colonial (1660-1750). Hist\u00f3ria, Ci\u00eancias, Sa\u00fade \u2013 Manguinhos, v. 18, n. 4, p. 987-1004.<\/p>\n<p><strong>P.S<\/strong>. 3 \u2013 O livro de Piso est\u00e1 esgotad\u00edssimo, tinha algu\u00e9m vendendo na internet por R$ 650,00. Sugiro \u00e0 Editora Valer, de Manaus, que o publique (est\u00e1 isentado de direitos autorais) e chame para fazer o pref\u00e1cio (a\u00ed sim, pagando) o tukano Jo\u00e3o Paulo Barreto, cofundador do Centro de Medicina Ind\u00edgena da Amaz\u00f4nia e doutor em antropologia.<\/p>\n<p><strong>P.S.<\/strong> 4 \u2013 A gente sente vergonha do Brasil quando ouve na CPI as falas oportunistas, med\u00edocres e mentirosas de Eduardo Gir\u00e3o (Phodemos-CE), Jorginho Melo (PL-SC), Luiz Carlos Heinze (PP-RS) e Marcos Rog\u00e9rio (DEM-RO). Nesta sexta (11) sentimos orgulho de ser brasileiro com a aula dada por Nat\u00e1lia Pasternak e Cl\u00e1udio Maierovitch, acusados de buscarem a fama. \u201cNat\u00e1lia, com fama ou sem fama, n\u00f3s te ama\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSubmeti ao exame e \u00e0 praxe tudo o que do ampl\u00edssimo teatro da natureza observei ou recebi dos ind\u00edgenas\u201d. 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