{"id":259194,"date":"2021-06-15T14:56:54","date_gmt":"2021-06-15T17:56:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=259194"},"modified":"2021-06-15T14:56:46","modified_gmt":"2021-06-15T17:56:46","slug":"vaiado-a-bordo-mito-faz-pouco-caso-da-plateia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/vaiado-a-bordo-mito-faz-pouco-caso-da-plateia\/","title":{"rendered":"Vaiado a bordo, mito faz pouco caso da plateia"},"content":{"rendered":"<p>Na can\u00e7\u00e3o Nos bailes da Vida, o compositor e int\u00e9rprete Milton Nascimento sugere que o artista tem de ir aonde o povo est\u00e1. A sugest\u00e3o \u00e9 bastante cristalina quanto ao segmento. Sem medo de errar, no rol dos artistas est\u00e3o inclu\u00eddos cantores, atores, atrizes, pintores, escultores, circenses, m\u00fasicos e, com algumas exce\u00e7\u00f5es, jogadores de futebol, de v\u00f4lei ou basquete. A exce\u00e7\u00e3o aos atletas \u00e9 l\u00f3gica, porque, na maioria das vezes, \u00e9 o povo quem vai aonde eles est\u00e3o. A pandemia virou o mundo de ponta cabe\u00e7a. Buscar o p\u00fablico \u00e9 natural para uma apresenta\u00e7\u00e3o, um musical, uma cena e at\u00e9 uma jogada. Nesse caso, a licen\u00e7a po\u00e9tica pode ser usada no texto, no espet\u00e1culo, no concerto e no drible. Tudo \u00e9 permitido, inclusive em locais impr\u00f3prios, como o interior de uma aeronave. Desde que haja disposi\u00e7\u00e3o e permiss\u00e3o da plateia, o artista pode armar o palco e dar seu showzinho.<\/p>\n<p>O temor para um ambiente fechado \u00e9 o respeit\u00e1vel p\u00fablico ser surpreendido por um humorista desbocado ou desprovido de texto. Sem ter o que e como dizer, esse prov\u00e1vel g\u00eanio do besteirol corre o risco do pior dos cen\u00e1rios para um obreiro da arte: a vaia. Pior ainda \u00e9 um pol\u00edtico, governante, ministro de Estado, magistrado ou candidato a ditador adentrar a cabine de um avi\u00e3o de carreira lotado para uma autopesquisa (an\u00e1lise de tra\u00e7os pessoais, qualidades e estruturas de sua pr\u00f3pria personalidade). Em se tratando do Brasil de 2020 e 2021, tudo \u00e9 poss\u00edvel, mas tentar auferir popularidade dentro de uma aeronave nem sempre \u00e9 alvissareiro. Pelo contr\u00e1rio. Comumente \u00e9 contraproducente, na medida em que a \u00fanica coisa que a maioria dos passageiros n\u00e3o quer \u00e9 dar voz ao perfil narcisista de ningu\u00e9m, mesmo que esse ningu\u00e9m seja um pretenso artista pr\u00f3ximo de assumir uma carreira solo.<\/p>\n<p>Ainda que tenha algum protagonismo, a esse tipo de artista cabe liderar ou governar e deixar para o povo as avalia\u00e7\u00f5es. Com ou sem permiss\u00e3o oficial, invadir a cabine de um jato como se o &#8220;aparelho&#8221; fosse seu \u00e9, no m\u00ednimo, preocupante. O figurante tem o direito de se apresentar. Entretanto, ao faz\u00ea-lo tende a ser humildade para as eventuais consequ\u00eancias. Faz parte do jogo tentar, se dar mal, sofrer um rev\u00e9s inimagin\u00e1vel e ouvir o que n\u00e3o quer. Para imagens j\u00e1 desgastadas pelo tempo, terr\u00edvel \u00e9 perder a esportiva, o restinho da educa\u00e7\u00e3o que finge ter e vociferar o que ningu\u00e9m gostaria de ouvir, nem mesmo os eventuais seguidores a bordo, que certamente resmungaram quando ouviram a sugest\u00e3o de trocar o Boeing ou a Airbus por um jegue. Ou seja, o que estava ruim ficou p\u00e9ssimo.<\/p>\n<p>Como li\u00e7\u00e3o, podemos afirmar que um astro ser vaiado dentro de um meio de transporte elitista \u00e9 ruim. Para um mito, que se acha acima do bem e do mal \u00e9 um inferno. Imagina ocorrer isso no Rio de Janeiro, dentro de um trem da Central do Brasil, no metr\u00f4 em S\u00e3o Paulo ou no BRT de Bras\u00edlia. Fica a dica. Em s\u00edntese, a glorifica\u00e7\u00e3o faz bem \u00e0queles glorificados pela arte ou pelo voto, consequentemente pelo pov\u00e3o. Aos desequilibrados e aprendizes de feiticeiro restam a lei, a desconfian\u00e7a, a impaci\u00eancia, a derrota e, por fim, o ostracismo. Somos um pa\u00eds golpeado pela pandemia. Por isso, antes de se mostrar aos passageiros de um avi\u00e3o, melhor que o mandat\u00e1rio tivesse tentado salvar pelo menos parte das quase 500 mil vidas perdidas para a Covid-19. Nem a bordo perdeu a pose e preferiu perder tempo negando a doen\u00e7a e fazendo pouco caso da morte.<\/p>\n<p>Pior foram e s\u00e3o as &#8220;viagens&#8221; pelas redes sociais. Nelas, a regra das contas da matem\u00e1tica fica limitada \u00e0 soma e multiplica\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros favor\u00e1veis. Os demais s\u00e3o escancaradamente escanteados. Um ano e tr\u00eas meses ap\u00f3s o brasileiro ser abatido pelo sil\u00eancio de um v\u00edrus mortal, os estat\u00edsticos &#8220;oficiais&#8221; teimam em divulgar prioritariamente os dados relativos \u00e0s pessoas que, n\u00e3o importa como, conseguiram sair do outro lado. Claro que s\u00e3o dados significativos, mas n\u00e3o devemos olvidar que, se tiv\u00e9ssemos agido a tempo, a contabilidade nacional estaria bem longe do meio milh\u00e3o de \u00f3bitos. Se a necessidade \u00e9 falar em volume, a conta do descaso \u00e9 ainda mais relevante. A gigante \u00cdndia, com regi\u00f5es mais pobres do que as nossas e uma popula\u00e7\u00e3o sete vezes maior do que a do Brasil, registra at\u00e9 agora cerca de 110 mil mortes a menos. Compet\u00eancia ou lucidez?<\/p>\n<p><strong>*Mathuzal\u00e9m J\u00fanior \u00e9 jornalista profissional desde 1978<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na can\u00e7\u00e3o Nos bailes da Vida, o compositor e int\u00e9rprete Milton Nascimento sugere que o artista tem de ir aonde o povo est\u00e1. A sugest\u00e3o \u00e9 bastante cristalina quanto ao segmento. Sem medo de errar, no rol dos artistas est\u00e3o inclu\u00eddos cantores, atores, atrizes, pintores, escultores, circenses, m\u00fasicos e, com algumas exce\u00e7\u00f5es, jogadores de futebol, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":259195,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-259194","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259194","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=259194"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259194\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":259196,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259194\/revisions\/259196"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/259195"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=259194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=259194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=259194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}