{"id":259527,"date":"2021-06-20T06:28:01","date_gmt":"2021-06-20T09:28:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=259527"},"modified":"2021-06-20T10:51:12","modified_gmt":"2021-06-20T13:51:12","slug":"como-e-viver-em-uma-terra-sem-florestas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/como-e-viver-em-uma-terra-sem-florestas\/","title":{"rendered":"Como \u00e9 viver em uma terra sem florestas"},"content":{"rendered":"<p>Dois naturalistas ingleses \u2013 Alfred Russell Wallace (1823-1913) e Henry Walter Bates (1825-1892) \u2013 percorreram e estudaram a Amaz\u00f4nia e mantiveram um di\u00e1logo com os ind\u00edgenas, ribeirinhos e afrodescendentes, sem os quais n\u00e3o teriam podido coletar e classificar mais de 8.000 esp\u00e9cies da floresta amaz\u00f4nica. O primeiro passou quatro e o segundo onze anos na regi\u00e3o. Os dois chegaram em 1848 e encontraram o Par\u00e1 dilacerado pela guerra da Cabanagem e pela epidemia da var\u00edola.<\/p>\n<p>Wallace sacou, desde cedo, o impacto da atividade humana sobre o meio ambiente. Ele descobriu, por conta pr\u00f3pria, o princ\u00edpio da luta pela vida e pela sobreviv\u00eancia, apresentando ao mundo cient\u00edfico, em coautoria com Darwin, uma s\u00famula do que ambos pensavam acerca da sele\u00e7\u00e3o natural. Darwin nascido em ber\u00e7o de ouro viveu sempre de rendas. J\u00e1 Wallace, um pobret\u00e3o, ralou duro a vida inteira.<\/p>\n<p>Dotados de s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, com extraordin\u00e1ria capacidade de observa\u00e7\u00e3o e disciplina rigorosa de trabalho, Wallace e Bates haviam assimilado o conhecimento europeu mais avan\u00e7ado na \u00e9poca. Essa era a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, mas n\u00e3o suficiente, para revelar os mist\u00e9rios da Amaz\u00f4nia. Era preciso, al\u00e9m disso, sabedoria e humildade para aprender com os s\u00e1bios da regi\u00e3o, autores das cartilhas da floresta, que continham os saberes milenares produzidos pelos \u00edndios. Desta forma, estudaram a flora e a fauna e produziram conhecimentos etnogr\u00e1ficos e hist\u00f3ricos publicados em v\u00e1rios livros.<\/p>\n<p><strong>A cartilha da floresta<\/strong><br \/>\nO negro Isidoro e o ind\u00edgena Alexandre foram os professores que transmitiram aos dois cientistas ingleses aquilo que sabiam. Bates reconhece isso em \u201cUm naturalista no rio Amazonas\u201d:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cNosso auxiliar mais valioso era Alexandre, um jovem tapuia, inteligente e af\u00e1vel, perito em navega\u00e7\u00e3o e incans\u00e1vel ca\u00e7ador. \u00c0 sua dedica\u00e7\u00e3o devemos o fato de terem sido levados avante todos os objetivos de nossa viagem\u201d.<\/p>\n<p>Cognominado de \u201cCapit\u00e3o\u201d, o \u00edndio Alexandre ensinou aos dois cientistas as classifica\u00e7\u00f5es nativas de bichos e plantas e introduziu-os na taxonomia e na ci\u00eancia da floresta, com observa\u00e7\u00f5es valiosas sobre o comportamento das plantas e dos animais. Foi ele o respons\u00e1vel por grande parte da cole\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica e zool\u00f3gica enviada para Londres, com p\u00e1ssaros, veados, macacos, insetos e borboletas.<\/p>\n<p>Nos rios Negro e Uaup\u00e9s, Wallace teve a oportunidade de continuar a aprendizagem com outros \u00edndios, com quem aprendeu sobre os peixes, 212 deles descritos e ilustrados no livro \u201cFishes of the Rio Negro\u201d, al\u00e9m da descri\u00e7\u00e3o das aves. Ao retirar as penas de uma arara vermelha, descobriu que ela n\u00e3o tinha as cores que a natureza lhe havia dado, \u201cpois esses \u00edndios dominam a arte de alterar a colora\u00e7\u00e3o das penas dos p\u00e1ssaros\u201d.<\/p>\n<p>No segundo cap\u00edtulo da \u201cViagens pelos rios Amazonas e Negro\u201d, Wallace nos apresenta o outro professor de origem africana, que falava com as \u00e1rvores:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cIsidoro, o velho guia que atualmente se dedicava aos servi\u00e7os dom\u00e9sticos, trabalhando como cozinheiro e pau para toda obra, labutara outrora na floresta, estando a par n\u00e3o s\u00f3 dos nomes de todas as \u00e1rvores, como tamb\u00e9m de suas propriedades e empregos\u201d.<\/p>\n<p><strong>A leitura da natureza<\/strong><br \/>\nSegundo Wallace, Isidoro n\u00e3o tinha muita paci\u00eancia com a ignor\u00e2ncia dos dois cientistas:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cEra um homem de comportamento quase taciturno, salvo quando se irritava com a nossa incr\u00edvel incapacidade de compreender suas explica\u00e7\u00f5es. A\u00ed ele passava a gesticular com veem\u00eancia. Gostava de exibir seus conhecimentos sobre esses assuntos acerca dos quais ainda nos encontr\u00e1vamos no est\u00e1gio da mais completa ignor\u00e2ncia, mas cuja aprendizagem quer\u00edamos efetivamente alcan\u00e7ar\u201d.<\/p>\n<p>Wallace d\u00e1 mais detalhes sobre a pedagogia do professor Isidoro:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cSeu m\u00e9todo de ensino constava de uma s\u00e9rie de r\u00e1pidas observa\u00e7\u00f5es sobre as \u00e1rvores \u00e0 medida que \u00edamos passando por elas. Ele dava a impress\u00e3o de estar falando antes com as \u00e1rvores do que propriamente conosco, exceto quando solicit\u00e1vamos algum esclarecimento adicional\u201d.<\/p>\n<p>A sala de aula era a pr\u00f3pria floresta. Nas longas caminhadas, Isidoro, o descendente africano que aprendera com os \u00edndios a ler a natureza amaz\u00f4nica, ia explicando tudo direitinho.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cEsta \u2013 dizia \u2013 \u00e9 a ucuuba, rem\u00e9dio muito bom. Serve para dor de garganta\u201d.<\/p>\n<p>Para que os gringos aprendessem melhor, Isidoro usava seu pr\u00f3prio corpo como material did\u00e1tico e, \u201ccomo ilustra\u00e7\u00e3o, fingia fazer gargarejos, enquanto apontava para a seiva aquosa que escorria do tronco ferido\u201d.<\/p>\n<p>Wallace descreve uma dessas aulas, onde Isidoro aponta para a cupi\u00faba e explica ser madeira boa para fazer casa e assoalhos. Outras, para fazer remo e outras ainda, para fazer carv\u00e3o.<\/p>\n<p>O Isidoro sozinho era uma escola de tempo integral, se responsabilizava pela merenda escolar, cozinhando saborosos pratos regionais. No final de uma de suas aulas, derrubou uma palmeira de a\u00e7a\u00ed para extrair palmito, preparando-o para os seus dois alunos famintos.<\/p>\n<p>\u2013 Trata-se de um alimento saboroso, de paladar levemente adocicado\u201d \u2013 comenta Wallace.<\/p>\n<p><strong>O livro das \u00e1rvores<\/strong><br \/>\nPara completar, a escola de Isidoro oferecia ainda assist\u00eancia m\u00e9dica. Quando Wallace apareceu mancando com uma coceira braba, gerada por um pontinho preto do tamanho de uma ervilha encravado em seu dedo, Isidoro logo diagnosticou:<\/p>\n<p>\u2013 \u201c\u00c9 bicho-de-p\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Wallace quis extrai-lo com uma agulha, mas n\u00e3o conseguiu. Uma vez mais seu professor lhe foi \u00fatil, ensinando-o a esfregar um pouco de rap\u00e9 no local, o que ele fez, ficando inteiramente curado.<\/p>\n<p>Diante dos saberes tradicionais transmitidos oralmente, Wallace concluiu que \u201cos \u00edndios do vale amaz\u00f4nico parecem superiores, tanto f\u00edsica como intelectualmente\u201d, concordando assim com um viajante que o antecedera, o pr\u00edncipe Adalberto da Pr\u00fassia.<\/p>\n<p>Entre tantas outras hist\u00f3rias, o naturalista ingl\u00eas descreve um di\u00e1logo no meio da floresta. Depois de jantar um porco do mato, Wallace estava arrodeado por \u201ctreze \u00edndios nus que tagarelavam numa l\u00edngua desconhecida. Apenas dois deles sabiam falar o portugu\u00eas\u201d e fizeram perguntas sobre a Inglaterra:<\/p>\n<p>\u2013 Fiquei conversando com eles, respondendo as mais diversas perguntas: \u201cDe onde vinha o ferro? Como se fazia a chita? No meu pa\u00eds nascia a planta que dava papel? Havia l\u00e1 muitas mandiocas e bananas?\u201d Eles ficaram espantad\u00edssimos quando lhes contei que l\u00e1 s\u00f3 havia homens brancos. \u2013 Ent\u00e3o, quem \u00e9 que trabalha? \u2013 perguntaram. Outra coisa que n\u00e3o podiam compreender era como seria poss\u00edvel viver numa terra sem floresta\u201d.<\/p>\n<p><strong>Rua Aldevan Baniwa<\/strong><br \/>\nAlexandre, Isidoro, Wallace e Bates constru\u00edram uma articula\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico com o saber tradicional \u2013 a sabedoria profunda a n\u00f3s legada, que dignifica a ra\u00e7a humana. Eles sobreviveram a uma epidemia de var\u00edola \u2013 a \u201cpeste branca\u201d trazida nos navios portugueses \u2013 que se alastrou pela Amaz\u00f4nia, numa \u00e9poca em que os estudos imunol\u00f3gicos n\u00e3o estavam t\u00e3o avan\u00e7ados. \u00c9 verdade que a vacina antivari\u00f3lica j\u00e1 havia chegado ao Brasil em 1804, mas a Junta Vac\u00ednica da Corte, criada por d. Jo\u00e3o VI no Rio, tinha o bra\u00e7o curto e atua\u00e7\u00e3o inexpressiva. De volta a Londres, anos depois, Wallace escreveu:<\/p>\n<p>\u2013 A vacina \u00e9 um engano: sua imposi\u00e7\u00e3o, um crime.<\/p>\n<p>Ele se tornou um militante contra a obrigatoriedade da vacina no Reino Unido. A Comiss\u00e3o Real de especialistas que o inquiriu concluiu ter Wallace acreditado em estat\u00edsticas consideradas fraudulentas pela The Lancet \u2013 uma revista cient\u00edfica criada em 1823 para abordar quest\u00f5es de sa\u00fade coletiva e que na atualidade continua sendo publicada. Era como se um cientista aceitasse hoje como verdadeiro o levantamento do funcion\u00e1rio bolsonarista do TCU sobre as v\u00edtimas do coronavirus.<\/p>\n<p>Sobre a var\u00edola no Amazonas, Wallace narra seu encontro no rio Negro com Frei Jos\u00e9 dos Inocentes, que havia sugerido \u00e0s autoridades \u201cum m\u00e9todo pr\u00e1tico e barato de exterminar os \u00edndios: colocar as roupas contaminadas nos locais que os \u00edndios frequentam\u201d [\u2026], isto foi feito, segundo o frei, que celebrou: \u201cQuatro ou cinco tribos foram totalmente dizimadas\u201d.<\/p>\n<p>Diante de tal relato, Wallace comenta:<\/p>\n<p>\u2013 Foi com dificuldade que contive um estremecimento ao ouvir a narrativa daquele massacre a sangue-frio, contada de maneira t\u00e3o tranquila e indiferente\u201d (p.204).<\/p>\n<p>Frei Jos\u00e9, reverenciado com nome de rua no centro de Manaus, um dia ter\u00e1 seu nome trocado para rua Escritor Aldevan Baniwa, como aconteceu em Niter\u00f3i com a Coronel Moreira C\u00e9sar, que agora \u00e9 Ator Paulo Gustavo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois naturalistas ingleses \u2013 Alfred Russell Wallace (1823-1913) e Henry Walter Bates (1825-1892) \u2013 percorreram e estudaram a Amaz\u00f4nia e mantiveram um di\u00e1logo com os ind\u00edgenas, ribeirinhos e afrodescendentes, sem os quais n\u00e3o teriam podido coletar e classificar mais de 8.000 esp\u00e9cies da floresta amaz\u00f4nica. 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