{"id":259564,"date":"2021-06-20T14:22:18","date_gmt":"2021-06-20T17:22:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=259564"},"modified":"2021-06-21T08:51:12","modified_gmt":"2021-06-21T11:51:12","slug":"259564-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/259564-2\/","title":{"rendered":"Refugiado quer vencer com sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Juntos, n\u00f3s curamos, aprendemos e brilhamos. O lema desta edi\u00e7\u00e3o do Dia Mundial do Refugiado, celebrado neste domingo (20), real\u00e7a a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade e o lazer como importantes instrumentos de integra\u00e7\u00e3o. Neste ano, a data busca chamar aten\u00e7\u00e3o para uma s\u00e9rie de problemas enfrentados por aquelas pessoas que, por algum motivo, foram for\u00e7adas a mudar de pa\u00eds: dificuldades para encontrar um m\u00e9dico, para colocar seus filhos na escola, para desfrutarem momentos de distra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Dia Mundial do Refugiado foi designado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) para homenagear os refugiados em todo o mundo e estimular a mobiliza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica para a garantia de seus direitos. \u00c9 tamb\u00e9m uma ocasi\u00e3o para promover a empatia e a compreens\u00e3o com essa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Brasil, foi organizada uma programa\u00e7\u00e3o que inclui oficinas, exposi\u00e7\u00f5es, saraus, semin\u00e1rios, entre outros. S\u00e3o atividades virtuais e presenciais que ir\u00e3o dar visibilidade para diversas hist\u00f3rias como as de Fiorella Ramos, Marifer Vargas e Lexandra Arrieta, venezuelanas de diferentes faixas et\u00e1rias. A reposta humanit\u00e1ria brasileira \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de refugiados \u00e9 uma refer\u00eancia internacional positiva para o Alto-Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados (Acnur), ag\u00eancia vinculada \u00e0 ONU.<\/p>\n<p>Nascida no munic\u00edpio de Antonio D\u00edaz, no norte da Venezuela, a ind\u00edgena warao Fiorella Ramos fez da promo\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade seu projeto de vida. Ela obteve apoio para se formar m\u00e9dica na Universidade de Havana, em Cuba, e mais tarde, ap\u00f3s voltar ao seu pa\u00eds, ampliou sua forma\u00e7\u00e3o em um internato no Hospital Universit\u00e1rio Ruiz y P\u00e1ez, na cidade de Bol\u00edvar.<\/p>\n<p>Sua vida come\u00e7ou a mudar tempos ap\u00f3s ela ter assumido um cargo de diretora em um hospital p\u00fablico na cidade de Guasipati, a cerca de 450 quil\u00f4metros da fronteira entre Venezuela e Brasil. Ali, teve desaven\u00e7as com autoridades governamentais envolvendo pol\u00edticas p\u00fablicas para acesso a medicamentos. Retirada da fun\u00e7\u00e3o, chegou a trabalhar na iniciativa privada, mas a deterioriza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas a fez decidir deixar seu pa\u00eds em 2019: atravessou a fronteira e chegou a Pacaraima (RR), indo em seguida para Boa Vista.<\/p>\n<p>Foram 17 dias dormindo na rua e se alimentando gra\u00e7as \u00e0 ajuda de um irm\u00e3o que tamb\u00e9m abandonou a Venezuela e j\u00e1 se encontrava em um abrigo na capital de Roraima. Fiorella foi uma das principais lideran\u00e7as da ocupa\u00e7\u00e3o Ka\u2019Ubanoko, ajudando na conquista de v\u00e1rios benef\u00edcios para migrantes em situa\u00e7\u00e3o de rua. O movimento se iniciou com cerca de 150 venezuelanos, ind\u00edgenas em maioria. Com o apoio de organiza\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas e humanit\u00e1rias, o grupo obteve acesso a alimenta\u00e7\u00e3o e a servi\u00e7os b\u00e1sicos. No ano passado, Fiorella se mudou para um abrigo em Boa Vista e foi contratada como monitora de sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;Atuo no aux\u00edlio \u00e0 parte prim\u00e1ria do atendimento. Sou m\u00e9dica, mas ainda n\u00e3o posso exercer no Brasil porque preciso primeiro revalidar meu diploma&#8221;, explica. Para Fiorella, a sa\u00fade \u00e9 fundamental no acolhimento aos refugiados ind\u00edgenas e fator de integra\u00e7\u00e3o, por\u00e9m exige que os profissionais atuem respeitando diferen\u00e7as culturais.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 muitas doen\u00e7as que se podem erradicar, que se podem controlar. Mas muitos ind\u00edgenas n\u00e3o entendem porque precisam ir a um hospital. E da\u00ed a import\u00e2ncia da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, que se baseia na preven\u00e7\u00e3o e na promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade. \u00c9 importante esse trabalho nas comunidades. E na aten\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria, \u00e9 importante o interc\u00e2mbio cultural para que m\u00e9dicos formados e aquelas pessoas com conhecimento em medicina tradicional possam interagir diretamente com o paciente nos centros de sa\u00fade&#8221;, avalia.<\/p>\n<p>Se o acolhimento de refugiados ind\u00edgenas nos servi\u00e7os de sa\u00fade demanda cuidados espec\u00edficos, ao mesmo tempo envolve todos os desafios decorrentes do contexto mundial. A pandemia de covid-19 trouxe novas preocupa\u00e7\u00f5es para o Acnur. A primeira delas \u00e9 \u00f3bvia: guerras e persegui\u00e7\u00f5es n\u00e3o deixam de ocorrer porque h\u00e1 uma crise sanit\u00e1ria global e, com o fechamento de muitas fronteiras, sair do pa\u00eds deixou de ser uma solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para muitas pessoas. Mas al\u00e9m disso, havia o receio com aqueles que j\u00e1 se encontravam em outras na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Felizmente, temos observado mais avan\u00e7os que retrocessos no Brasil. Mesmo no contexto da pandemia, o pa\u00eds manteve o funcionamento do seu sistema de reconhecimento de refugiados. E efetivamente reconheceu um grande n\u00famero de pedidos principalmente da Venezuela. Tamb\u00e9m manteve o funcionamento da Opera\u00e7\u00e3o Acolhida&#8221;, diz Luiz Fernando Godinho, oficial de informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica do Acnur.<\/p>\n<p>O tratamento que o Brasil d\u00e1 aos migrantes \u00e9 considerado pelo Acnur como um exemplo positivo. Diferente de outros pa\u00edses, que organizam campos de refugiados, aqui h\u00e1 um esfor\u00e7o para integr\u00e1-los na sociedade. E a legisla\u00e7\u00e3o contribui com essa op\u00e7\u00e3o, uma vez que garante a eles acesso a servi\u00e7os considerados universais, como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e mesmo programas sociais.<\/p>\n<p>Em sintonia com essa tradi\u00e7\u00e3o, a Opera\u00e7\u00e3o Acolhida \u00e9 uma iniciativa liderada pelo Minist\u00e9rio da Cidadania que envolve tamb\u00e9m uma rede de organiza\u00e7\u00f5es mobilizada pelo Acnur. Atrav\u00e9s dela, mais de 50 mil venezuelanos que chegaram em Roraima j\u00e1 conseguiram se instalar em diferentes cidades do pa\u00eds. A iniciativa foi criada em 2018 em resposta ao fluxo migrat\u00f3rio que teve in\u00edcio no ano anterior decorrente da crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica que se instaurou no pa\u00eds vizinho. No auge desse movimento, cerca de 500 pessoas ingressavam diariamente no Brasil.<\/p>\n<p>Desde 2017, o Comit\u00ea Nacional para os Refugiados (Conare), \u00f3rg\u00e3o colegiado vinculado ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, j\u00e1 concedeu ref\u00fagio a 46 mil venezuelanos. O \u00faltimo balan\u00e7o oficial mostrou que 65% das 82.552 pessoas que solicitaram ref\u00fagio ao Brasil no ano de 2019 vieram da Venezuelana. O fluxo reduziu com a pandemia, uma vez que o Brasil fechou a fronteira em Pacaraima. Aqueles que aqui j\u00e1 estavam s\u00e3o considerados nas respostas sanit\u00e1rias \u00e0 crise sanit\u00e1ria, inclusive para acesso a vacinas. Diversas organiza\u00e7\u00f5es e entidades articuladas na rede mobilizada pelo Acnur atuam em conjunto para assegurar esses direitos.<\/p>\n<p>A ag\u00eancia da ONU, que \u00e9 financiada por meio de doa\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m desenvolve a\u00e7\u00f5es diretas. &#8220;O Acnur vem atuando provendo informa\u00e7\u00f5es seguras, uma vez que essas pessoas est\u00e3o em um pa\u00eds estrangeiro, muitas vezes n\u00e3o conhecem o idioma e precisam receber uma informa\u00e7\u00e3o mais customizada&#8221;, acrescenta Godinho. Outros esfor\u00e7os da ag\u00eancia incluem a distribui\u00e7\u00e3o de kits de higiene, a concess\u00e3o de apoio financeiro emergencial para grupos espec\u00edficos de refugiados que tiveram renda comprometida na crise sanit\u00e1ria. O p\u00f3s-pandemia j\u00e1 est\u00e1 sendo pensado. O Acnur planeja fomentar mecanismos de gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda para essa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fiorella celebra o rendimento fixo mensal e assegura que entre os refugiados ind\u00edgenas, h\u00e1 muitas pessoas capacitadas em busca de uma oportunidade como ela: engenheiros, professores, inform\u00e1ticos. &#8220;Mesmo aqueles que n\u00e3o tem uma forma\u00e7\u00e3o formal, possuem experi\u00eancia em alguma \u00e1rea, como artesanato e agricultura. O Brasil nos d\u00e1 muita esperan\u00e7a positiva. Podemos pensar em um futuro. Podemos estar tranquilos, ter uma fam\u00edlia, ter um lugar para viver. Um lugar onde se pode trabalhar com a comunidade&#8221;, acrescenta. Ela pretende revalidar seu diploma e atuar como m\u00e9dica em Roraima ou mesmo em outro estado do Brasil. &#8220;Se n\u00e3o for poss\u00edvel, se n\u00e3o me estabilizar aqui em alguns anos, posso voltar ao meu pa\u00eds se as coisas estiverem diferentes por l\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Oportunidade de somar<\/strong><br \/>\nSe a sa\u00fade \u00e9 a forma que Fiorella encontrou para ajudar na integra\u00e7\u00e3o dos refugiados e ao mesmo tempo retribuir o acolhimento que recebeu no Brasil, Marifer v\u00ea a educa\u00e7\u00e3o como uma ferramenta para combater o preconceito. Segundo ela, os refugiados t\u00eam necessidades econ\u00f4micas e sociais como diversos grupos vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o brasileira, mas tamb\u00e9m possuem for\u00e7a e coragem a ponto de deixar uma vida para tr\u00e1s em busca do futuro.<\/p>\n<p>&#8220;Garantir educa\u00e7\u00e3o \u00e9 importante tanto para o acolhido como tamb\u00e9m para o pa\u00eds que acolhe. N\u00e3o basta dar o p\u00e3o, dar o alimento, vendo o refugiado como um coitadinho, ferido. Educar o refugiado \u00e9 tamb\u00e9m dar a ele oportunidade de somar. O refugiado vem para crescer com o pa\u00eds e n\u00e3o para ser um preju\u00edzo. Integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 somente experimentar comidas, ela envolve uma inclus\u00e3o&#8221;, avalia.<\/p>\n<p>Marifer \u00e9 professora e vivia em Maracay, a 119 quil\u00f4metros da capital Caracas. Ela conta que deixou a Venezuela devido \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0s amea\u00e7as sofridas, ap\u00f3s seu companheiro, que \u00e9 jornalista, ter publicado den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o. Ele veio primeiro, em maio de 2016. Ela chegou depois, com a filha, em agosto de 2017. Entraram no pa\u00eds por Roraima e hoje est\u00e3o estabelecidos em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;Sou professora de hist\u00f3ria e geografia da Venezuela. Ent\u00e3o n\u00e3o consigo fazer aqui o que eu fazia l\u00e1. Mas estou atuando como educadora social nos programas de interioriza\u00e7\u00e3o dos refugiados&#8221;, conta. Ela j\u00e1 atuou na Opera\u00e7\u00e3o Acolhida e hoje se envolve em projetos educacionais da C\u00e1ritas, organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria da Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Marifer fala portugu\u00eas fluentemente e diz gostar de uma roda de pagode. Com a filha matriculada na escola, ela se diz confort\u00e1vel no pa\u00eds. &#8220;Um lugar de seguran\u00e7a e tranquilo para recome\u00e7armos a vida. Conseguimos receber apoio para a documenta\u00e7\u00e3o, para assist\u00eancia, para a escola da minha filha, para emprego, para tudo. Eu n\u00e3o tenho como ser mais agradecida. Brasil e Venezuela s\u00e3o vizinhos e n\u00e3o se conhecem bem. Ent\u00e3o \u00e9 legal essa troca. Todos temos algo que ensinar. Em casa, seguimos comendo arepa, falamos espanhol e ouvimos nossa m\u00fasica. Mas j\u00e1 estabelecemos a vida aqui. Estamos em casa&#8221;.<\/p>\n<p>Aos 15 anos, esse n\u00e3o \u00e9 o mesmo sentimento de Lexandra Arrieta. H\u00e1 um ano no Brasil, junto com sua m\u00e3e B\u00e9lgica Martinez, seu irm\u00e3o Leobel Arrieta e outros familiares, ela imagina regressar em um momento mais prop\u00edcio e sonha com o momento em que abra\u00e7ar\u00e1 seu pai outra vez. &#8220;Queremos voltar em algum momento. N\u00e3o agora. Mas deixamos l\u00e1 nosso pai, que estar\u00e1 nos esperando&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Apesar da saudade, ela se sente acolhida no abrigo em que vive, em Boa Vista. Diz que a cidade tem muitos lugares bonitos e que est\u00e3o conhecendo coisas diferentes da Venezuela. Seu principal elemento de integra\u00e7\u00e3o \u00e9 o esporte. Ela pratica futebol e kickball todos os dias e interage com outros adolescentes de sua idade. &#8220;Em um instante, j\u00e1 sabem nosso nome. Fizemos muitos amigos. O esporte nos ajuda tanto para fortalecer o corpo como para abstrair a mente&#8221;.<\/p>\n<p>Embora esteja no pa\u00eds do futebol, ao citar sua refer\u00eancia, Lexandra n\u00e3o aponta um \u00eddolo brasileiro. Sua inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 Deyna Castellanos, atacante da sele\u00e7\u00e3o feminina venezuelana e do clube espanhol Atl\u00e9tico de Madrid. &#8220;Ela demonstrou aos homens que n\u00e3o s\u00e3o somente eles que podem jogar. Ela \u00e9 uma excelente jogadora. Gostaria de ser como ela&#8221;, afirma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juntos, n\u00f3s curamos, aprendemos e brilhamos. O lema desta edi\u00e7\u00e3o do Dia Mundial do Refugiado, celebrado neste domingo (20), real\u00e7a a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade e o lazer como importantes instrumentos de integra\u00e7\u00e3o. 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