{"id":260276,"date":"2021-06-28T08:52:37","date_gmt":"2021-06-28T11:52:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=260276"},"modified":"2021-06-28T10:48:47","modified_gmt":"2021-06-28T13:48:47","slug":"geracao-68-se-engasga-com-os-crimes-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/geracao-68-se-engasga-com-os-crimes-de-bolsonaro\/","title":{"rendered":"Gera\u00e7\u00e3o 68 se engasga com crimes de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p>O livro <em>Nous l\u2019avons tant aim\u00e9e, la r\u00e9volution<\/em> escrito pelo l\u00edder de Maio de 68 na Fran\u00e7a, Daniel Cohn-Bendit, usa o verbo no pret\u00e9rito composto (o \u201cpass\u00e9 compos\u00e9\u201d franc\u00eas). Na tradu\u00e7\u00e3o, a Editora Brasiliense optou pelo pret\u00e9rito imperfeito: \u201cN\u00f3s que am\u00e1vamos tanto a revolu\u00e7\u00e3o\u201d. Se fosse o perfeito seria amamos, que em portugu\u00eas, unicamente no caso de n\u00f3s, guarda a mesma forma tanto no presente como no pret\u00e9rito, o que cria a desejada ambiguidade na evoca\u00e7\u00e3o de um passado que n\u00e3o se contrap\u00f5e ao presente.<\/p>\n<p>Cohn-Bendit re\u00fane entrevistas feitas por ele em diferentes pa\u00edses, cujas manifesta\u00e7\u00f5es de rua fizeram tremer o planeta em 1968. Quase vinte anos depois, ele ouviu, entre outros, l\u00edderes dos Panteras Negras, Yuppies, Women\u00b4s Lib, Brigadas Vermelhas, Solidarno\u015b\u0107, guerrilheiros da Am\u00e9rica Latina e, no Brasil, Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis. Alguns dos entrevistados, desiludidos, desistiram da luta, mas muitos continuam na milit\u00e2ncia no campo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso do grupo \u201cGera\u00e7\u00e3o 68 Sempre na Luta\u201d que convocou um ato p\u00fablico para comemorar os 53 anos da \u201cpasseata dos cem mil\u201d neste 26 de junho, na Cinel\u00e2ndia, no Rio. Fui. Se fosse eu o \u00fanico a comparecer, diria eu amava ou amei. Mas na companhia, ainda que discreta de outros companheiros, o passado \u00e9 perfeito: n\u00f3s amamos a revolu\u00e7\u00e3o. Atravessa assim os tempos verbais e destaca o car\u00e1ter coletivo e a relativa perenidade desse engajamento.<\/p>\n<p>O que ficou da passeata dos cem mil? Milhares j\u00e1 morreram \u201cde susto, de bala ou v\u00edcio\u201d, n\u00e3o poucos de corona, os sobreviventes com dificuldades de locomo\u00e7\u00e3o ou temerosos de aglomera\u00e7\u00e3o. Diante disso, o cineasta Silvio Tendler, que apoiou o ato simb\u00f3lico, brincou me dizendo que agora seria a \u201cpasseata dos sem mil\u201d. Fui l\u00e1 conferir. Vesti minha camisa amarela da Escola Tuyuka Utapinopona, preparei um cartaz e marchei para a Cinel\u00e2ndia na companhia dos irm\u00e3os Pucu \u2013 o poeta Luiz e o advogado M\u00e1rcio com sua esposa Elizabeth. Essa comitiva amazonense, que viveu 68 no Rio, levava no cora\u00e7\u00e3o Thomazinho Meirelles, assassinado pela ditadura.<\/p>\n<p>Quantos \u201cgatosos\u201d pingados havia na Cinel\u00e2ndia? Quatrocentos, talvez quinhentos? Mas se som\u00e1ssemos todas as hist\u00f3rias ali contadas, os cem mil estavam l\u00e1 rezando em nossos ouvidos: \u201cFazei isso em mem\u00f3ria de mim\u201d. Situa\u00e7\u00e3o similar deve ter sido vivida pelas demais cidades que convocaram para o ato \u2013 Fortaleza, Goi\u00e2nia, Bras\u00edlia, Recife e Belo Horizonte. Em raz\u00e3o da chuva, Porto Alegre transferiu para o pr\u00f3ximo s\u00e1bado (3).<\/p>\n<p>Agora, no Rio, ali est\u00e1vamos, meio s\u00e9culo depois, trocando olhares que se encontravam, tentando adivinhar o que havia por tr\u00e1s das m\u00e1scaras e dos cabelos brancos. Montados no Rocinante do Quixote, n\u00f3s, que tanto amamos a revolu\u00e7\u00e3o, rememoramos dezenas de manifesta\u00e7\u00f5es ocorridas naqueles tempos no combate contra a ditadura, a censura, a viol\u00eancia policial.<\/p>\n<p>Nas escadarias da C\u00e2mara Municipal se fez presente Jo\u00e3o Batista Andrade, j\u00e1 falecido, representado por seu filho batizado como Davi Yanomami. Fizemos uma rodinha para ressuscitar o querido JB, meu colega de sala na Faculdade Nacional de Direito. Ambos fomos presos na passeata do dia 15 de setembro de 1966. Guardo a data porque obtive os dados da ABIN \u2013 Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia. O comandante do Regimento Marechal Caetano de Farias, na Frei Caneca, exigiu para nos soltar a presen\u00e7a de algum familiar que, no meu caso, residiam em Manaus. O pai do JB, doutor Andrade, advogado, veio tirar o filho:<\/p>\n<p>\u2013 S\u00f3 saio daqui se o amazonense tamb\u00e9m sair.<\/p>\n<p>O velho, puto da vida, resistiu, mas acabou assinando um termo de responsabilidade por algu\u00e9m que ele n\u00e3o conhecia.<\/p>\n<p>Cego em tiroteio<br \/>\n\u2013 Se eu ficar o tempo todo contando hist\u00f3rias, n\u00e3o vou desaparecer \u2013 escreveu Patr\u00edcia Portela. Hist\u00f3rias abundam.<\/p>\n<p>Numa passeata contra os acordos MEC-USAID que pretendiam privatizar a escola p\u00fablica e instituir o ensino pago, os policiais nos perseguiam e, no meio de uma desabalada carreira, meus \u00f3culos ca\u00edram na rua Santa Luzia. Continuei a fuga assim mesmo como cego em tiroteio. Foi a\u00ed que o l\u00edder do Gr\u00eamio do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o da UFRJ, Emilio Mira y Lopez, retornou para recuper\u00e1-los, enfrentando a repress\u00e3o policial. Esse gesto corajoso e solid\u00e1rio, que me fez ver o mundo outra vez, ligou para sempre as nossas lembran\u00e7as e selou uma amizade. D\u00e9cadas depois encontrei Emilio, que hoje \u00e9 m\u00e9dico, trata dos meus achaques e fez contato com o grupo Gera\u00e7\u00e3o 68.<\/p>\n<p>Naquele 1968, a TV Continental com Fernando Barbosa Lima convidou Ana Arruda Callado e Reynaldo Jardim para o Jornal de Vanguarda. Os dois levaram para l\u00e1 a juventude e a inexperi\u00eancia desse amazonense aqui contratado como rep\u00f3rter. Fui escalado para cobrir uma passeata estudantil no centro do Rio, transformado em pra\u00e7a de guerra. Offices boys se juntaram aos estudantes para jogar pedras na pol\u00edcia. Do alto de um edif\u00edcio na rua M\u00e9xico, algu\u00e9m atirou uma m\u00e1quina de escrever que caiu sobre o ombro de um meganha, no momento em que levava preso um manifestante. Podia ter acertado o jovem, que teve sorte e se escafedeu.<\/p>\n<p>\u2013 Deus \u00e9 estudante \u2013 eu disse ao relatar o fato ao Reynaldo, que diariamente, no Jornal de Vanguarda comentava em versos alguma not\u00edcia. Nessa noite, cada estrofe do poema terminava com o estribilho: \u201cComo disse Riba, Deus \u00e9 estudante\u201d.<\/p>\n<p><strong>Cinderela da Revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nNo ex\u00edlio no Chile, muitas dessas hist\u00f3rias eram lembradas e relembradas como aquela da passeata na qual manifestantes perseguidos pela pol\u00edcia invadiram uma loja na rua Uruguaiana e se misturaram aos clientes. O gerente, solid\u00e1rio, fechou a porta e pediu sil\u00eancio aos estudantes. Mas um sargento, que viu tudo, aos gritos, mandou abrir. O cambur\u00e3o j\u00e1 estava na porta para levar os presos. Como distinguir, por\u00e9m, o manifestante do fregu\u00eas? O sargento, tendo na m\u00e3o um mocassim perdido na fuga, perguntou: De quem \u00e9 esse sapato? Descal\u00e7o de um p\u00e9, Teodoro Buarque de Hollanda, primo do Chico, foi o primeiro a ser preso.<\/p>\n<p>\u2013 Eis a Cinderela da Revolu\u00e7\u00e3o \u2013 brincou o titiriteiro Euclides Coelho de Souza ao ouvir Teodoro contar o epis\u00f3dio na Pens\u00e3o da Calle Grajales, onde viviam muitos brasileiros exilados. Euclides, com seu espanhol impec\u00e1vel ainda traduziu: Tu eres la Cenicienta de la Revoluci\u00f3n.<\/p>\n<p>Algumas hist\u00f3rias s\u00e3o engra\u00e7adas, outras ing\u00eanuas, muitas tristes com pris\u00f5es, torturas e mortes. Na \u201cpasseata dos sem mil\u201d, todos traziam na mem\u00f3ria os cem mil, aquelas e aqueles que participaram das lutas contra a ditadura militar de 1964 a 1985 e que ajudaram a conquistar a democracia, as liberdades, a anistia, a Constituinte, as elei\u00e7\u00f5es diretas \u2013 como diz o manifesto da \u201cGera\u00e7\u00e3o 68 sempre na luta\u201d.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o seja um bloco homog\u00eaneo e abrigue gente de diversos horizontes pol\u00edticos, o que une a todos que amamos a revolu\u00e7\u00e3o s\u00e3o os valores de humanidade e solidariedade negados hoje por um governo fascista e corrupto, que refuta a ci\u00eancia, destr\u00f3i o meio ambiente e tripudia sobre os direitos ind\u00edgenas garantidos na Constitui\u00e7\u00e3o. Da\u00ed o grito: Fora Bolsonaro, cujo crime maior n\u00e3o foi o de prevarica\u00e7\u00e3o, nem a assinatura mutretada do contrato de R$1,61 bilh\u00e3o para a compra da Covaxin, nem muito menos as \u201crachadinhas\u201d ou o gasto de dinheiro p\u00fablico para a propaganda pol\u00edtica com as motociatas, enquanto o Brasil conta mais de meio milh\u00e3o de mortos.<\/p>\n<p>O crime maior de Bolsonaro, que devia ser impichado e preso por isso, foi retirar a m\u00e1scara de prote\u00e7\u00e3o contra a Covid-19 de uma crian\u00e7a de colo no Rio Grande do Norte e de mandar uma menina de 10 anos, que recitava uma poesia, retirar sua m\u00e1scara. Quanta estupidez neste ato criminoso, burro e cruel, que ao atropelar a prote\u00e7\u00e3o materna, coloca em risco a sa\u00fade das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>O Brasil vive um momento tenebroso de sua hist\u00f3ria. Contra o des\u00e2nimo e o medo, a Gera\u00e7\u00e3o 68 se identificou com faixas e cartazes nas manifesta\u00e7\u00f5es do dia 19 e agora do dia 26. \u00c9 como se estivesse entoando com Mercedes Sosa a can\u00e7\u00e3o de seu compatriota Eduardo Fal\u00fa: \u201cNo tengo miedo al inverno, con tu recuerdo lleno de sol\u201d. Que esse passeio pela lembran\u00e7a sirva para manter viva a mem\u00f3ria solar da luta, que nos enche de coragem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro Nous l\u2019avons tant aim\u00e9e, la r\u00e9volution escrito pelo l\u00edder de Maio de 68 na Fran\u00e7a, Daniel Cohn-Bendit, usa o verbo no pret\u00e9rito composto (o \u201cpass\u00e9 compos\u00e9\u201d franc\u00eas). Na tradu\u00e7\u00e3o, a Editora Brasiliense optou pelo pret\u00e9rito imperfeito: \u201cN\u00f3s que am\u00e1vamos tanto a revolu\u00e7\u00e3o\u201d. 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