{"id":260635,"date":"2021-06-30T07:48:53","date_gmt":"2021-06-30T10:48:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=260635"},"modified":"2021-06-30T08:50:33","modified_gmt":"2021-06-30T11:50:33","slug":"aumento-na-tarifa-provoca-racionamento-no-consumo-de-energia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/aumento-na-tarifa-provoca-racionamento-no-consumo-de-energia\/","title":{"rendered":"Aumento na tarifa obriga racionar consumo"},"content":{"rendered":"<p>A Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica decidiu nessa ter\u00e7a-feira (29\/06) reajustar em 52% o valor da bandeira vermelha patamar 2 das contas de luz. Com isso, a cobran\u00e7a adicional nas tarifas passa de R$ 6,24 para R$ 9,49 a cada 100 kWh (quilowatt-hora) consumidos.<\/p>\n<p>Com a medida, a ag\u00eancia reguladora busca for\u00e7ar os brasileiros a reduzirem o consumo de energia el\u00e9trica, num momento em que o pa\u00eds passa pela pior crise h\u00eddrica em 91 anos, que tem afetado fortemente o n\u00edvel dos reservat\u00f3rios hidrel\u00e9tricos. O novo valor entra em vigor a partir de julho.<\/p>\n<p>O choque de pre\u00e7os nas contas de luz acontece num momento em que o pa\u00eds acumula alta de 87% no pre\u00e7o do \u00f3leo de soja, 52% no arroz, 38% nas carnes, 31% no feij\u00e3o preto, 10% no leite e 24% no g\u00e1s de botij\u00e3o, sempre em 12 meses acumulados at\u00e9 maio, conforme o IPCA (\u00cdndice Nacional de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo).<\/p>\n<p>Para Edvaldo Santana, diretor da Aneel entre 2005 e 2013, um reajuste dessa magnitude configura um &#8220;racionamento via pre\u00e7o&#8221;, ainda que o governo negue o uso do termo &#8220;racionamento&#8221;, de olho nas elei\u00e7\u00f5es de 2022.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Rom\u00e3o, especialista em infla\u00e7\u00e3o da LCA Consultores, destaca que o aumento nas contas de luz \u00e9 uma pol\u00edtica &#8220;regressiva&#8221;, isto \u00e9, tem peso proporcionalmente maior no bolso da popula\u00e7\u00e3o mais pobre do que para os mais ricos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a popula\u00e7\u00e3o de maior renda tem mais margem para ajustar seu consumo, por fazer uso de itens eletroeletr\u00f4nicos e eletrodom\u00e9sticos sup\u00e9rfluos, cujo uso pode ser reduzido para diminuir a conta de luz. Os mais pobres, por sua vez, j\u00e1 consomem uma quantidade muito menor de energia e ter\u00e3o mais dificuldade para economizar diante do reajuste.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas acabam postergando o pagamento das contas, n\u00e3o s\u00f3 de energia, mas de \u00e1gua. Elas t\u00eam usado menos o g\u00e1s de botij\u00e3o&#8221;, observa Rom\u00e3o. &#8220;Realmente, este ano, os pre\u00e7os administrados [aqueles controlados pelo governo] pesaram, est\u00e3o pegando para as fam\u00edlias de renda mais baixa. Isso, infelizmente, \u00e9 uma realidade de 2021.&#8221;<\/p>\n<p><strong>&#8216;Racionamento via pre\u00e7o&#8217;<\/strong><br \/>\n&#8220;Aumentar a tarifa um pouco, para tentar reduzir o consumo, \u00e9 um incentivo \u00e0 racionaliza\u00e7\u00e3o. Quando esse aumento da tarifa \u00e9 muito grande, isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais uma racionaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 um racionamento via pre\u00e7o&#8221;, afirma Santana, ex-diretor da Aneel.<\/p>\n<p>&#8220;Trata-se de um racionamento, pois \u00e9 um aumento exagerado de pre\u00e7os, propositalmente para reduzir o consumo&#8221;, considera o especialista do setor el\u00e9trico. &#8220;Um aumento de 52% na bandeira tarif\u00e1ria, que deve representar uma alta de mais de 10% na tarifa final, certamente vai reduzir o consumo. Mas isso n\u00e3o \u00e9 volunt\u00e1rio, \u00e9 pressionado pelo pre\u00e7o.&#8221;<\/p>\n<p>A \u00faltima vez em que um racionamento de energia el\u00e9trica foi adotado no pa\u00eds foi entre 1\u00ba de julho de 2001 e 19 de fevereiro de 2002, durante o segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O racionamento aplicado ent\u00e3o estabelecia uma redu\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria de 20% no consumo de energia el\u00e9trica, sob amea\u00e7a de multa e corte no fornecimento.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o for\u00e7ada do consumo teve forte impacto sobre a popularidade de FHC, somando-se \u00e0 crise de desvaloriza\u00e7\u00e3o do real de 1999, com efeitos relevantes sobre a atividade econ\u00f4mica. Os dois fatores juntos contribu\u00edram de maneira decisiva para que o tucano Jos\u00e9 Serra fosse derrotado por Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) nas elei\u00e7\u00f5es de 2002, segundo analistas \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>&#8220;O racionamento de 2001 foi por quantidade &#8211; o governo disse: &#8216;compulsoriamente, os consumidores s\u00f3 podem consumir 80% do que consumiam em meses equivalentes do ano anterior&#8221;, lembra Santana. &#8220;Agora n\u00e3o vai ser por quota, vai ser por pre\u00e7o, pelo menos para come\u00e7ar.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Efeito na infla\u00e7\u00e3o e no bolso<\/strong><br \/>\nF\u00e1bio Rom\u00e3o, da LCA Consultores, calcula que a alta de pre\u00e7os da bandeira vermelha das contas de luz deve ter um impacto de 0,23 ponto percentual sobre o IPCA deste ano, supondo que a bandeira se mantenha nesse patamar at\u00e9 dezembro.<\/p>\n<p>Com isso, a infla\u00e7\u00e3o oficial deve fechar 2021 em alta de 6,4%, na estimativa da consultoria.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a infla\u00e7\u00e3o para o ano se afasta da meta estabelecida pelo CMN (Comit\u00ea Monet\u00e1rio Nacional), que \u00e9 de 3,75% para 2021, e at\u00e9 do teto da meta, cujo limite \u00e9 de 5,25%.<\/p>\n<p>Caso a infla\u00e7\u00e3o de fato feche o ano acima do teto da meta, como parece mais prov\u00e1vel, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, ter\u00e1 que mandar uma carta ao ministro da Economia, Paulo Guedes, explicando porque o alvo n\u00e3o foi atingido.<\/p>\n<p>A \u00faltima vez em que isso aconteceu foi em 2018, quando o ent\u00e3o presidente do BC, Ilan Goldfajn, teve de mandar uma carta a Henrique Meirelles. Na ocasi\u00e3o, no entanto, a missiva foi para explicar por que a infla\u00e7\u00e3o de 2017 ficou abaixo do limite m\u00ednimo da meta, e n\u00e3o acima do teto m\u00e1ximo como agora.<\/p>\n<p>Rom\u00e3o estima que, com o efeito da alta de pre\u00e7os da energia, o IPCA acumulado em 12 meses pode subir dos 8,06% registrados at\u00e9 maio, para 8,5% em junho e atingir um pico de 8,7% em julho. Nos meses seguintes, a taxa deve perder for\u00e7a, fechando o ano em 6,4%, gra\u00e7as a uma menor press\u00e3o dos alimentos no fim do ano, na compara\u00e7\u00e3o com 2020.<\/p>\n<p>&#8220;Isso n\u00e3o quer dizer que os pre\u00e7os dos alimentos v\u00e3o cair, mas que eles v\u00e3o subir menos&#8221;, alerta o economista. Ele estima que os alimentos, que subiram 18,2% em 2020, devem ter alta de 5,2% este ano.<\/p>\n<p>Por outro lado, a energia el\u00e9trica, que fechou o ano passado com aumento de pre\u00e7o de 9,1%, deve subir 11,8% em 2021, caso a bandeira vermelha 2 permane\u00e7a acionada at\u00e9 dezembro.<\/p>\n<p>Se a infla\u00e7\u00e3o medida pelo IPCA deve ter uma alta de 6,4% este ano, a infla\u00e7\u00e3o medida pelo INPC &#8211; \u00edndice que calcula a varia\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os para fam\u00edlias com renda de at\u00e9 5 sal\u00e1rios m\u00ednimos &#8211; deve subir 6,7%, estima Rom\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso porque, enquanto a energia el\u00e9trica residencial tem peso de 4,2% na cesta de consumo do IPCA &#8211; que mede a infla\u00e7\u00e3o para fam\u00edlias com renda at\u00e9 40 sal\u00e1rios m\u00ednimos &#8211; ela tem peso maior, de 5,1%, na cesta das fam\u00edlias mais pobres.<\/p>\n<p><strong>Aumento da inadimpl\u00eancia<\/strong><br \/>\nUm outro efeito que pode ser esperado com o choque de pre\u00e7os das contas de luz \u00e9 um aumento da inadimpl\u00eancia.<\/p>\n<p>At\u00e9 abril, o total de brasileiros com contas em atraso chegou a 63 milh\u00f5es, aumento de 0,7% em rela\u00e7\u00e3o a mar\u00e7o. O total de endividados \u00e9 o maior desde agosto de 2020, com 39,5% da popula\u00e7\u00e3o adulta nesta situa\u00e7\u00e3o, segundo dados da Serasa Experian.<\/p>\n<p>O setor de &#8220;utilities&#8221; (express\u00e3o em ingl\u00eas para servi\u00e7os p\u00fablicos), que inclui as contas de \u00e1gua, luz e g\u00e1s, representava em abril deste ano 22,7% do total de d\u00edvidas em atraso, comparado a participa\u00e7\u00e3o de 21,8% em abril de 2020 e 20,1% em igual m\u00eas de 2019, antes da pandemia.<\/p>\n<p>O economista Luiz Rabi, da Serasa Experian, avalia que a redu\u00e7\u00e3o do aux\u00edlio emergencial em 2021 e o alto n\u00famero de desempregados s\u00e3o alguns dos fatores que pesam para essa tend\u00eancia de alta da inadimpl\u00eancia, que deve continuar nos pr\u00f3ximos meses.<\/p>\n<p>&#8220;Al\u00e9m desses pontos, os aumentos das taxas de juros e da infla\u00e7\u00e3o comprometeram a renda da popula\u00e7\u00e3o. As pessoas tiveram que priorizar os pagamentos, o que acabou deixando pend\u00eancias pelo caminho&#8221;, comentou, em comunicado.<\/p>\n<p>Elizabeth Moreira, de 36 anos e moradora de uma comunidade em Embu das Artes, na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, \u00e9 uma dessas consumidoras com pend\u00eancias. Ela est\u00e1 com cinco contas de luz em atraso, num valor de R$ 241.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tenho um c\u00e2ncer, sou doente e tem dois meses que n\u00e3o vou no hospital de Heli\u00f3polis fazer meu tratamento porque n\u00e3o estou tendo dinheiro&#8221;, diz Elizabeth.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o esse aumento [da conta de luz] me preocupa muito. Voc\u00ea sabe que voc\u00ea gasta seus R$ 50 por m\u00eas, que n\u00e3o vai passar daquilo e, mesmo assim, voc\u00ea j\u00e1 fica apurada. Como voc\u00ea vai fazer com a conta mais alta?&#8221;, questiona.<\/p>\n<p>&#8220;Minha casa n\u00e3o tem televis\u00e3o, n\u00e3o tem geladeira &#8211; eu sou sozinha, depois que meu filho foi preso injustamente, ent\u00e3o fa\u00e7o a comida contada, n\u00e3o tenho como encher a geladeira. Aqui s\u00f3 tem o chuveiro el\u00e9trico e as l\u00e2mpadas. J\u00e1 est\u00e1 muito caro, isso \u00e9 um abuso.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica decidiu nessa ter\u00e7a-feira (29\/06) reajustar em 52% o valor da bandeira vermelha patamar 2 das contas de luz. Com isso, a cobran\u00e7a adicional nas tarifas passa de R$ 6,24 para R$ 9,49 a cada 100 kWh (quilowatt-hora) consumidos. 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