{"id":260700,"date":"2021-06-30T11:33:48","date_gmt":"2021-06-30T14:33:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=260700"},"modified":"2021-06-30T15:53:39","modified_gmt":"2021-06-30T18:53:39","slug":"brasil-do-futuro-so-dara-certo-com-distribuicao-de-lucros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-do-futuro-so-dara-certo-com-distribuicao-de-lucros\/","title":{"rendered":"Brasil s\u00f3 acerta futuro redistribuindo renda"},"content":{"rendered":"<p>Ter\u00e7a, 10 de maio de 2005, S\u00e3o Paulo, capital. A pedido de Olavo Set\u00fabal que, com frequ\u00eancia, me convidava para almo\u00e7ar na sede do banco Ita\u00fa, no Jabaquara, daquela vez levei Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile, dirigente do MST. Homem culto e aberto, o banqueiro j\u00e1 me havia dito que preferia conversar com quem n\u00e3o pensava como ele.<\/p>\n<p>No pequeno recinto improvisado em bistr\u00f4, Set\u00fabal indagou de St\u00e9dile: \u201cO que pensa do presidente Lula?\u201d Jo\u00e3o Pedro enumerou os avan\u00e7os do governo do PT e admitiu o atraso na reforma agr\u00e1ria. E devolveu a pergunta: \u201cE o senhor, o que pensa de Lula?\u201d \u201cUma decep\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 disse o banqueiro \u2013 \u201cpara quem esperava algo dele. Como eu n\u00e3o esperava nada, considero-o um g\u00eanio, um g\u00eanio!\u201d, repetiu enf\u00e1tico.<\/p>\n<p>Set\u00fabal tinha raz\u00f5es para tanto entusiasmo. Em pouco mais de dois anos de governo, o PT havia reduzido o desemprego, aumentado o sal\u00e1rio m\u00ednimo acima da infla\u00e7\u00e3o e o poder de consumo da popula\u00e7\u00e3o e segurado a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 17 de fevereiro de 2004, a \u201c<em>Folha de S. Paulo<\/em>\u201d e o <em>UOL<\/em> haviam anunciado que \u201cnunca os bancos brasileiros lucraram tanto como no primeiro ano do governo Lula. As duas maiores institui\u00e7\u00f5es privadas do pa\u00eds encerraram 2003 com os maiores resultados positivos da sua hist\u00f3ria.\u201d E \u201c<em>O Globo<\/em>\u201d destacou em 25 de fevereiro de 2011: \u201cNa Era Lula, bancos tiveram lucro recorde de R$ 199 bilh\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Agora, em 25 de junho, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega afirmou que \u201co golpe contra Dilma Rousseff foi resultado das pol\u00edticas dos governos petistas que levaram \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das margens de lucro do grande capital, nacional e internacional\u201d. E acrescentou: \u201cEm 2011, come\u00e7amos a interferir na entrada de capital vol\u00e1til. Taxamos o mercado de derivativos, que \u00e9 onde a coisa pega, onde se tem um conjunto grande de investimentos. Ent\u00e3o, os capitais que vinham aqui, com a vida f\u00e1cil, ganhar todo esse lucro, passaram a n\u00e3o ter mais esse lucro. Compramos uma briga com cachorro grande, com os grandes fundos internacionais e o capital financeiro internacional\u201d.<\/p>\n<p>A conspira\u00e7\u00e3o para derrubar Dilma teve in\u00edcio quando os bancos p\u00fablicos passaram a ganhar competitividade em rela\u00e7\u00e3o aos bancos privados, cujos lucros ca\u00edram. \u201cDepois, em 2012-2013, come\u00e7amos a atacar o spread dos bancos. Liberamos os bancos p\u00fablicos para colocar mais cr\u00e9dito na economia com juros menores, fazendo concorr\u00eancia. Os bancos privados baixaram o spread a contragosto. Fizemos inclusive uma campanha contra as tarifas dos bancos, que eram enormes no Brasil\u201d, lembrou Mantega.<\/p>\n<p>Diante disso, \u201ccome\u00e7ou a ter mat\u00e9rias na <em>The Economist<\/em> e no <em>Financial Times<\/em> criticando a nossa gest\u00e3o, dizendo que est\u00e1vamos intervindo. Eles estavam respondendo aos interesses do grande capital internacional. E os bancos locais tamb\u00e9m ficaram possessos com as nossas atividades, porque foi a primeira vez que o lucro deles come\u00e7ou a cair. Os bancos brasileiros tinham lucros maiores at\u00e9 que os bancos americanos, proporcionalmente\u201d.<\/p>\n<p>A pergunta \u00e9 pertinente: haver\u00e1 futuro para o Brasil e o mundo enquanto o capital financeiro tratar o planeta como um imenso cassino e perseguir, como prioridade, o aumento de sua riqueza privada?<\/p>\n<p>Parece que a resposta \u00e9 n\u00e3o. Segundo o Relat\u00f3rio de Riqueza Global, divulgado em 24 de junho pelo banco Credit Suisse (o que tornam os dados insuspeitos), em 2020 quase metade da riqueza total do Brasil (49,6%) ficou em m\u00e3os do 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o (pouco mais de 2 milh\u00f5es de pessoas). Vinte anos atr\u00e1s esse segmento privilegiado detinha 44,2%. No \u00e2mbito global, 10% mais ricos concentram em m\u00e3os 82% da riqueza mundial, sendo que quase a metade (45%) em m\u00e3os do 1% superprivilegiados.<\/p>\n<p>Apenas a R\u00fassia concentra mais riqueza que a elite do Brasil. Isso poderia ser corrigido pela atual reforma tribut\u00e1ria, que d\u00e1 um t\u00edmido passo ao tributar dividendos dos acionistas de empresas. Deveria tamb\u00e9m, para ser efetiva, isentar todos que ganham, por m\u00eas, at\u00e9 10 sal\u00e1rios m\u00ednimos; adotar o imposto progressivo; cobrar Imposto Territorial Rural das propriedades do campo; e tributar as heran\u00e7as, exceto pequenos valores.<\/p>\n<p>Pesquisa recente do Datafolha para a Oxfam Brasil constatou que a maioria dos brasileiros (56%) \u00e9 favor\u00e1vel a aumentar a tributa\u00e7\u00e3o dos mais ricos para financiar pol\u00edticas sociais e, assim, reduzir a desigualdade social. E nove em cada dez pesquisados defendem que a prioridade do governo deveria ser a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade social.<\/p>\n<p>Quando a humanidade se convencer\u00e1 de que os direitos humanos devem prevalecer sobre os supostos direitos do capital privado?<\/p>\n<p><strong>*Escritor, autor de Minha av\u00f3 e seus mist\u00e9rios<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ter\u00e7a, 10 de maio de 2005, S\u00e3o Paulo, capital. 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