{"id":260905,"date":"2021-07-01T18:32:07","date_gmt":"2021-07-01T21:32:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=260905"},"modified":"2021-07-01T20:43:06","modified_gmt":"2021-07-01T23:43:06","slug":"doenca-milenar-tuberculose-tem-antidoto-ha-100-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/doenca-milenar-tuberculose-tem-antidoto-ha-100-anos\/","title":{"rendered":"Doen\u00e7a milenar, tuberculose tem ant\u00eddoto h\u00e1 100 anos"},"content":{"rendered":"<p>Os versos n\u00e3o eram o rem\u00e9dio, mas o desabafo: &#8220;Eu sei que vou morrer&#8230; dentro do meu peito \/um mal terr\u00edvel me devora a vida&#8221;. Em 6 de julho de 1871, Castro Alves, de apenas 24 anos, sucumbiu \u00e0 tuberculose. A maior novidade no combate a essa doen\u00e7a respirat\u00f3ria, que acomete principalmente os pulm\u00f5es, s\u00f3 surgiria 50 anos depois da morte do poeta baiano: a vacina. O imunizante foi fruto de uma longa pesquisa dos franceses L\u00e9on Calmette e Alphonse Gu\u00e9rin. Eles atenuaram uma bact\u00e9ria, batizada de Bacilo de Calmette e Gu\u00e9rin (por isso, a sigla BCG), e anunciaram, naquele 1\u00ba de julho de 1921, uma forma de debelar o bacilo de Koch, causador da tuberculose.<\/p>\n<p>&#8220;Foi uma grande vit\u00f3ria contra essa doen\u00e7a, que matava tanta gente no mundo inteiro e at\u00e9 hoje tem os mais vulner\u00e1veis como suas principais v\u00edtimas&#8221;, afirma a m\u00e9dica Dilene Nascimento, pesquisadora da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz) e estudiosa da hist\u00f3ria das doen\u00e7as no Brasil. H\u00e1 registro de casos de tuberculose no Brasil desde o per\u00edodo de col\u00f4nia. A doen\u00e7a \u00e9 transmitida por inala\u00e7\u00e3o de got\u00edculas contaminadas e eliminadas pela respira\u00e7\u00e3o, tosse ou espirro.<\/p>\n<p>A pesquisadora explica que, mesmo antes da descoberta da vacina na Fran\u00e7a, o Brasil tinha iniciativas para tentar proteger a popula\u00e7\u00e3o deste mal. Uma delas foi a Liga Brasileira contra a Tuberculose, entidade civil composta por pesquisadores e intelectuais, e que se transformaria depois na Funda\u00e7\u00e3o Ataulpho de Paiva, no Rio de Janeiro, entidade filantr\u00f3pica at\u00e9 hoje respons\u00e1vel por produzir a BCG no pa\u00eds. Ali\u00e1s, no Brasil, o desenvolvimento da vacina deu-se, inicialmente, pela pesquisa do cientista Arlindo de Assis (1896-1966) depois que ele recebeu, em 1925, uma amostra da cepa do v\u00edrus in vitro para estudo.<\/p>\n<p>Em 1927, a funda\u00e7\u00e3o criou laborat\u00f3rios e passou a seguir a instru\u00e7\u00e3o para priorizar a vacina\u00e7\u00e3o dos mais jovens e tamb\u00e9m os mais vulner\u00e1veis, afirma a professora Dilene Nascimento. A pesquisadora entende que essa vit\u00f3ria da ci\u00eancia \u00e9 fundamental hoje, por exemplo, para que os beb\u00eas brasileiros recebam, logo depois que nascem, essa vacina. &#8220;Tem grande efic\u00e1cia contra formas graves da doen\u00e7a, como ocorrem, por exemplo, com a vacina contra a covid-19. Foi um grande aprendizado&#8221;. At\u00e9 a d\u00e9cada de 1970, a BCG tamb\u00e9m existia na modalidade oral. O medicamento produzido pela Funda\u00e7\u00e3o Ataulpho de Paiva foi reconhecido em 16 laborat\u00f3rios certificados pela OMS e \u00e9 considerado um dos mais imunog\u00eanicos do mundo.<\/p>\n<p>Nos pr\u00f3ximos dias 8 e 9 de julho, a Fiocruz realiza evento de debate (confira programa\u00e7\u00e3o) sobre o legado da vacina BCG, administrada gratuitamente em postos de sa\u00fade, para os programas de imuniza\u00e7\u00e3o no Brasil. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, a pesquisadora conta a trajet\u00f3ria do combate \u00e0 tuberculose no pa\u00eds, e qual o papel a vacina BCG desempenhou nesta hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Qual era o contexto de busca por essa vacina?<br \/>\nNo final do s\u00e9culo 19 e in\u00edcio dos anos 1900, a tuberculose matava mais do que qualquer outra doen\u00e7a. N\u00e3o existia pol\u00edtica p\u00fablica para o controle da tuberculose, que \u00e9 um doen\u00e7a end\u00eamica. O desenvolvimento pode ser lento, mas leva \u00e0 morte. \u00c9 preciso contextualizar que o bacilo de Koch, apesar de contaminar qualquer pessoa, costuma levar ao \u00f3bito aqueles que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel, e com sistema imunol\u00f3gico comprometido. A vacina contra a tuberculose estava sendo exaustivamente procurada pelos cientistas. Inclusive, o pr\u00f3prio pesquisador Robert Koch, que descobriu o bacilo causador, anunciou tamb\u00e9m a tubercolina. Inicialmente, imaginava-se que poderia ser um rem\u00e9dio, mas, na verdade, demonstrou ser um teste para diagnosticar a doen\u00e7a. Foi um an\u00fancio com muita pompa, mas chegou-se \u00e0 conclus\u00e3o que a tuberculina identificava a tuberculose, e n\u00e3o a tratava. At\u00e9 que, em 1921, L\u00e9on Calmette e Alphonse Gu\u00e9rin proporcionaram a descoberta de uma vacina. Eles anunciaram na Academia Francesa de Medicina. Foi verificado que o imunizante era eficaz contra o agravamento da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>E qual era a realidade brasileira naquela \u00e9poca?<br \/>\nA situa\u00e7\u00e3o era grave. Em 1900, foi criada, por m\u00e9dicos e intelectuais &#8211; principalmente do Rio de Janeiro &#8211; a Liga Brasileira contra a Tuberculose. Eles estavam preocupados com o alto \u00edndice de \u00f3bitos. O discurso, na \u00e9poca, era que o Brasil (que havia deixado de ser uma monarquia em 1889) estava entrando na modernidade e deveria abandonar o atraso do s\u00e9culo 19. Foi essa liga que depois se transformou na Funda\u00e7\u00e3o Ataulpho de Paiva (entidade filantr\u00f3pica at\u00e9 hoje respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o da vacina no Brasil).<\/p>\n<p>Onde ficavam as pessoas acometidas pela doen\u00e7a?<br \/>\nNaquele come\u00e7o de s\u00e9culo 20, foram criados dispens\u00e1rios &#8211; um em 1902 e outro em 1911. Existia um trip\u00e9 para o atendimento: o sanat\u00f3rio (lugar para ter repouso, higiene e alimenta\u00e7\u00e3o), o dispens\u00e1rio (ambulat\u00f3rio com tratamento m\u00e9dico) e o prevent\u00f3rio (lugar onde ficavam os filhos dos tuberculosos, onde as crian\u00e7as tinham at\u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o dos seus estudos). Existiam tentativas de criar setores separados dentro dos hospitais para quem tivesse com a tuberculose. As Santas Casas tinham essa iniciativa, por exemplo. Mas os \u00f3bitos continuaram altos.<\/p>\n<p>E como se deu o desenvolvimento da vacina aqui no pa\u00eds?<br \/>\nO pesquisador Arlindo de Assis, que era o cientista que trabalhava no Instituto Vital Brazil, recebeu a cepa inativada do v\u00edrus de um pesquisador uruguaio, para poder para desenvolver a vacina no Brasil. Isso ocorreu em 1925. Ele come\u00e7ou a desenvolver a vacina e fez uma articula\u00e7\u00e3o com a Liga Brasileira contra a Tuberculose, que era presidida por Ataupho de Paiva. A entidade resolveu assumir a aplica\u00e7\u00e3o das vacinas nos dispens\u00e1rios e nas escolas. O Arlindo de Assis, ent\u00e3o, se transferiu para a entidade e passou a produzir a vacina BCG. A Liga entendeu que a prioridade deveria ser crian\u00e7as e estudantes. Com a cria\u00e7\u00e3o do Departamento de Sa\u00fade P\u00fablica, passou a existir uma pol\u00edtica p\u00fablica com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tuberculose. Foram produzidos cartazes. Na \u00e9poca, ainda eram realizadas cirurgias muito doloridas para tentar resolver a tuberculose, chamadas de pneumot\u00f3rax. N\u00e3o era tratamento simples.<\/p>\n<p>Por que a doen\u00e7a matava tanta gente?<br \/>\nAs principais v\u00edtimas da doen\u00e7a s\u00e3o pessoas com sistema imunol\u00f3gico comprometido. As rela\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de trabalho daquele in\u00edcio de s\u00e9culo 20 tamb\u00e9m agravavam a situa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, condi\u00e7\u00f5es de moradia tamb\u00e9m interferem para a dissemina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. Ao longo do s\u00e9culo, houve melhora nas condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho. Em 1942, tivemos o primeiro rem\u00e9dio antibi\u00f3tico para tratamento. Quatro anos depois, o Estado criou uma campanha nacional de combate \u00e0 tuberculose e tamb\u00e9m de vacina\u00e7\u00e3o. Tinha or\u00e7amento, por exemplo, para criar sanat\u00f3rios nas v\u00e1rias capitais brasileiras. Ainda na d\u00e9cada de 1940, decretos legislativos passaram a obrigar a vacina\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>E hoje, as fam\u00edlias podem solicitar a BCG assim que a crian\u00e7a nasce&#8230;<br \/>\nEssa \u00e9 uma conquista. Desde 1976, existe essa obrigatoriedade. Todas as maternidades aplicam vacina BCG nas crian\u00e7as rec\u00e9m-nascidas. O imunizante n\u00e3o impede 100% de se infectar com o bacilo, mas faz com que uma eventual evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a ocorra de forma menos grave, como ocorre com as vacinas contra a covid de hoje em dia tamb\u00e9m. A vacina \u00e9 indicada para crian\u00e7as de 0 a 4 anos (de acordo com a Portaria n\u00ba 452, de 6 de dezembro de 1976, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o imunizante \u00e9 obrigat\u00f3rio para menores de um ano).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os versos n\u00e3o eram o rem\u00e9dio, mas o desabafo: &#8220;Eu sei que vou morrer&#8230; dentro do meu peito \/um mal terr\u00edvel me devora a vida&#8221;. Em 6 de julho de 1871, Castro Alves, de apenas 24 anos, sucumbiu \u00e0 tuberculose. 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