{"id":260992,"date":"2021-07-02T10:41:43","date_gmt":"2021-07-02T13:41:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=260992"},"modified":"2021-07-02T10:41:43","modified_gmt":"2021-07-02T13:41:43","slug":"disse-me-disse-do-cabo-enrolado-provoca-uma-lambanca-geral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/disse-me-disse-do-cabo-enrolado-provoca-uma-lambanca-geral\/","title":{"rendered":"Disse-me-disse do cabo enrolado provoca uma lamban\u00e7a geral"},"content":{"rendered":"<p>O depoimento do cabo da Pol\u00edcia Militar de Minas Gerais Luiz Paulo Dominghetti Pereira, que foi ouvido como representante da empresa estadunidense Davati Medical Supply, aos senadores da Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) da Covid, nesta quinta-feira (1\u00ba), deixou mais pontas soltas do que respostas.<\/p>\n<p>A sess\u00e3o foi uma das mais tumultuadas desde o in\u00edcio dos trabalhos, instalados no dia 27 de abril. Foram pelo menos tr\u00eas os pedidos de pris\u00e3o do depoente, vindos de senadores da base do governo e da oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O telefone celular de Dominghetti foi apreendido para per\u00edcia j\u00e1 durante seu depoimento, e ali mesmo passou por uma an\u00e1lise preliminar, que constatou que um \u00e1udio que havia sido oferecido como prova durante a oitiva \u2013 envolvendo denunciante de suposta fraude na compra de vacinas da Covaxin \u2013 tinha sido previamente editado.<\/p>\n<p>Ao final, o senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI, disse que n\u00e3o mandaria prender o cabo em respeito \u00e0 familia dele, n\u00e3o sem antes ter lhe dito que \u201cchap\u00e9u de ot\u00e1rio \u00e9 marreta\u201d. Veja, abaixo, os principais pontos levantados pelo depoimento de Luiz Paulo Dominghetti Pereira, grande parte deixada sem resposta.<\/p>\n<p><strong>Propina de US$ 1<\/strong><br \/>\nDominghetti confirmou o que disse ao jornal Folha de S.Paulo, que Roberto Ferreira Dias, ex-diretor de Log\u00edstica do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, cobrou uma propina de US$ 1 por dose de vacina, durante a negocia\u00e7\u00e3o de 400 milh\u00f5es de unidades do imunizante produzido pelo laborat\u00f3rio brit\u00e2nico AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford. O valor apresentado por Dominghetti teria sido de US$ 3,50 por dose. Com a propina, Dias sugeriu que ele cobrasse US$ 4,50 por dose.<\/p>\n<p>\u201cEle sempre colocou que se o valor n\u00e3o fosse majorado, n\u00e3o haveria contrato\u201d, disse Dominghetti em rela\u00e7\u00e3o ao comportamento de Roberto Ferreira Dias. \u201cQuando eu disse n\u00e3o [ao pedido de propina], veio a surpresa do outro lado\u201d, afirmou sobre a rea\u00e7\u00e3o do coronel Marcelo Blanco e de Roberto Ferreira Dias.<\/p>\n<p>O caso foi primeiro noticiado pela Folha de S. Paulo, na \u00faltima ter\u00e7a-feira (29). No mesmo dia, Dias foi exonerado do cargo. J\u00e1 o citado tenente-coronel Marcelo Blanco segue como assessor do Departamento de Log\u00edstica do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Ele tamb\u00e9m teria participado das tratativas para a negociata, como parte do Minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Aos senadores, Dominghetti afirmou que o pedido de propina foi feito, no dia 25 de fevereiro, durante um jantar no restaurante Vasto, no Bras\u00edlia Shopping. Com Dias, estavam presentes o coronel Marcelo Blanco e supostamente o coronel Alexandre Martinelli Cerqueira, ex-subsecret\u00e1rio de Assuntos Administrativos do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Segundo o presidente da CPI, Omar Aziz (PSC-AM), Blanco confirmou que houve o jantar.<\/p>\n<p>J\u00e1 Alexandre Martinelli Cerqueira era pessoa que o depoente n\u00e3o sabia dizer o nome, mas, ao ser confrontado com uma foto do militar com cargo no governo, o reconheceu, dizendo que \u201clhe parecia ser ele\u201d. O cabo disse ainda que Blanco j\u00e1 vinha conversando diretamente com a empresa Davati, por meio de outro representante da companhia no Brasil, Cristiano Alberto Carvalho, ao lado de Roberto Ferreira Dias.<\/p>\n<p>O presidente da Davati, Herman C\u00e1rdenas, afirmou que incluiu o nome de Luiz Paulo Dominghetti Pereira nas comunica\u00e7\u00f5es com o governo brasileiro \u201ca pedido\u201d, mas n\u00e3o detalhou de quem. \u201cInclu\u00edmos o nome do Sr. Dominghetti no FCO (oferta) que apresentamos ao governo brasileiro porque nos pediram e presumimos que ele fosse representante deles\u201d, disse C\u00e1rdenas, por e-mail.<\/p>\n<p>Dominghetti afirma que n\u00e3o aceitou o pedido de propina e, posteriormente, levou a proposta de negocia\u00e7\u00e3o diretamente ao ex-secret\u00e1rio executivo do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, \u00c9lcio Franco. \u201cA reuni\u00e3o com Roberto Ferreira Dias foi infrut\u00edfera\u201d, afirmou Dominghetti, que partiu para segunda reuni\u00e3o. Nesse segundo encontro, \u00c9lcio Franco afirmou que iria verificar a veracidade da proposta.<\/p>\n<p>O representante Dominghetti foi apresentado a \u00c9lcio Franco por Lauricio Monteiro Cruz, servidor do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, que, por sua vez, foi apresentado ao policial militar por um reverendo, identificado apenas como \u201cHamilton\u201d, que seria da ONG Secretaria Nacional de Assuntos Religiosos (SENAH), sediada em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>Davati e a propina<\/strong><br \/>\nSobre a propina, Dominghetti afirmou que comunicou o caso ao representante da empresa Davati Medical Supply no Brasil, Cristiano Alberto Carvalho, e a um coronel reformado da PM de Minas Gerais (chamado de \u201cRomualdo\u201d), que teria levado a den\u00fancia ao deputado federal Cabo Junio Amaral (PSL-MG).<\/p>\n<p>Procurado pela Pol\u00edcia Legislativa, o restaurante Vasto informou que n\u00e3o tem mais as grava\u00e7\u00f5es das c\u00e2meras de seguran\u00e7a do dia 25 de fevereiro (data do suposto encontro), a mesma coisa que disse o shopping. \u201cN\u00e3o temos mais a grava\u00e7\u00e3o. J\u00e1 se passaram quatro meses. O equipamento registra 30 dias\u201d, informou a assessoria de imprensa do Bras\u00edlia Shopping a um \u00f3rg\u00e3o de imprensa.<\/p>\n<p>Do emaranhado de nomes e conversas trazidos pelo depoente desta quinta, um deles tem liga\u00e7\u00e3o com os fatos j\u00e1 sob investiga\u00e7\u00e3o da CPI. O servidor Roberto Ferreira Dias foi indicado ao cargo na Sa\u00fade pelo l\u00edder do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) na C\u00e2mara, Ricardo Barros (PP-PR)<\/p>\n<p>O parlamentar est\u00e1 no centro da den\u00fancia do deputado federal Lu\u00eds Miranda (DEM-DF), de um esquema de fraude na negocia\u00e7\u00e3o para a compra de 20 milh\u00f5es de doses do imunizante Covaxin, envolvendo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e a empresa brasileira Precisa Medicamentos, que seria a respons\u00e1vel pela venda da vacina no Brasil, produzida pelo laborat\u00f3rio indiano Bharat Biotech, e que seria comprada com desvio de recursos via superfaturamento pela Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>Marcelo Blanco, Alexandre Martinelli Cerqueira, \u00c9lcio Franco e Eduardo Pazuello, que estava \u00e0 frente do Minist\u00e9rio na \u00e9poca do caso relatado, s\u00e3o todos militares. Com o advento do governo Bolsonaro, mais de 6,3 mil militares ocupam cargos na administra\u00e7\u00e3o civil federal brasileira atualmente.<\/p>\n<p><strong>Rela\u00e7\u00f5es contratuais<\/strong><br \/>\nDominghetti afirmou que n\u00e3o tem nenhuma rela\u00e7\u00e3o contratual com a Davati. \u201cHavia um acordo de cavalheiros, at\u00e9 porque eu sou funcion\u00e1rio p\u00fablico e n\u00e3o posso assinar contrato\u201d, afirmou o policial militar. Em outro momento de sua oitiva, ele disse que jamais revelava ser cabo da PM de Minas Gerais quando atuava como representante comercial de empresas farmac\u00eauticas.<\/p>\n<p>Em um e-mail endere\u00e7ado a Roberto Ferreira Dias, Herman C\u00e1rdenas, presidente da Davati Medical Supply, cita Dominghetti como um intermediador entre a empresa e o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Segundo o policial militar, a autoriza\u00e7\u00e3o para fazer a intermedia\u00e7\u00e3o foi dada pelo pr\u00f3prio C\u00e1rdenas. Tamb\u00e9m foi C\u00e1rdenas que determinou a quantidade de 400 milh\u00f5es de doses para a negocia\u00e7\u00e3o, segundo o policial e representante de empresas de medicamentos.<\/p>\n<p>J\u00e1 o laborat\u00f3rio brit\u00e2nico AstraZeneca publicou que todas as negocia\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas diretamente \u201cpor meio de acordos firmados com governos e organiza\u00e7\u00f5es multilaterais ao redor do mundo, incluindo da Covax Facility, n\u00e3o sendo poss\u00edvel disponibilizar vacinas para o mercado privado ou para governos municipais e estaduais no Brasil\u201d. Tamb\u00e9m negou que tenha qualquer rela\u00e7\u00e3o contratual com a empresa Davati Medical Supply, sediada no Texas.<\/p>\n<p>O \u00fanico contrato da AstraZeneca estabelecido com o Brasil foi feito por meio da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), nos dias 8 e 9 de setembro de 2020. \u201cNesta quarta-feira (9), a Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz) assinou o contrato de Encomenda Tecnol\u00f3gica (Etec) com a AstraZeneca, que det\u00e9m os direitos de produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o da vacina Covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford\u201d, publicou a pr\u00f3pria Casa Civil, \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>Davati e suspeitas no Canad\u00e1<\/strong><br \/>\nNo in\u00edcio do ano, a Davati Medical Supply tentou vender seis milh\u00f5es de doses do imunizante da AstraZeneca a grupos ind\u00edgenas do Canad\u00e1, tamb\u00e9m a US$ 3,50 por dose, mas o neg\u00f3cio n\u00e3o foi para a frente e gerou den\u00fanicas de fraude e tentativa de golpe. Entre os insumos e medicamentos apresentados pelo portf\u00f3lio da empresa, n\u00e3o se encontra a vacina da AstraZeneca, como destacou o senador Eduardo Braga (MDB-AM), durante o depoimento de Dominghetti.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, a Davati Medical Supply nunca havia feito qualquer negocia\u00e7\u00e3o com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. \u201cQuem trouxe a Davati ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade fui eu\u201d, afirmou o cabo Dominghetti, que desconhece qualquer rela\u00e7\u00e3o da empresa com a pasta anterior \u00e0 sua intermedia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Cavalo de Troia<\/strong><br \/>\nEm determinado momento do depoimento, ao ser questionado se algum parlamentar tinha rela\u00e7\u00e3o de negocia\u00e7\u00e3o de vacinas com a Davati Medical Supply, Dominghetti afirmou que o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) procurou o representante da empresa Davati Medical Supply no Brasil, Cristiano Alberto Carvalho, para negociar a compra de doses.<\/p>\n<p>Foi quando Dominghetti reproduziu um \u00e1udio em que Miranda conversa com Cristiano Carvalho sobre a negocia\u00e7\u00e3o de produtos, enviado pelo pr\u00f3prio representante da Davati (Carvalho) ao policial militar.<\/p>\n<p>Na conversa, fala-se de negocia\u00e7\u00f5es de compra e venda de produtos relacionados ao campo da sa\u00fade, mas n\u00e3o fica claro quais produtos s\u00e3o esses. O depoente deu a entender se tratar de tratativas para aquisi\u00e7\u00e3o de vacinas, mas ressalvou: \u201cSenti que Cristiano e o deputado Luis Miranda teriam algumas tratativas comerciais, mas o que foram, somente o Cristiano [Alberto Carvalho] pode elucidar\u201d.<\/p>\n<p>Paralelamente, em entrevista coletiva tamb\u00e9m concedida durante o depoimento desta quinta, Luis Miranda afirmou que o \u00e1udio apresentado por Dominghetti est\u00e1 editado, data de 2020 e se refere a uma rela\u00e7\u00e3o comercial para compra e venda de luvas.<\/p>\n<p>\u201cTenho o \u00e1udio aqui. Vou disponibilizar daqui a pouco um reconhecimento da conversa e da data. Eles querem ocultar algo muito grave! Ele [Dominghetti] est\u00e1 plantado a\u00ed dentro. Cavalo de Troia\u201d, afirmou o deputado. O parlamentar tamb\u00e9m pediu que a CPI desse voz de pris\u00e3o ao depoente.<\/p>\n<p>A tese de que Dominghetti foi \u201cplantado\u201d na CPI para deslegitimar o depoimento de Luis Miranda foi defendida por diversos senadores da comiss\u00e3o, e tamb\u00e9m muito debatida durante toda a tarde nas redes sociais.<\/p>\n<p>De acordo com a teoria, o cabo \u2013 que j\u00e1 publicou em suas redes postagens em apoio ao presidente da Rep\u00fablica, que j\u00e1 trabalhou na assessoria do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e cujo pai mant\u00e9m um blog de apoio a Bolsonaro \u2013 teria sido \u201cplantado\u201d por bolsonaristas como depoente por meio de den\u00fancias contra o governo que n\u00e3o podem ser provadas, para com isso ganhar a oportunidade de tirar cr\u00e9dito do deputado Miranda, que denunciou o suposto esquema de fraude da Covaxin.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese tamb\u00e9m foi alimentada pela falta de rela\u00e7\u00f5es contratuais entre Dominghetti, Davati e AstraZeneca. A partir da incongru\u00eancia apresentada pelo depoente, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSC-AM), apreendeu o celular do policial militar para ser inspecionado pela Pol\u00edcia Legislativa.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a constata\u00e7\u00e3o de que se tratava de \u00e1udio editado para dar a entender que as conversas sobre um assunto se referiam a outro, Dominghetti afirmou que n\u00e3o sabia da adultera\u00e7\u00e3o do material enviado por Carvalho. Neste ponto, o pr\u00f3prio senador Aziz amea\u00e7ou dar voz de pris\u00e3o em flagrante ao depoente por levar provas falsas \u00e0 CPI, do que acabou por voltar atr\u00e1s posteriormente.<\/p>\n<p>Dominghetti \u00e9 policial militar de Minas Gerais h\u00e1 21 anos e trabalha como vendedor aut\u00f4nomo de medicamentos h\u00e1 pelo menos um ano e meio, com o objetivo de complementar a renda. Como intermediador de negocia\u00e7\u00e3o de vacinas, come\u00e7ou a atuar a partir deste ano. Ele tamb\u00e9m teria atuado na negocia\u00e7\u00e3o de outras vacinas para estados e munic\u00edpios. A lei pro\u00edbe que policiais militares mantenham atividades profissionais paralelas, fora da corpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na negocia\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o, seu rendimento seria de tr\u00eas a cinco \u201ccents\u201d (centavos de d\u00f3lar) por dose vendida. Com a venda de 400 milh\u00f5es de doses, Dominghetti ganharia US$ 12 milh\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O depoimento do cabo da Pol\u00edcia Militar de Minas Gerais Luiz Paulo Dominghetti Pereira, que foi ouvido como representante da empresa estadunidense Davati Medical Supply, aos senadores da Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) da Covid, nesta quinta-feira (1\u00ba), deixou mais pontas soltas do que respostas. 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