{"id":261140,"date":"2021-07-03T10:33:55","date_gmt":"2021-07-03T13:33:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=261140"},"modified":"2021-07-03T12:06:04","modified_gmt":"2021-07-03T15:06:04","slug":"sem-teto-da-pandemia-sao-mais-invisiveis-que-o-virus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sem-teto-da-pandemia-sao-mais-invisiveis-que-o-virus\/","title":{"rendered":"Sem-teto da pandemia s\u00e3o mais invis\u00edveis que o v\u00edrus"},"content":{"rendered":"<p>Dois panos brancos amarrados nos galhos das \u00e1rvores que ficam num canteiro da avenida Carlos Caldeira Filho, regi\u00e3o do Cap\u00e3o Redondo, zona sul de S\u00e3o Paulo, chamam aten\u00e7\u00e3o dos motoristas e pedestres que circulam pelo local. Por\u00e9m, se a passagem for ligeira e desatenta, dificilmente ser\u00e1 notada a presen\u00e7a de um barraco pequeno no fundo do canteiro. Ali, desde novembro de 2020, vive Severino Carlos Pereira, 50 anos, trabalhador aut\u00f4nomo e conhecido como \u201cPernambuco\u201d, por conta da sua origem: o munic\u00edpio de Macaparana, a 120 quil\u00f4metros do Recife. Foi ele quem pendurou as bandeiras brancas \u201cpara chamar a aten\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cToda ajuda \u00e9 bem-vinda\u201d, diz.<\/p>\n<p>Severino faz parte de um n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua ainda n\u00e3o contabilizadas pela prefeitura de S\u00e3o Paulo. O \u00faltimo levantamento censit\u00e1rio, realizado em 2019, apontou que 24.344 mun\u00edcipes estavam vivendo nas ruas da cidade, sendo 11.693 acolhidos na rede socioassistencial e 12.651 em vias p\u00fablicas. Mas, com o aumento do desemprego na pandemia, movimentos sociais alertam que esse n\u00famero cresceu e continua aumentando.<\/p>\n<p>Para Darcy Costa, coordenador do Movimento Nacional de Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua, o dado de 2019\u00a0 est\u00e1 muito defasado. \u201cNa \u00e9poca [2019], a gente j\u00e1 tinha uma contradi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 contagem que o Ipea [Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada] fez, que era um n\u00famero maior que esse levantado pela pesquisa da prefeitura. O deles [Ipea] apontou 32 mil pessoas e o Cad\u00danico, do governo federal, 33 mil pessoas cadastradas como popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua\u201d, comenta.<\/p>\n<p>Uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o para a diferen\u00e7a, segundo Costa, foi a metodologia utilizada para aplica\u00e7\u00e3o da pesquisa realizada pela empresa Qualitest Ci\u00eancia e Tecnologia Ltda., contratada pela Prefeitura de S\u00e3o Paulo na \u00e9poca. \u201cAs pessoas que vivem em barracas [de camping] ou barracos n\u00e3o foram contabilizadas. Isso teve impacto e pode ter gerado subnotifica\u00e7\u00e3o nos n\u00fameros.\u201d A altera\u00e7\u00e3o na rotina da popula\u00e7\u00e3o que vive em situa\u00e7\u00e3o de rua tamb\u00e9m \u00e9 apontada por ele como o poss\u00edvel motivo de baixa nos registros municipais.<\/p>\n<p>\u201cNa noite que os pesquisadores iam para o territ\u00f3rio, a GCM [Guarda Civil Metropolitana] estava fazendo a dispers\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Isso ocorreu na Cracol\u00e2ndia. No mesmo dia que os pesquisadores estavam l\u00e1 houve uma higieniza\u00e7\u00e3o. Essas higieniza\u00e7\u00f5es retiram as pessoas dos lugares e mandam para outros. Isso prejudica no momento de fazer a contagem. A gente teve v\u00e1rios relatos, dos pr\u00f3prios pesquisadores, nesse sentido. E a gente acredita que esse \u00e9 um dos motivos que comprometeu o resultado da pesquisa\u201d, considera.<\/p>\n<p>A reportagem entrou em contato com a Qualitest para esclarecer as informa\u00e7\u00f5es sobre a metodologia aplicada e o porqu\u00ea do n\u00famero ser bem abaixo do Cad\u00danico e do Ipea. A empresa informou que \u201cqualquer explica\u00e7\u00e3o sobre a pesquisa s\u00f3 pode ser fornecida pela prefeitura\u201d e respondeu que \u201cos dados n\u00e3o podem ser comparados com o Censo de Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua do munic\u00edpio por terem objetivos e metodologias de coleta de informa\u00e7\u00f5es diferentes\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Darcy, as diverg\u00eancias nos dados prejudicam a\u00e7\u00f5es de assist\u00eancia para essas popula\u00e7\u00f5es porque as informa\u00e7\u00f5es d\u00e3o \u201csubs\u00eddio para implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas mais assertivas\u201d. \u201cO que a gente nota \u00e9 que a pol\u00edtica, para quem est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de rua,\u00a0 \u00e9 higienista. N\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica de inclus\u00e3o, de integra\u00e7\u00e3o e do sujeito\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Embora a Prefeitura de S\u00e3o Paulo n\u00e3o confirme o aumento no n\u00famero de pessoas nas ruas durante a pandemia, a Secretaria Municipal de Assist\u00eancia e Desenvolvimento Social (SMADS) criou 2.159 vagas espalhadas em Centros Educacionais Unificados (CEUs), centros de acolhida e hot\u00e9is, entre outros espa\u00e7os. A prefeitura informou para a reportagem que\u00a0 decidiu antecipar o Censo da Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua para o pr\u00f3ximo semestre, em decorr\u00eancia da crise de sa\u00fade.<\/p>\n<p>No \u00faltimo domingo, a prefeitura de S\u00e3o Paulo informou que reservar\u00e1 14 mil das 114 mil doses da vacina da Jansen, contra a covid-19, para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua com o objetivo de alcan\u00e7ar os n\u00e3o cadastrados em centros de acolhida. Segundo o poder p\u00fablico, 21.754 doses foram aplicadas no p\u00fablico cadastrado desde fevereiro.<\/p>\n<p>No pa\u00eds, de acordo com o \u00faltimo levantamento nacional do Ipea, entre setembro de 2012 e mar\u00e7o de 2020, a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua aumentou 140%, chegando a quase 222 mil pessoas sem moradia. Em junho de 2020, o Ipea publicou o estudo \u201cPopula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua em Tempos de Pandemia\u201d, com um levantamento de medidas municipais emergenciais. O documento j\u00e1 alertava gestores p\u00fablicos para o \u201caumento da popula\u00e7\u00e3o de rua durante a pandemia por conta da desocupa\u00e7\u00e3o crescente e mais intensa devido ao desaquecimento da economia no curto e m\u00e9dio prazo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Um viaduto como teto<\/strong><br \/>\nAtualmente 13 fam\u00edlias, cerca de 30 pessoas, est\u00e3o vivendo debaixo do viaduto Bandeirantes, regi\u00e3o de Moema, bairro com o maior \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) de S\u00e3o Paulo \u2013 \u00e0 frente de Pinheiros, Perdizes, Jardins e Alto de Pinheiros. Pelo menos cinco fam\u00edlias chegaram durante a pandemia. Elas vivem na melhor regi\u00e3o para morar na cidade, mas n\u00e3o nas mesmas condi\u00e7\u00f5es de quem est\u00e1 dentro das casas enormes e de apartamentos confort\u00e1veis e luxuosos.<\/p>\n<p>A moradora mais antiga, Luzia Souza dos Santos, 57 anos, conta que, depois que a pandemia come\u00e7ou, nove fam\u00edlias passaram a viver no lugar; antes eram quatro. \u201cAqui chega fam\u00edlia passando fome mesmo. Pessoas desesperadas, chorando por causa que perdeu emprego e n\u00e3o consegue morar de aluguel. Pessoas que voc\u00ea v\u00ea que n\u00e3o est\u00e3o na rua porque querem. S\u00e3o fam\u00edlias passando necessidades. \u00c9 terr\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>Morando sob o viaduto h\u00e1 sete meses, Daniele Santos, 30 anos, teve que entregar a casa de tr\u00eas c\u00f4modos em que morava com os dois filhos, porque n\u00e3o teve como pagar os R$ 800 de aluguel depois que ficou desempregada. \u201cEu trabalhava com alimenta\u00e7\u00e3o no quiosque de um shopping. Acabou fechando por conta da pandemia e os funcion\u00e1rios recentes foram mandados embora, e eu estava nesse meio.\u201d<\/p>\n<p>Daniele conta que desde quando saiu da casa dos pais sempre conseguiu pagar as contas, que o aluguel era prioridade \u2013 mesmo com as dificuldades financeiras do cotidiano. \u201cEu j\u00e1 cheguei a passar por situa\u00e7\u00f5es financeiras bem complicadas, mas para chegar a ter que ir pra rua foi a primeira vez.\u201d Estar com os filhos nesse contexto \u00e9 o que a tem preocupado. \u201cN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil voc\u00ea morar na rua com duas crian\u00e7as. A gente pode at\u00e9 perder a guarda por conta disso. Mas meus filhos est\u00e3o comigo. Passe o que passar a gente est\u00e1 junto. S\u00f3 sei que fiz de tudo para a gente n\u00e3o chegar nessa situa\u00e7\u00e3o. Eu reconhe\u00e7o que n\u00e3o est\u00e1 sendo f\u00e1cil pra muita gente. Eu n\u00e3o tenho problema nenhum em dizer que estou morando na rua. \u00c9 s\u00f3 uma fase\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>Para Ana Paula da Cruz, 27 anos, que mora h\u00e1 um ano num barraco com dois filhos e o marido embaixo do mesmo viaduto, se adaptar \u00e0 nova realidade tem sido dif\u00edcil. Antes de ter o viaduto como teto, Paula e a fam\u00edlia pagavam R$ 550 no aluguel de dois c\u00f4modos numa favela pr\u00f3xima ao Aeroporto de Congonhas. No terceiro m\u00eas de pandemia ficou desempregada e, como era a \u00fanica que estava trabalhando, e sem conseguir o aux\u00edlio emergencial, teve que entregar a casa.<\/p>\n<p>Assim como Daniele, \u00e9 a primeira vez que Ana Paula passa pela experi\u00eancia de morar na rua. \u201cA gente pagava aluguel na favela porque era mais barato e sempre pagamos em dia. S\u00f3 que do nada as coisas foram mudando muito r\u00e1pido e quando eu vi que n\u00e3o tinha mais jeito, que a solu\u00e7\u00e3o era morar na rua. Chorei bastante. Caiu a ficha quando eu estava aqui. Quando a nossa rotina mudou.\u201d Sem emprego fixo, Ana Paula e o marido conseguem cerca de R$ 150 por m\u00eas com a venda da coleta de material recicl\u00e1vel e de balas no farol para \u201cpelo menos, conseguir o dinheiro de uma marmita\u201d, relata.<\/p>\n<p><strong>Da periferia ao centro<\/strong><br \/>\nDarcy Costa diz que o Movimento Nacional da Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua\u00a0 vem notando tamb\u00e9m um \u201caumento da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua nas periferias\u201d. \u201cS\u00e3o as regi\u00f5es que menos a pol\u00edtica de fato alcan\u00e7a. Porque elas est\u00e3o mais afastadas, mas a gente sabe que h\u00e1 um n\u00famero crescente dessa popula\u00e7\u00e3o nas bordas da cidade\u201d, diz.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2020, quando a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) elevou a Covid-19 ao status de pandemia, Severino trabalhava vendendo \u00e1gua na esta\u00e7\u00e3o do metr\u00f4 Cap\u00e3o Redondo, na periferia de S\u00e3o Paulo. Com as medidas de restri\u00e7\u00e3o adotadas pelo munic\u00edpio, viu repentinamente a circula\u00e7\u00e3o de passageiros diminuir e, por consequ\u00eancia, a renda tamb\u00e9m. \u201cEu vendia 18 pacotes de \u00e1gua por dia. O movimento foi caindo tanto que passei a vender no m\u00e1ximo dois pacotes. Fiquei quase dois meses vendendo s\u00f3 essa quantidade. O que eu estava recebendo s\u00f3 dava para comer no Bom Prato [restaurante popular que comercializa refei\u00e7\u00f5es a pre\u00e7os acess\u00edveis \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de baixa renda]\u201d, conta.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era apenas com a alimenta\u00e7\u00e3o. O aluguel angustiava Severino, que, sem conseguir gerar renda, recorreu ao aux\u00edlio emergencial para quitar os R$ 450 dos dois c\u00f4modos em que morava. \u201cDesses R$ 600 eu pagava o aluguel, a \u00e1gua e a energia. N\u00e3o sobrava nem R$ 100 para comer. Mas, quando [o aux\u00edlio] diminuiu pela metade, a\u00ed me apertou de vez. Tentei voltar a vender \u00e1gua e chocolate para completar o dinheiro do aluguel, mas o \u2018rapa\u2019\u00a0 [equipe da prefeitura que apreende os produtos comercializados nas ruas por vendedores irregulares] levou minha mercadoria e fiquei zerado\u201d, relembra. \u201cEu falei para ela [propriet\u00e1ria do im\u00f3vel] o que tinha acontecido e pedi para pagar o m\u00eas parcelado, mas ela n\u00e3o aceitou. Como eu n\u00e3o tinha como pagar, tive que deixar as minhas coisas. Sa\u00ed com a cama, o colch\u00e3o e a minha cachorrinha\u201d, conta.<\/p>\n<p>Com dificuldades de encontrar uma casa com o custo mais acess\u00edvel, Severino come\u00e7ou a procura por algum lugar que suportasse passar as noites com o m\u00ednimo de seguran\u00e7a. Nas andan\u00e7as, se deparou com um canteiro no bairro do Cap\u00e3o Redondo, que fica perto do Parque Municipal Santo Dias, e resolveu se ajeitar por ali. Iniciou a limpeza do local, at\u00e9 ent\u00e3o utilizado para o descarte de entulho, e com o que lhe era \u00fatil come\u00e7ou a levantar um barraco pequeno, colocou a cama de solteiro dentro, algumas roupas, e passou a viver ali com a sua cachorrinha que chama de Negrinha.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s algumas semanas de perman\u00eancia no canteiro, a prefeitura fez uma a\u00e7\u00e3o de remo\u00e7\u00e3o e limpeza urbana na \u00e1rea e desmanchou o pouco que o novo morador havia constru\u00eddo. \u201cEles chegaram com um caminh\u00e3o, levaram as minhas coisas\u201d, descreve. Ap\u00f3s a sa\u00edda dos agentes p\u00fablicos e sem ter para onde ir, Severino come\u00e7ou a juntar o resto das madeiras e telhas que ficaram para tr\u00e1s e levantou o barraco novamente. Desde ent\u00e3o, segue morando no local.<\/p>\n<p>Para resguardar o lugar, ele limpou toda a \u00e1rea, plantou \u00e1rvores e fez um jardim. Com uma doa\u00e7\u00e3o de cal, pintou de branco o muro do entorno e pregou diversas cartolinas pedindo respeito \u00e0 natureza e \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente. Diariamente tem feito a zeladoria do espa\u00e7o e agora se orgulha de ter conseguido mudar a forma como as pessoas que circulam ali viam o terreno. \u201cAqui tinha muito lixo, era escuro, sujo. O pessoal tinha medo de andar por conta de assaltos, mas agora fazem quest\u00e3o de passar deste lado da rua. Antes, todo mundo atravessava\u201d, relata.<\/p>\n<p>Na estrutura em que Severino vive, n\u00e3o h\u00e1 como cozinhar e tomar banho. Para comer, ele depende das doa\u00e7\u00f5es de pessoas que passam diariamente pelo terreno. \u201cHoje eu estou dependendo do \u2018bandeco\u2019 [marmitex] dos outros. Dependo de algu\u00e9m que para e me d\u00e1 R$ 1, a\u00ed eu vou l\u00e1 no Bom Prato pra comer. Mas \u00e9 sofrido.\u201d Para manter a higiene pessoal, ele toma banho numa mina de \u00e1gua que descobriu pr\u00f3ximo ao terreno. \u201cMeu irm\u00e3o, essa mina \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o. Eu estava agoniado, pensando onde eu ia conseguir me banhar, e um dia vi um cara passar molhado aqui na frente. Pensei que ele tinha tomado banho no c\u00f3rrego, mas ele disse que tinha um olho d\u2019\u00e1gua bem ali\u201d, relata.<\/p>\n<p>Separado da m\u00e3e dos cinco filhos h\u00e1 11 anos e com a maioria dos parentes fora de S\u00e3o Paulo, Severino tem passado por uma situa\u00e7\u00e3o que diz n\u00e3o desejar para ningu\u00e9m. H\u00e1 seis anos descobriu que tem um c\u00e2ncer na garganta e h\u00e1 tr\u00eas anos foi diagnosticado com trombose nas duas pernas, e, cada vez mais magro e com a sa\u00fade debilitada, n\u00e3o consegue trabalhar porque n\u00e3o aguenta ficar em p\u00e9 por muito tempo. \u201cIsso aqui d\u00f3i demais, d\u00f3i bastante. N\u00e3o t\u00f4 podendo caminhar por muito tempo e nem ficar em p\u00e9. Cada vez que fico em p\u00e9, o sangue n\u00e3o circula direito e esse n\u00f3dulo que tem aqui aumenta\u201d, diz ele, apontando para um caro\u00e7o do tamanho de uma ameixa atr\u00e1s de um dos joelhos.<\/p>\n<p>Para tratar das enfermidades, Severino precisa tomar 32 comprimidos por dia \u2013 16 no per\u00edodo da manh\u00e3 e 16 \u00e0 noite. Os medicamentos que n\u00e3o obt\u00e9m no posto de sa\u00fade, depende de doa\u00e7\u00e3o para consegui-los. Todos os dias, \u00e0s 8h da manh\u00e3, um dos filhos vai at\u00e9 o canteiro para deixar os comprimidos organizados e prontos para Severino. Por n\u00e3o ser alfabetizado, ele depende do filho para ler as embalagens dos rem\u00e9dios e separ\u00e1-los.<\/p>\n<p>Numa manh\u00e3, ap\u00f3s Severino ter tomado os medicamentos, pai e filho ficaram por um tempo conversando sobre diversos assuntos. Lembravam com certo saudosismo a \u00e9poca em que moravam juntos e \u201clotavam dois carrinhos de compras\u201d quando iam ao supermercado. \u201cNa \u00e9poca, eu tinha uma Bras\u00edlia. Com o peso das compras, o carro chegava em casa rebaixado. Eu comprava de tudo. N\u00e3o tinha mis\u00e9ria. A minha ex-mulher at\u00e9 brigava comigo, dizia que eu era muito exagerado, mas nunca deixei faltar nada em casa para os meus filhos. Disso eu tenho orgulho como pai. At\u00e9 hoje, at\u00e9 o que eu ganho aqui, divido com eles\u201d, conta Severino, enquanto coloca uma cesta b\u00e1sica no carrinho de cargas para o filho levar para casa.<\/p>\n<p>O local em que Severino est\u00e1 morando fica exatamente no final da avenida que passa pelo Cap\u00e3o Redondo, Vila Prel, Vila das Belezas e Vila Andrade. \u00c9 uma extens\u00e3o de seis quil\u00f4metros onde a reportagem contou 16 locais onde se agrupam pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua. Tamb\u00e9m h\u00e1 diversos pontos, mais distantes da via principal, que agrupam um n\u00famero desmedido de pessoas vivendo nas ruas, pra\u00e7as e porta de com\u00e9rcios. A P\u00fablica entrevistou uma assistente social que atua na regi\u00e3o, que preferiu n\u00e3o se identificar. Segundo ela, \u201cnos \u00faltimos tr\u00eas anos o n\u00famero de pessoas nas ruas vem aumentando. Mas, desde o in\u00edcio da pandemia, a situa\u00e7\u00e3o piorou consideravelmente\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAntigamente era raro a gente ver uma pessoa vivendo na rua aqui na periferia. Essa era uma quest\u00e3o do centro. Quando come\u00e7ou, a gente via mais usu\u00e1rios de drogas, mas agora tem de tudo: homens sozinhos, mulheres com filhos e muitas pessoas com problemas psicol\u00f3gicos. Nesta condi\u00e7\u00e3o, a gente tem visto bastante porque, na pandemia, as fam\u00edlias n\u00e3o conseguiram lidar com esses dist\u00farbios dentro de casa e ent\u00e3o \u2018colocaram\u2019 seus parentes pra fora. Se voc\u00ea andar por a\u00ed, vai ver que tem at\u00e9 fam\u00edlia na rua.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois panos brancos amarrados nos galhos das \u00e1rvores que ficam num canteiro da avenida Carlos Caldeira Filho, regi\u00e3o do Cap\u00e3o Redondo, zona sul de S\u00e3o Paulo, chamam aten\u00e7\u00e3o dos motoristas e pedestres que circulam pelo local. 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