{"id":261550,"date":"2021-07-06T09:17:22","date_gmt":"2021-07-06T12:17:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=261550"},"modified":"2021-07-06T09:17:22","modified_gmt":"2021-07-06T12:17:22","slug":"mudanca-climatica-e-amazonia-mexem-muito-com-a-conta-de-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mudanca-climatica-e-amazonia-mexem-muito-com-a-conta-de-luz\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7a clim\u00e1tica e Amaz\u00f4nia mexem muito com a conta de luz"},"content":{"rendered":"<p>Nesses tempos modernos, onde o homem brinca com a natureza em nome do desenvolvimento e do dinheiro no bolso, quem paga o pato da conta de luz alta, literalmente, \u00e9 o consumidor. N\u00e3o a ind\u00fastria, o com\u00e9rcio, porque esses repassam os custos reajustando seus produtos. Quem sofre mesmo \u00e9 a dona de casa, que precisa fazer ajustes, tentar consumir menos e, consequentemente, pagar uma taxa tarif\u00e1ria do tamanho permitido no seu or\u00e7amento.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que a derrubada recorde da floresta Amaz\u00f4nica e o processo de emerg\u00eancia clim\u00e1tica tem tudo a ver com o aumento na conta de luz previsto anunciado para julho e com sinaliza\u00e7\u00e3o de que vai continuar subindo. A bandeira extra \u00e9 cobrada quando existe um aumento nos custos da gera\u00e7\u00e3o de energia. O Brasil registrou no m\u00eas de junho recorde de queimadas na maior floresta tropical do mundo \u2014o que n\u00e3o surpreende tendo em vista as pol\u00edticas antiambientais do Governo Bolsonaro. E isso cria uma bomba rel\u00f3gio energ\u00e9tica com impactos no meio ambiente.<\/p>\n<p>Atualmente, a maior parte da energia utilizada no pa\u00eds (63,8%) \u00e9 gerada por hidrel\u00e9tricas. Mas os reservat\u00f3rios das usinas localizadas nas regi\u00f5es Sudeste e Centro-Oeste, respons\u00e1veis por mais de 70% da produ\u00e7\u00e3o, estavam operando com apenas 29% da capacidade no in\u00edcio de julho. O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, admitiu que o pa\u00eds vive uma crise h\u00eddrica \u2014a pior dos \u00faltimos 91 anos, segundo o Operador Nacional do Sistema El\u00e9trico (ONS), \u00f3rg\u00e3o que coordena e monitora a produ\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica no pa\u00eds. Segundo a entidade, \u201cnos \u00faltimos sete anos os reservat\u00f3rios das hidrel\u00e9tricas receberam um volume de \u00e1gua inferior \u00e0 m\u00e9dia hist\u00f3rica\u201d. O presidente Bolsonaro fez coro ao subordinado, e culpou a falta de sorte pelo problema: \u201cEstamos vivendo a maior crise hidrol\u00f3gica da hist\u00f3ria. Eletricidade. Vai ter dor de cabe\u00e7a. N\u00e3o chove, n\u00e9? \u00c9 a maior crise que se tem not\u00edcia. Demos mais um azar a\u00ed\u201d.<\/p>\n<p>O pa\u00eds ainda tem na mem\u00f3ria os apag\u00f5es ocorridos em 2001, quando enfrentou um quadro similar provocado por uma demanda maior que a oferta em meio a um cen\u00e1rio de seca, associado a problemas de infraestrutura na rede el\u00e9trica. Foi preciso reduzir em 20% o consumo nacional entre julho de 2001 e fevereiro de 2002, e para alcan\u00e7ar esta meta foram feitos cortes programados no fornecimento, buscando evitar o colapso em todo o Brasil, ao longo de um ano. O Governo, \u00e0 \u00e9poca presidido por Fernando Henrique Cardoso, perdeu boa parte da sua for\u00e7a, pois a redu\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica afetou a economia e o Brasil cresceu mirrados 1,51% em 2001 e 1,52% em 2002.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o com o passado mostra um norte do que pode acontecer ainda este ano, agravado pela eros\u00e3o do meio ambiente por fatores estruturais. \u201cO que est\u00e1 acontecendo \u00e9 que a hidrologia no Brasil est\u00e1 mudando h\u00e1 alguns anos, e isso \u00e9 fruto da mudan\u00e7a global do clima. A quest\u00e3o \u00e9 que o setor el\u00e9trico como um todo e tamb\u00e9m o Governo demoraram para assumir que esta mudan\u00e7a tem um grande impacto na forma de opera\u00e7\u00e3o de reservat\u00f3rios\u201d, afirma Roberto Kishinami, coordenador s\u00eanior do Instituto Clima e Sociedade. Ele aponta que os hidr\u00f3logos, \u201cembora tenham resistido por muitas d\u00e9cadas para assumir a mudan\u00e7a clim\u00e1tica como um fator no pa\u00eds, agora j\u00e1 se convenceram que a hidrologia est\u00e1 saindo do equil\u00edbrio\u201d. Este \u00e9 o \u201cnovo normal\u201d do setor el\u00e9trico brasileiro. Em entrevista ao jornal O Globo, o pr\u00f3prio diretor-geral do ONS, Luiz Carlos Ciocchi, disse que \u201cpara o setor el\u00e9trico caiu a ficha de que a gente deve considerar aquecimento global e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas dentro das nossas avalia\u00e7\u00f5es de an\u00e1lises\u201d.<\/p>\n<p>O desmatamento da Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m teria um impacto direto na quest\u00e3o da crise el\u00e9trica. \u201cO aquecimento global muda a din\u00e2mica do clima em todo o mundo, e o desmatamento da Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m age nesse sentido, mas mexe diretamente com os ciclos hidrol\u00f3gicos no pa\u00eds, que tanto depende deles para a gera\u00e7\u00e3o de energia, a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e abastecimento das cidades\u201d, afirma M\u00e1rcio Astrini, secret\u00e1rio-executivo do Observat\u00f3rio do Clima. A conta \u00e9 simples: ao destruir a floresta, altera-se a capacidade el\u00e9trica do pa\u00eds. De acordo com Astrini, \u201co desmatamento e o aquecimento global atuam juntos e se retroalimentam\u201d. Sem cobertura de mata no solo, a \u00e1gua tende a escoar para os rios mais rapidamente sem cumprir seu ciclo, de evaporar e formar os chamados rios voadores, nascidos na Amaz\u00f4nia mas que ajudam a abastecer reservat\u00f3rios nas regi\u00f5es Sudeste e Centro-Oeste. Al\u00e9m disso, as chuvas ficam mais concentradas em um per\u00edodo espec\u00edfico do ano, ampliando o per\u00edodo de seca e provocando enchentes na \u00e9poca \u00famida. Por fim, as queimadas tamb\u00e9m liberam na atmosfera gases do efeito estufa que aumentam o aquecimento global, fechando este ciclo vicioso.<\/p>\n<p>Com reservat\u00f3rios vazios, o Governo aposta na ativa\u00e7\u00e3o das usinas termel\u00e9tricas, mais caras e poluentes por utilizarem combust\u00edveis f\u00f3sseis para operar. S\u00e3o elas as respons\u00e1veis pela alta nas tarifas de energia. Como se n\u00e3o bastasse, elas tamb\u00e9m utilizam o que mais est\u00e1 faltando no momento: \u00e1gua. \u201cDurante o seu processo de resfriamento, estas usinas demandam, sozinhas, volumes t\u00e3o grandes de \u00e1gua que poderiam abastecer munic\u00edpios inteiros\u201d, diz Astrini. Assim, a produ\u00e7\u00e3o de energia ir\u00e1 disputar gota a gota a \u00e1gua usada na agricultura e no abastecimento das cidades. E isso ir\u00e1 pesar no bolso do brasileiro. Andr\u00e9 Braz, coordenador do \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor do Instituto Brasileiro de Economia da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (Ibre\/FGV), afirma que \u201cs\u00f3 por conta do reajuste da bandeira tarif\u00e1ria em 52%, o aumento m\u00e9dio na conta de luz ser\u00e1 de 8% em julho\u201d. Atualmente a conta de luz responde por 4,5% dos gastos residenciais.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso que vai fazer saltar o valor do boleto da luz: \u201cAlgumas concession\u00e1rias de energia ir\u00e3o rever a tarifa, como fazem anualmente. Ent\u00e3o o aumento total na conta ser\u00e1 maior ainda\u201d, diz Braz. Al\u00e9m disso, haver\u00e1 uma alta no custo de diversos produtos cuja cadeia de fabrica\u00e7\u00e3o depende do uso intensivo de energia, como autom\u00f3veis, constru\u00e7\u00e3o civil e mesmo o setor de alimentos processados e frigor\u00edficos, que repassar\u00e3o o aumento ao consumidor. \u201cIsso trar\u00e1 um aumento indireto no or\u00e7amento das fam\u00edlias, mas \u00e9 uma consequ\u00eancia do reajuste das tarifas\u201d, afirma. Com isso, ele projeta um impacto de 0,36 ponto percentual na infla\u00e7\u00e3o do per\u00edodo. \u201cQuando um servi\u00e7o essencial como energia sobe, os brasileiros precisar\u00e3o economizar em alguma ponta. Mas mesmo poupando, a conta vir\u00e1 mais cara, ent\u00e3o ser\u00e1 preciso deixar de consumir outros itens. Esta queda no consumo pode atrasar ainda mais o reaquecimento da economia neste momento de crise\u201d.<\/p>\n<p>Astrini, do Observat\u00f3rio do Clima, cita um relat\u00f3rio publicado em 2013 por pesquisadores ligados \u00e0 Secretaria de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, que apontava que nos pr\u00f3ximos anos o Brasil perderia cerca de 40% de sua capacidade de gera\u00e7\u00e3o de hidrel\u00e9tricas por causa do desmatamento e do aquecimento global. Curiosamente, no per\u00edodo da publica\u00e7\u00e3o o pa\u00eds vivia seu boom no setor, com a usina de Belo Monte rec\u00e9m inaugurada e outras como Jirau em constru\u00e7\u00e3o. Talvez por isso o relat\u00f3rio tenha ca\u00eddo no ostracismo. Ou seja, o problema j\u00e1 era conhecido h\u00e1 anos. Faltou agir.<\/p>\n<p>O que pode ser feito agora? \u201cUma op\u00e7\u00e3o mais l\u00f3gica e barata do que acionar as t\u00e9rmicas seria ter mais energia renov\u00e1vel entrando no sistema, principalmente e\u00f3lica e solar, atendendo diretamente ao consumo e garantindo que os reservat\u00f3rios fiquem mais cheios\u201d, diz Donato da Silva Filho, diretor da consultoria Volt Robotics. \u201cEnquanto o custo de 1gW por hora destas fontes energ\u00e9ticas \u00e9 de 20 d\u00f3lares [cerca de 100 reais] em m\u00e9dia, uma t\u00e9rmica dificilmente consegue entregar esse volume de energia por menos de 55 d\u00f3lares [aproximadamente 275 reais]\u201d, explica. Al\u00e9m disso, a implementa\u00e7\u00e3o destas usinas \u00e9 mais barata e r\u00e1pida. \u201cEnt\u00e3o este deveria ser o primeiro passo, uma etapa priorit\u00e1ria para o Governo: terminar os empreendimentos e\u00f3licos e solares que est\u00e3o em andamento e pr\u00f3ximos de sua conclus\u00e3o, e acelerar os que ainda n\u00e3o come\u00e7aram\u201d, afirma. Atualmente 156 usinas e\u00f3licas e 68 solares est\u00e3o em obras no pa\u00eds, de acordo com a Aneel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesses tempos modernos, onde o homem brinca com a natureza em nome do desenvolvimento e do dinheiro no bolso, quem paga o pato da conta de luz alta, literalmente, \u00e9 o consumidor. N\u00e3o a ind\u00fastria, o com\u00e9rcio, porque esses repassam os custos reajustando seus produtos. Quem sofre mesmo \u00e9 a dona de casa, que precisa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":261551,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-261550","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261550","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=261550"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261550\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":261552,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261550\/revisions\/261552"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/261551"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=261550"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=261550"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=261550"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}