{"id":261706,"date":"2021-07-07T08:37:00","date_gmt":"2021-07-07T11:37:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=261706"},"modified":"2021-07-07T08:37:00","modified_gmt":"2021-07-07T11:37:00","slug":"velho-e-o-passado-quando-o-assunto-e-saude-nem-se-fala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/velho-e-o-passado-quando-o-assunto-e-saude-nem-se-fala\/","title":{"rendered":"Velho \u00e9 o passado; quando o assunto \u00e9 sa\u00fade, nem se fala"},"content":{"rendered":"<p>Ex-atleta profissional de futebol, o psic\u00f3logo Luis Fernando Silveira, hoje com 59 anos, segue disputando suas &#8220;peladas&#8221; semanais com amigos. A maioria est\u00e1 na mesma faixa et\u00e1ria e o conhece desde os tempos em que ele defendia clubes como o S\u00e3o Paulo e o Goi\u00e1s, nos quais ficou conhecido como Bico Fino.<\/p>\n<p>Mesmo n\u00e3o apresentando a habilidade e velocidade de antes, os jogadores seguem competitivos. Oficialmente, as partidas servem de pretexto para reunir amigos, se divertir, evitar o sedentarismo e celebrar o fato de os participantes continuarem aptos a jogar seu futebol e a desempenhar uma s\u00e9rie de atividades. Contudo, ningu\u00e9m quer perder um jogo.<\/p>\n<p>Apesar da atual disposi\u00e7\u00e3o, alguns m\u00e9dicos podem deduzir que Silveira ficar\u00e1 doente em 1\u00ba de janeiro de 2022 \u2013 mesmo que sem nenhum preju\u00edzo ao seu atual bem-estar. Tudo porque, no primeiro dia do pr\u00f3ximo ano, quando o psic\u00f3logo completa 60 anos de idade, entrar\u00e1 em vigor a nova edi\u00e7\u00e3o da Classifica\u00e7\u00e3o Estat\u00edstica Internacional de Doen\u00e7as e Problemas Relacionados \u00e0 Sa\u00fade (CID 11). Nesse documento, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) decidiu incluir o termo velhice, sob o c\u00f3digo MG2A.<\/p>\n<p>\u201cSe, por qualquer motivo, ele [Silveira] tiver que procurar um m\u00e9dico a partir de 1\u00ba de janeiro, o profissional de sa\u00fade poder\u00e1 consider\u00e1-lo doente pelo simples fato de ele j\u00e1 ter 60 anos de idade. Ele e muitas outras pessoas\u201d, disse \u00e0 Ag\u00eancia Brasil a presidente da Sociedade Brasileira de Gerontologia e Geriatria (SBGG), Ivete Berkenbrock, explicando que, para a OMS, em pa\u00edses em desenvolvimento a velhice come\u00e7a aos 60 anos.<\/p>\n<p>\u201cA menos que a decis\u00e3o seja revista, os profissionais da sa\u00fade poder\u00e3o sim usar o c\u00f3digo da CID para velhice no lugar de uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es. Porque n\u00e3o est\u00e1 claro em que casos esse c\u00f3digo poder\u00e1 ser utilizado\u201d, acrescenta Ivete, criticando a iniciativa. \u201cSe os profissionais passarem a anotar esta \u00fanica CID em vez dos outros c\u00f3digos j\u00e1 empregados para identificar v\u00e1rias e diferentes doen\u00e7as, isso vai mascarar n\u00e3o s\u00f3 os resultados de futuros estudos epidemiol\u00f3gicos, como afetar\u00e1 a defini\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e pode vir a estigmatizar as pessoas.\u201d<\/p>\n<p>Criada em 1893, a Classifica\u00e7\u00e3o Estat\u00edstica Internacional agrupa uma s\u00e9rie de doen\u00e7as e de situa\u00e7\u00f5es em que h\u00e1 necessidade de atendimento cl\u00ednico. Adotado pela OMS em 1948, o documento utilizado por profissionais de mais de 150 pa\u00edses est\u00e1 em sua d\u00e9cima edi\u00e7\u00e3o, implementada em 1993. A nova vers\u00e3o, a CID-11, foi aprovada em maio de 2019, ap\u00f3s um processo de consultas, discuss\u00e3o e revis\u00e3o textual, mas s\u00f3 a poucos meses de entrar em vigor a inclus\u00e3o de um c\u00f3digo para designar a velhice (ou, no ingl\u00eas, old age) chamou a aten\u00e7\u00e3o de profissionais de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, parte dessa repercuss\u00e3o se deve ao fato de, em abril deste ano, m\u00e9dicos terem atestado a morte do pr\u00edncipe Philip, de 99 anos, como causada por velhice, ainda que o marido da rainha Elizabeth II, do Reino Unido, tivesse passado por uma cirurgia card\u00edaca poucas semanas antes.<\/p>\n<p><strong>Impactos<\/strong><br \/>\nA OMS sustenta que o fato de incluir um c\u00f3digo espec\u00edfico para velhice no documento n\u00e3o significa que tenha classificado essa fase natural da vida como uma doen\u00e7a, j\u00e1 que a CID, conforme o pr\u00f3prio nome indica, n\u00e3o lista apenas estados patol\u00f3gicos. \u201cO CID cont\u00e9m, por exemplo, les\u00f5es, achados, motivos de encontro com o sistema de sa\u00fade ou condi\u00e7\u00f5es que podem ou n\u00e3o exigir o apoio do sistema de sa\u00fade, dependendo do contexto e da extens\u00e3o do sofrimento vivenciado pelo indiv\u00edduo\u201d, informa a organiza\u00e7\u00e3o, em nota.<\/p>\n<p>\u201cA CID reconhece que as pessoas podem morrer de velhice \u2013 e existe um c\u00f3digo que se pode usar caso seja essa a \u00fanica coisa declarada em um atestado m\u00e9dico de causa da morte\u201d, destaca a OMS. \u201cMas o envelhecimento n\u00e3o \u00e9 identificado como porta de entrada para [uma situa\u00e7\u00e3o que, necessariamente, exija] preven\u00e7\u00e3o ou tratamento\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o convence o psic\u00f3logo e boleiro Luis Fernando Silveira, que s\u00f3 p\u00f4de atender \u00e0 reportagem ap\u00f3s um longo dia de trabalho. \u201cAcho isso muito subjetivo. Eu mesmo pratico esportes, trabalho, vou regularmente ao m\u00e9dico e estou saud\u00e1vel. Acho uma medida desnecess\u00e1ria, que n\u00e3o faz muito sentido. E que, de certa forma, pode ampliar o preconceito contra os idosos.\u201d<\/p>\n<p>A vice-corregedora do Conselho Federal de Medicina (CFM), Helena Le\u00e3o, concorda com Silveira. Da mesma forma que Ivete Berkenbrock, da SBGG, Helena espera que a OMS reveja a decis\u00e3o, sob risco de impor \u00e0 sociedade impactos sociais e econ\u00f4micos que, segundo ela, incidir\u00e3o sobre as pol\u00edticas p\u00fablicas de cada pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, a categoria m\u00e9dica se surpreendeu ao tomar conhecimento da iniciativa, pois me parece que ningu\u00e9m esperava uma mudan\u00e7a como essa\u201d, disse Helena, destacando que, na CID-10 j\u00e1 h\u00e1 um diagn\u00f3stico para a senilidade, ou seja, para classificar eventuais processos de adoecimento na terceira idade. Ele difere dos conceitos de envelhecimento (tido como um processo natural, que se inicia logo ap\u00f3s o nascimento) e de senesc\u00eancia (o gradual comprometimento de algumas fun\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo em decorr\u00eancia do passar dos anos).<\/p>\n<p>\u201cO envelhecimento caracteriza a evolu\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica natural de todo ser humano. \u00c9 uma etapa da vida, n\u00e3o uma doen\u00e7a. Principalmente em uma \u00e9poca em que os idosos s\u00e3o participativos, produtivos, trabalham\u201d, comentou a representante do CFM, frisando que, se colocado em pr\u00e1tica, o uso do termo velhice suscitar\u00e1 quest\u00f5es que precisam ser esclarecidas.<\/p>\n<p>\u201cTodas as pessoas idosas v\u00e3o receber este CID quando o profissional de sa\u00fade assinar um documento ou preencher uma declara\u00e7\u00e3o de \u00f3bito? E quanto aos diferentes contextos nacionais? H\u00e1 pa\u00edses em que a pessoa s\u00f3 \u00e9 considerada idosa a partir dos 70 anos. Em outros, aos 65. Pelo crit\u00e9rio da OMS, no Brasil, seremos todos doentes a partir dos 60 anos? E para efeitos trabalhistas? Qual o impacto dessa decis\u00e3o?\u201d, questiona Helena, lembrando que a OMS estabeleceu os anos de 2020 a 2030 como a D\u00e9cada do Envelhecimento Saud\u00e1vel, cujo objetivo \u00e9 tentar erradicar preconceitos e a discrimina\u00e7\u00e3o contra os idosos. \u201c\u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong>Interpreta\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nEx-diretor do Departamento de Envelhecimento e Sa\u00fade da OMS, o presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-BR), Alexandre Kalache, concorda que, embora a OMS n\u00e3o afirme rigorosamente que a velhice \u00e9 uma doen\u00e7a, a inclus\u00e3o do termo na CID permite esse tipo de interpreta\u00e7\u00e3o. O que, no entendimento do m\u00e9dico, suscita uma quest\u00e3o \u00e9tica.<\/p>\n<p>\u201cAlgo visto como uma doen\u00e7a pode e deve ser prevenido ou tratado. Nesse caso, n\u00e3o faltar\u00e1 quem se valer\u00e1 para prescrever medicamentos, interven\u00e7\u00f5es e supostos tratamentos. J\u00e1 h\u00e1, hoje, uma enorme press\u00e3o nesse sentido. Press\u00e3o exercida por grupos econ\u00f4micos, pela ind\u00fastria antienvelhecimento, que movimenta bilh\u00f5es de d\u00f3lares prescrevendo supostos procedimentos sem qualquer base cient\u00edfica com o pretexto de deter o avan\u00e7o do envelhecimento. Com um c\u00f3digo que permita o enquadramento da velhice como doen\u00e7a, ser\u00e1 poss\u00edvel justificar v\u00e1rias dessas interven\u00e7\u00f5es\u201d, alerta Kalache, destacando que, se efetivada, a medida tende a aumentar a inseguran\u00e7a jur\u00eddica.<\/p>\n<p>\u201cOperadores de planos de sa\u00fade e eventuais empregadores poder\u00e3o taxar as pessoas, que podem, inclusive, n\u00e3o conseguir tratar certos problemas de sa\u00fade, como, por exemplo, um c\u00e2ncer de pr\u00f3stata, que poder\u00e1 ser considerado uma comorbidade da condi\u00e7\u00e3o primordial, ou seja, a velhice\u201d, acrescentou Kalache, que acredita na revers\u00e3o da medida. \u201cSer\u00e1 preciso barulho, mobiliza\u00e7\u00e3o, mas acredito que a OMS ouvir\u00e1 os especialistas e substituiremos este termo. Talvez possamos detalhar melhor a senesc\u00eancia e empreg\u00e1-la no lugar de falar apenas em velhice, que \u00e9 um conceito cronol\u00f3gico.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ex-atleta profissional de futebol, o psic\u00f3logo Luis Fernando Silveira, hoje com 59 anos, segue disputando suas &#8220;peladas&#8221; semanais com amigos. A maioria est\u00e1 na mesma faixa et\u00e1ria e o conhece desde os tempos em que ele defendia clubes como o S\u00e3o Paulo e o Goi\u00e1s, nos quais ficou conhecido como Bico Fino. 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