{"id":261906,"date":"2021-07-08T08:24:21","date_gmt":"2021-07-08T11:24:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=261906"},"modified":"2021-07-08T09:28:50","modified_gmt":"2021-07-08T12:28:50","slug":"xadrez-para-entender-a-historia-do-cabo-das-vacinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/xadrez-para-entender-a-historia-do-cabo-das-vacinas\/","title":{"rendered":"Xadrez para entender a hist\u00f3ria do cabo das vacinas"},"content":{"rendered":"<p>No final da \u00f3pera, a CPI da Covid tem agora nas m\u00e3os o mais trapalh\u00e3o processo de corrup\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, quatro grupos se digladiando, cada qual querendo tirar sua casquinha \u2013 os Miranda, os Bolsonaro-Senah, o esquema Barros e os coron\u00e9is de Pazuello.<\/p>\n<p>O dia de ontem terminou com a m\u00eddia, em geral, em franca confus\u00e3o a respeito do caso do cabo da Pol\u00edcia Militar Luiz Paulo Dominguetti, que se apresentou no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade oferecendo 400 milh\u00f5es de vacinas da Astra Zeneca. Dizia representar a distribuidora americana, Davati Medical Supply.<\/p>\n<p>Parece imposs\u00edvel qualquer relato que coloque l\u00f3gica nessa loucura:<\/p>\n<p><strong>Pe\u00e7a 1 \u2013 os antecedentes<\/strong><br \/>\nO presidente Jair Bolsonaro \u00e9 denunciado pelo deputado Luiz Miranda, seu antigo apoiador, acusado de n\u00e3o ter tomado provid\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o a den\u00fancias de irregularidades na compra de vacinas. Segundo Miranda, Bolsonaro teria manifestado seu descontentamento com Ricardo Barros, l\u00edder do governo, e pessoa que indicou o principal suspeito, o diretor de Log\u00edstica do Minist\u00e9rio. Mas n\u00e3o tomou nenhuma atitude.<\/p>\n<p>Miranda denuncia o caso para a m\u00eddia. Nos dias seguintes aumenta a fervura do caso e Ricardo Barros entra na linha de fogo.<\/p>\n<p><strong>Pe\u00e7a 2 \u2013 o cabo que vendia vacinas<\/strong><br \/>\nDe repente, aparece o cabo Dominguetti, da Pol\u00edcia Militar de Minas Gerais, em uma sucess\u00e3o de epis\u00f3dios de aparente falta de nexo \u2013 mas que t\u00eam uma l\u00f3gica que ser\u00e1 contada ao longo dessa mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>1. Um PM que n\u00e3o consegue sequer pagar o aluguel, com um sal\u00e1rio de R$ 7.500, procura o alto comando do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade oferecendo 400 milh\u00f5es de doses da vacina Astra Zeneca. J\u00e1 \u00e9 estranho. O pre\u00e7o de US$ 3,00 por vacina \u00e9 mais estranho ainda.<\/p>\n<p>2. Mesmo assim, \u00e9 recebido pelo alto comando do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade em um almo\u00e7o em Bras\u00edlia. L\u00e1, teria sido feita uma proposta de propina de um d\u00f3lar por cada vacina oferecida. Ou seja, os membros da Sa\u00fade acreditavam na proposta. Ent\u00e3o, qual o trunfo do cabo da pol\u00edcia?<\/p>\n<p>3. O cabo rejeita a proposta de propina e sai da reuni\u00e3o. Qual o seu trunfo para rejeitar algo que poderia resolver sua vida para sempre? Obviamente a percep\u00e7\u00e3o de que tinha um trunfo maior nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>4. Tempos depois d\u00e1 uma entrevista \u00e0 Folha denunciando o pedido de propina. Antes que a informa\u00e7\u00e3o fosse apurada, \u00e9 sumariamente demitido o diretor de log\u00edstica do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, Roberto Ferreira Dias, indicado pelo l\u00edder do governo Ricardo Barros, uma medida de interesse dos Bolsonaro. Como pode cair um diretor com base em uma den\u00fancia de dif\u00edcil verossimilhan\u00e7a?<\/p>\n<p>5. O cabo \u00e9 convocado pela CPI e, durante seu depoimento, apresenta um \u00e1udio de conversa do deputado Luiz Miranda com o representante da Davati Medical Supply, tentando desqualificar Miranda. Depois, se descobre que era um \u00e1udio falso, de uma conversa antiga, anterior \u00e0s vacinas.<\/p>\n<p><strong>Pe\u00e7a 3 \u2013 as redes sociais e a universaliza\u00e7\u00e3o dos golpes<\/strong><br \/>\nOs jornalistas mais antigos \u2013 como eu \u2013 lembram-se bem dos golpes peri\u00f3dicos que sacudiam os incautos, em torno de pir\u00e2mides. Teve a pir\u00e2mide das cartelas de ouro, do boi gordo, da avestruz. Bem antes, a pir\u00e2mide dos sapatos de Franca, dos LPs.<\/p>\n<p>Descobri a estrutura dos golpes atrav\u00e9s do Almeida, distinto amigo frequentador do bar do Alem\u00e3o. Almeida era vendedor de livros. Mas vendeu Boi Gordo, Avestruz e tudo o que aparecia.<\/p>\n<p>Quando surgiu a Telexfree, o quadro clareou. H\u00e1 no pa\u00eds grupos de golpistas que se conhecem e periodicamente se juntam para determinados golpes, atuando como franquias dos golpistas.<\/p>\n<p>Com a Internet e as redes sociais, esse modelo tornou-se muito \u00e1gil. O epis\u00f3dio Telexfree, por exemplo mostrou uma rede internacional de franqueados, que atuaram contra brasileiros nos Estados Unidos, Franca e Portugal.<\/p>\n<p>Em geral, os estudos de seguran\u00e7a focam as grandes quadrilhas de drogas. Deve ter algum estudo sobre as redes de punguistas eletr\u00f4nicos, mas n\u00e3o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c9 em cima dessa rede que se organiza a tal Davati Medical Supply. Trata-se de uma distribuidora do Texas de propriedade de um tal Herman Cardenas.<\/p>\n<p>Seu jogo consistia no seguinte:<\/p>\n<p>1. Identificava parceiros em pa\u00edses, capazes de vender para governos federais ou municipais ou para grupos espec\u00edficos.<\/p>\n<p>2. O intermedi\u00e1rio se apresentava como seu representante e conseguia cartas de inten\u00e7\u00e3o dos compradores.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas hip\u00f3teses sobre o que fazia com as cartas de inten\u00e7\u00e3o. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que juntasse os pedidos e, com base neles, convencesse alguma fabricante de terceira linha a fornecer vacinas.<\/p>\n<p>Em fevereiro, tentou aplicar esse golpe no Canad\u00e1 \u2013 conforme mostramos dias atr\u00e1s. Procuraram vender vacinas da Astra Zeneca para a Federa\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Soberanas do Canad\u00e1, por US$ 21 milh\u00f5es. Houve alertas do governo para o golpe.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o, a CBS, rede americana de TV, procurou Cardenas para que informasse onde conseguiria as vacinas. Respondeu de forma d\u00fabia, dizendo ter sido contatado por um intermedi\u00e1rio oferecendo o produto.<\/p>\n<p><strong>Pe\u00e7a 4 \u2013 a primeira abordagem no Brasil<\/strong><br \/>\nNo Brasil, provavelmente a primeira tentativa da Davati com justamente com o deputado Luiz Miranda. \u00c9 o que se depreende do \u00e1udio divulgado pelo cabo Dominguetti na CPI.<\/p>\n<p>Fez uma falsa den\u00fancia \u2013 o \u00e1udio era de um per\u00edodo anterior ao das vacinas. Mas cometeu uma revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o captada pela CPI: o \u00e1udio era de uma conversa do deputado Luiz Miranda com o representante comercial da Davati no Brasil. Na conversa, falavam de vendas de produtos, n\u00e3o necessariamente de vacinas. Ou seja, morando em Miami, Miranda percebeu um bom espa\u00e7o no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, onde j\u00e1 trabalhava seu irm\u00e3o. Mas bateu nos dois esquemas pesados: o do diretor ligado a Ricardo Barros e dos coron\u00e9is, ligados aos Bolsonaro.<\/p>\n<p><strong>Pe\u00e7a 5 \u2013 a segunda abordagem<\/strong><br \/>\nCom Luiz Miranda falhando, a Davati procura o segundo caminho, a Secretaria Nacional de Assuntos Humanit\u00e1rios (Senah), uma organiza\u00e7\u00e3o do Distrito Federal, presidida por um bispo, o reverendo Amilton Gomes, tendo como membro ilustre Carlos Alberto Rodrigues Tabanez, de um clube de ca\u00e7a e tiro, especializado em armas e que deu cursos para o grupo de militares que foi par ao Haiti \u2013 comandados pelo general Augusto Heleno.<\/p>\n<p>A Ag\u00eancia P\u00fablica divulgou reportagem minuciosa sobre as rela\u00e7\u00f5es dessa Senah com os Bolsonaro.<\/p>\n<p>No dia 4 de mar\u00e7o passado, o grupo foi recebido no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, presentes o reverendo Gomes e o cabo da pol\u00edcia Dominguetti. O condutor do grupo foi um major da For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira. Teria participado tamb\u00e9m o tenente-coronel Marcelo Branco, assessor do DLOG na gest\u00e3o de Roberto Dias.<\/p>\n<p>Em resposta ao Estad\u00e3o, Cardenas, da Davati, afirmou que a inclus\u00e3o de Dominguetti foi exig\u00eancia do pr\u00f3prio governo brasileiro.<\/p>\n<p><strong>Pe\u00e7a 6 \u2013 o vendedor que n\u00e3o tinha vacinas<\/strong><br \/>\nMas como se concretizaria o golpe, se os supostos vendedores n\u00e3o tinham vacina para entregar? Recorro a um expediente: a teoria do fato, atrav\u00e9s do qual monta-se uma narrativa que permite encaixar todas as pe\u00e7as.<\/p>\n<p>O golpe j\u00e1 tinha sido preparado pela Medida Provis\u00f3ria no. 1.026, assinada em janeiro por Bolsonaro e preparada pelo deputado Ricardo Barros. Foi o que agu\u00e7ou o apetite de harpias de v\u00e1rios naipes.<\/p>\n<p>Conforme levantamento da rep\u00f3rter Patricia Faerman, a MP previa os seguintes pontos:<\/p>\n<p>* Dispensava a compra de vacinas de licita\u00e7\u00e3o, estendendo a possibilidade para a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica direta e indireta.<\/p>\n<p>* Para a compra, dispensava o registro sanit\u00e1rio ou a necessidade de autoriza\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria de uso emergencial.<\/p>\n<p>* Permitia o pagamento antecipado, \u201cinclusive com a possibilidade de perda do valor antecipado\u201d, e trazia uma s\u00e9rie de blindagens para os vendedores, como a n\u00e3o penaliza\u00e7\u00e3o da empresa, em caso de n\u00e3o entrega, e a garantia de confidencialidade do contrato.<\/p>\n<p>* Permitia as vendas por empresas sem habilita\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, facilitando a vida da Precisa, empresa envolvida em v\u00e1rios rolos na gest\u00e3o da Ricardo Barros na Sa\u00fade.<\/p>\n<p>* Possibilidade de cobrar mais pelas vacinas do que as estimativas do contrato.<\/p>\n<p>* Permite a apresenta\u00e7\u00e3o de termos de refer\u00eancia simplificados, evitando questionamentos maiores sobre a qualidade do produto.<\/p>\n<p>Enfim, tudo preparado para o golpe, garantindo de antem\u00e3o o pagamento antecipado e a n\u00e3o puni\u00e7\u00e3o do vendedor, em caso de n\u00e3o entrega do produto. Tudo isso justificado pela car\u00eancia de vacinas, situa\u00e7\u00e3o provocada pelos sucessivos atrasos no fechamento de contratos de compra.<\/p>\n<p>Para que o golpe fosse bem sucedido, seria necess\u00e1rio criar o senso se urg\u00eancia. E conseguiu-se atrasando criminosamente a compra oficial de vacinas.<\/p>\n<p><strong>Pe\u00e7a 7 \u2013 o desfecho da \u00f3pera bufa<\/strong><br \/>\nJuntando todas essas pe\u00e7as, fica claro o jogo:<\/p>\n<p>1. Quando o vale-tudo \u00e9 instaurado, desperta a cobi\u00e7a de v\u00e1rios grupos. O primeiro procurado pela Davati foi Miranda, que j\u00e1 mantinha neg\u00f3cios com ela.<\/p>\n<p>2. Ao mesmo tempo, desperta a cobi\u00e7a de dois grupos ancorados na Sa\u00fade: do esquema Ricardo Barros, dominante na Sa\u00fade e dos coron\u00e9is levados pelo general Pazuello.<\/p>\n<p>3. Miranda n\u00e3o consegue penetrar na estrutura da Sa\u00fade e denuncia o caso para Bolsonaro, que n\u00e3o toma nenhuma atitude.<\/p>\n<p>3. Ao mesmo tempo, avan\u00e7a o esquema do tal reverendo Amilton, provavelmente ligado a Fl\u00e1vio Bolsonaro. Mas esbarra tamb\u00e9m no esquema de Ricardo Barros na Sa\u00fade e na fome de militares incrustados na m\u00e1quina por Pazuello. Ou seja, dois grupos de fora, ligados ao bolsonarismo, que tem que ado\u00e7ar a m\u00e3o do grupo de dentro.<\/p>\n<p>4. Miranda bota, ent\u00e3o, a boca no trombone, criando uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica delicada para Bolsonaro, que provavelmente j\u00e1 estava irritado com Roberto Dias, o diretor de log\u00edstica ligado a Barros. O deputado Barros entra na linha de fogo da m\u00eddia e do Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n<p>5. Provavelmente, a\u00ed, os bolsonaristas perceberam que poderiam matar dois coelhos com uma s\u00f3 cajadada. E convocam o intr\u00e9pido cabo Dominguetti. Primeiro, ele denuncia a tal propina para a Folha e \u00e9 convocado para a CPI. Antes mesmo que a den\u00fancia fosse apurada, demite-se o homem de Barros na Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Na CPI, Dominguetti tenta derrubar o segundo pino, o deputado Miranda, com a tal grava\u00e7\u00e3o. \u00c9 desmentido, mas ajuda a mostrar os contatos de Miranda com a Davati,<\/p>\n<p>No final da \u00f3pera, a CPI da Covid tem agora nas m\u00e3os o mais trapalh\u00e3o processo de corrup\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, quatro grupos se digladiando, cada qual querendo tirar sua casquinha \u2013 os Miranda, os Bolsonaro-Senah, o esquema Barros e os coron\u00e9is de Pazuello.<\/p>\n<p>Para encerrar a \u00f3pera, apagam-se as luzes do teatro e coloca-se no ar as ora\u00e7\u00f5es de Onix Lorenzoni pregando a honestidade absoluta do governo.<\/p>\n<p>E o bravo cabo Dominguetti? N\u00e3o acontecer\u00e1 nada com ele. Ele praticou o chamado \u201ccrime imposs\u00edvel\u201d. Ou seja, n\u00e3o havia a menor possibilidade de cometer o crime porque jamais teria a vacina para oferecer.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o estelionato \u00e9 um crime de duas m\u00e3os \u2013 que presume que a outra parte tamb\u00e9m quer levar vantagens. Por exemplo, quando algu\u00e9m oferece um bilhete premiado para outra pessoa, alegando necessidade. Quem vendeu praticou o estelionato; quem comprou, procurou tirar vantagem.<\/p>\n<p>Por isso, o cabo Dominguetti poder\u00e1 sair ileso do epis\u00f3dio. Afinal, \u00e9 apenas um bagrinho em um mar coalhado de tubar\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final da \u00f3pera, a CPI da Covid tem agora nas m\u00e3os o mais trapalh\u00e3o processo de corrup\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, quatro grupos se digladiando, cada qual querendo tirar sua casquinha \u2013 os Miranda, os Bolsonaro-Senah, o esquema Barros e os coron\u00e9is de Pazuello. 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