{"id":262161,"date":"2021-07-10T03:03:59","date_gmt":"2021-07-10T06:03:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=262161"},"modified":"2021-07-10T04:24:42","modified_gmt":"2021-07-10T07:24:42","slug":"jovens-designers-resgatam-ceramicas-ancestrais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jovens-designers-resgatam-ceramicas-ancestrais\/","title":{"rendered":"Jovens designers resgatam cer\u00e2micas ancestrais"},"content":{"rendered":"<p>Decora\u00e7\u00e3o \u00e9 como na vida e na arte, onde muito se cria, mas tamb\u00e9m muito se copia. Que o diga a designer Ana Neute, que transformou em realidade o desejo de trazer para a atualidade a taipa de pil\u00e3o, uma t\u00e9cnica milenar utilizada na arquitetura para a escala do mobili\u00e1rio. J\u00e1 para seu colega Murilo Weitz, o contato com a cer\u00e2mica vem da inf\u00e2ncia \u2013 das aulas de educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica, quando ele manipulava a argila. Finalmente, para o goiano Marcus Camargo, o material sempre esteve ao alcance dos olhos (e das m\u00e3os). Bastava apenas observar com mais aten\u00e7\u00e3o a paisagem ao seu redor.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o exista nada propriamente novo em rela\u00e7\u00e3o ao material e suas t\u00e9cnicas \u2013 afinal, s\u00e3o 20 mil anos de hist\u00f3ria \u2013, a cer\u00e2mica tem demonstrado ser, ao longo dos s\u00e9culos, uma das mat\u00e9rias-primas mais inspiradoras e de maior capacidade de reinven\u00e7\u00e3o de que se tem not\u00edcia. Ligada diretamente \u00e0 cultura dos mais diversos grupos humanos, suas declina\u00e7\u00f5es em termos de formas, fun\u00e7\u00f5es e texturas n\u00e3o encontram precedentes em praticamente nenhum outro material.<\/p>\n<p>Das tigelas pr\u00e9-hist\u00f3ricas \u00e0s \u00e2nforas gregas, da porcelana asi\u00e1tica \u00e0 francesa, a cer\u00e2mica contribuiu decisivamente para enriquecer a hist\u00f3ria da arte ao redor do globo e, ainda hoje, continua a render bons frutos. Sobretudo por meio de trabalhos executados por artistas e artes\u00e3os, em geral, em pequenas s\u00e9ries, na intimidade das suas oficinas e ateli\u00eas, onde o objeto cer\u00e2mico continua sendo valorizado pela sua singularidade e, n\u00e3o raro, imperfei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No mundo do design, por\u00e9m, o interesse pela produ\u00e7\u00e3o de m\u00f3veis e utilit\u00e1rios com base na mat\u00e9ria-prima \u00e9 de tiragem bem mais recente, embora atravesse um momento de franca expans\u00e3o. Especialmente entre os mais jovens, impulsionado pela cultura do Do It Yourself (Fa\u00e7a Voc\u00ea Mesmo) e pelo advento das redes sociais, que difundem permanentemente novos profissionais e t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>\u201cA cena do barro \u00e9 muito importante para a cultura da minha cidade natal, Cidade de Goi\u00e1s, em Goi\u00e1s. Tanto na fabrica\u00e7\u00e3o de utens\u00edlios nas olarias quanto no artesanato dos mestres locais. Desde crian\u00e7a, tive contato com esse universo, mas s\u00f3 h\u00e1 alguns anos me reconectei com ele. Trabalhar com cer\u00e2mica \u00e9 sempre um desafio, por ser uma mat\u00e9ria viva. Existe uma real troca afetiva e sempre muito respeito em todo o processo\u201d, conta o designer Marcus Camargo (@camargomarcus).<\/p>\n<p>Formado em Desenho Industrial pela Universidade Federal de Goi\u00e1s, Camargo lan\u00e7ou sua primeira cole\u00e7\u00e3o de cer\u00e2micas em 2019, em parceria com os artes\u00e3os locais. Batizada de Pertencimento, a s\u00e9rie, composta por vasos, abajures e espelhos, buscava um di\u00e1logo poss\u00edvel entre a cultura local e o design contempor\u00e2neo. \u201cMeus desenhos sempre foram muito org\u00e2nicos e o barro permite que eu possa dar vaz\u00e3o a essa linguagem\u201d, explica ele.<\/p>\n<p>Rio Vermelho \u00e9 o nome do rio que corta a cidade de origem do designer. E tamb\u00e9m de sua mais recente cole\u00e7\u00e3o de abajures, para a Itens Collections. \u201cTrata-se, na verdade, de um trabalho feito a muitas m\u00e3os. Tem o meu desenho, a modelagem manual de mestre Castrinho, que modelou cada pe\u00e7a e realizou a queima. As argolas e hastes executadas \u00e0 m\u00e3o pelo saudoso artes\u00e3o Carlos Bello, v\u00edtima da covid. Al\u00e9m da dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica de Mariana Amaral\u201d, lembra Camargo.<\/p>\n<p>O aspecto sensorial relacionado ao trabalho com a argila sempre atraiu a aten\u00e7\u00e3o do designer Murilo Weitz (@muriloweitz). Al\u00e9m da maleabilidade, outra caracter\u00edstica que sempre esteve no seu radar. \u201c\u00c9 um material muito din\u00e2mico. Pode adquirir qualquer formato com facilidade e isso me encanta\u201d, conta ele que, ap\u00f3s ter se iniciado nas t\u00e9cnicas de modelagem, hoje pode passar horas dando forma \u00e0s suas cria\u00e7\u00f5es. \u201cSem contar que chega a ser at\u00e9 terap\u00eautico\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201cComecei fazendo aulas em 2017. J\u00e1 criei alguns objetos experimentais, recipientes e pratos, mas, com a cole\u00e7\u00e3o Componente \u2013 de vasos, mesas de centro e bancos \u2013, procurei dar um passo al\u00e9m. Queria dar alguma finalidade a pe\u00e7as de cer\u00e2micas rachadas, eliminadas logo ap\u00f3s o processo da queima\u201d, afirma ele. Como normalmente os produtos que quebram s\u00e3o descartados, Murilo tritura o material, adiciona \u00e1gua e cimento e depois modela novos objetos a partir da mistura.<\/p>\n<p>\u201cO projeto surgiu do meu desejo de criar um material reciclado e a pr\u00e1tica de um artes\u00e3o que produzia vasos em Leme, minha terra natal, no interior de S\u00e3o Paulo. A jun\u00e7\u00e3o dos nossos dois saberes foi essencial para resolvermos quest\u00f5es-chave, tais como a cor final do material e, por fim, sua pr\u00f3pria resist\u00eancia. Uma vez que um banco, ao contr\u00e1rio de um vaso, tem de resistir ao peso de uma pessoa\u201d, resume o designer.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Camargo e Weitz, a aproxima\u00e7\u00e3o da designer Ana Neute (@ananeute) com a cer\u00e2mica n\u00e3o se deu pelo contato direto com o material. Mas, sim, pela sua observa\u00e7\u00e3o e entendimento. \u201cA taipa \u00e9 um m\u00e9todo de constru\u00e7\u00e3o milenar, que parte da compress\u00e3o da terra com golpes de pil\u00e3o. Atualmente, tem sido retomada e vem ganhando novos usos. No meu caso, tudo come\u00e7ou quando me coloquei a quest\u00e3o: como seria transformar a terra em objeto?\u201d<\/p>\n<p>Baixo impacto. A partir de ent\u00e3o, e com o apoio do engenheiro Fernando Ogando, da Artesania Engenharia, especialista na constru\u00e7\u00e3o de casas a partir da t\u00e9cnica, se seguiram dois anos de pesquisa da taipa aplicada ao mobili\u00e1rio. Juntos, eles testaram moldes e receitas at\u00e9 encontrarem a propor\u00e7\u00e3o ideal, que permitisse construir blocos coesos. Nascia assim a cole\u00e7\u00e3o Solo, com mesas de apoio, mancebo, vaso e casti\u00e7ais, na qual a madeira surge como um elemento complementar.<\/p>\n<p>\u201cO que mais me interessa no design atualmente \u00e9 a pesquisa de materiais e t\u00e9cnicas. Tanto artesanais quanto industriais e, em alguns casos, a jun\u00e7\u00e3o de ambos. Meu objetivo inicial era pesquisar um material novo, ent\u00e3o o desenho dos m\u00f3veis n\u00e3o veio primeiro, mas foi fruto dessa investiga\u00e7\u00e3o. Participei da constru\u00e7\u00e3o dessas pe\u00e7as desde suas primeiras etapas, e a troca de conhecimentos que aconteceu entre n\u00f3s me levou a encontrar muitas solu\u00e7\u00f5es pelo caminho\u201d, pontua ela.<\/p>\n<p>Segundo Ana, o trabalho com a taipa a levou a ficar muito atenta aos materiais e t\u00e9cnicas dispon\u00edveis no Brasil. Processos que, mesmo aplicados a outros contextos, podem vir a integrar o seu repert\u00f3rio. \u201cQuero continuar a estudar a taipa e, se poss\u00edvel, construir pe\u00e7as em escala ainda maior. Trata-se de uma tecnologia limpa e de baixo impacto ambiental, pois se retira a terra do pr\u00f3prio local da constru\u00e7\u00e3o. E, por tudo isso, n\u00e3o poderia ser mais atual.\u201d<\/p>\n<p>E, como em todo tipo de artesanato, s\u00f3 mesmo a pr\u00e1tica \u00e9 capaz de levar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o \u2013 al\u00e9m da taipa de pil\u00e3o, novas cole\u00e7\u00f5es de argila e barro tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e3o a caminho. \u201cClaro que pretendo prosseguir me exercitando no material. A cer\u00e2mica continua a me inspirar muito. Primeiramente, quero acrescentar uma nova cor \u00e0 cole\u00e7\u00e3o Componente. Mas n\u00e3o descarto tamb\u00e9m desenvolver novos vasos e, quem sabe, at\u00e9 m\u00f3veis de diferentes formatos\u201d, adianta Murilo Weitz.<\/p>\n<p>\u201cEstou sempre explorando novas possibilidades com a cer\u00e2mica. Me agrada a ideia de mesclar o barro a materiais como o lat\u00e3o, a resina, a madeira. Tamb\u00e9m penso em trabalhar em escalas maiores, como no mobili\u00e1rio. Meu desejo \u00e9 poder movimentar e valorizar ainda mais a comunidade onde vivo. Mas, ao mesmo tempo, colaborar com outras marcas nacionais\u201d, conclui Marcus Camargo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Decora\u00e7\u00e3o \u00e9 como na vida e na arte, onde muito se cria, mas tamb\u00e9m muito se copia. Que o diga a designer Ana Neute, que transformou em realidade o desejo de trazer para a atualidade a taipa de pil\u00e3o, uma t\u00e9cnica milenar utilizada na arquitetura para a escala do mobili\u00e1rio. 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