{"id":262555,"date":"2021-07-13T00:46:44","date_gmt":"2021-07-13T03:46:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=262555"},"modified":"2021-07-13T00:46:16","modified_gmt":"2021-07-13T03:46:16","slug":"dramalhoes-voltam-para-quem-gosta-de-lagrimas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/dramalhoes-voltam-para-quem-gosta-de-lagrimas\/","title":{"rendered":"Dramalh\u00f5es voltam para quem gosta de l\u00e1grimas"},"content":{"rendered":"<p>Os dramalh\u00f5es mexicanos est\u00e3o em alta (de novo). Chegaram aqui l\u00e1 pelos anos 1980 do s\u00e9culo passado\u00a0por iniciativa do SBT. \u00c0quela \u00e9poca, as emissoras brasileiras, sobretudo a TV Globo, tinham uma estrutura s\u00f3lida de produ\u00e7\u00e3o de folhetins, com hist\u00f3rias bem brasileiras, e a compara\u00e7\u00e3o se tornou inevit\u00e1vel. Mas, em breve, tr\u00eas exemplos da dramaturgia produzida pela emissora mexicana Televisa \u2013 A Usurpadora, Maria do Bairro e Marimar \u2013 chegar\u00e3o \u00e0 Globoplay. Elas se juntar\u00e3o \u00e0 fina flor da produ\u00e7\u00e3o nacional: Tieta, Roque Santeiro, Vale Tudo, O Bem Amado, Caminho das \u00cdndias e Joia Rara \u2013 as duas \u00faltimas, vencedoras do Emmy Internacional de Melhor Telenovela.<\/p>\n<p>Isso quebrar\u00e1 a barreira entre o que se convencionou a ser sin\u00f4nimo de padr\u00e3o de qualidade e as tramas mexicanas, consideradas inferiores \u2013 apesar de terem lugar cativo no cora\u00e7\u00e3o dos telespectadores. E transformar\u00e3o em cult essas produ\u00e7\u00f5es \u2013 sim, as reprises de telenovelas ganharam esse car\u00e1ter desde a cria\u00e7\u00e3o do Canal Viva, em 2010, e quando, em 2020, a Globo decidiu public\u00e1-las na \u00edntegra em sua plataforma de streaming.<\/p>\n<p>\u201cA chegada dos cl\u00e1ssicos mexicanos \u00e0 Globoplay rompe com o paradigma \u2018o Brasil na telenovela, a telenovela no Brasil\u2019.\u201d A opini\u00e3o \u00e9 de Mauro Alencar, doutor em Teledramaturgia Brasileira e Latino-Americana pela Universidade de S\u00e3o Paulo e que, em seu doutorado, escreveu a tese Am\u00e9rica Latina: Para\u00edso das Telenovelas, em 2004.<\/p>\n<p>\u201cPlataformas como Netflix, Amazon Prime Video, Disney +, Paramount +, a nov\u00edssima HBO Max e tantas outras est\u00e3o mudando completamente o perfil do produtor de conte\u00fado e do consumidor. E o maior atestado dessa mudan\u00e7a radical talvez resida exatamente a\u00ed: a Globo, ainda que no Globoplay, t\u00e3o arraigada e propagadora da tem\u00e1tica nacional, exibindo aquilo a que tanto se op\u00f4s por d\u00e9cadas em termos de est\u00e9tica e narrativa: a telenovela mexicana\u201d, completa Alencar.<\/p>\n<p><strong>Reprises e dublagem como marca<\/strong><br \/>\nAs tr\u00eas produ\u00e7\u00f5es fortemente associadas ao SBT \u2013 A Usurpadora, por exemplo, foi exibida sete vezes pela emissora \u2013 entrar\u00e3o at\u00e9 o fim do ano no cat\u00e1logo da plataforma, com a mesma dublagem exibida na TV de Silvio Santos. Essa quest\u00e3o, ali\u00e1s, \u00e9 crucial no acolhimento por parte dos f\u00e3s de novelas. Qualquer mudan\u00e7a gera descontentamento, e pode frustrar a inten\u00e7\u00e3o do canal de conquistar um novo p\u00fablico.<\/p>\n<p>Uma esp\u00e9cie de aquecimento para a chegada dos teledramas mexicanos foi a estreia, h\u00e1 pouco mais de 20 dias, do remake de Rubi, produzida pela emissora mexicana Televisa em duas ocasi\u00f5es, 1968 e 2004, inspirada no original de Yolanda Vargas Dulch\u00e9. A vers\u00e3o dos anos 2000 foi exibida pelo SBT tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p>Agora, a hist\u00f3ria da menina pobre que passa por cima dos sentimentos da melhor amiga para conquistar seu noivo cheio de dinheiro aparece em formato de s\u00e9rie filmada em 2020, com 26 epis\u00f3dios e adapta\u00e7\u00e3o do roteirista venezuelano Leonardo Padr\u00f3n. O remake integra o projeto F\u00e1brica de Sue\u00f1os, da Televisa, que pretende transformar folhetins de sucesso em s\u00e9ries.<\/p>\n<p>De acordo com a Globoplay, que exibe o remake com exclusividade no Brasil, Rubi ficou em primeiro lugar entre as s\u00e9ries na primeira semana de sua exibi\u00e7\u00e3o, superando t\u00edtulos americanos como The Big Bang Theory e The Good Doctor. Para a head de conte\u00fado do Globoplay, Ana Carolina Lima, a plataforma recebe essas novelas mexicanas \u201cnaturalmente\u201d. \u201cA relev\u00e2ncia dos conte\u00fados \u00e9 um dos pilares do nosso portf\u00f3lio. T\u00edtulos que fizeram sucesso em outras plataformas n\u00e3o s\u00e3o uma novidade para n\u00f3s. No ano passado, por exemplo, trouxemos para nosso cat\u00e1logo a s\u00e9rie Todo Mundo Odeia o Cris\u201d, diz a executiva, referindo-se \u00e0 com\u00e9dia americana produzida entre 2005 e 2009 e que, na TV aberta, foi exibida pela Record.<\/p>\n<p>Ana Carolina afirma que a plataforma tem uma curadoria que pesquisa conte\u00fados que respondam aos anseios dos assinantes. \u201cIsso nos permite n\u00e3o s\u00f3 atender \u00e0s demandas do p\u00fablico como tamb\u00e9m surpreend\u00ea-lo\u201d, diz.<\/p>\n<p>Ainda segundo a executiva, A Usurpadora, Maria do Bairro e Marimar fazem parte de um pacote que a plataforma fechou com a Televisa que inclui ainda as s\u00e9ries mexicanas Sem Medo da Verdade (cuja primeira temporada estreou em 28 de junho) e as novelas Imp\u00e9rio de Mentiras, Amar a Morte e Cair em Tenta\u00e7\u00e3o, todas in\u00e9ditas por aqui.<\/p>\n<p>Outros conte\u00fados latinos entrar\u00e3o em breve na plataforma, como El Bronx, s\u00e9rie policial colombiana, e Opera\u00e7\u00e3o Pac\u00edfico e Marido de Aluguel, da Telemundo, rede americana de l\u00edngua espanhola. A \u00faltima \u00e9 um remake da brasileira Fina Estampa, de Aguinaldo Silva, produzida pela Globo em 2011. Todas j\u00e1 absorveram a linguagem das s\u00e9ries americanas e trazem produ\u00e7\u00f5es mais caprichadas para atrair o p\u00fablico do streaming.<\/p>\n<p>Segundo o especialista Mauro Alencar, M\u00e9xico, Argentina e Cuba foram os pioneiros no g\u00eanero telenovela e, por isso, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a Am\u00e9rica Latina criou o formato que conhecemos. As produ\u00e7\u00f5es brasileiras sofreram, em um primeiro momento, forte influ\u00eancia das produ\u00e7\u00f5es cubanas e argentinas \u2013 dessa \u00faltima, veio a estrutura de novelas di\u00e1rias, sendo a primeira aqui, 2-5499 Ocupado, da TV Excelsior, em 1963, uma adapta\u00e7\u00e3o de Dulce Santucci para a argentina 0597 da Ocupado, criada pelo argentino Alberto Migr\u00e9.<\/p>\n<p>Na virada das d\u00e9cadas de 1960 para a de 1970, a TV Globo promoveu a nacionaliza\u00e7\u00e3o das novelas, com a renova\u00e7\u00e3o da linguagem e a moderniza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, com a inser\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es sociais na trama, a adapta\u00e7\u00e3o de cl\u00e1ssicos da literatura, a busca pelo p\u00fablico mais jovem e a varia\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios geogr\u00e1ficos.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 medida em que a novela brasileira foi construindo sua pr\u00f3pria linguagem e aderindo \u00e0 brasilidade, era natural o afastamento das ra\u00edzes latinas. Caracter\u00edsticas mais matizadas na constru\u00e7\u00e3o de personagens, utiliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o geogr\u00e1fico urbano e rural e, muito especialmente, as quest\u00f5es sociais e a Hist\u00f3ria do Brasil como pano de fundo das tramas transformaram a telenovela em produto genuinamente nacional\u201d, afirma Alencar, que cita novelas como V\u00e9u de Noiva, Ver\u00e3o Vermelho e Pigmali\u00e3o 70 como pioneiras nessa revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Alencar, por raz\u00f5es hist\u00f3ricas, a sociedade mexicana se ergueu pela chamada cultura do sofrimento e, por isso, era preciso criar quase que uma nova realidade nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa \u2013 o que, por aqui, \u00e9 classificado como dramalh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA base mexicana, pela pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o sociocultural do pa\u00eds, \u00e9 o drama por excel\u00eancia. Portanto, em sua grande maioria, s\u00e3o novelas mais dramatizadas, menos naturalistas. N\u00e3o significa que todas sejam assim. Mas \u00e9 a caracter\u00edstica mais marcante. E a mais exportada.\u201d<\/p>\n<p>Entre as que entrar\u00e3o no cat\u00e1logo da Globoplay, ele destaca A Usurpadora, de 1998, com a estrela mexicana Gabriela Spanic no elenco. J\u00e1 Maria do Bairro e Marimar trazem como protagonista a atriz e cantora Thal\u00eda, que conquistou f\u00e3s aqui no Brasil. Nessa lista, faltou Maria Mercedes \u2013 elas formam uma esp\u00e9cie de trilogia.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o de Silvio Santos pelas novelas mexicanas vem de longe e junta prefer\u00eancia pessoal com redu\u00e7\u00e3o de custos. A primeira que sua emissora exibiu, j\u00e1 com muito sucesso, foi Os Ricos Tamb\u00e9m Choram \u2013 os t\u00edtulos sempre foram uma atra\u00e7\u00e3o \u00e0 parte \u2013, de In\u00e9s Rodena. Em 2005, SBT fez uma vers\u00e3o brasileira da trama.<\/p>\n<p>O roteirista Henrique Zambelli adaptou tr\u00eas novelas mexicanas para a emissora depois o SBT firmou um contrato com a Televisa, no in\u00edcio dos anos 2000, para fazer vers\u00f5es de suas tramas. Zambelli assinou o texto de P\u00edcara Sonhadora (2001), Amor e \u00d3dio (2001) e Marisol (2002). Ele lembra que a ordem de Silvio era n\u00e3o mexer na hist\u00f3ria. \u201cH\u00e1 um mito de que a Televisa supervisionava tudo, que n\u00e3o deixava mexer. N\u00e3o \u00e9 verdade. Era o Silvio que pedia que a hist\u00f3ria fosse a mais fiel poss\u00edvel \u00e0 original. A mentalidade dele era \u2018se fez sucesso dessa forma em v\u00e1rios pa\u00edses, aqui tamb\u00e9m far\u00e1\u2019\u201d, conta.<\/p>\n<p>O trabalho nem sempre era f\u00e1cil. Muitas vezes, o que Zambelli tinha dispon\u00edvel eram os scripts que eram distribu\u00eddos para os atores ou a guia para os dubladores. As orienta\u00e7\u00f5es de cenas e cen\u00e1rios nem sempre estavam nesses pap\u00e9is. A solu\u00e7\u00e3o era assistir \u00e0s fitas originais, em VHS. \u201cEra preciso adaptar para uma linguagem mais coloquial e para a realidade brasileira. A linguagem original era muita rebuscada. Se apenas traduzisse, soaria muito falso. Pareceria uma novela de \u00e9poca\u201d, conta Zambelli.<\/p>\n<p>Uma das principais mudan\u00e7as que ele teve de fazer foi com o personagem Chico, de Marisol, que, no M\u00e9xico, era toureiro. Aqui, ele virou jogador de futebol e foi interpretado pelo ator Rodrigo Lombardi. A personagem t\u00edtulo coube \u00e0 B\u00e1rbara Paz, \u00e0 \u00e9poca, rec\u00e9m-sa\u00edda do reality show Casa dos Artistas.<\/p>\n<p>Para Zambelli, as novelas mexicanas sempre sofreram preconceito, apesar de serem adoradas pelo p\u00fablico. \u201cH\u00e1 16 anos que n\u00e3o trabalho mais com isso. Por\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 uma semana que algu\u00e9m n\u00e3o escreva para comentar sobre as obras que adaptei, que me marque no Instagram\u201d, diz. \u201cNovelas mexicanas s\u00e3o contos de fada. O p\u00fablico gosta disso. Elas n\u00e3o t\u00eam o peso de ter compromisso com a realidade.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dramalh\u00f5es mexicanos est\u00e3o em alta (de novo). Chegaram aqui l\u00e1 pelos anos 1980 do s\u00e9culo passado\u00a0por iniciativa do SBT. \u00c0quela \u00e9poca, as emissoras brasileiras, sobretudo a TV Globo, tinham uma estrutura s\u00f3lida de produ\u00e7\u00e3o de folhetins, com hist\u00f3rias bem brasileiras, e a compara\u00e7\u00e3o se tornou inevit\u00e1vel. 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