{"id":262740,"date":"2021-07-14T11:31:05","date_gmt":"2021-07-14T14:31:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=262740"},"modified":"2021-07-14T12:36:49","modified_gmt":"2021-07-14T15:36:49","slug":"pandemia-evitou-que-300-criancas-nascessem-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pandemia-evitou-que-300-criancas-nascessem-no-brasil\/","title":{"rendered":"Pandemia evitou que 300 mil crian\u00e7as nascessem no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>A pandemia de covid-19 est\u00e1 tendo efeitos nada desprez\u00edveis na demografia brasileira e mundial, embora os impactos de longo prazo dependam, na pr\u00e1tica, de quanto tempo levaremos para conter de vez o coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>S\u00e3o menos beb\u00eas nascendo, mais div\u00f3rcios e, tristemente, um n\u00famero impressionante de mortes: 195 mil mortos oficialmente contabilizados no Brasil em 2020, e mais 338 mil mortos em 2021 at\u00e9 agora. O total j\u00e1 ultrapassa 536 mil.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio fez com que n\u00e3o se cumprissem as previs\u00f5es populacionais feitas previamente para 2020 e 2021, como observa Jos\u00e9 Eust\u00e1quio Diniz Alves, doutor em demografia e pesquisador aposentado do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica).<\/p>\n<p>Diniz Alves analisou o comportamento da popula\u00e7\u00e3o brasileira no \u00faltimo ano e meio e identificou fatos importantes &#8211; alguns deles in\u00e9ditos em um pa\u00eds que cresce sem parar desde que foi colonizado pelos europeus, cinco s\u00e9culos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Confira alguns deles:<\/p>\n<p><strong>1) Menos nascimentos<\/strong><br \/>\nQuem imaginava que o enclausuramento provocado pela pandemia provocaria um &#8220;baby boom&#8221; se enganou, explica Diniz Alves \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;A pandemia provocou uma queda na natalidade no mundo inteiro&#8221;, diz. &#8220;Quem p\u00f4de adiar a maternidade, no caso de casais jovens, adiou. (&#8230;) Mesmo que tivesse havido mais sexo (entre pessoas quarentenadas em casa), hoje em dia existe uma separa\u00e7\u00e3o entre sexo e reprodu\u00e7\u00e3o. Houve muito medo de a mulher gr\u00e1vida ficar doente, medo de o hospital estar sobrecarregado. Basta adiarem-se 20% dos nascimentos para haver um impacto grande na taxa de natalidade.&#8221;<\/p>\n<p>Esse impacto j\u00e1 foi sentido em 2020, de gesta\u00e7\u00f5es possivelmente adiadas logo nos primeiros meses do ano. Enquanto houve em 2019, quase 2,8 milh\u00f5es de beb\u00eas nascidos no pa\u00eds, no ano passado esse n\u00famero caiu para pouco mais de 2,6 milh\u00f5es, segundo o Portal da Transpar\u00eancia do Registro Civil.<\/p>\n<p>Se considerarmos que a proje\u00e7\u00e3o do IBGE era de que o Brasil teria 2,9 milh\u00f5es de beb\u00eas nascidos no Brasil em 2020, tivemos, na pr\u00e1tica, 300 mil beb\u00eas a menos do que o esperado.<\/p>\n<p>E Diniz Alves explica que essa redu\u00e7\u00e3o deve se aprofundar ainda mais neste ano, porque os adiamentos de gesta\u00e7\u00f5es provavelmente continuaram ao longo do ano passado e do primeiro semestre deste.<\/p>\n<p>O aumento no n\u00famero de div\u00f3rcios (15% a mais apenas no segundo semestre de 2020, em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2019) e a queda no n\u00famero de casamentos tamb\u00e9m contribuem para menos concep\u00e7\u00f5es de beb\u00eas.<\/p>\n<p>Vale lembrar que esse fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 in\u00e9dito: por exemplo, quando eclodiu a epidemia de s\u00edndrome cong\u00eanita da zika em beb\u00eas, entre 2015 e 2016, tamb\u00e9m houve um recuo moment\u00e2neo na natalidade do Brasil, diante do medo das mulheres em engravidar.<\/p>\n<p>A expectativa, prossegue Diniz Alves, \u00e9 de que, passado o coronav\u00edrus, a taxa de natalidade brasileira volte aos patamares anteriores \u00e0 pandemia, na casa dos 2,8 milh\u00f5es de beb\u00eas por ano.<\/p>\n<p>Uma ressalva: isso \u00e9 muito abaixo dos 4 milh\u00f5es de beb\u00eas que nasciam anualmente no Brasil na d\u00e9cada de 1980 &#8211; e a culpa \u00e9 da transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica brasileira, sobre a qual falaremos no final desta reportagem.<\/p>\n<p><strong>2) Crescimento menor que previsto<\/strong><br \/>\nAntes de a pandemia eclodir, o IBGE havia projetado que o Brasil veria sua popula\u00e7\u00e3o aumentar em 1,574 milh\u00e3o de pessoas no ano passado.<\/p>\n<p>No entanto, diante da baixa na taxa de natalidade, das mortes por covid-19 e da sobrecarga do sistema de sa\u00fade, o pa\u00eds terminou 2020 com 1,159 milh\u00e3o de pessoas a mais, segundo o Portal da Transpar\u00eancia do Registro Civil.<\/p>\n<p>&#8220;Portanto, a grosso modo, podemos dizer que o impacto da pandemia foi reduzir o crescimento populacional em 415 mil pessoas em 2020&#8221;, explica Diniz Alves.<\/p>\n<p>Isso deve se intensificar neste ano: com ainda mais mortes por covid-19 do que no ano passado e menos nascimentos, &#8220;o Brasil deve ter 1 milh\u00e3o de pessoas a menos do que estava previsto nas proje\u00e7\u00f5es do IBGE para 2021&#8221;, prossegue o dem\u00f3grafo.<\/p>\n<p><strong>3) Popula\u00e7\u00e3o chega a encolher<\/strong><br \/>\nRio de Janeiro e Rio Grande do Sul, os Estados com maior propor\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o mais velha, registraram mais mortes do que nascimentos entre janeiro e maio de 2021.<\/p>\n<p>Foi uma varia\u00e7\u00e3o breve e tempor\u00e1ria &#8211; decorrente, obviamente, do pico de mortes por covid-19 -, mas muito importante: trata-se da primeira vez que isso acontece na hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma grande e in\u00e9dita novidade para a demografia brasileira, (&#8230;) que tem uma hist\u00f3ria de 521 anos de crescimento demogr\u00e1fico cont\u00ednuo e ininterrupto&#8221;, escreveu Diniz Alves em artigo.<\/p>\n<p>Eis os dados: segundo o Portal da Transpar\u00eancia do Registro Civil, o Estado fluminense teve 79.038 nascimentos e 79.570 \u00f3bitos de 1\u00b0 de janeiro a 29 de maio deste ano.<\/p>\n<p>Ou seja, houve uma redu\u00e7\u00e3o vegetativa de 532 pessoas no per\u00edodo, explica o dem\u00f3grafo.<\/p>\n<p>No Rio Grande do Sul, foram 53.832 nascimentos no per\u00edodo, e 54.218 \u00f3bitos. Na ponta do l\u00e1pis, uma popula\u00e7\u00e3o com 386 pessoas a menos.<\/p>\n<p>A expectativa de Diniz Alves \u00e9 de que a popula\u00e7\u00e3o desses Estados termine o ano de 2021 praticamente &#8220;empatada&#8221;, sem decr\u00e9scimos ou aumentos consider\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>4) Menor crescimento em d\u00e9cadas<\/strong><br \/>\nO caso fluminense e ga\u00facho \u00e9 \u00fanico, mas outros Estados brasileiros viram suas popula\u00e7\u00f5es morrerem como nunca antes por causa da covid-19 &#8211; ao mesmo tempo em que os nascimentos nunca foram t\u00e3o baixos.<\/p>\n<p>Vejamos o caso de S\u00e3o Paulo, que lidera, em n\u00fameros absolutos, as mortes por covid-19 no pa\u00eds. Um levantamento da associa\u00e7\u00e3o de cart\u00f3rios (Arpen-SP) mostrou que, no primeiro semestre deste ano, morreram 248 mil pessoas no Estado, n\u00famero recorde e 84% acima da m\u00e9dia para o per\u00edodo.<\/p>\n<p>Os nascimentos, por sua vez, foram 12% menores do que a m\u00e9dia: 277 mil. Trata-se, ent\u00e3o, do menor crescimento populacional em d\u00e9cadas no Estado paulista.<\/p>\n<p><strong>5) Brasileiros vivem menos dois anos<\/strong><br \/>\nEm entrevista \u00e0 BBC News Brasil em abril, a dem\u00f3grafa M\u00e1rcia Castro, professora da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica de Harvard (EUA), apontou que a pandemia fez o brasileiro perder quase dois anos de expectativa de vida em 2020.<\/p>\n<p>Em m\u00e9dia, beb\u00eas nascidos no Brasil em 2020 viver\u00e3o 1,94 ano a menos do que se esperaria se n\u00e3o tivesse havido a pandemia. Ou seja, 74,8 anos em vez dos 76,7 anos de vida anteriormente projetados.<\/p>\n<p>A queda interrompe pela primeira vez um ciclo de crescimento da expectativa de vida no pa\u00eds que havia se iniciado em 1945, quando nossa esperan\u00e7a de vida era de 45,5 anos em m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que essa queda na expectativa vai ser revertida no p\u00f3s-pandemia? Jos\u00e9 Eust\u00e1quio Diniz Alves explica que alguns dem\u00f3grafos acreditam que sim; outros, como ele, s\u00e3o mais c\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Temos um alto n\u00famero de brasileiros infectados com o coronav\u00edrus &#8211; mais de 19 milh\u00f5es de pessoas -, e uma parcela deles pode sofrer da chamada covid longa, que s\u00e3o as complica\u00e7\u00f5es de longo prazo na sa\u00fade provocadas pela covid-19.<\/p>\n<p>Esse impacto da covid longa na mortalidade \u00e9 que vai influenciar se os \u00f3bitos v\u00e3o voltar aos patamares anteriores, pr\u00e9-pandemia, ou continuar a sofrer as influ\u00eancias dela, opina Diniz Alves.<\/p>\n<p><strong>6) Impacto na transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica<\/strong><br \/>\nMesmo antes da pandemia, a popula\u00e7\u00e3o brasileira j\u00e1 estava em transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica e tornava-se cada vez mais envelhecida &#8211; ou seja, est\u00e1 diminuindo a propor\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e jovens enquanto aumenta a propor\u00e7\u00e3o de adultos idosos.<\/p>\n<p>As proje\u00e7\u00f5es indicam que, por volta de 2047, as curvas de natalidade e de \u00f3bitos v\u00e3o se encontrar. \u00c9 a partir da\u00ed que a popula\u00e7\u00e3o brasileira deve come\u00e7ar a encolher: vai nascer menos gente do que vai morrer anualmente.<\/p>\n<p>A covid-19 antecipou momentaneamente esse fen\u00f4meno, explica Diniz Alves, embora a expectativa \u00e9 de que esse impacto da pandemia seja tempor\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas tudo vai depender de o quanto conseguiremos, de fato, controlar o coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>&#8220;O efeito da pandemia \u00e9 conjuntural, mas pode manter os \u00f3bitos elevados e a natalidade mais baixa, dependendo do p\u00f3s-pandemia &#8211; se ela acabar de vez, \u00e9 uma coisa. Se (a covid-19) virar algo end\u00eamico, da\u00ed o efeito na popula\u00e7\u00e3o pode ser mais permanente&#8221;, afirma o dem\u00f3grafo.<\/p>\n<p>De qualquer modo, essa transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica prevista para 2047 est\u00e1 em curso &#8211; e esse curso dificilmente ser\u00e1 alterado. O que significa que precisaremos adaptar as pol\u00edticas socioecon\u00f4micas para um pa\u00eds que ter\u00e1 menos crian\u00e7as e mais idosos.<\/p>\n<p>Isso j\u00e1 ocorre em pa\u00edses mais desenvolvidos e envelhecidos, como Jap\u00e3o e Coreia do Sul &#8211; neste \u00faltimo, antigas escolas infantis, que haviam perdido a serventia, est\u00e3o sendo adaptadas para servir a idosos, por exemplo.<\/p>\n<p>Maternidades tendem a ser fechadas em pa\u00edses onde h\u00e1 menos nascimentos. E a Previd\u00eancia Social sente o baque, quando h\u00e1 menos jovens contribuindo para o bolo e mais aposentados necessitando de dinheiro de aposentadoria.<\/p>\n<p>Novamente, essa tend\u00eancia de desacelera\u00e7\u00e3o no crescimento populacional n\u00e3o \u00e9 exclusiva do Brasil: deve acontecer tamb\u00e9m em outras partes do mundo, da China \u00e0 Europa Oriental, salvo algumas exce\u00e7\u00f5es (como a \u00c1frica Subsaariana, onde o crescimento populacional deve se manter).<\/p>\n<p>Mas com um planejamento respons\u00e1vel e com pol\u00edticas focadas no bem-estar das pessoas, a redu\u00e7\u00e3o populacional tende a ser ben\u00e9fica para o planeta em geral, opina Jos\u00e9 Eust\u00e1quio Diniz Alves.<\/p>\n<p>&#8220;Essa ideia que vem desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial (em meados do s\u00e9culo 18) de que \u00e9 bom crescer sempre e ter mais coisas \u00e9 incompat\u00edvel com os recursos da Terra e com as outras esp\u00e9cies, pela press\u00e3o enorme sobre o meio ambiente&#8221;, explica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pandemia de covid-19 est\u00e1 tendo efeitos nada desprez\u00edveis na demografia brasileira e mundial, embora os impactos de longo prazo dependam, na pr\u00e1tica, de quanto tempo levaremos para conter de vez o coronav\u00edrus. 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