{"id":263138,"date":"2021-07-17T12:02:21","date_gmt":"2021-07-17T15:02:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=263138"},"modified":"2021-07-17T14:29:03","modified_gmt":"2021-07-17T17:29:03","slug":"herois-de-hollywood-abominam-sexo-para-manterem-forma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/herois-de-hollywood-abominam-sexo-para-manterem-forma\/","title":{"rendered":"Her\u00f3is de Hollywood abominam sexo para manterem forma"},"content":{"rendered":"<p>No segundo epis\u00f3dio de WandaVision (2021, Disney+), a super-hero\u00edna protagonista fica gr\u00e1vida depois de beijar seu marido. Com essa piada, a Marvel pretendia parodiar o moralismo das com\u00e9dias da TV americana dos anos sessenta, cuja est\u00e9tica a s\u00e9rie estava reproduzindo, mas a verdade \u00e9 que esse beijo foi a coisa mais picante que ocorreu em toda a saga.<\/p>\n<p>Na semana passada estreou (em cinemas e no Disney+) Vi\u00fava Negra, outro filme da Marvel, concentrado desta vez na personagem interpretada por Scarlett Johansson. Essa espi\u00e3 russa est\u00e1 na franquia desde Homem de Ferro 2 (2010), e o curioso \u00e9 que entrou na qualidade de componente er\u00f3tico: tanto Tony Stark (Robert Downey Jr.) como seu assistente Happy (Jon Favreau) observavam Johansson com lux\u00faria, comentavam o quanto era atraente e at\u00e9 buscavam na internet fotos dela de roupa \u00edntima.<\/p>\n<p>Homem de Ferro 2 foi distribu\u00eddo pela Paramount e, al\u00e9m disso, em uma Hollywood anterior ao movimento #MeToo. Quando a Disney absorveu a Marvel, em 2012, os Vingadores se tornaram um grupo celibat\u00e1rio. E n\u00e3o s\u00f3 eles. Os super-her\u00f3is no cinema atual n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00f5es sexuais, como nem parecem sentir desejo.<\/p>\n<p>Cineastas como David Cronenberg e Pedro Almod\u00f3var lamentaram essa deserotiza\u00e7\u00e3o. \u201cS\u00e3o feitos muitos filmes de super-her\u00f3is e n\u00e3o existe sexualidade neles. S\u00e3o castrados. Seu g\u00eanero \u00e9 indeterminado, o que importa \u00e9 a aventura. Mas o ser humano tem uma grande sexualidade\u201d, assinalou Almod\u00f3var durante uma palestra no Lincoln Center. Esse \u201cg\u00eanero indeterminado\u201d de que fala o diretor espanhol pode ser devido ao fato de que, para conseguir a igualdade entre homens e mulheres e evitar pol\u00eamicas a todo custo, a \u00fanica ideia que a Marvel teve foi acabar com a libido de todos os seus super-her\u00f3is.<\/p>\n<p>\u201cEssa \u00e9 a atitude geral que Hollywood adotou depois do #MeToo. Parece que n\u00e3o sabem dotar uma mulher de sexualidade sem humilh\u00e1-la, por isso optaram por dessexualizar todo mundo\u201d, afirma a sex\u00f3loga Paula \u00c1lvarez. \u201c\u00c9 como se Hollywood tivesse colocado os personagens heterossexuais no arm\u00e1rio. Em Modern family [s\u00e9rie da rede ABC, tamb\u00e9m pertencente \u00e0 Disney, transmitida entre 2009 e 2020], Mitch e Cam eram um casal homossexual, mas nunca se beijavam nem se acariciavam ou demonstravam carinho. Agora isso acontece com todos os personagens, tanto com os gays como com os heterossexuais.\u201d<\/p>\n<p>Nem sempre foi assim. Em Superman II (1980), Lois e Clark chegaram a transar na Fortaleza da Solid\u00e3o. Em Batman: o Retorno (1992), Bruce Wayne e a Mulher-Gato canalizavam sua tens\u00e3o sexual trocando tapas (e arranh\u00f5es, chicotadas e lambidas). No Universo Cinematogr\u00e1fico da Marvel, inaugurado em 2008 com Homem de Ferro, as \u00fanicas alus\u00f5es ao sexo o apresentam como algo perigoso (Hulk adverte duas mulheres, Betty Ross e a Vi\u00fava Negra, de que elas colocariam suas vidas em perigo se transassem com ele) ou como sintoma de infelicidade (Tony Stark vai para a cama com uma jornalista como sinal de sua imaturidade, Peter Quill faz o mesmo com uma extraterrestre rosa em Guardi\u00f5es da Gal\u00e1xia).<\/p>\n<p>Com essa deserotiza\u00e7\u00e3o, na verdade, a Marvel n\u00e3o pretende proteger as crian\u00e7as, e sim evitar repres\u00e1lias dos pais. O investimento exigido pelas superprodu\u00e7\u00f5es implica abranger o maior p\u00fablico poss\u00edvel, de todas as idades e de todos os pa\u00edses. Isso inclui a China, hoje o maior mercado cinematogr\u00e1fico do mundo, no qual os filmes devem passar pelo crivo de um comit\u00ea censor do Governo.<\/p>\n<p>O paradoxo \u00e9 que, embora os super-her\u00f3is do cinema sejam menos sensuais do que nunca, suas estrelas s\u00e3o mais desej\u00e1veis do que nunca. At\u00e9 os corpos de seus atores coadjuvantes est\u00e3o trabalhados ao m\u00e1ximo. Chris Pratt e Paul Rudd compartilharam no Instagram o resultado de suas rotinas de exerc\u00edcios para Guardi\u00f5es da Gal\u00e1xia e Homem-Formiga, respectivamente, embora depois aparecessem sem camisa por apenas alguns segundos no filme \u2014e embora fosse de se esperar que seus personagens, ambos carinhas simp\u00e1ticos sem nenhuma vaidade, tivessem uma certa barriguinha.<\/p>\n<p>Os corpos de Pratt e Rudd foram tratados pela imprensa e pelos f\u00e3s como um fetiche mais admir\u00e1vel do que sexual. A Marvel renunciou ao sexo, mas n\u00e3o ao culto ao corpo: a Vi\u00fava Negra surgiu com as costas arqueadas nos cartazes promocionais e o Capit\u00e3o Am\u00e9rica apareceu em Guerra civil treinando com uma cal\u00e7a de moletom t\u00e3o agarrada \u00e0s n\u00e1degas que ficou claro que n\u00e3o tinha nada por baixo. Mas o objetivo da Marvel parecia ser o de apresentar Chris Evans n\u00e3o como objeto de desejo sexual, e sim aspiracional. O interesse n\u00e3o \u00e9 que o p\u00fablico se empolgue com a ideia de fazer sexo com eles, mas com a ideia de ser como eles.<\/p>\n<p>At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, o est\u00fadio rival da Marvel, a DC, teve um diretor criativo, Zack Snyder, igualmente obcecado com a musculatura masculina: em seus filmes, Batman e Superman (Ben Affleck, Henry Cavill) eram vistos nus no chuveiro ou na banheira, mas n\u00e3o iam nem vinham de se deitar com ningu\u00e9m. A c\u00e2mera de Snyder n\u00e3o sente desejo, s\u00f3 inveja.<\/p>\n<p>A jornalista Raquel S. Benedict, em seu ensaio Everyone Is Beautiful and No One Is Horny (\u201ctodo mundo \u00e9 bonito e ningu\u00e9m tem tes\u00e3o\u201d), compara os corpos musculosos da Hollywood atual, e de outras \u00e1reas da cultura, com casas projetadas para ser reformadas e se valorizar. \u201cOs corpos j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o ve\u00edculos para sentir prazer, s\u00e3o um conjunto de destaques: abdominais, abdutores. E esses destaques n\u00e3o existem para tornar nossa vida mais confort\u00e1vel, mas para aumentar o valor do nosso capital. Os corpos s\u00e3o investimentos que devemos otimizar para conseguir&#8230; o que, exatamente?\u201d.<\/p>\n<p>O corpo \u00e9 tratado hoje como uma ferramenta de autoafirma\u00e7\u00e3o, prossegue Benedict, o que explica que a express\u00e3o \u201cfazer exerc\u00edcios\u201d tenha sido substitu\u00edda por \u201ctreinar\u201d. Esse verbo sugere que existe uma miss\u00e3o: o esporte j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um fim em si s\u00f3, pelo prazer, mas um meio para conseguir algo mais. A jornalista vincula essa mentalidade \u00e0s ra\u00edzes culturais americanas: \u201cPode haver algo mais cruelmente puritano do que criar um ideal sexual que, por sua vez, deixa a pessoa incapaz de desfrutar do sexo?\u201d.<\/p>\n<p>Em sua an\u00e1lise da aus\u00eancia de sexo no cinema comercial, Benedict aponta A origem (2010) como um dos exemplos mais absurdos. Sua trama segue um grupo de profissionais que se infiltra nos sonhos de um multimilion\u00e1rio para mudar seu comportamento: o filme consiste em tiros, carros e uma patrulha de esqui. \u201cComo se pode entrar nos n\u00edveis mais profundos do subconsciente de um milion\u00e1rio e n\u00e3o encontrar um pesadelo psicossexual edipiano e depravado?\u201d, pergunta a jornalista.<\/p>\n<p>Nos anos setenta, Superman se mudava para Metr\u00f3polis e descobria o que era ser adulto: trabalho, solteirice, magnatas, moradia, crises econ\u00f4micas, interesses pol\u00edticos, dificuldade de viver em sociedade. J\u00e1 quanto aos super-her\u00f3is da Marvel, a \u00fanica coisa que eles t\u00eam de adultos \u00e9 o fato de serem interpretados por atores com mais de 30 anos, mas para todos os efeitos s\u00e3o pr\u00e9-adolescentes. A espinha dorsal da saga Vingadores, a jornada de Tony Stark, que deixa de ser um Don Ju\u00e1n dissoluto para se tornar um l\u00edder santificado, exigia que o her\u00f3i renunciasse \u00e0 vida sexual. O sexo na Marvel \u00e9 sempre insano ou vergonhoso. O \u00fanico sexo saud\u00e1vel parece ser o inexistente.<\/p>\n<p>O caso do Capit\u00e3o Am\u00e9rica leva isso ao limite: ele \u00e9 diretamente virgem, talvez para evocar a dignidade do celibato mon\u00e1stico (que Christopher Nolan tamb\u00e9m sugeria em Batman Begins) ou para simbolizar esse ideal americano de ter tudo de melhor pela frente. O Capit\u00e3o Am\u00e9rica observava sua amada, a agente Peggy Carter, com a mesma castidade plat\u00f4nica com que Petrarca adorava a donzela Laura. S\u00f3 que Petrarca estava escrevendo no s\u00e9culo XIV.<\/p>\n<p>\u201cQue o Capit\u00e3o Am\u00e9rica seja virgem \u00e9 uma ideia que vem da cultura judaico-crist\u00e3: ela o apresenta como um ser puro e luminoso, assim como \u00e9 representado tradicionalmente Jesus Cristo\u201d, assinala Paula \u00c1lvarez. \u201cO sexo sempre atrapalha a miss\u00e3o do her\u00f3i, como quando um jogador de futebol perde rendimento e a torcida culpa sua mulher ou sua namorada, achando que se o her\u00f3i n\u00e3o vence \u00e9 porque faz sexo e que deveria ter guardado toda a sua for\u00e7a para conseguir sua fa\u00e7anha. Com o personagem-t\u00edtulo do H\u00e9rcules da Disney acontecia a mesma coisa, ele passava de zero a her\u00f3i, mas M\u00e9gara era a tenta\u00e7\u00e3o, aquela que se interpunha entre ele, o hero\u00edsmo e a uni\u00e3o com sua fam\u00edlia no Olimpo.\u201d<\/p>\n<p>Muitos super-her\u00f3is atuais reformulam o mito americano do her\u00f3i solit\u00e1rio (John Wayne, Dirty Harry, Rambo), aquele que abra\u00e7ava o celibato por quest\u00f5es pragm\u00e1ticas: se n\u00e3o havia mulher no meio, ele poderia se lan\u00e7ar em sua miss\u00e3o suicida sem distra\u00e7\u00f5es. Porque, como explicou D. H. Lawrence em Estudos sobre a literatura cl\u00e1ssica americana, todos os guerreiros americanos descendem do Natty Bumppo de James Fenimore Cooper, uma figura de castidade implac\u00e1vel e viol\u00eancia justificada.<\/p>\n<p>A \u00fanica rela\u00e7\u00e3o sexual retratada no cinema recente de super-her\u00f3is, a de Mulher-Maravilha 1984 (2020), provocou cr\u00edticas na imprensa e nas redes sociais: a hero\u00edna transa com seu falecido namorado gra\u00e7as ao fato de ele ter ressuscitado e assumido o corpo de outro homem. Alguns espectadores viram isso como uma super-hero\u00edna abusando sexualmente daquele corpo inocente. Essa pol\u00eamica foi um dos fatores que fizeram o filme ser motivo de piada e deu raz\u00e3o \u00e0 Marvel: na d\u00favida, \u00e9 mais prudente eliminar totalmente o sexo.<\/p>\n<p>E isso tamb\u00e9m afeta a vida real. Quando foram divulgadas, semanas atr\u00e1s, fotografias do diretor de Thor: Love and Thunder, Taika Waititi, aos beijos com a atriz Tessa Thompson e com a cantora Rita Ora depois de uma noite de farra, sugerindo uma rela\u00e7\u00e3o a tr\u00eas, a Disney os repreendeu para que parassem com isso. Uma fonte da equipe de filmagem afirmou: \u201cEssa n\u00e3o \u00e9 a imagem que [os produtores] procuram associar a uma de suas maiores franquias\u201d. Sabemos disso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No segundo epis\u00f3dio de WandaVision (2021, Disney+), a super-hero\u00edna protagonista fica gr\u00e1vida depois de beijar seu marido. 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