{"id":263143,"date":"2021-07-17T13:17:37","date_gmt":"2021-07-17T16:17:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=263143"},"modified":"2021-07-17T14:38:10","modified_gmt":"2021-07-17T17:38:10","slug":"mst-vira-capitalista-e-quer-lucrar-com-investimento-diversificado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mst-vira-capitalista-e-quer-lucrar-com-investimento-diversificado\/","title":{"rendered":"MST vira capitalista e quer lucrar com investimento diversificado"},"content":{"rendered":"<p>Em todo o mundo, iniciativas para voltadas para um capitalismo consciente, um conceito que faz muitos progressistas da esquerda torcerem o nariz, ganham for\u00e7a como aliadas na luta contra a pobreza e a desigualdade social. Democratizar e diversificar os investimentos \u00e9 uma das formas de se combater a concentra\u00e7\u00e3o do dinheiro nas m\u00e3os de poucos, justificam os que acreditam na iniciativa. A oferta p\u00fablica do MST vai aceitar aplica\u00e7\u00f5es a partir de 100 reais. S\u00e3o t\u00edtulos com prazo de cinco anos, isentos de imposto de renda, podendo at\u00e9 ser negociados no mercado secund\u00e1rio da Bolsa de S\u00e3o Paulo (B3), a depender de sua liquidez.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que o movimento explora essa alternativa de financiamento, considerada mais atrativa que os tradicionais (e burocr\u00e1ticos) empr\u00e9stimos banc\u00e1rios, mas at\u00e9 recentemente, era um privil\u00e9gio de grandes produtores. No ano passado, o MST captou 1,5 milh\u00e3o de reais em uma oferta privada para a finaliza\u00e7\u00e3o de uma f\u00e1brica de beneficiamento de produtos agr\u00edcolas da Cooperativa de Produ\u00e7\u00e3o Agropecu\u00e1ria Nova Santa Rita (Coopan), no Rio Grande do Sul. Essa cooperativa foi fundada legalmente em junho de 1995 e hoje conta com 29 fam\u00edlias e 80 associados (40 veteranos, 40 jovens), que atuam na produ\u00e7\u00e3o principalmente de arroz org\u00e2nico e carne su\u00edna, mas tamb\u00e9m de leite, padaria e outros itens para o consumo interno.<\/p>\n<p>Agora o objetivo \u00e9 mais ambicioso: custear a produ\u00e7\u00e3o, quase que majoritariamente org\u00e2nica, de arroz, milho, leite, soja, suco de uva e a\u00e7\u00facar mascavo de sete cooperativas \u2015Coana (231 fam\u00edlias envolvidas na produ\u00e7\u00e3o), Coapar (455), Coopaceres (39), Cooperoeste (1700), Cootap (609), Copacon (350) e Copavi (138)\u2015, localizadas em assentamentos de S\u00e3o Paulo, Mato Grosso do Sul, Paran\u00e1, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O MST n\u00e3o pode atender ao pedido de entrevista por estar em per\u00edodo de sil\u00eancio, quando est\u00e3o proibidas manifesta\u00e7\u00f5es na m\u00eddia que possam influenciar poss\u00edveis investidores.<\/p>\n<p>A emiss\u00e3o do CRA ser\u00e1 realizada pela securitizadora Gaia Impacto, empresa respons\u00e1vel em transformar as c\u00e9dulas de produto rural, emitidas pelas cooperativas, em t\u00edtulos mobili\u00e1rios (CRA). A estrat\u00e9gia, no entanto, faz parte de um movimento de capta\u00e7\u00e3o de recursos mais amplo chamado de Finapop &#8211; Programa de Financiamento Popular da Agricultura Familiar para Produ\u00e7\u00e3o de Alimentos Saud\u00e1veis. Idealizado em parceria com o economista e ex-banqueiro, assumidamente esquerdista, Eduardo Moreira, o Finapop \u00e9 inspirado em iniciativas internacionais alinhadas com princ\u00edpios da busca por uma economia \u00e9tica e sustent\u00e1vel. Os interessados poder\u00e3o reservar os papeis a partir do dia 26 de julho, no site da corretora Terra, ou se cadastrar no pr\u00f3prio site do Finapop. \u201cO site j\u00e1 recebeu quase 4.000 mensagens de pessoas que querem ser avisadas quando sa\u00edrem novas opera\u00e7\u00f5es\u201d, afirma Moreira.<\/p>\n<p>\u201cO Finapop \u00e9 uma ideia, uma vontade, que tem como princ\u00edpio sabermos o que as nossas economias est\u00e3o financiando. Pode ser que estejamos financiando a Taurus quando somos pacifistas. Financiando a JBS quando se \u00e9 vegano ou a Vale quando se \u00e9 ecologista. Por que n\u00e3o financiar o mundo que a gente acredita?\u201d, defende Moreira. O economista aposta ainda que a emiss\u00e3o ter\u00e1 tamb\u00e9m uma fun\u00e7\u00e3o educativa: mostrar para as pessoas que as cooperativas agr\u00edcolas do MST cumprem todos os requisitos legais para atender a demanda do mercado financeiro. \u201cNeste mundo capitalista, onde o mercado \u00e9 um ente quase sagrado, as pessoas ver\u00e3o que n\u00e3o t\u00eam motivo para odiar o MST\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Moreira \u00e9 um cr\u00edtico do modelo de capitalismo que ganhou f\u00f4lego a partir da d\u00e9cada de 1980 com a desregula\u00e7\u00e3o dos mercados e que hoje passa por um momento de revis\u00e3o. \u201cA experi\u00eancia na d\u00e9cada de 80 mostrou uma sequ\u00eancia de crises in\u00e9ditas. N\u00e3o sou um entusiasta do sistema capitalista hoje em dia, mas dificilmente vamos conseguir nos livrar dele. Por isso temos que limitar a gan\u00e2ncia, que rouba a produtividade e concentra o poder pol\u00edtico nas m\u00e3os de poucos\u201d, diz o economista, que n\u00e3o est\u00e1 sozinho nesta cruzada. Vale lembrar a c\u00e9lebre frase do conservador Nicolas Sarkozy, que em meio a crise financeira internacional de 2008 bradou sobre o fim da autorregula\u00e7\u00e3o. \u201cPrecisamos refundar o capitalismo (&#8230;) porque passamos a dois dedos da cat\u00e1strofe\u201d, disse o ent\u00e3o presidente franc\u00eas.<\/p>\n<p>A depender de como o MST ser\u00e1 recebido pelos investidores, h\u00e1 todo um universo potencial de agricultores familiares que podem se interessar em estreitar os la\u00e7os com o mercado de capitais. No MST s\u00e3o 160 cooperativas e mais de 1.000 associa\u00e7\u00f5es das quais fazem parte 450.000 fam\u00edlias em 24 Estados. Muitas dessas cooperativas exportam desde os anos 1990 produtos como arroz, sucos, feij\u00e3o, caf\u00e9 e derivados da cana, para pa\u00edses na Am\u00e9rica Latina, Europa e \u00c1sia. Foi tamb\u00e9m neste per\u00edodo que as cooperativas come\u00e7aram a desenvolver em larga escala produtos agroindustrializados, que hoje s\u00e3o vendidos em feiras e mercados municipais, especialmente no Sul do pa\u00eds e em S\u00e3o Paulo. As cooperativas tamb\u00e9m abastecem mais de 200 munic\u00edpios via Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar, al\u00e9m de quart\u00e9is, pres\u00eddios e hospitais. E vem desenvolvendo sua pr\u00f3pria rede de distribui\u00e7\u00e3o, as lojas Armaz\u00e9m do Campo, que atendem em m\u00e9dia 21.000 pessoas por m\u00eas, como uma forma de driblar a resist\u00eancia de grandes marcas de supermercados.<\/p>\n<p>A incurs\u00e3o do MST no mercado financeiro acontece num per\u00edodo de extrema hostilidade do Brasil com os movimentos sociais no campo. Jair Bolsonaro se elegeu em 2019 repetindo o discurso de que iria tratar o movimento em prol da reforma agr\u00e1ria como \u201corganiza\u00e7\u00e3o terrorista\u201d. E foi isso que aconteceu na pr\u00e1tica. Dados da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT) mostram que no ano de 2020 casos de pistolagem, expuls\u00e3o, despejo, amea\u00e7a de expuls\u00e3o, amea\u00e7a de despejo, invas\u00e3o, destrui\u00e7\u00e3o de ro\u00e7as, casas e bens no campo bateram o recorde da s\u00e9rie hist\u00f3rica iniciada em 1985. Foram 2.054 ocorr\u00eancias de viol\u00eancia, aumento de 8% em rela\u00e7\u00e3o a 2019, sendo 1.576 ocorr\u00eancias de conflitos por terra \u2015uma m\u00e9dia di\u00e1ria de 4,31 conflitos e alta de 25% em rela\u00e7\u00e3o a 2019. Esses conflitos envolveram 171.625 fam\u00edlias em plena pandemia do coronav\u00edrus. S\u00f3 entre os povos ind\u00edgenas foram 656 ocorr\u00eancias (41,6% do total), com 96.931 fam\u00edlias (56,5%) envolvidas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 virul\u00eancia mortal da peste, somou-se a viol\u00eancia do capital, referendada pela omiss\u00e3o e coniv\u00eancia do Estado\u201d, informa a CPT em seu relat\u00f3rio anual. Do total de conflitos, 62,5% ocorreram na Amaz\u00f4nia Legal, compreendida entre todos os Estados da regi\u00e3o Norte, al\u00e9m de parte do Maranh\u00e3o e todo o Estado do Mato Grosso. A regi\u00e3o vive um desmonte de pol\u00edticas p\u00fablicas num momento em que dados de desmatamento acumulam recordes. S\u00f3 no m\u00eas de junho, a Amaz\u00f4nia teve o maior n\u00famero de focos de queimadas dos \u00faltimos 14 anos para o per\u00edodo, com 2.308 focos de calor, segundo o INPE. A CPT registrou ainda o assassinato de 18 pessoas nos conflitos no campo no ano passado, sendo sete ind\u00edgenas. Outras 35 pessoas sofreram tentativas de assassinato (12 ind\u00edgenas) e 159 foram amea\u00e7adas de mortes (25 ind\u00edgenas).<\/p>\n<p>\u201cO relat\u00f3rio de conflitos da CPT de 2020 revela que o Brasil atual est\u00e1 mais pr\u00f3ximo de 1500 do que de 1988. Em diversas regi\u00f5es do pa\u00eds, ind\u00edgenas, trabalhadores rurais sem-terra, quilombolas, ribeirinhos, geraizeiros, pescadores artesanais, vazanteiros, camponeses de fundo e fecho de pasto s\u00e3o v\u00edtimas de processos de criminaliza\u00e7\u00e3o por conta de lutas, principalmente por terra e \u00e1gua\u201d, afirma em depoimento ao relat\u00f3rio Deborah Duprat, advogada e Subprocuradora-Geral da Rep\u00fablica aposentada. A CPT registrou 84 casos de criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos em 2020, que tiveram como alvo sem-terras (40), posseiros (24) e quilombolas (9).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em todo o mundo, iniciativas para voltadas para um capitalismo consciente, um conceito que faz muitos progressistas da esquerda torcerem o nariz, ganham for\u00e7a como aliadas na luta contra a pobreza e a desigualdade social. 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