{"id":263225,"date":"2021-07-18T01:15:28","date_gmt":"2021-07-18T04:15:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=263225"},"modified":"2021-07-18T01:32:24","modified_gmt":"2021-07-18T04:32:24","slug":"as-linguas-do-diabo-e-o-museu-da-lingua-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/as-linguas-do-diabo-e-o-museu-da-lingua-portuguesa\/","title":{"rendered":"As L\u00ednguas do Diabo e o Museu da L\u00edngua Portuguesa"},"content":{"rendered":"<p>Espero ter sa\u00fade para um dia retornar ao Museu da L\u00edngua Portuguesa (MLP), que reabre suas portas no pr\u00f3ximo 1\u00ba de agosto, ali no cora\u00e7\u00e3o da Cracol\u00e2ndia, em S\u00e3o Paulo. Visitei-o v\u00e1rias vezes, uma delas com um amigo guarani. Depois virou cinzas devorado pelo tr\u00e1gico inc\u00eandio. Escrevi ent\u00e3o \u201cUma p\u00e1tria, muitas l\u00ednguas\u201d, que exaltava a expografia ousada e as formas criativas de musealizar o idioma oficial, mas com vis\u00e3o cr\u00edtica do glotocentrismo, que apresentava o Brasil como um pa\u00eds unil\u00edngue. Afinal, musealizar n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 \u201cconservar mem\u00f3ria\u201d, mas constru\u00ed-la e essa constru\u00e7\u00e3o deixava de fora da hist\u00f3ria do Brasil as l\u00ednguas ind\u00edgenas, muitas faladas ainda hoje e discriminadas pelo colonialismo como \u201cl\u00ednguas do diabo\u201d.<\/p>\n<p>Durante os seis anos em que permaneceu fechado, o Museu elaborou projeto de recupera\u00e7\u00e3o para compor parte da nova exposi\u00e7\u00e3o. Convidado para gravar depoimento em v\u00eddeo que durou mais de uma hora, fiz uma s\u00edntese das glotopol\u00edticas do per\u00edodo colonial, quando as l\u00ednguas ind\u00edgenas e tamb\u00e9m as africanas foram satanizadas e minorizadas, vis\u00e3o essa herdada pelo senso comum at\u00e9 hoje. Esse depoimento reduzido a aproximadamente cinco minutos faz parte da mostra, segundo Will Nogueira, produtor audiovisual. De qualquer forma, a diretora Mar\u00edlia Bonas, em declara\u00e7\u00e3o \u00e0 Folha SP (16\/07\/21), destacou que mudou a forma de abordar quest\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cO Museu nasceu em 2006 com \u00eanfase na celebra\u00e7\u00e3o da l\u00edngua [portuguesa]. Isso n\u00e3o se perdeu, ainda \u00e9 importante, mas estamos tamb\u00e9m atentos \u00e0 diversidade. As exposi\u00e7\u00f5es refletem as lutas identit\u00e1rias\u201d.<\/p>\n<p>Um dos curadores, Hugo Barreto, acrescentou que h\u00e1 \u201cencontros, desencontros e at\u00e9 confrontos, como v\u00eddeos com cr\u00edticas de l\u00edderes ind\u00edgenas \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o do idioma portugu\u00eas aos povos origin\u00e1rios do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>A Rua da L\u00edngua<br \/>\nA repress\u00e3o \u00e0s l\u00ednguas aut\u00f3ctones \u00e9 apresentada por l\u00edderes ind\u00edgenas no \u201cFalares\u201d localizado no 3\u00ba andar, por onde come\u00e7a a atual exposi\u00e7\u00e3o \u2013 segundo informe da curadoria. L\u00e1 o visitante encontra uma instala\u00e7\u00e3o com nove telas verticais enormes, nas quais aparecem, em tamanho natural, pessoas desconhecidas e outras famosas: rezas, brincadeiras, cantos, poemas e interpreta\u00e7\u00f5es teatrais sinalizam para o poder da l\u00edngua. \u00c9 poss\u00edvel acompanhar um espet\u00e1culo de luz e som na \u201cPra\u00e7a da L\u00edngua\u201d.<\/p>\n<p>O visitante desce ao 2\u00ba andar e percorre um longo corredor \u2013 a \u201cRua da L\u00edngua\u201d \u2013 que exibe um painel e v\u00eddeos po\u00e9ticos curtos. No espa\u00e7o \u201cN\u00f3s da L\u00edngua\u201d passeia por textos escritos, imagens e sons de pa\u00edses no qual se fala o portugu\u00eas que, no Brasil, recebeu enorme contribui\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas ind\u00edgenas, n\u00e3o apenas no l\u00e9xico, mas nas camadas profundas da l\u00edngua. Na parede oposta, a linha do tempo da exposi\u00e7\u00e3o anterior foi enriquecida com v\u00eddeos did\u00e1ticos, m\u00fasica e objetos de cole\u00e7\u00f5es etnogr\u00e1ficas como um vaso de cer\u00e2mica Tupinamb\u00e1 do acervo da USP. \u00c9 l\u00e1 tamb\u00e9m que se curte os versos e os textos dos nossos escritores.<\/p>\n<p>No 1\u00ba andar, o visitante \u00e9 recebido por estandartes de maracatu da mostra tempor\u00e1ria \u201cL\u00edngua Solta\u201d em cartaz at\u00e9 3 de outubro. Abre espa\u00e7o ainda para artistas ind\u00edgenas e negros como Denilson Baniwa e Jaime Laureano, que compartilham sua arte com o humor das ruas, cartazes e r\u00f3tulos de cacha\u00e7a e at\u00e9 memes das redes sociais.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o do MLP \u00e9 um sopro de liberdade, de criatividade e de esperan\u00e7a, no momento em que o pa\u00eds vive enorme retrocesso no campo cultural. A Funai, dirigida por um policial, n\u00e3o cumpre seu dever constitucional e ataca os direitos ind\u00edgenas nas quest\u00f5es de terra, l\u00edngua, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o. Aquele que Spike Lee classificou como g\u00e2ngster debochou publicamente das l\u00ednguas ind\u00edgenas em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. Tal contexto mostra a import\u00e2ncia de levar nossas crian\u00e7as ao Museu, que desempenha fun\u00e7\u00e3o educativa indispens\u00e1vel para reavaliar a heran\u00e7a colonial e olhar com novos olhares culturas que resistem h\u00e1 mais de cinco s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Resist\u00eancia das mulheres<br \/>\nA sataniza\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas ind\u00edgenas iniciada no s\u00e9c. XVI foi refor\u00e7ada no s\u00e9c. XVIII no Brasil e na Amaz\u00f4nia. O governador do Gr\u00e3o Par\u00e1 Jo\u00e3o Maia da Gama ordenou aos mission\u00e1rios, em 1727, que obrigassem as crian\u00e7as a falar portugu\u00eas \u201cuns com os outros e dar-lhes algumas palmatoadas\u201d caso desobedecessem. Trinta anos depois o governador Xavier de Mendon\u00e7a, meio irm\u00e3o do Marqu\u00eas de Pombal, recomendou medidas para extinguir as l\u00ednguas ind\u00edgenas e a \u201cperniciosa e abomin\u00e1vel l\u00edngua que aqui impropriissimamente deram o nome de geral\u201d por ele classificada como uma \u201cdiab\u00f3lica inven\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o encontrou forte oposi\u00e7\u00e3o. No Tesouro Descoberto do Rio das Amazonas \u2013 uma esp\u00e9cie de b\u00edblia ecol\u00f3gica da regi\u00e3o escrita no s\u00e9c. XVIII \u2013 seu autor, o jesu\u00edta Jo\u00e3o Daniel, conta que as mulheres resistiam mais em abandonar suas pr\u00f3prias l\u00ednguas. Ele presenciou quando um \u201cmission\u00e1rio mandou dar palmatoadas\u201d em v\u00e1rias \u00edndias, mas elas \u201cantes se deixavam dar at\u00e9 lhes inchar as m\u00e3os e arrebentar o sangue\u201d. Gra\u00e7as a essa resist\u00eancia, s\u00e3o faladas 274 l\u00ednguas ind\u00edgenas no Brasil, segundo o Censo do IBGE de 2010 baseado em autodeclara\u00e7\u00e3o, ou cerca de 160 segundo crit\u00e9rios dos linguistas.<\/p>\n<p>\u2013 Se o que se pretende nos \u00edndios \u00e9 civiliz\u00e1-los e faz\u00ea-los gente, este fim s\u00f3, ou mais depressa e com mais facilidade se consegue com a l\u00edngua portuguesa do que com a linguagem dos \u00edndios\u201d \u2013 escreveu Jo\u00e3o Daniel. (Tomo II, p.227).<\/p>\n<p>Processo similar ocorreu em todo continente americano, como revela o livro \u201cLas lenguas del diablo\u201d, editado agora no M\u00e9xico, organizado pelo doutor Jos\u00e9 \u00c1ngel Quintero Weir, linguista ind\u00edgena do povo A\u00f1u, uma l\u00edngua da fam\u00edlia Arawak. S\u00e3o oito os autores de v\u00e1rios pa\u00edses, incluindo este locutor que vos fala.<\/p>\n<p>Lenguas del diablo<br \/>\nNa introdu\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 \u00c1ngel, catedr\u00e1tico da Universidade de Zulia, na Venezuela, exp\u00f5e que a demoniza\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas ind\u00edgenas por membros da igreja cat\u00f3lica no per\u00edodo colonial se estendeu por todo o per\u00edodo republicano, com o estabelecimento de um sistema educativo que proibiu o uso dessas l\u00ednguas, cujos falantes foram despojados tamb\u00e9m de seus territ\u00f3rios e condenados a desaparecer.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cAntes n\u00e3o existia o diabo. Quem trouxe o diabo para o nosso continente foi a igreja e essa igreja veio de outra parte do mundo, veio de longe, do outro lado do mar. Eles tiveram que trazer o diabo para que nossa l\u00edngua fosse secando por um temor desconhecido, por vergonha, por ignor\u00e2ncia. Incutiram em n\u00f3s o medo e aquela ideia de que eu n\u00e3o quero que meu filho tenha medo, que debochem dele e que seja ignorante como eu\u201d.<\/p>\n<p>Desta forma, ensinaram os ind\u00edgenas a se envergonharem de suas l\u00ednguas como destaca Jos\u00e9 \u00c1ngel que define quem \u00e9, afinal, o diabo que deve ser combatido:<\/p>\n<p>\u2013 Este livro \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o de algumas certezas, mas tamb\u00e9m de nossas d\u00favidas e de nossos medos, pois o diabo-Estado, o diabo-dinheiro, o diabo-conveni\u00eancia continuam nos assediando com suas tenta\u00e7\u00f5es para nos afastar da necessidade de avan\u00e7ar nas a\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia consciente, que \u00e9 aquilo que realmente nos remete ao tempo da liberdade.<\/p>\n<p>O MLP traz elementos para conhecermos e amarmos a \u201c\u00faltima flor do L\u00e1cio\u201d, mas tamb\u00e9m as primeiras flores de Pindorama. Nos seus tr\u00eas andares certamente encontraremos reflex\u00f5es para descapirotizar l\u00ednguas que fazem circular cantos, narrativas m\u00edticas, saberes e, dessa forma, combater a colonialidade, incapaz de organizar a cogni\u00e7\u00e3o em outros par\u00e2metros. Glotocentrismo e terraplanismo andam de m\u00e3os dadas.<\/p>\n<p>Puxa vida, eu daria tudo para percorrer a exposi\u00e7\u00e3o do MLP acompanhado de meu amigo guarani e das minhas tr\u00eas netas para dessa forma colorir o nosso pensamento. Quem mora em S\u00e3o Paulo ou passar por l\u00e1 que aproveite. Por causa da pandemia, a entrada de 40 pessoas \u00e9 permitida a cada 45 minutos com agendamento pela internet. Aguyjevet\u00e9.<\/p>\n<p>P.S. 1 \u2013 \u201cO olhar dos ind\u00edgenas sobre a musealiza\u00e7\u00e3o da sua mem\u00f3ria e do seu patrim\u00f4nio\u201d ser\u00e1 apresentado no dia 04 de agosto, \u00e0s 14h30 no Simp\u00f3sio Internacional organizado pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Museologia e Patrim\u00f4nio (PPG-PMUS) da UNIRIO, coordenado pela dra. Helena Cunha Uzeda, com a participa\u00e7\u00e3o de Priscila Faulhaber e deste locutor que vos fala.<\/p>\n<p>P.S.2 \u2013 O Museu do Amanh\u00e3 est\u00e1 produzindo uma exposi\u00e7\u00e3o sobre a Amaz\u00f4nia prevista para novembro deste ano, abordando as tecnologias para manter a floresta em p\u00e9. A proposta \u00e9 ter, na sala sobre a Amaz\u00f4nia milenar, \u00e1udios em diferentes l\u00ednguas falando a mesma frase: \u201cA floresta somos n\u00f3s e n\u00f3s somos a floresta\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Espero ter sa\u00fade para um dia retornar ao Museu da L\u00edngua Portuguesa (MLP), que reabre suas portas no pr\u00f3ximo 1\u00ba de agosto, ali no cora\u00e7\u00e3o da Cracol\u00e2ndia, em S\u00e3o Paulo. Visitei-o v\u00e1rias vezes, uma delas com um amigo guarani. Depois virou cinzas devorado pelo tr\u00e1gico inc\u00eandio. 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