{"id":263543,"date":"2021-07-20T18:45:28","date_gmt":"2021-07-20T21:45:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=263543"},"modified":"2021-07-21T11:02:05","modified_gmt":"2021-07-21T14:02:05","slug":"neofascismo-estende-tentaculos-com-liberais-em-todo-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/neofascismo-estende-tentaculos-com-liberais-em-todo-o-mundo\/","title":{"rendered":"Neofascismo estende tent\u00e1culos com jogo liberal"},"content":{"rendered":"<p>Ultimamente tem havido um recrudescimento de partidos de extrema-direita, fascistas, semi-fascistas ou neo-fascistas em todo o mundo, de uma forma que lembra a d\u00e9cada de 1930. Os governos fascistas servem invariavelmente os interesses do capital monopolista em geral, e da sua sec\u00e7\u00e3o mais recente, menos \u201cliberal\u201d e mais reacion\u00e1ria em particular, raz\u00e3o pela qual Georgi Dimitrov, presidente da Internacional Comunista, tinha, no seu S\u00e9timo Congresso, caracterizado um Estado fascista como a \u201cditadura terrorista aberta da sec\u00e7\u00e3o mais reacion\u00e1ria do capital financeiro\u201d; mas os movimentos fascistas desta era anterior haviam come\u00e7ado como movimentos contra o big business.<\/p>\n<p>Tendo adquirido um seguimento atrav\u00e9s da sua ret\u00f3rica anti- big business ou \u201cdireita radical\u201d, fizeram ent\u00e3o uma alian\u00e7a com o big business para chegarem ao poder e tra\u00edram os seus pr\u00f3prios seguidores. Hitler fez isto da forma mais sangrenta poss\u00edvel durante a chamada \u201cnoite das facas longas\u201d, quando o seu pr\u00f3prio associado mais pr\u00f3ximo, Ernst Rohm, o chefe da SA, e uma s\u00e9rie de outros nazis foram assassinados sob as suas ordens.<\/p>\n<p>Os movimentos neofascistas e de extrema-direita contempor\u00e2neos diferem, no entanto, dos seus cong\u00e9neres anteriores a este respeito: eles esquivam-se desde o in\u00edcio a qualquer ret\u00f3rica radical de direita. N\u00e3o h\u00e1 diatribes deles contra o big business, n\u00e3o h\u00e1 tentativas da sua parte para aproveitar a ira leg\u00edtima das pessoas contra um sistema que as mant\u00e9m desempregadas. No contexto atual, claro, tal ret\u00f3rica anti- big business teria necessariamente de tomar a forma de um ataque \u00e0s pol\u00edticas econ\u00f3micas neoliberais, uma vez que estas pol\u00edticas s\u00e3o a express\u00e3o perfeita da hegemonia do capital globalizado com o qual o big business interno est\u00e1 integrado. Mas os movimentos neofascistas e de extrema-direita contempor\u00e2neos por todo o mundo s\u00e3o ostensivos pelo seu sil\u00eancio e, por conseguinte, pelo seu endosso \u00e0s pol\u00edticas econ\u00f3micas neoliberais.<\/p>\n<p>Em alguns casos h\u00e1 um apoio aberto e entusi\u00e1stico, em oposi\u00e7\u00e3o ao endosso t\u00e1cito, a tais pol\u00edticas desde o in\u00edcio, e \u00e0 grande burguesia que est\u00e1 por detr\u00e1s de tais pol\u00edticas. Um exemplo importante disto \u00e9 o BJP que se tornou pr\u00f3ximo do big business e do capital globalizado sob Narendra Modi. De facto, a proximidade de Modi ao big business, quando ele era o principal ministro de Gujarat, foi o que levou o big business indiano a \u201cadot\u00e1-lo\u201d abertamente ap\u00f3s uma cimeira de investidores em Gujarat h\u00e1 alguns anos atr\u00e1s e a promov\u00ea-lo com \u00eaxito como o pr\u00f3ximo candidato a primeiro-ministro.<\/p>\n<p>Modi efetuou a alian\u00e7a corpora\u00e7\u00f5es-Hindutva que impulsionou a sua ascens\u00e3o ao poder; e um aspecto crucial para forjar esta alian\u00e7a foi a marginaliza\u00e7\u00e3o do Hindutva de frentes como o Swadeshi Jagaran Manch que anteriormente abra\u00e7ou algum tipo de programa de direita radical. Uma vez no poder, Modi recompensou amplamente os seus apoiantes corporativos, n\u00e3o apenas atrav\u00e9s de contratos e acordos espec\u00edficos (dos quais o acordo [dos avi\u00f5es] Rafale \u00e9 considerado como um exemplo primordial), ou atrav\u00e9s de legisla\u00e7\u00e3o para reduzir os direitos dos trabalhadores e minar a independ\u00eancia do campesinato, mas atrav\u00e9s de um programa de privatiza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de empresas do sector p\u00fablico. Ele justificou tudo isto com o argumento de que a grande burguesia constitui os \u201ccriadores de riqueza\u201d da na\u00e7\u00e3o! Isto, ironicamente de acordo com ele, justifica entregar-lhes a riqueza da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, deixemos de lado o Modi que est\u00e1 na sua pr\u00f3pria liga. Mesmo outros partidos de extrema direita no mundo, como a Liga do Norte de Matteo Salvini, na It\u00e1lia, que inicialmente pareciam opor-se \u00e0s pol\u00edticas neoliberais, pelo menos no contexto da Uni\u00e3o Europeia, cuja express\u00e3o era a sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 moeda comum Euro, agora acalmaram-se e aceitaram toda a gama de medidas econ\u00f3micas ortodoxas da UE.<\/p>\n<p>Recentemente, o endosso do neoliberalismo por parte da extrema-direita na Europa foi expresso de modo formal por uma declara\u00e7\u00e3o conjunta de dezesseis partidos europeus de extrema-direita, os quais incluem o Fidesz de Victor Orban na Hungria, a Frente Nacional de Marine Le Pen em Fran\u00e7a, o Partido da Liberdade na \u00c1ustria, o Partido Lei e Justi\u00e7a da Pol\u00f3nia, o Vox da Espanha e a Liga do Norte bem como o Irm\u00e3os da It\u00e1lia daquele pa\u00eds. Nesta declara\u00e7\u00e3o n\u00e3o houve nem uma \u00fanica palavra dedicada a quest\u00f5es de pol\u00edtica econ\u00f3mica (Thomas Fazi, The Delphi Initiative, July 9). A necessidade de preservar culturas nacionais dentro da Europa foi enfatizada, tal como a tradi\u00e7\u00e3o judia-crist\u00e3 daquele continente (acenada pela direita como um meio de atacar minorias religiosas); mas n\u00e3o houve men\u00e7\u00e3o a qualquer retirada da moeda comum ou a qualquer rep\u00fadio da imposi\u00e7\u00e3o draconiana de austeridade sobre todo Estado-membro que est\u00e1 associada \u00e0 moeda comum.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que, neste momento, devido \u00e0 pandemia, a UE suspendeu a rigorosa disciplina or\u00e7amental do seu Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) e deu aos pa\u00edses membros alguma margem de manobra em mat\u00e9ria de d\u00e9fices or\u00e7amentais, mas est\u00e1 suspens\u00e3o sup\u00f5e-se que seja apenas tempor\u00e1ria; e a Comiss\u00e3o Europeia j\u00e1 declarou recentemente que o PEC estaria outra vez em vigor em 2023. A declara\u00e7\u00e3o dos partidos de extrema-direita n\u00e3o pede sequer um adiamento desta data alvo para a reposi\u00e7\u00e3o do PEC.<\/p>\n<p>Levanta-se a quest\u00e3o: porque \u00e9 que a extrema-direita se tornou t\u00e3o mansa, t\u00e3o acomodat\u00edcia em rela\u00e7\u00e3o ao big business, mesmo antes de ter chegado ao poder na maior parte destes pa\u00edses? Porque difere a este respeito da sua anterior encarna\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1930? A resposta b\u00e1sica a esta pergunta reside no facto de que, ao contr\u00e1rio da d\u00e9cada de 1930, quando o capital financeiro de qualquer pa\u00eds, apesar de ter um alcance internacional, estava essencialmente enraizado na na\u00e7\u00e3o e apoiado pelo Estado-na\u00e7\u00e3o, o capital financeiro contempor\u00e2neo est\u00e1 globalizado. \u00c9 um capital globalizado que confronta o Estado-na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para contrariar o neoliberalismo e a austeridade or\u00e7amental que invariavelmente implica, um pa\u00eds teria de sair da globaliza\u00e7\u00e3o que o envolve dentro de um turbilh\u00e3o de fluxos financeiros globais e, assim, minar a autonomia or\u00e7amental do seu Estado. No contexto europeu isto significaria sair da Uni\u00e3o Europeia, uma vez que a UE \u00e9 o instrumento atrav\u00e9s do qual se exprime a hegemonia do capital globalizado. O capital financeiro com origem em qualquer pa\u00eds particular opor-se-ia a tal sa\u00edda uma vez que est\u00e1 integrado num sistema de capital financeiro globalizado. Uma agenda de sa\u00edda teria, portanto, de ser baseada no apoio de outras classes, acima de tudo a classe trabalhadora \u2013 e a extrema-direita n\u00e3o \u00e9 conhecida por representar ou promover os interesses da classe trabalhadora, apenas quer engan\u00e1-la.<\/p>\n<p>As objec\u00e7\u00f5es \u00e0 Uni\u00e3o Europeia provenientes da extrema-direita permanecem, portanto, confinadas a quest\u00f5es \u201cculturais\u201d, as quais podem ser acomodadas sem qualquer amea\u00e7a \u00e0 hegemonia do capital globalizado. Na verdade, \u00e9 de algum benef\u00edcio para o capital globalizado pois comuta o discurso afastando-o de assuntos vitais, como desemprego e afli\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, e confinando-o \u00e0 \u201cidentidade nacional\u201d e \u00e0 amea\u00e7a \u00e0 \u201ctradi\u00e7\u00e3o judia-crist\u00e3\u201d. Ele comuta o discurso para longe das quest\u00f5es materiais que afetam a classe trabalhadora e, portanto, serve os prop\u00f3sitos do capital globalizado.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 um aspecto da aquiesc\u00eancia da extrema-direita quanto \u00e0 hegemonia do capital globalizado que merece aten\u00e7\u00e3o. Para ultrapassar a crise de estagna\u00e7\u00e3o na qual o capitalismo metropolitano e portanto a economia capitalista mundial est\u00e1 apanhado, o presidente Joe Biden dos EUA tem advogado um ressuscitar de pol\u00edticas keynesianas: ele anunciou um conjunto de medidas que aumentariam a despesa governamental consideravelmente e seria financiada atrav\u00e9s de um aumento no d\u00e9fice or\u00e7amental estado-unidense bem como de impostos sobre capitalistas (para os quais ele quer um acordo internacional acerca de uma taxa fiscal corporativa m\u00ednima).<\/p>\n<p>O \u00eaxito da agenda de Biden exige um m\u00ednimo de concord\u00e2ncia de outros governos capitalistas quanto a uma agenda semelhante. Mesmo se todos os governos de pa\u00edses avan\u00e7ados concordassem numa agenda semelhante, a menos que tamb\u00e9m aos pa\u00edses do terceiro mundo fosse permitida autonomia or\u00e7amental, nomeadamente a liberta\u00e7\u00e3o do estrangulamento da \u201causteridade\u201d, ent\u00e3o a dicotomia entre um terceiro mundo \u201caustero\u201d e um primeiro mundo que persegue uma agenda estilo New Deal seria odiosa para o primeiro. Mas se mesmo o primeiro mundo n\u00e3o estiver de acordo sobre uma agenda expansionista keynesiana, ent\u00e3o os EUA, por si s\u00f3s, n\u00e3o conseguiriam sequer cumprir uma tal agenda.<\/p>\n<p>Isto acontece porque se os EUA seguirem uma pol\u00edtica keynesiana, a menos que se isolem completamente atrav\u00e9s de restri\u00e7\u00f5es \u00e0 importa\u00e7\u00e3o, aumentaria as importa\u00e7\u00f5es de outros que n\u00e3o seguissem tal pol\u00edtica, o que ampliaria o seu d\u00e9fice comercial em rela\u00e7\u00e3o a eles. Os EUA estariam assim a gerar emprego noutros pa\u00edses ao mesmo tempo que ficariam em d\u00edvida para com eles (por atenderem o seu d\u00e9fice comercial), o que n\u00e3o pode durar muito tempo. Com a extrema-direita a aceitar a reposi\u00e7\u00e3o da austeridade or\u00e7amental na Europa, que teria o apoio de um espectro de partidos pol\u00edticos do \u201cestablishment\u201d, e a esquerda europeia n\u00e3o suficientemente forte para resistir a tal austeridade, parece pouco prov\u00e1vel que a Europa prossiga uma agenda ao estilo Biden, o que, portanto, significaria a persist\u00eancia da submers\u00e3o do capitalismo mundial na sua atual estagna\u00e7\u00e3o e crise.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ultimamente tem havido um recrudescimento de partidos de extrema-direita, fascistas, semi-fascistas ou neo-fascistas em todo o mundo, de uma forma que lembra a d\u00e9cada de 1930. 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