{"id":263550,"date":"2021-07-20T18:55:10","date_gmt":"2021-07-20T21:55:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=263550"},"modified":"2021-07-20T18:56:04","modified_gmt":"2021-07-20T21:56:04","slug":"fascismo-de-camisa-verde-se-espalha-no-brasil-como-praga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fascismo-de-camisa-verde-se-espalha-no-brasil-como-praga\/","title":{"rendered":"Fascismo de camisa verde se espalha no Brasil como praga"},"content":{"rendered":"<p>Uma conversa com os autores do livro \u201cO fascismo em camisas verdes: do integralismo ao neointegralismo\u201d, que faz um hist\u00f3rico do fascismo brasileiro desde a sua origem, na d\u00e9cada de 1930, transformou-se em reportagem. Jornalistas e historiadores apontam uma parte da hist\u00f3ria que recrudesce com for\u00e7a .<\/p>\n<p>No in\u00edcio deste m\u00eas, completou dez meses que Eduardo Fauzi foi preso na R\u00fassia, a pedido da Interpol, ap\u00f3s ter sido identificado como um dos cinco autores do atentado ao pr\u00e9dio da produtora do Porta dos Fundos em 24 de dezembro de 2019, na v\u00e9spera do Natal. O ataque, com coquet\u00e9is molotov, teria sido motivado pelo especial natalino lan\u00e7ado dias antes na Netflix, com um enredo que sugere que Jesus Cristo seria homossexual, o que revoltou religiosos e conservadores no Brasil.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s o atentado, por meio de um v\u00eddeo, um grupo autodenominado Comando de Insurg\u00eancia Popular Nacionalista da Grande Fam\u00edlia Integralista Brasileira reivindicou a autoria do ataque. Todavia, dias depois, o grupo integralista negou qualquer envolvimento.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que Eduardo Fauzi se assume como um neointegralista e foi para entender melhor as muitas vidas do movimento integralista e a hist\u00f3ria do fascismo no Brasil que a Sputnik Brasil conversou com Leandro Pereira Gon\u00e7alves e o Odilon Caldeira Neto, autores do livro \u201cO fascismo em camisas verdes: do integralismo ao neointegralismo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Fascismo \u00e0 brasileira<\/strong><br \/>\nO integralismo brasileiro surge nos anos de 1930 como um movimento fascista cl\u00e1ssico, explicam os escritores. O escritor e jornalista Pl\u00ednio Salgado fica fascinado com a viagem que faz \u00e0 It\u00e1lia e o fascismo italiano inspira Salgado a tentar algo parecido no Brasil.<\/p>\n<p>\u201cOficialmente, o integralismo \u00e9 fundado em 7 de outubro de 1932 em S\u00e3o Paulo e vem de um hist\u00f3rico de rela\u00e7\u00f5es de intelectuais da pol\u00edtica brasileira com uma pol\u00edtica internacional. Inclusive, nosso livro come\u00e7a justamente mostrando o encontro do Pl\u00ednio Salgado com [o ditador italiano Benito] Mussolini, um momento em que ele [Pl\u00ednio] fica realmente fascinado com o que viu, n\u00e3o s\u00f3 Mussolini, mas com o que ele viu na It\u00e1lia, no final dos anos 1920, in\u00edcio dos anos 1930\u201d, comenta Leandro Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves acrescenta que \u00e9 no fascismo italiano que Salgado vai buscar a forte base crist\u00e3 do integralismo. \u201cVai inclusive buscar canalizar para a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica determinadas ang\u00fastias da sociedade, determinados anseios principalmente de setores m\u00e9dios da sociedade [\u2026]. O pensamento do Integralismo \u00e9 associado ao pensamento de Pl\u00ednio Salgado e o que ele quer \u00e9 romper com a oligarquia da Primeira Rep\u00fablica e colocar o intelectual como pol\u00edtico.\u201d<\/p>\n<p>O integralismo foi o principal movimento fascista fora da Europa. Muito bem organizado, com boas rela\u00e7\u00f5es internacionais, tinha uniformes: camisas verdes; sauda\u00e7\u00e3o: anau\u00ea; e slogan: Deus, p\u00e1tria e fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cExistia todo um ritual simb\u00f3lico dentro do movimento, de levar para a sociedade o movimento, colocar o integralismo na rua, fazer manifesta\u00e7\u00f5es e, principalmente, fazer com que o integralismo passasse a fazer parte do dia a dia do militante. Tanto \u00e9 que os integralistas v\u00e3o ter cerim\u00f4nias de casamento integralista, a crian\u00e7a \u00e9 batizada dentro de uma cerim\u00f4nia integralista, h\u00e1 ritual f\u00fanebre integralista\u201d, destaca Leandro Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p><strong>Fascismo multifacetado<\/strong><br \/>\nO movimento integralista possui muitas fases. Criado em 1932, a sua exist\u00eancia legal acaba em 1937, com a instaura\u00e7\u00e3o do Estado Novo. Mas o integralismo n\u00e3o deixa de existir e, mesmo, com a derrota do fascismo em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, o movimento segue tentando se adaptar \u00e0 nova realidade brasileira.<\/p>\n<p>\u201cQuando morre um pouco essa ideia de Estado fascista, os fascistas n\u00e3o v\u00e3o parar de atuar [\u2026]. O fascismo n\u00e3o vai pensar apenas e t\u00e3o exclusivamente em torno de mil\u00edcias, de corporativismo como forma de organiza\u00e7\u00e3o da economia e assim por diante. \u00c0 medida que o fascismo perde um pouco aquela capacidade aglutinante na primeira metade do s\u00e9culo XX, ele tem que se relacionar com outras tend\u00eancias do pensamento de direita e isso \u00e9 expresso um pouco na din\u00e2mica pol\u00edtica do pr\u00f3prio integralismo\u201d, comenta Odilon Caldeira Neto.<\/p>\n<p>Odilon recorda que Pl\u00ednio Salgado vai a Portugal e acaba sendo influenciado pelo Salazarismo, pelo conceito de democracia-crist\u00e3, e isso acaba lhe dando alguns referenciais para estruturar a forma de atua\u00e7\u00e3o dos integralistas ap\u00f3s a era do fascismo.<\/p>\n<p>\u201cO partido de representa\u00e7\u00e3o popular era uma roupagem integralista para uma democracia. O fascismo, a ideia fascista, consegue estabelecer elementos, muitas vezes mais estrat\u00e9gicos do que efetivamente filos\u00f3ficos, de muta\u00e7\u00f5es, reformula\u00e7\u00f5es e adequa\u00e7\u00f5es em contextos democr\u00e1ticos. Ent\u00e3o o partido de representa\u00e7\u00e3o popular que atua durante a d\u00e9cada de 1940, 1950 e 1960 adquire contornos democr\u00e1ticos\u201d, explica o escritor.<\/p>\n<p>E o movimento fascista brasileiro teve que sofrer um novo processo de adapta\u00e7\u00e3o com o golpe militar de 1964, que inclusive teve participa\u00e7\u00e3o de integralistas. Odilon afirma que o imagin\u00e1rio anticomunista no Brasil teve diversas frentes, com a Igreja Cat\u00f3lica, os militares, mas seria no integralismo que o sentimento anticomunista ganharia uma conota\u00e7\u00e3o ainda mais radical e conspiracionista, ativando diferentes formas de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO processo de adapta\u00e7\u00e3o durante o regime militar preconiza tamb\u00e9m uma certa diversidade dos grupos integralistas. De um lado h\u00e1 Pl\u00ednio Salgado e outras figuras integralistas que se filiam \u00e0 Arena [partido do regime militar] e atuam legislativamente, mas h\u00e1 tamb\u00e9m toda uma sorte de intelectuais e militantes integralistas que v\u00e3o pensar outras formas de organiza\u00e7\u00e3o que v\u00e3o ladear a ditadura, que v\u00e3o tentar imprimir marcas integralistas \u00e0 ditadura. O pr\u00f3prio Pl\u00ednio Salgado tentou isso.\u201d<\/p>\n<p>O escritor, todavia, frisa que durante o regime militar o integralismo perde o poder do ponto de vista institucional, n\u00e3o sendo mais uma organiza\u00e7\u00e3o central na pol\u00edtica institucional brasileira. E a morte de Pl\u00ednio Salgado, em 1975, \u00e9 outra grande ferida no movimento.<\/p>\n<p><strong>Neointegralismo<\/strong><br \/>\nOs autores ressaltam que o integralismo n\u00e3o era apenas Pl\u00ednio Salgado, mas reconhecem que era ele quem definia quais eram as possibilidade e formas de organiza\u00e7\u00e3o que a corrente poderia ter. Com a redemocratiza\u00e7\u00e3o do Brasil, a partir de 1985, come\u00e7am a surgir v\u00e1rios pequenos movimentos neointegralistas.<\/p>\n<p>\u201c[Com o fim da ditadura], o campo da extrema direita, da direita radical, do discurso ultraconservador, antidemocr\u00e1tico e assim por diante est\u00e1 em disputa. O neointegralismo \u00e9 a aus\u00eancia de Pl\u00ednio Salgado e tamb\u00e9m a disputa sobre as [novas] formas de organiza\u00e7\u00e3o. Eles buscam criar partidos neointegralistas ao longo da redemocratiza\u00e7\u00e3o. Se relacionam com grupos dos mais radicais da extrema direita, inclusive com grupelhos neonazistas [\u2026], com grupos mon\u00e1rquicos [\u2026]. N\u00e3o existe apenas uma via neointegralista e por isso mesmo que existem ainda na atualidade v\u00e1rios grupelhos, alguns mais conservadores, alguns mais cat\u00f3licos, outros mais radicais, outros mais neonazistas e outros que atuam inclusive com atos de viol\u00eancia contra entidades de esquerda, contra centros estudantis ou mesmo produtoras de filmes de humor\u201d, afirma Odilon.<\/p>\n<p>Leandro Gon\u00e7alves afirma que o neointegralismo tem atualmente tr\u00eas grandes grupos: Frente Integralista Brasileira (FIB), Movimento Integralista e Linearista Brasileiro (MIL-B) e a Associa\u00e7\u00e3o C\u00edvica Cultural Arcy Lopes Estrella (ACCALE).<\/p>\n<p>\u201cEm 2004, os neointegralistas se re\u00fanem em S\u00e3o Paulo para tentar promover uma unidade. Esse encontro cria oficialmente os movimentos neointegralistas dentro de uma ordem institucional. A FIB \u00e9 interessante porque \u00e9 aquela que busca acordos com partidos pol\u00edticos, dialogava com o PRONA, dialogou com o Fidelix, de onde sa\u00edram as pessoas que se filiaram ao PTB recentemente, ela busca interpretar o integralismo hoje como se fosse o integralismo da d\u00e9cada de 1930. O MIL-B, tem um grupo menor de pessoas e que \u00e9 liderado pelo policial federal rodovi\u00e1rio aposentado C\u00e1ssio Guilherme Reis Silveira, busca uma nova vis\u00e3o do integralismo na realidade atual, ou seja, busca adaptar o integralismo na sociedade contempor\u00e2nea. E, em 2017, \u00e9 criada a ACCALE, que \u00e9 uma das bases centrais do Eduardo Fauzi.\u201d<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves diz que militantes neointegralistas sa\u00edram candidatos por partidos como o PRONA, de En\u00e9as Carneiro, o PRTB, do Levy Fidelix, e o PSDB.<\/p>\n<p>\u201cCom a morte do Fidelix, o PTRB acabou sendo reduzido em algumas a\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias porque o Fidelix era a ponte dos integralistas no sentido democr\u00e1tico. Mas onde eles est\u00e3o apostando suas fichas hoje? No PTB, porque no PTB existe hoje uma figura que adotou uma face radical, que \u00e9 o Roberto Jefferson. Dias atr\u00e1s ele recebeu um grupo de neointegralistas em uma solenidade para filia\u00e7\u00e3o desses neointegralistas, que ser\u00e3o possivelmente candidatos a algum cargo nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es\u201d, comenta Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p>Odilon frisa que as bandeiras do movimento n\u00e3o mudaram muito. Os neointegralistas defendem os valores ultraconservadores e um modelo de fam\u00edlia e de sociedade fundado na primazia do lema integralista \u201cDeus, p\u00e1tria e fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEu diria que a agenda de costumes \u00e9 o elemento de maior profus\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o desses grupos e \u00e9 a partir desses elementos que eles conseguem encontrar alguma esp\u00e9cie de solidariedade com outros grupos da direita brasileira\u201d, garante Odilon, acrescentando que os neointegralistas orbitam e est\u00e3o no mesmo habitat dos grupos bolsonaristas.<\/p>\n<p>H\u00e1, inclusive, neointegralistas ocupando postos de governo, como no Minist\u00e9rio da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos, afirma Odilon.<\/p>\n<p><strong>Integralismo e viol\u00eancia<\/strong><br \/>\nLeandro Gon\u00e7alves recorda que essa ascens\u00e3o at\u00e9 o governo bolsonarista come\u00e7ou no in\u00edcio da d\u00e9cada, quando os neointegralistas come\u00e7aram a sair para as ruas.<\/p>\n<p>\u201cO movimento neointegralista hoje \u00e9 uma miscel\u00e2nea [\u2026]. Com a Internet, o neointegralismo passou a ser um movimento muito pautado por rede social, mas aos poucos passa a existir uma modifica\u00e7\u00e3o de atua\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o est\u00e3o apenas dentro de casa no computador, eles v\u00e3o \u00e0s ruas. E por que eles v\u00e3o as ruas? Porque existe um espa\u00e7o de aceita\u00e7\u00e3o da radicaliza\u00e7\u00e3o. A pol\u00edtica brasileira p\u00f3s-2013 promove um espa\u00e7o em que a direita pode ir para as ruas e ser\u00e1 aplaudida em muitos momentos\u201d, afirma o escritor.<\/p>\n<p>E em muitos desses momentos existe outro elemento muito presente no integralismo, a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cO fascismo, por defini\u00e7\u00e3o, tem a viol\u00eancia como um elemento pol\u00edtico [\u2026]. O fascismo opera no sentido de uma viol\u00eancia que existe em diversas inst\u00e2ncias. Ela pode ser escrita, pode ser verbal e assim por diante. Essa foi uma caracter\u00edstica do integralismo, embora n\u00e3o seja t\u00e3o radical e intensamente violento como foi o discurso do nacional-socialismo, mas isso n\u00e3o quer dizer que o integralismo n\u00e3o tenha sido violento. Atos de viol\u00eancia foram caracter\u00edsticas marcantes dentro da experi\u00eancia da A\u00e7\u00e3o Integralista Brasileira. Em diversos momentos, diversos integralistas entraram em confronto com advers\u00e1rios ou inimigos pol\u00edticos\u201d, explica Odilon.<\/p>\n<p>Leandro encerra recordando que, ap\u00f3s o atentado \u00e0 produtora Porta dos Fundos, paredes de pr\u00e9dios p\u00fablicos amanheceram, por v\u00e1rios dias seguidos, com as picha\u00e7\u00f5es \u201cFauzi Her\u00f3i\u201d, \u201cViva Fauzi\u201d e \u201cFauzi Livre\u201d. \u201cExiste a busca desse capital pol\u00edtico. A associa\u00e7\u00e3o de \u2018Fauzi Her\u00f3i\u2019 com o \u2018V\u00edrus Chin\u00eas\u2019 foi colocada justamente no consulado da China no Rio de Janeiro logo no in\u00edcio da pandemia. S\u00e3o v\u00e1rios espa\u00e7os, o bolsonarismo \u00e9 um espa\u00e7o aberto com v\u00e1rias possibilidades de an\u00e1lises de reflex\u00f5es, ent\u00e3o resta acompanhar e ao mesmo tempo torcer\u201d, conclui o escritor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma conversa com os autores do livro \u201cO fascismo em camisas verdes: do integralismo ao neointegralismo\u201d, que faz um hist\u00f3rico do fascismo brasileiro desde a sua origem, na d\u00e9cada de 1930, transformou-se em reportagem. Jornalistas e historiadores apontam uma parte da hist\u00f3ria que recrudesce com for\u00e7a . 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