{"id":264636,"date":"2021-07-30T16:13:30","date_gmt":"2021-07-30T19:13:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=264636"},"modified":"2021-07-30T16:17:27","modified_gmt":"2021-07-30T19:17:27","slug":"governo-se-une-a-ruralistas-para-criar-fogueiras-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/governo-se-une-a-ruralistas-para-criar-fogueiras-na-amazonia\/","title":{"rendered":"Governo se une a ruralistas para matar a Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p>Nos primeiros seis meses de 2021, a Amaz\u00f4nia perdeu uma \u00e1rea de 4.014 km\u00b2. A taxa de desmatamento registrada pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amaz\u00f4nia (Imazon)\u00a0 \u00e9 a maior para um primeiro semestre na \u00faltima d\u00e9cada e acompanha a tend\u00eancia de aumento dos \u00edndices desde 2018. A despeito dos n\u00fameros, um document\u00e1rio lan\u00e7ado em junho, que conta com participa\u00e7\u00e3o de membros do alto escal\u00e3o do governo, afirma que h\u00e1 \u201cmuito alarde\u201d sobre queimadas e desmatamento na floresta amaz\u00f4nica. Os entrevistados argumentam que um sobrevoo na regi\u00e3o demonstra que ela \u00e9 uma \u201cfloresta preservada\u201d.<\/p>\n<p>A respons\u00e1vel pelo filme que nega o cen\u00e1rio atestado por monitoramentos geoespaciais \u00e9 a empresa ga\u00facha Brasil Paralelo. A produtora conservadora se coloca como \u201ccontr\u00e1ria \u00e0 ideologiza\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado\u201d e \u00e9 conhecida pelo document\u00e1rio 1964: O Brasil entre armas e livros, que tenta recontar a hist\u00f3ria do golpe militar de cinco d\u00e9cadas atr\u00e1s, al\u00e9m de outras produ\u00e7\u00f5es apontadas como revisionistas.<\/p>\n<p>Em 2021, a produtora que se pretende uma \u201cNetflix da direita\u201d lan\u00e7ou dois document\u00e1rios focados nas quest\u00f5es ambiental e ind\u00edgena: Cortina de fuma\u00e7a e A esperan\u00e7a se chama liberdade. Investiga\u00e7\u00e3o da P\u00fablica revela que os filmes contam com participa\u00e7\u00e3o, aux\u00edlio e divulga\u00e7\u00e3o de integrantes do governo federal, al\u00e9m de investimento de um ruralista que j\u00e1 foi pego em fiscaliza\u00e7\u00e3o contra uso de m\u00e3o de obra escravizada.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio Cortina de fuma\u00e7a, disponibilizado no YouTube, baseia-se na tese de que organiza\u00e7\u00f5es civis e agricultores dos Estados Unidos e de pa\u00edses europeus defendem o meio ambiente porque estariam interessados em frear o crescimento agr\u00edcola do Brasil. J\u00e1 o document\u00e1rio A esperan\u00e7a se chama liberdade, exclusivo para assinantes da produtora, faz uma defesa da explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas como se essa fosse uma forma de garantir autonomia aos povos.<\/p>\n<p>Em entrevista exclusiva para assinantes da Brasil Paralelo, o diretor e fundador da produtora, Lucas Ferrugem, afirmou que a empresa \u201csempre\u201d quis fazer um document\u00e1rio sobre ambientalismo, mas estava esperando um \u201ctiming legal\u201d. O momento esperado chegou, quando s\u00e3o promovidas discuss\u00f5es de projetos de lei (PL) no Congresso Nacional, como o \u201cPL da Grilagem\u201d, o da minera\u00e7\u00e3o em terras ind\u00edgenas, o licenciamento ambiental, al\u00e9m do julgamento da tese do Marco Temporal no Supremo Tribunal Federal (STF).<\/p>\n<p>Questionada, a Brasil Paralelo disse que o timing n\u00e3o foi proposital. \u201c\u200b\u200bA BP foca em temas perenes com razo\u00e1vel durabilidade no debate p\u00fablico. Por isso buscamos o \u2018macro\u2019 da quest\u00e3o que, inclusive, permite compreender melhor os acontecimentos do dia a dia pol\u00edtico, jamais o contr\u00e1rio\u201d, disse o diretor de rela\u00e7\u00f5es institucionais da empresa, Renato Dias. \u201cCom a ascens\u00e3o da personalidade midi\u00e1tica Greta Thunberg e o aumento nas not\u00edcias sobre queimadas na Amaz\u00f4nia, achamos que era um bom momento para entrar na pauta e levar este conte\u00fado \u00e0s pessoas\u201d, completou.<\/p>\n<p>Organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental mais criticada no document\u00e1rio, o Greenpeace recha\u00e7a a narrativa apresentada no filme. \u201cO pseudodocument\u00e1rio [Cortina de fuma\u00e7a] faz jus ao nome, ao promover desinforma\u00e7\u00e3o sobre o desmatamento no Brasil e tentar desqualificar o trabalho de ativistas, de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais e da m\u00eddia tradicional, que denunciam a destrui\u00e7\u00e3o ambiental em curso no pa\u00eds. Tudo isso no momento em que o desmatamento segue descontrolado, as queimadas voltam a atingir n\u00edveis recordes e o pa\u00eds fica cada vez mais isolado e sob press\u00e3o internacional\u201d, afirmou \u00e0 P\u00fablica a porta-voz do Greenpeace, Carolina Pasquali.<\/p>\n<p><strong>Rela\u00e7\u00f5es com o governo<\/strong><br \/>\n\u201cEspero que esse filme chegue principalmente nas pessoas que podem tomar alguma atitude, seja do ponto de vista empresarial ou pol\u00edtico\u201d, disse Ferrugem em entrevista ao portal Not\u00edcias Agr\u00edcolas no dia 30 de junho, depois do lan\u00e7amento da obra.<\/p>\n<p>Meses antes, na tarde de 7 de maio de 2021, a ministra Damares Alves recebeu em seu gabinete em Bras\u00edlia quatro integrantes da produtora. A reuni\u00e3o fazia parte das grava\u00e7\u00f5es para o document\u00e1rio Cortina de fuma\u00e7a, que foi ao ar pouco mais de um m\u00eas depois. Cercada por pinturas e artesanatos ind\u00edgenas, a ministra negou a exist\u00eancia de genoc\u00eddio ind\u00edgena \u2013 pelo qual o presidente Jair Bolsonaro foi denunciado em pedidos de impeachment e internacionalmente \u2013 e falou sobre sua identifica\u00e7\u00e3o pessoal com a causa. \u201cN\u00f3s temos \u00e1reas de conflito, mas o povo brasileiro na sua grande maioria ama os povos ind\u00edgenas\u201d, defendeu em entrevista gravada para o document\u00e1rio.<\/p>\n<p>Um dia antes, a equipe havia visitado a sede da Funai para entrevistar o atual presidente, Marcelo Xavier. Na conversa, dispon\u00edvel em vers\u00e3o estendida na plataforma da Brasil Paralelo, Xavier defendeu que o ind\u00edgena deve \u201calcan\u00e7ar a sua dignidade atrav\u00e9s do auferimento de renda\u201d proveniente da produ\u00e7\u00e3o comercial em suas terras.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m alegou que poucos ind\u00edgenas morrem por conflitos agr\u00e1rios: \u201cH\u00e1 casos de ind\u00edgenas que foram mortos por se envolverem com tr\u00e1fico de drogas, atropelados, dentre outros casos, e algumas entidades insistem em jogar esses casos como conflitos fundi\u00e1rios\u201d, disse o presidente da Funai, tamb\u00e9m delegado da Pol\u00edcia Federal. A afirma\u00e7\u00e3o contradiz o levantamento da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), que demonstra que o assassinato de ind\u00edgenas por conflitos no campo bateu recorde sob o governo Bolsonaro. Foram registrados nove crimes de homic\u00eddio somente em 2019, maior n\u00famero em 11 anos \u2013 o que representou 28% do total de mortes por conflitos no campo no ano, 32. Al\u00e9m dos assassinatos, os ind\u00edgenas sofreram nove tentativas de homic\u00eddio e 39 amea\u00e7as de morte, segundo os dados da CPT.<\/p>\n<p>Xavier apareceu tamb\u00e9m no outro filme lan\u00e7ado pela produtora ga\u00facha, A esperan\u00e7a se chama liberdade. A produ\u00e7\u00e3o \u2013 realizada pela organiza\u00e7\u00e3o F\u00e9 &amp; Trabalho e distribu\u00edda pela Brasil Paralelo \u2013 acompanhou a agenda do presidente da Funai em viagem \u00e0 Terra Ind\u00edgena Sangradouro, da etnia Xavante, para promover o projeto Independ\u00eancia Ind\u00edgena, criticado pela Associa\u00e7\u00e3o Xavante War\u00e3 em nota de rep\u00fadio, mas exaltado na pe\u00e7a.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o de Xavier nos filmes lan\u00e7ados pela produtora foi facilitada pela assessora de imprensa da Funai, D\u00e9bora Schuch da Cruz \u2013 o que rendeu a ela agradecimentos especiais nos cr\u00e9ditos finais de Cortina de Fuma\u00e7a. D\u00e9bora acompanhou o chefe na viagem, de acordo com dados do Portal da Transpar\u00eancia, e divulgou o lan\u00e7amento do filme no site da Funai. \u201cDocument\u00e1rio destaca import\u00e2ncia do desenvolvimento sustent\u00e1vel para a autonomia ind\u00edgena\u201d, enfatiza a manchete.<\/p>\n<p>Os filmes servem de muni\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para a administra\u00e7\u00e3o da Funai. Em reuni\u00e3o com a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Desembargadores (Andes) no dia 25 de maio, Marcelo Xavier apresentou o trailer do document\u00e1rio A esperan\u00e7a se chama liberdade, que classificou como \u201cemocionante\u201d. O v\u00eddeo foi usado como forma de legitimar os esfor\u00e7os da \u201cNova Funai\u201d em regulamentar a minera\u00e7\u00e3o em terras ind\u00edgenas (TIs) atrav\u00e9s do PL 191, em tramita\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional. A pauta da explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e miner\u00e1ria nas TIs foi o tema da maior parte das reuni\u00f5es do mandat\u00e1rio da Funai em 2021.<\/p>\n<p>Durante a reuni\u00e3o com os desembargadores, Xavier reclamou da alta quantidade de demandas judiciais que estariam atrapalhando o andamento dos trabalhos da Funai e questionou as den\u00fancias feitas por ONGs internacionais. \u201cAs pessoas se envolvem nisso e fazem de tudo para inviabilizar o nosso trabalho, e isso \u00e9 muito triste porque as pessoas n\u00e3o est\u00e3o vendo o quanto est\u00e3o prejudicando as comunidades ind\u00edgenas. Esse v\u00eddeo \u00e9 um exemplo do que n\u00f3s temos\u201d, disse.<\/p>\n<p>Na semana de lan\u00e7amento dos document\u00e1rios, um evento da Comiss\u00e3o de Meio Ambiente da C\u00e2mara, presidida pela governista Carla Zambelli (PSL-SP), tamb\u00e9m indicou o material da Brasil Paralelo como fonte de informa\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel sobre a pauta socioambiental. O antrop\u00f3logo Edward Luz, convidado para participar de audi\u00eancia sobre a rela\u00e7\u00e3o do terceiro setor com o tema, citou Cortina de fuma\u00e7a ao argumentar que existe uma \u201cagenda internacional que atende as vontades, desejos e caprichos de poderosos grupos econ\u00f4micos internacionais\u201d. Conhecido como \u201co antrop\u00f3logo dos ruralistas\u201d, o consultor parlamentar foi um dos entrevistados para o document\u00e1rio, por indica\u00e7\u00e3o \u201cde uma ministra\u201d, conforme contam os diretores da Brasil Paralelo em live para seus membros assinantes.<\/p>\n<p>Nas redes sociais, ministros, servidores e parlamentares governistas tamb\u00e9m divulgaram o lan\u00e7amento dos document\u00e1rios. \u201cPara descobrir como a m\u00eddia usa o setor ambiental e o ministro Ricardo Salles para atacar Jair Bolsonaro, veja \u2018Cortina de Fuma\u00e7a\u2019, o novo document\u00e1rio da Brasil Paralelo\u201d, publicou Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que j\u00e1 participou de outros filmes da produtora.<\/p>\n<p>Os document\u00e1rios da Brasil Paralelo foram recomendados tamb\u00e9m pelo superintendente de Assuntos Ind\u00edgenas da Casa Civil do governo do Mato Grosso, Agnaldo Santos, que divulgou os dois filmes, clamando por \u201cindepend\u00eancia ind\u00edgena\u201d. O presidente da Associa\u00e7\u00e3o Xavante War\u00e3, uma das mais importantes do estado, criticou: \u201cO erro dele \u00e9 s\u00f3 pensar na ro\u00e7a mecanizada. Soja! Que [\u00e9] isso? Isso n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica n\u00e3o. Tem grandes erros do governo do estado do Mato Grosso\u201d.<\/p>\n<p>A P\u00fablica entrou em contato com a Funai e com o Minist\u00e9rio da Fam\u00edlia, da Mulher e dos Direitos Humanos. Nenhum dos dois \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos respondeu aos questionamentos enviados.<\/p>\n<p>Na plataforma da Brasil Paralelo, a descri\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio A esperan\u00e7a se chama liberdade destaca que no filme \u201capenas as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas falam sobre sua vis\u00e3o de mundo e sobre seus verdadeiros problemas\u201d, sendo estas \u201cmuito diferentes dos que s\u00e3o apresentados pelas m\u00eddias e ONGs que dizem represent\u00e1-los\u201d.<\/p>\n<p>Com 40 minutos de dura\u00e7\u00e3o, o filme entrevista exclusivamente ind\u00edgenas que produzem g\u00eaneros agr\u00edcolas em parcela de seus territ\u00f3rios. Alguns deles, como os Paresi, promovem a sojicultura mecanizada por meio de arrendamentos com fazendeiros, nas chamadas \u201cparcerias agr\u00edcolas\u201d \u2013 o que \u00e9 atualmente vetado pela legisla\u00e7\u00e3o brasileira. Em 2018, a P\u00fablica esteve no oeste do Mato Grosso e relatou o caso, ouvindo inclusive alguns dos entrevistados no document\u00e1rio.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s do filme est\u00e1 a F\u00e9 &amp; Trabalho, que idealizou e financiou o document\u00e1rio, distribu\u00eddo em parceria com a Brasil Paralelo. Fundada em 2020, a organiza\u00e7\u00e3o afirma em sua p\u00e1gina no LinkedIn que pretende trazer \u201cinforma\u00e7\u00f5es sobre trabalho, economia e pol\u00edtica sob a perspectiva de uma cosmovis\u00e3o crist\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>Trata-se de uma iniciativa do ruralista e pol\u00edtico Antonio Cabrera. Natural de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, no interior de S\u00e3o Paulo, ele \u00e9 presidente do Grupo Cabrera, fundado h\u00e1 mais de cem anos por seu av\u00f4. O grupo empresarial hoje atua especialmente na produ\u00e7\u00e3o de soja, milho, cana e carne, em cerca de dez estados brasileiros, al\u00e9m de exportar gado vivo e fabricar pr\u00e9-moldados. A empresa de Cabrera\u00a0 j\u00e1 trabalhou tamb\u00e9m na produ\u00e7\u00e3o de leite e de etanol, em parceria com a multinacional americana Archer Daniels Midland (ADM).<\/p>\n<p>A fazenda Bela Vista, que pertence ao ruralista, na cidade de Limeira do Oeste (MG), no Tri\u00e2ngulo Mineiro, foi alvo de opera\u00e7\u00e3o conjunta do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego e do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho em abril de 2009. Na ocasi\u00e3o, foram resgatados 184 trabalhadores em situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o na fazenda, que produz cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Segundo reportagem da Rep\u00f3rter Brasil, j\u00e1 havia ocorrido uma outra fiscaliza\u00e7\u00e3o na fazenda Bela Vista no ano anterior e Cabrera chegou a assinar um termo de compromisso em maio de 2008. Por conta disso, o ruralista foi inclu\u00eddo na Lista Suja do Trabalho Escravo em 2013. Ele foi processado tamb\u00e9m pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais Assalariados e Agricultores Familiares de Limeira do Oeste, tendo sido condenado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 3\u00aa Regi\u00e3o (TRT-3) a pagar adicionais de insalubridade, periculosidade e penosidade, al\u00e9m de diferen\u00e7as de f\u00e9rias, 13\u00ba e FGTS. Em segunda inst\u00e2ncia, a senten\u00e7a foi reduzida, sendo retirado o adicional de penosidade e determinado que os trabalhadores escolhessem apenas um adicional entre insalubridade e periculosidade. A senten\u00e7a j\u00e1 transitou em julgado e est\u00e1 em fase de execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Veterin\u00e1rio de forma\u00e7\u00e3o, Cabrera assumiu o Minist\u00e9rio da Agricultura e da Reforma Agr\u00e1ria de Fernando Collor (ent\u00e3o no PRN) em 1990, aos 29 anos, tornando-se o mais jovem ministro da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Sua gest\u00e3o enfrentou oposi\u00e7\u00e3o de entidades de trabalhadores rurais e, no primeiro ano na pasta, ele chegou a divulgar\u00a0 uma lista de \u201cfalsos sem-terra\u201d, acusando o PT e a Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT) de comandar uma \u201cind\u00fastria de invas\u00f5es\u201d de propriedades rurais no pa\u00eds. Ex-filiado da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Ruralista (UDR), ele j\u00e1 afirmou que o MST e demais movimentos sociais que reivindicam a reforma agr\u00e1ria devem ser tratados como \u201cuma quest\u00e3o da Justi\u00e7a, e n\u00e3o de pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Anos ap\u00f3s a experi\u00eancia no governo Collor, Cabrera foi secret\u00e1rio de Agricultura e Abastecimento em S\u00e3o Paulo, no governo do tucano M\u00e1rio Covas, e perdeu elei\u00e7\u00f5es para o Senado e para o governo do estado pelo PFL e pelo PTB. Atualmente, \u00e9 membro efetivo do diret\u00f3rio nacional do PSC, sendo tamb\u00e9m expert e ex-presidente da Funda\u00e7\u00e3o da Liberdade Econ\u00f4mica (FLE) \u2013 organiza\u00e7\u00e3o ligada ao seu atual partido que defende o \u201cliberalismo econ\u00f4mico e o conservadorismo como forma de gest\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Presbiteriano, Cabrera tem rela\u00e7\u00e3o com uma s\u00e9rie de organiza\u00e7\u00f5es com vi\u00e9s religioso: \u00e9 conselheiro deliberativo da Tela, organiza\u00e7\u00e3o crist\u00e3 que defende \u201ca liga\u00e7\u00e3o entre neg\u00f3cios e miss\u00f5es\u201d e promove uma \u201cEscola de Empreendedorismo Crist\u00e3o\u201d, e membro-fundador da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Crist\u00e3os na Ci\u00eancia e do Instituto Brasileiro de Direito e Religi\u00e3o, entre outras organiza\u00e7\u00f5es. Ele \u00e9 dono de uma das maiores cole\u00e7\u00f5es privadas de b\u00edblias do mundo. O empres\u00e1rio mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es com o governo de Jair Bolsonaro e sua base de apoio.<\/p>\n<p>Cabrera \u00e9 protagonista de boa parte dos v\u00eddeos do canal de YouTube da F\u00e9 &amp; Trabalho. Em um deles, o ruralista afirma que \u201ca no\u00e7\u00e3o de que a agricultura moderna \u00e9 destruidora da natureza n\u00e3o \u00e9 verdadeira\u201d e diz que o agricultor brasileiro \u00e9 um \u201ccredor ambiental\u201d e o \u201cverdadeiro guardi\u00e3o da natureza\u201d.<\/p>\n<p>Em outra produ\u00e7\u00e3o, narrada pelo apresentador Cid Moreira, a organiza\u00e7\u00e3o exalta o papel da soja. O v\u00eddeo afirma que o gr\u00e3o foi enviado por Deus \u201cpara ajudar a humanidade atrav\u00e9s dos mercados\u201d, al\u00e9m de dizer que a soja permite alimentar a popula\u00e7\u00e3o com prote\u00edna, o que evitaria \u201co consumo de animais silvestres\u201d.<\/p>\n<p>Segundo a Brasil Paralelo, Antonio Cabrera procurou a produtora para saber se a empresa tinha interesse na divulga\u00e7\u00e3o do filme que ele tinha produzido. \u201cGostamos do material e disponibilizamos para a nossa base de assinantes [com mais de 200 mil pessoas]\u201d, relatou o diretor de rela\u00e7\u00f5es institucionais, Renato Dias.<\/p>\n<p>Divulgado \u201ccom exclusividade\u201d para assinantes da Brasil Paralelo, A esperan\u00e7a se chama liberdade foi produzido pela Troia Ag\u00eancia Criativa, por encomenda da F\u00e9 &amp; Trabalho. A ag\u00eancia de comunica\u00e7\u00e3o sediada em Belo Horizonte tem como um dos objetivos \u201cpotencializar iniciativas mission\u00e1rias\u201d. Entre seus s\u00f3cios est\u00e1 o mission\u00e1rio Breno Vieitas, membro da Igreja Batista Central de Belo Horizonte e tamb\u00e9m da Tela \u2013 Neg\u00f3cios e Miss\u00f5es, organiza\u00e7\u00e3o de que Antonio Cabrera \u00e9 conselheiro. A ag\u00eancia n\u00e3o respondeu \u00e0s perguntas feitas pela P\u00fablica.<\/p>\n<p>Procurado pela reportagem, Cabrera afirmou que n\u00e3o responde pela F\u00e9 &amp; Trabalho e que seus \u201cneg\u00f3cios n\u00e3o t\u00eam nenhuma rela\u00e7\u00e3o com esse trabalho\u201d. Ele declarou ser \u201cum grande entusiasta e apoiador\u201d da iniciativa. Quanto \u00e0s den\u00fancias de trabalho escravo em sua propriedade, afirmou que os \u201cdireitos trabalhistas sempre foram pagos\u201d e considerou a fiscaliza\u00e7\u00e3o \u201carbitr\u00e1ria e sem nenhum crit\u00e9rio\u201d. Ressaltou que a maioria dos trabalhadores continuou atuando na propriedade. Acesse a \u00edntegra das respostas aqui.<\/p>\n<p>Em resposta aos questionamentos da P\u00fablica sobre poss\u00edveis conflitos de interesse entre o tema do document\u00e1rio e a atua\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria de Cabrera, a F\u00e9 &amp; Trabalho afirmou n\u00e3o ser uma pessoa f\u00edsica e que \u201cn\u00e3o acredita que possa haver nenhum conflito na defesa da Liberdade Econ\u00f4mica entre os mais distintos segmentos da sociedade brasileira\u201d. A F\u00e9 &amp; Trabalho n\u00e3o quis comentar o caso de trabalho escravo ligado \u00e0 propriedade do ruralista. A \u00edntegra das respostas da organiza\u00e7\u00e3o pode ser lida neste link.<\/p>\n<p>J\u00e1 o filme Cortina de fuma\u00e7a foi inteiramente produzido pela ga\u00facha Brasil Paralelo e massivamente divulgado em suas redes sociais. S\u00f3 no Facebook, a produtora \u2013 que \u00e9 recordista em gastos com an\u00fancios na plataforma entre p\u00e1ginas de pol\u00edtica \u2013 investiu mais de R$ 100 mil em 440 an\u00fancios sobre o filme, direcionados majoritariamente para homens de 35 a 45 anos na regi\u00e3o Sudeste.<\/p>\n<p>A empresa tem altas ambi\u00e7\u00f5es para a distribui\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio. \u201cAjude o filme Cortina de Fuma\u00e7a a chegar em tr\u00eas milh\u00f5es de espectadores\u201d, pediu em e-mail enviado \u00e0 base de inscritos. At\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem, a obra alcan\u00e7ou metade do pretendido: 1,5 milh\u00e3o de visualiza\u00e7\u00f5es no YouTube, mas a produtora se diz feliz com o resultado. \u201cAcreditamos que est\u00e1 indo muito bem\u201d, avalia Dias.<\/p>\n<p>O filme se ancora em ret\u00f3rica utilizada por grupos que se op\u00f5em ao movimento ambientalista desde a d\u00e9cada de 1990 e que foi sintetizada no livro M\u00e1fia verde: o ambientalismo a servi\u00e7o do governo mundial, de acordo com especialistas ouvidos pela P\u00fablica. Na obra, lan\u00e7ada em 2001, o mexicano Lorenzo Carrasco, radicado no Brasil, atribui a uma rede de ONGs ambientalistas e indigenistas, com financiamento de pa\u00edses estrangeiros, o objetivo de \u201cemperrar o desenvolvimento da Amaz\u00f4nia e interferir na soberania brasileira\u201d. \u00c9 a narrativa defendida por Carrasco, presidente do Movimento de Solidariedade Ibero-Americana (MSIa), que permeia o discurso \u201cantiglobalista\u201d do governo federal e o document\u00e1rio da Brasil Paralelo.<\/p>\n<p><strong>Como nasce o \u201cprensado\u201d<\/strong><br \/>\nFlagramos diversos problemas na colheita da maconha paraguaia que podem afetar a sa\u00fade do usu\u00e1rio; como o mercado \u00e9 ilegal, at\u00e9 erva estragada \u00e9 enviada para o Brasil<\/p>\n<p>O document\u00e1rio traz ainda outras vozes, como o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, da gest\u00e3o do presidente Lula; o relator do C\u00f3digo Florestal, Aldo Rebelo; e at\u00e9 Alysson Paulinelli, ministro do governo Geisel, durante a ditadura militar. A representa\u00e7\u00e3o do governo Bolsonaro \u00e9 garantida em tela por Damares Alves e Marcelo Xavier, al\u00e9m de Cl\u00e1udio Almeida, coordenador do Programa de Monitoramento da Amaz\u00f4nia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE); e Eduardo Lunardelli Novaes, secret\u00e1rio executivo adjunto do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de fontes de diferentes governos e partidos \u00e9 utilizada pelos produtores como prova de que o document\u00e1rio une vis\u00f5es e ideologias distintas. De acordo com fontes ouvidas pela P\u00fablica, por\u00e9m, a narrativa \u00e9 a mesma de bolsonaristas e ruralistas, que \u201cdeclaram guerra \u00e0s terras ind\u00edgenas h\u00e1 muito tempo\u201d. \u201cA gente v\u00ea esse discurso sendo veiculado largamente por figuras-chave do Executivo e do Legislativo Federal, inclusive o pr\u00f3prio Bolsonaro, o pr\u00f3prio Mour\u00e3o, Ricardo Salles, quando era ministro do Meio Ambiente\u201d, disse a antrop\u00f3loga e pesquisadora da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) Lu\u00edsa Molina. \u201cA narrativa negacionista preexistente ganhou for\u00e7a e foi amplificada no governo Bolsonaro\u201d, concorda a porta-voz do Greenpeace.<\/p>\n<p>Cortina de fuma\u00e7a come\u00e7a com um resgate de \u201cinfantic\u00eddio ind\u00edgena\u201d e, por meio de entrevistas com membros da ONG Atini \u2013 fundada por Damares Alves e acusada de incitar \u00f3dio a ind\u00edgenas e tirar crian\u00e7a de m\u00e3e \u2013, aborda o tema como uma \u201cpr\u00e1tica cultural nociva\u201d. Para a antrop\u00f3loga Marianna Holanda, professora de Sa\u00fade Coletiva e do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Bio\u00e9tica da UnB , a narrativa \u00e9 mentira e \u201csensacionalismo\u201d. \u201cDizer que o infantic\u00eddio ind\u00edgena existe como uma pr\u00e1tica cultural nociva em que m\u00e3es, pa\u00eds e av\u00f3s ind\u00edgenas, sem nenhuma reflex\u00e3o \u00e9tica ou cultural, matam seus filhos \u00e9 completamente absurdo. \u00c9 de um racismo estrutural.\u201d A antrop\u00f3loga pontua que o grupo que cunhou a tipologia \u201cinfantic\u00eddio ind\u00edgena\u201d tinha \u201cclaros interesses que foram se relacionando muito nitidamente com os interesses de explora\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas\u201d.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas, defendida em Cortina de fuma\u00e7a e principalmente em A esperan\u00e7a se chama liberdade, encontra resist\u00eancia da grande maioria de lideran\u00e7as ind\u00edgenas. \u201cAtrav\u00e9s desse discurso da liberdade e da autonomia, mas que no fim \u00e9 dinheiro, eles querem justamente trazer o modelo capitalista para dentro das aldeias, e \u00e9 a partir da\u00ed que uma s\u00e9rie de outros problemas sociais come\u00e7am\u201d, argumenta o advogado e assessor jur\u00eddico da Associa\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil, Maur\u00edcio Terena, da etnia Terena, no Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>No Mato Grosso, o l\u00edder F\u00e9lix Xavante, afirma que \u201c[os ruralistas sabem que] utilizar a terra ind\u00edgena n\u00e3o pode, ent\u00e3o eles est\u00e3o usando a pol\u00edtica do Xavante\u201d, que contaria com press\u00f5es e promessas de enriquecimento para \u201cdividir o povo Xavante de Sangradouro\u201d. \u201cEles est\u00e3o fazendo press\u00e3o em cima da gente pra que a gente aceitasse. O pensamento deles \u00e9 o qu\u00ea? Arrendar a terra ind\u00edgena Xavante para poder explorar, para acabar a natureza\u201d, diz.<\/p>\n<p>Uma foto a\u00e9rea da aldeia Xavante de Sangradouro abre o document\u00e1rio, que traz tr\u00eas ind\u00edgenas como entrevistados. Os tr\u00eas se posicionam favoravelmente \u00e0 explora\u00e7\u00e3o comercial por meio da Cooperativa Ind\u00edgena Sangradouro\/Volta Grande, fundada pelo Sindicato Rural de Primavera do Leste. O presidente da Associa\u00e7\u00e3o Xavante War\u00e3, Duts\u00e3 Dzadadzutewe Tserenhi, argumenta que o grupo que \u201cse alia aos ruralistas\u201d \u00e9 pequeno \u2013\u00a0 \u201cmais ou menos 20 pessoas\u201d da popula\u00e7\u00e3o de cerca de 2,4 mil xavantes em Sangradouro \u2013 e n\u00e3o representa o povo como um todo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a defesa do agroneg\u00f3cio estaria presente apenas em um dos nove territ\u00f3rios ind\u00edgenas xavantes demarcados, o de Sangradouro, e somente 20% do lucro retornaria aos ind\u00edgenas, de acordo com o presidente. Os outros 80% ficariam com a Cooperativa Primavera do Leste, que forneceu o maquin\u00e1rio para a explora\u00e7\u00e3o. Ainda assim, o document\u00e1rio apresenta a possibilidade de explora\u00e7\u00e3o comercial como solu\u00e7\u00e3o consensual e sem contraposi\u00e7\u00f5es, que somente geraria benef\u00edcios e \u201cesperan\u00e7a\u201d aos povos.<\/p>\n<p>Para a antrop\u00f3loga Lu\u00edsa Molina, os ruralistas e defensores desse tipo de ideia se utilizam do \u201cdesconhecimento\u201d da popula\u00e7\u00e3o em geral \u201cpara vender essa ideia de que eles est\u00e3o fazendo algo que os ind\u00edgenas querem\u201d. \u201cO genoc\u00eddio vem sempre acompanhado de uma ret\u00f3rica bondosa, humanista\u201d, finaliza.<\/p>\n<p>O Sindicato Rural de Primavera do Leste n\u00e3o respondeu aos diversos contatos feitos pela reportagem.<\/p>\n<p><strong>Demanda da Secom<\/strong><br \/>\nOs fundadores da Brasil Paralelo negam alinhamento ao governo Bolsonaro, mas al\u00e9m da proximidade ideol\u00f3gica do conte\u00fado, personalidades bolsonaristas apresentam constantemente as produ\u00e7\u00f5es da empresa como exemplo a ser seguido \u2014\u00a0 e at\u00e9 encomendado pelo governo.<\/p>\n<p>O inqu\u00e9rito que apurou a organiza\u00e7\u00e3o de atos antidemocr\u00e1ticos no STF encontrou em anota\u00e7\u00f5es de 2019 do blogueiro Allan dos Santos, dono do portal Ter\u00e7a Livre, diretrizes e estrat\u00e9gias apontadas pelo ide\u00f3logo conservador Olavo de Carvalho, para pol\u00edticos e influenciadores bolsonaristas. Nessas notas, ele listou \u201cdocument\u00e1rios da Brasil Paralelo\u201d como uma das demandas a serem feitas para a Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o do Governo (Secom), mas as investiga\u00e7\u00f5es n\u00e3o avan\u00e7aram sobre as associa\u00e7\u00f5es da produtora com o Ter\u00e7a Livre ou o governo federal.<\/p>\n<p>Fundada no contexto do impeachment da presidente Dilma Rousseff, a Brasil Paralelo \u00e9 uma produtora de cursos, s\u00e9ries e filmes documentais que prop\u00f5em uma \u201csolu\u00e7\u00e3o paralela\u201d para a cultura e educa\u00e7\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Logo em sua primeira produ\u00e7\u00e3o, Congresso Brasil Paralelo, que foi ao ar em 2016, a produtora entrevistou grandes nomes do bolsonarismo, inclusive o pr\u00f3prio Jair Bolsonaro, na \u00e9poca deputado federal e pr\u00e9-candidato \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. O ide\u00f3logo bolsonarista Olavo de Carvalho tamb\u00e9m j\u00e1 participou de dezenas de produ\u00e7\u00f5es, como revelou reportagem da P\u00fablica.<\/p>\n<p>A Brasil Paralelo \u2013 representada por um de seus fundadores, Henrique Viana \u2013 tamb\u00e9m esteve presente na posse presidencial de Jair Bolsonaro em janeiro de 2019, ao lado de outros influenciadores bolsonaristas e com acesso privilegiado \u00e0s \u00e1reas do evento.<\/p>\n<p>No final de 2019, a empresa cedeu os direitos de exibi\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie Brasil: a \u00faltima cruzada para a estatal TV Escola, o que gerou pol\u00eamica, uma vez que os filmes apresentavam uma vis\u00e3o romantizada e enviesada do per\u00edodo colonial no Brasil.<\/p>\n<p>Mais recentemente, lan\u00e7ou uma s\u00e9rie de cursos sobre educa\u00e7\u00e3o, com destaque para o homeschooling, ou ensino domiciliar, bandeira levantada por integrantes do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e pauta na Comiss\u00e3o de Cidadania e Justi\u00e7a da C\u00e2mara (CCJ), presidida pela deputada Bia Kicis (PSL-DF).<\/p>\n<p>A Brasil Paralelo foi uma das primeiras a espalhar a falsa narrativa de fraude nas urnas eleitorais, hoje repetida por Bolsonaro ao defender o voto impresso. Ainda em 2018, a produtora publicou uma entrevista em que um f\u00edsico dizia que as elei\u00e7\u00f5es de 2014 \u2013 que reelegeram Dilma Rousseff \u2013 teriam sido fraudadas a partir de uma suposta lei matem\u00e1tica. A acusa\u00e7\u00e3o foi desmentida por ag\u00eancias de checagem na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Com menos de cinco anos de atua\u00e7\u00e3o, a empresa se gaba de nunca ter recebido dinheiro p\u00fablico, em contraposi\u00e7\u00e3o a produ\u00e7\u00f5es financiadas pela Ancine e outros \u00f3rg\u00e3os de incentivo. Segundo eles, todas as suas produ\u00e7\u00f5es s\u00e3o pagas por assinaturas de conte\u00fado que recebem. Atualmente, a empresa possui mais de 180 mil \u201cmembros\u201d, mas aspira a voos mais altos: querem chegar a 1 milh\u00e3o de assinantes at\u00e9 o final de 2022.<\/p>\n<p>Para tal, est\u00e1 aumentando equipe e infraestrutura. A nova sede da Brasil Paralelo ocupa dois andares de um pr\u00e9dio comercial na avenida Paulista \u2013 uma das regi\u00f5es mais caras da cidade. No ano passado, mudaram-se de Porto Alegre e contrataram dezenas de pessoas. Um desses rec\u00e9m-contratados \u00e9 Elton Mesquita, roteirista do document\u00e1rio Cortina de fuma\u00e7a e integrante do canal de extrema direita Brasileirinhos no YouTube.<\/p>\n<p>No momento, a produtora est\u00e1 com 30 vagas abertas e anuncia em suas redes sociais que entrou em um novo ciclo gerado pelo dito sucesso das produ\u00e7\u00f5es, sem dar mais detalhes.<\/p>\n<p>Apesar de se dizerem livres de \u201camarras ideol\u00f3gicas\u201d, um dos requisitos para entrar na empresa \u00e9 se alinhar com os valores da equipe. No processo seletivo, a empresa testa os posicionamentos dos candidatos com afirma\u00e7\u00f5es como \u201ccientificamente falando, \u00e9 imposs\u00edvel nascer homossexual\u201d ou \u201cJesus \u00e9 a verdade revelada e sobre isso n\u00e3o h\u00e1 discuss\u00e3o\u201d. O interessado deve declarar se concorda, discorda ou n\u00e3o tem opini\u00e3o sobre as frases.<\/p>\n<p>De 19, duas delas abordaram a tem\u00e1tica ambiental: \u201cN\u00e3o se pode confiar nas corpora\u00e7\u00f5es para proteger voluntariamente o meio ambiente, elas precisam de regula\u00e7\u00e3o\u201d e \u201c\u00e9 um absurdo que em pleno s\u00e9culo XXI a humanidade ainda n\u00e3o tenha se unido para salvar o meio ambiente\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 reportagem, a Brasil Paralelo afirmou que \u201c\u00e9 100% apartid\u00e1ria, n\u00e3o promove partidos, candidatos pol\u00edticos e nem recebe dinheiro p\u00fablico\u201d. A empresa negou a dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es falsas em seus materiais. \u201cQuando taxam algum v\u00eddeo de fake news, a pergunta que fica \u00e9: o que \u00e9 fake news?\u201d, questionaram, lembrando processos judiciais que ganharam contra outros ve\u00edculos de imprensa. \u201cContinuaremos processando todos que difamarem a empresa.\u201d Sobre a cita\u00e7\u00e3o da empresa no inqu\u00e9rito do STF, disseram que \u201cestavam apenas utilizando a Brasil Paralelo como refer\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o audiovisual\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos primeiros seis meses de 2021, a Amaz\u00f4nia perdeu uma \u00e1rea de 4.014 km\u00b2. A taxa de desmatamento registrada pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amaz\u00f4nia (Imazon)\u00a0 \u00e9 a maior para um primeiro semestre na \u00faltima d\u00e9cada e acompanha a tend\u00eancia de aumento dos \u00edndices desde 2018. 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