{"id":265068,"date":"2021-08-03T20:29:46","date_gmt":"2021-08-03T23:29:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=265068"},"modified":"2021-08-03T23:48:19","modified_gmt":"2021-08-04T02:48:19","slug":"cidade-dos-meninos-vai-morrendo-e-sendo-riscada-do-mapa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cidade-dos-meninos-vai-morrendo-e-sendo-riscada-do-mapa\/","title":{"rendered":"Cidade dos Meninos vai morrendo e sendo riscada do mapa"},"content":{"rendered":"<p>Um portal em arco amarelo de arquitetura mexicana separa a Cidade dos Meninos do resto do mundo. Erguida na d\u00e9cada de 1940 \u00e0s margens do quil\u00f4metro 12,5 da Rodovia Presidente Kennedy, aquela estrutura com pintura desgastada separa o estado do Rio de Janeiro de uma \u00e1rea federal esquecida no tempo. Dois seguran\u00e7as param qualquer carro desconhecido que busque entrar na pequena comunidade. Perguntam o nome dos forasteiros, para onde v\u00e3o e qual a rela\u00e7\u00e3o com os moradores.<\/p>\n<p>L\u00e1 dentro existe uma \u00e1rea rural no meio da Baixada Fluminense, uma das regi\u00f5es mais violentas do pa\u00eds. Mas aqui a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de paz e de um enorme sil\u00eancio. Toda a comunidade, onde moram 1400 fam\u00edlias, \u00e9 cortada por uma estrada de terra, a avenida Darcy Vargas. A primeira-dama de Get\u00falio Vargas recebeu a homenagem por ter iniciado na d\u00e9cada de 1930 o projeto de construir um internato para \u00f3rf\u00e3os que deu origem \u00e0 comunidade.<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o h\u00e1 mais internos na Cidade dos Meninos. Pelo contr\u00e1rio; \u00e9 como se aquela comunidade enfrentasse uma maldi\u00e7\u00e3o que impede qualquer crian\u00e7a de frequentar uma escola erguida sobre aquele solo. \u201cUm monstro invis\u00edvel\u201d, \u00e9 o que contam por l\u00e1.<\/p>\n<p>A comunidade \u00e9 o palco de um dos maiores desastres ambientais do Brasil. Mas, \u00e0 diferen\u00e7a de outras contamina\u00e7\u00f5es por subst\u00e2ncias t\u00f3xicas, como o caso C\u00e9sio-137, em Goi\u00e2nia, a hist\u00f3ria da Cidade dos Meninos foi esquecida. E o problema segue sem solu\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>O primeiro alerta do desastre que selou a hist\u00f3ria do orfanato e dos moradores est\u00e1 em uma placa, a menos de 1 quil\u00f4metro da entrada: \u201cPERIGO \u2013 \u00c1REA CONTAMINADA\u201d.<\/p>\n<p>Os telefones de emerg\u00eancia que constam no aviso j\u00e1 n\u00e3o funcionam mais. A placa foi instalada h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas, e marca tamb\u00e9m a \u00faltima vez que o Governo Federal tirou do papel algum projeto para controlar a contamina\u00e7\u00e3o por hexaclorociclohexano, o HCH. Um pozinho branco, de apar\u00eancia inofensiva, trata-se de um agrot\u00f3xico organoclorado mais conhecido como \u201cp\u00f3 de broca\u201d\u2013 o nome vem de um besouro que ataca o cafezal, a \u201cbroca do caf\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Nos tempos de gl\u00f3ria, a Cidade dos Meninos chegou a abrigar mais de 1.200 \u00f3rf\u00e3os. Nas cinco d\u00e9cadas em que funcionou, foi o lar de cerca de 5 mil \u00f3rf\u00e3os e crian\u00e7as retiradas das ruas do Rio de Janeiro e de outros estados do Brasil. Al\u00e9m deles, a comunidade acolheu tamb\u00e9m os funcion\u00e1rios do orfanato, que ganharam casas na regi\u00e3o e constru\u00edram fam\u00edlia. No come\u00e7o dos anos 1990, a popula\u00e7\u00e3o beirava 5 mil pessoas.<\/p>\n<p>Logo no ano da inaugura\u00e7\u00e3o do abrigo, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e Educa\u00e7\u00e3o instalou o Instituto de Malariologia em oito pavilh\u00f5es desocupados do orfanato. Inicialmente apenas pesquisas sobre mal\u00e1ria seriam realizadas ali. Mas, munidos pelo desejo de transformar o Brasil em uma \u201cpot\u00eancia industrial\u201d, tr\u00eas anos depois as instala\u00e7\u00f5es passaram a ser usadas para produzir inseticidas organoclorados, como o HCH e o DDT \u2013 que hoje s\u00e3o proibidos em todo o territ\u00f3rio nacional \u2013 para matar o mosquito que transmite a mal\u00e1ria.<\/p>\n<p>Depois, a f\u00e1brica fechou as portas. Os funcion\u00e1rios foram transferidos para Manguinhos, tamb\u00e9m no Rio de Janeiro, deixando para tr\u00e1s materiais de escrit\u00f3rio, m\u00f3veis e dezenas de ton\u00e9is de papel\u00e3o contendo cerca de 400 toneladas de p\u00f3 de broca puro.<\/p>\n<p>\u201cOs moradores diziam: se fosse perigoso, o governo n\u00e3o deixaria aqui\u201d, explica Miguel da Silva, uma lideran\u00e7a na comunidade. \u201cN\u00f3s us\u00e1vamos o p\u00f3 de broca para tudo. Coloc\u00e1vamos nas casas para matar mosquito; se a crian\u00e7a tinha piolho, ou raspava o cabelo ou metia p\u00f3 de broca. Era um santo rem\u00e9dio\u201d, relembra dona Maria Sarmento, de 93 anos, uma das moradoras mais antigas da comunidade.<\/p>\n<p>Nas m\u00e3os das crian\u00e7as, o veneno virava brinquedo. Elas jogavam as pedras do p\u00f3 umas nas outras, como numa partida de paintball. At\u00e9 em reformas e obras p\u00fablicas o veneno foi usado. Pelo menos 360 toneladas de p\u00f3 de broca foram espalhados pela Cidade dos Meninos em pouco mais de 20 anos.<\/p>\n<p>Mas, diferentemente do que era dito pelos moradores na \u00e9poca, o p\u00f3 de broca n\u00e3o era um \u201csanto rem\u00e9dio\u201d. Em 1985, o agrot\u00f3xico foi proibido em todo o Brasil, e antes disso j\u00e1 havia sido retirado do mercado de dezenas de pa\u00edses. Estudos consistentes apontam que o hexaclorociclohexano pode causar c\u00e2ncer, m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o fetal, abortos espont\u00e2neos e altera\u00e7\u00f5es no sistema nervoso. Se isso n\u00e3o fosse suficiente, a subst\u00e2ncia \u00e9 extremamente persistente no meio ambiente e em organismos humanos, podendo levar d\u00e9cadas para ser degradada.<\/p>\n<p><strong>Est\u00e1 no sangue<\/strong><br \/>\nSessenta anos ap\u00f3s o fechamento da f\u00e1brica de pesticidas, o p\u00f3 de broca continua na comunidade. E n\u00e3o s\u00f3 na \u00e1rea da f\u00e1brica ou nas paredes rebocadas com o veneno. O sangue de 95% de 1.400 habitantes testados j\u00e1 chegou a apresentar res\u00edduos alarmantes da subst\u00e2ncia cancer\u00edgena, de acordo com a Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz).<\/p>\n<p>Houve uma iniciativa para descontamina\u00e7\u00e3o liderada pela Nortox, mas ela s\u00f3 piorou a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A contamina\u00e7\u00e3o fez o orfanato e as escolas p\u00fablicas fecharem as portas. E, com elas, os empregos que restavam. Nem mesmo plantar ou criar animais aquele povo podia. Em 1999, todos os bichos da Cidade dos Meninos foram sacrificados para diminuir a contamina\u00e7\u00e3o, que passa pela carne e derivados.<\/p>\n<p>Mesmo assim, ainda tem gente na Cidade dos Meninos. Os \u201cnativos\u201d, como s\u00e3o chamados os moradores mais antigos, travam uma luta que dura d\u00e9cadas para continuar na comunidade mesmo em meio ao descaso do governo e ao n\u00famero alarmante de casos de c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>No lugar onde no passado ficava a f\u00e1brica de agrot\u00f3xico, hoje existe uma planta\u00e7\u00e3o de eucaliptos, feita sob medida para ser uma esp\u00e9cie de muralha natural, impedindo que o vento sopre res\u00edduos de agrot\u00f3xicos para o resto da comunidade.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tem como errar a minha casa. Se voc\u00ea n\u00e3o achar, \u00e9 s\u00f3 perguntar pra algu\u00e9m onde mora o \u2018Miguel do p\u00f3\u2019, que v\u00e3o te mostrar\u201d, diz Miguel.<\/p>\n<p>\u00c0 margem da estrada de ch\u00e3o batido cercada pelo verde, ouve-se rock nacional dos anos 1980, e uma tenda colorida e paredes com pinturas explicam o que\u00a0 Miguel quis dizer com \u201cn\u00e3o tem como errar a minha casa\u201d.<\/p>\n<p>Ele mora na \u201ccasa da bruxinha\u201d uma resid\u00eancia que estampa a pintura de uma bruxa na parede. Ao lado, no mesmo terreno, fica a Toca do Raul, uma esp\u00e9cie de bar e restaurante criado pela sobrinha, Fernanda de Barros, em homenagem ao roqueiro Raul Seixas.<\/p>\n<p>\u201cUsavam para me zoar. \u2018Miguel do p\u00f3\u2019 porque eu s\u00f3 falava do p\u00f3 de broca\u201d, explica Miguel. Realmente, ningu\u00e9m falou e brigou tanto contra a contamina\u00e7\u00e3o quanto ele.<\/p>\n<p>Miguel participou de diversas a\u00e7\u00f5es judiciais para descontaminar a \u00e1rea. Contou a hist\u00f3ria da Cidade dos Meninos em palestras, audi\u00eancias p\u00fablicas e reuni\u00f5es com vereadores, deputados estaduais, federais e at\u00e9 mesmo com ministros da Sa\u00fade. Ele assumiu a posi\u00e7\u00e3o de porta-voz da popula\u00e7\u00e3o com o governo e viajou a Bras\u00edlia diversas vezes a convite do governo federal para discutir o futuro da comunidade. Em 1992, conseguiu trazer o ent\u00e3o ministro da Sa\u00fade, Adib Jatene, para conhecer pessoalmente a \u00e1rea contaminada.<\/p>\n<p>\u201cQuem tem que sair \u00e9 o p\u00f3, n\u00e3o \u00e9 a gente\u201d, responde, quando indagado por que ele e a fam\u00edlia continuam ali. Miguel \u00e9 vizinho da antiga f\u00e1brica de agrot\u00f3xicos. Todas as moradias que ficavam mais pr\u00f3ximas \u00e0 \u00e1rea foram desapropriadas e derrubadas.<\/p>\n<p>Lutar por d\u00e9cadas pela descontamina\u00e7\u00e3o da Cidade dos Meninos n\u00e3o trouxe aplausos. Pelo contr\u00e1rio: at\u00e9 amea\u00e7a de morte ele j\u00e1 recebeu. \u201cUm conhecido falou no bar \u2018esse Miguel n\u00e3o tem jeito, s\u00f3 matando mesmo\u2019, e o dono do bar ouviu s\u00f3 essa parte e espalhou que eu estava jurado de morte. A hist\u00f3ria cresceu, saiu na m\u00eddia e em todo canto\u201d, diz.<\/p>\n<p>Aos 58 anos, Miguel j\u00e1 passou por poucas e boas. Experi\u00eancias que o tornaram um ex\u00edmio contador de hist\u00f3rias. Ele \u00e9 formado em geografia, j\u00e1 serviu o Ex\u00e9rcito, foi secret\u00e1rio de Meio Ambiente de Duque de Caxias e se candidatou a vereador s\u00f3 para usar o tempo da propaganda obrigat\u00f3ria para falar sobre p\u00f3 de broca.<\/p>\n<p>\u201cNasci em 63, em Madureira, e vim pra c\u00e1 em 65. Aprendi a andar na Cidade dos Meninos\u201d, conta Miguel, enquanto puxa uma cadeira do bar.<\/p>\n<p>Filho de a\u00e7ougueiro, ele chegou com a fam\u00edlia ainda pequeno, convidado por um tio, funcion\u00e1rio do abrigo. \u201cEle dizia que aqui n\u00e3o dava para passar fome. Voc\u00ea plantava e criava o que ia comer.\u201d Miguel estudou no Col\u00e9gio Municipal Sarah Kubitschek, junto com os \u00f3rf\u00e3os. \u201cEles tinham vida boa, cinco refei\u00e7\u00f5es ao dia. Quando eu brigava com a minha m\u00e3e, pedia para ser colocado no abrigo\u201d, conta, rindo.<\/p>\n<p>Aos 93 anos, Maria Sarmento \u00e9 a mais velha moradora da comunidade. Ao receber a reportagem, ela tem nas m\u00e3os um \u00e1lbum de fotografias. O dedo enrugado de unhas vermelhas aponta para uma imagem em preto e branco. \u201cAqui tinha um laguinho, mas foi aterrado por culpa do p\u00f3 de broca. N\u00e3o podia ter mais nem peixe\u201d, explica.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia chegou \u00e0 regi\u00e3o em 1949, dois anos ap\u00f3s a abertura do abrigo para \u00f3rf\u00e3os. Ela era auxiliar de enfermagem e seu marido, M\u00e1rio, era enfermeiro. \u201cQuando abriu a f\u00e1brica do p\u00f3 de broca, tinha que ter uma parte de sa\u00fade no abrigo, vinhemos para cuidar dos meninos\u201d, conta dona Maria.<\/p>\n<p>\u201cA Cidade dos Meninos quase foi \u2018Cidade das Meninas\u2019\u201d, relembra. A primeira-dama Darcy Vargas, esposa do ent\u00e3o ditador Get\u00falio Vargas, foi a idealizadora do projeto original. Seriam constru\u00eddas 80 resid\u00eancias de grande porte. Em cada uma, uma fam\u00edlia seria respons\u00e1vel por criar 20 meninas \u00f3rf\u00e3s. Quando elas chegassem \u00e0 maioridade, assumiriam uma resid\u00eancia pr\u00f3pria, onde passariam a criar outras 20 garotas, dando continuidade ao projeto.<\/p>\n<p>A partir de 1939, Darcy passou a organizar eventos para angariar donativos para a constru\u00e7\u00e3o do complexo. Ao lado do portal de arquitetura mexicana, ela construiu uma casa de ch\u00e1, onde reunia socialites e empres\u00e1rios brasileiros para faz\u00ea-los abrir a carteira. Oito resid\u00eancias chegaram a ser erguidas, mas nunca receberam uma \u00f3rf\u00e3 sequer. O fim do governo Vargas, em 1945, frustrou os planos da ent\u00e3o primeira-dama.<\/p>\n<p>No ano seguinte, Levy Miranda, presidente da Funda\u00e7\u00e3o Abrigo Cristo Redentor e amigo pessoal de Darcy Vargas, recebeu o terreno da funda\u00e7\u00e3o da ex-primeira-dama e deu continuidade ao projeto. O orfanato foi inaugurado em 1947. Apenas para meninos.<\/p>\n<p>Existem diversas explica\u00e7\u00f5es para a mudan\u00e7a. A oficial, registrada na biografia de Miranda, \u00e9 que seria \u201cmuito dif\u00edcil e de maior responsabilidade assumir o compromisso de dar assist\u00eancia a jovens do sexo feminino\u201d. Moradores e historiadores dizem que a funda\u00e7\u00e3o tinha receio que as \u00f3rf\u00e3s acabassem engravidando enquanto estavam internadas; era prioridade investir na m\u00e3o de obra masculina para a expans\u00e3o econ\u00f4mica; e era mais f\u00e1cil dar uma destina\u00e7\u00e3o aos meninos quando eles completassem 18 anos, mandando-os para o Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Dona Maria mora em uma das casas constru\u00eddas para a \u201cCidade das Meninas\u201d. Sentada em uma cadeira em frente a uma grande janela azul, ela mostra a espa\u00e7osa sala de estar. \u201c\u00c9 uma casa muito boa, muito bem constru\u00edda. Aguenta at\u00e9 furac\u00e3o. Mas \u00e9 enorme, foi feita para 20 meninas.\u201d \u00c9 t\u00e3o grande que foi dividida em duas. Ela mora na da frente, e na parte de tr\u00e1s mora Tereza da Silva, de 85 anos. Ao ouvir o barulho dos visitantes, Terezinha logo aparece na varanda da vizinha.<\/p>\n<p>Dona Tereza chegou em 1960 ao lado do marido, que foi \u00f3rf\u00e3o no abrigo e retornou anos depois como funcion\u00e1rio da institui\u00e7\u00e3o. \u201cTinha muita vida aqui, muita festa. Festa da igreja, forr\u00f3\u201d, diz Terezinha. \u201cMeu marido morreu, mas hoje eu moro aqui com as minhas netas, e mais um monte de mulher vem me visitar.\u201d<\/p>\n<p>O abrigo abriu as portas antes mesmo de ser totalmente constru\u00eddo. Em 1953, concluiu-se o pavilh\u00e3o Instituto Nossa Senhora da Paz; em 1955, o Instituto Dom Bosco; em 1958, a Escola Darcy Vargas; em 1964, o Instituto Profissional Get\u00falio Vargas. A moradia dos meninos se dividia nesses quatro institutos, onde eles eram separados por idade e grau de instru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de estudar, dormir e fazer refei\u00e7\u00f5es, eles participavam de cursos profissionalizantes de mec\u00e2nica, tornearia, soldagem, serralheria e etc. O foco\u00a0das atividades extraclasse era na \u00e1rea agr\u00edcola. A comunidade plantava os pr\u00f3prios alimentos e tinha cria\u00e7\u00f5es de gados, aves e su\u00ednos. Eles produziam todo alimento que consumiam, e ainda sobrava para vender aos munic\u00edpios vizinhos.<\/p>\n<p>Os alunos que trabalhavam nas lavouras recebiam remunera\u00e7\u00e3o pelo trabalho e eram orientados a depositar os ganhos em uma caderneta da Caixa Econ\u00f4mica para terem uma poupan\u00e7a quando deixassem o orfanato.<\/p>\n<p><strong>Uma f\u00e1brica de veneno\u00a0<\/strong><br \/>\nMuito antes da pandemia de Covid-19, a mal\u00e1ria ocupava o posto de principal doen\u00e7a infecciosa no pa\u00eds. Na primeira metade do s\u00e9culo passado, a regi\u00e3o da Baixada Fluminense era um dos maiores focos da doen\u00e7a. Foi nesse contexto que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade aproveitou oito pavilh\u00f5es desocupados da Cidade dos Meninos para instalar o Instituto de Malariologia em 1947 \u2013 mesmo ano da funda\u00e7\u00e3o do orfanato.<\/p>\n<p>O instituto tinha como objetivos \u201crealizar estudos, pesquisas e investiga\u00e7\u00f5es sobre a mal\u00e1ria\u201d. Assim, criou-se uma f\u00e1brica de inseticidas no local apenas dois anos depois de ter aberto as portas, em 1949, segundo o que \u00e9 descrito em um relat\u00f3rio do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade de 2002.<\/p>\n<p>\u201cVamos libertar a economia nacional dos pesados encargos da importa\u00e7\u00e3o de produtos qu\u00edmicos\u201d, afirmou Pedro Calmon, ministro da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade do governo Eurico Gaspar Dutra, durante a inaugura\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica do agrot\u00f3xico HCH no meio da Cidade dos Meninos.<\/p>\n<p>Em of\u00edcios datados de 1947 a 1960, a funda\u00e7\u00e3o fez diversas reclama\u00e7\u00f5es ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade. Diziam que a \u00e1rea do instituto estava sendo ampliada sem consentimento, reclamavam da proximidade do inseticida com os menores residentes nos abrigos e relataram ainda que parte dos funcion\u00e1rios da f\u00e1brica servia de mau exemplo para os menores internos.<\/p>\n<p>A f\u00e1brica do Instituto de Malariologia foi depois ampliada e sua gest\u00e3o, transferida para o Departamento Nacional de Endemias Rurais, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. O n\u00famero de inseticidas produzidos aumentou. Passaram a ser fabricados diversos produtos qu\u00edmicos, como pastas do inseticida DDT e de BHC, 1080 (monofluoroacetato de s\u00f3dio) e cianeto de c\u00e1lcio \u2013 todos, subprodutos do HCH. A f\u00e1brica\u00a0 come\u00e7ou a produzir tamb\u00e9m medicamentos, como penicilina, tetraciclina e outros.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o s\u00f3 foi totalmente encerrada em 1960, devido a diversos pedidos da Funda\u00e7\u00e3o Abrigo Cristo Redentor. O setor de medicamentos foi transferido para Manguinhos, na cidade do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O mesmo n\u00e3o aconteceu com as instala\u00e7\u00f5es da f\u00e1brica de agrot\u00f3xicos. Equipamentos, tambores contendo mat\u00e9rias-primas e rejeitos dispostos inadequadamente sobre o solo foram abandonados nas instala\u00e7\u00f5es da Cidade dos Meninos.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, os problemas causados pelos pesticidas eram pouco conhecidos. \u201cHoje se sabe que essas subst\u00e2ncias s\u00e3o extremamente prejudiciais \u00e0 sa\u00fade\u201d, explica a doutora em sa\u00fade p\u00fablica e meio ambiente da Fiocruz Ana Cristina Sim\u00f5es Rosa. \u201cA estrutura qu\u00edmica delas \u00e9 similar aos nossos horm\u00f4nios naturais, o que facilita a entrada nas vias do metabolismo\u201d, explica. Uma vez no corpo, as consequ\u00eancias s\u00e3o enormes. \u201c\u00c9 uma subst\u00e2ncia cancer\u00edgena. Ela atua na desregula\u00e7\u00e3o do sistema end\u00f3crino e em altera\u00e7\u00f5es no sistema nervoso e neurocognitivos\u201d, completa.<\/p>\n<p>As ag\u00eancias reguladoras descobriram tamb\u00e9m outra caracter\u00edstica preocupante das subst\u00e2ncias: a acumula\u00e7\u00e3o no meio ambiente. \u201cOs organoclorados t\u00eam uma estrutura qu\u00edmica muito est\u00e1vel no meio ambiente e no corpo humano, e por isso demoram anos para se degradar. Usar como inseticida uma subst\u00e2ncia que n\u00e3o se degrada no meio ambiente \u00e9 uma bomba\u201d, completa a pesquisadora da Fiocruz.<\/p>\n<p>Mas o Brasil s\u00f3 foi proibir o p\u00f3 de broca na agricultura em 1985, e o produto foi usado em campanhas contra doen\u00e7as at\u00e9 1995.<\/p>\n<p>Autora de um dos principais trabalhos acad\u00eamicos sobre a Cidade dos Meninos, a pesquisadora Ros\u00e1lia Maria de Oliveira explica que, mesmo com os avisos da comunidade cient\u00edfica, o governo usou com descuido os agrot\u00f3xicos organoclorados pela cren\u00e7a no \u201cprogresso\u201d. \u201cO campo de visibilidade das autoridades cient\u00edficas era delimitado pela cren\u00e7a nos benef\u00edcios trazidos pelos avan\u00e7os cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos\u201d, diz.<\/p>\n<p>Com a chuva e o sol, os ton\u00e9is de papel\u00e3o desintegraram, e o p\u00f3 de broca ficou jogado no ch\u00e3o. Outras subst\u00e2ncias qu\u00edmicas tamb\u00e9m foram esquecidas na f\u00e1brica, mas at\u00e9 hoje n\u00e3o se sabe ao certo quais. S\u00f3 de HCH, eram de 300 a 400 toneladas, de acordo com a Funda\u00e7\u00e3o Estadual de Engenharia e Meio Ambiente (Feema) do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Sem nenhum aviso ou placa que alertasse sobre o perigo, a popula\u00e7\u00e3o entrava e sa\u00eda da antiga f\u00e1brica. \u201cA nossa brincadeira aqui era guerra de p\u00f3 de broca. Tinha muito lugar para se esconder dentro da f\u00e1brica, ent\u00e3o \u00edamos para l\u00e1. O p\u00f3 de broca esfarelava quando acertava em algu\u00e9m. Ent\u00e3o pegava no ch\u00e3o e largava em cima do colega\u201d, conta Miguel, enquanto caminha pelo mato pr\u00f3ximo \u00e0 \u00e1rea da f\u00e1brica.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as apertavam as v\u00e1lvulas dos cilindros de cloro para ver o \u201cg\u00e1s amarelo\u201d sair e jogavam umas nas outras. Encontrados em gavetas, p\u00f3s das mais variadas cores eram tratados como rel\u00edquias.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Miguel era uma das que acreditavam que o agrot\u00f3xico era rem\u00e9dio, e o veneno foi usado at\u00e9 mesmo na cabe\u00e7a do menino para matar piolho. \u201cAgora eu t\u00f4 quase careca, mas eu tinha o cabelo grande\u201d, conta rindo. \u201cMisturava o p\u00f3 de broca com banha de porco, faz aquela pasta, bota um pouquinho de enxofre amarelinho que tinha tamb\u00e9m l\u00e1 no ch\u00e3o da f\u00e1brica, bota na cabe\u00e7a e amarra um saco para dar uma abafada. Agora imagina, se a gente se contamina botando a m\u00e3o no p\u00f3 ou comendo uma goiaba que tem por aqui, imagina colocando na cabe\u00e7a. \u00c9 uma overdose de p\u00f3 de broca\u201d, completa.<\/p>\n<p>Adultos e funcion\u00e1rios do abrigo\u00a0 aproveitavam o local da f\u00e1brica e os materiais deixados tamb\u00e9m para pegar telhas para construir barracos ou galinheiros. \u201cComo n\u00e3o tinha ningu\u00e9m aqui para vigiar, o produto deixado l\u00e1 virou de todo mundo\u201d, conta.<\/p>\n<p>O p\u00f3 de broca foi parar at\u00e9 nas feiras de rua de Duque de Caxias, onde era vendido por moradores em pacotes enrolados com jornal. E foi isso o que levou o caso \u00e0 imprensa \u2013 mas apenas em 1988. Deu no jornal \u00daltima Hora, com o t\u00edtulo \u201cP\u00f3 t\u00f3xico amea\u00e7a um bairro\u201d. A mat\u00e9ria fala sobre a comercializa\u00e7\u00e3o do p\u00f3 de broca na feira, relata que crian\u00e7as da Cidade dos Meninos sofriam de problemas respirat\u00f3rios, al\u00e9rgicos, tonturas e enjoos. Os moradores relatavam que a carne e o leite dos animais da regi\u00e3o t\u00eam \u201ccheiro e sabor desagrad\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>Mas a hist\u00f3ria conseguiu repercuss\u00e3o apenas em julho de 1989, quando os jornais O Dia, O Globo e Jornal do Brasil come\u00e7aram a publicar sobre a contamina\u00e7\u00e3o. Nesse mesmo m\u00eas, a Feema vistoriou o local e encontrou cerca de 40 toneladas de p\u00f3 de broca puro. O produto foi retirado e levado para ser incinerado em S\u00e3o Paulo. A Feema estimou que cerca de 350 toneladas do produto qu\u00edmico estavam espalhadas e recolheu amostras de solo e frutas da Cidade dos Meninos. O resultado mostrou\u00a0 a presen\u00e7a de HCH em todos os res\u00edduos analisados.<\/p>\n<p>Foi assim que a Fiocruz entrou no caso. Tr\u00eas anos depois, resultados de exames laboratoriais identificaram a presen\u00e7a de HCH em amostras de sangue de 31 pessoas de sete fam\u00edlias que moravam a at\u00e9 100 metros da antiga f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Mas o interesse do p\u00fablico na Cidade dos Meninos n\u00e3o durou muito tempo. A tese de doutorado da pesquisadora da Fiocruz Ros\u00e1lia Maria de Oliveira analisou todas reportagens publicadas sobre a contamina\u00e7\u00e3o entre a d\u00e9cada de 1940 e 2006, ano da publica\u00e7\u00e3o do trabalho. A imprensa acompanhou de perto o caso no come\u00e7o dos anos 1990, mas com o passar dos anos o n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es diminuiu e a trag\u00e9dia come\u00e7ou a ser esquecida mesmo sem ter sido solucionada.<\/p>\n<p><strong>Miguel do P\u00f3 perdeu dois irm\u00e3os<\/strong><br \/>\nNa mesma \u00e9poca em que foi descoberta a contamina\u00e7\u00e3o, uma trag\u00e9dia transformou o jovem Miguel no \u201cMiguel do P\u00f3\u201d. \u201cMeu irm\u00e3o ca\u00e7ula morreu de c\u00e2ncer no f\u00edgado. Ele tinha s\u00f3 19 anos. Quando descobrimos o que o p\u00f3 de broca pode causar, imaginei que a morte dele poderia ter alguma rela\u00e7\u00e3o. E isso me causou uma grande revolta\u201d, diz.<\/p>\n<p>No come\u00e7o deste ano, Miguel perdeu mais um irm\u00e3o. O mais velho. \u201cEle come\u00e7ou a construir uma casa aqui, pra viver at\u00e9 morrer. Ele enfrentou o c\u00e2ncer de pulm\u00e3o por muito tempo, mas com isso o corpo ficou fraco e ele morreu do cora\u00e7\u00e3o\u201d, diz ao mostrar a estrutura de uma casa inacabada. A resid\u00eancia era localizada ao lado da cerca que separa a \u00e1rea da antiga f\u00e1brica de agrot\u00f3xicos. \u201cEle n\u00e3o acreditava no p\u00f3 de broca. Pelo menos umas 18 pessoas morreram por decorr\u00eancia de c\u00e2ncer por aqui\u201d, conta.<\/p>\n<p>Um estudo feito em 2002 pelo pesquisador da Fiocruz Sergio Koifman relacionou a exposi\u00e7\u00e3o ao p\u00f3 de broca \u00e0 ocorr\u00eancia de c\u00e2ncer na regi\u00e3o. Ao longo das d\u00e9cadas de 1980 e 1990, moradores que residiam a at\u00e9 12 km da \u00e1rea da f\u00e1brica apresentaram aumento da mortalidade por c\u00e2ncer de p\u00e2ncreas, f\u00edgado, laringe, bexiga e tumores hematol\u00f3gicos em homens, e de c\u00e2ncer de p\u00e2ncreas e tumores hematol\u00f3gicos em mulheres, na compara\u00e7\u00e3o com grupos populacionais que viviam em \u00e1reas mais afastadas.<\/p>\n<p>Liderados por Miguel, em 1990 os moradores iniciaram uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica impetrada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado do Rio de Janeiro contra a Uni\u00e3o por danos causados \u00e0 sa\u00fade e ao meio ambiente.<\/p>\n<p>A Procuradoria-Geral de Justi\u00e7a do Rio de Janeiro tamb\u00e9m instaurou inqu\u00e9rito civil para apurar os danos \u00e0 sa\u00fade e ao meio ambiente causados pelo HCH.\u00a0 Foi reconhecida a responsabilidade do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade pelo abandono do produto na \u00e1rea. Em 1990, a Justi\u00e7a solicitou \u00e0 pasta que adotasse medidas urgentes para diminuir a exposi\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e do ambiente.<\/p>\n<p>Do processo nasceu a cerca que isola a \u00e1rea da f\u00e1brica. Em 1995, a prote\u00e7\u00e3o foi constru\u00edda ao redor de 40 mil metros quadrados, apenas na \u00e1rea da f\u00e1brica, e cinco anos depois foi ampliada para 70 mil metros quadrados, pegando tamb\u00e9m as moradias de dez fam\u00edlias vizinhas.<\/p>\n<p>Feita de concreto, com uma tela de a\u00e7o armada para n\u00e3o deixar passar animais nem humanos, a obra nunca recebeu manuten\u00e7\u00e3o. Prova disso s\u00e3o os v\u00e1rios buracos que deixam a passagem livre para o foco da contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os animais de uma fazenda vizinha entram na \u00e1rea contaminada para pastar. \u201cO leite dessas vacas \u00e9 vendido por a\u00ed. Tanto o leite quanto o queijo\u201d, diz Miguel. \u201cDever\u00edamos montar uma banquinha e vender os produtos da Cidade dos Meninos em frente ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. S\u00f3 assim pra dar barulho\u201d, completa.<\/p>\n<p>Quando o HCH contamina o solo, os animais que comem a grama s\u00e3o contaminados. \u201cSe for um mam\u00edfero, como uma vaca ou um humano, essa subst\u00e2ncia vai se acumular no tecido gorduroso. No ato da amamenta\u00e7\u00e3o, esse tecido \u00e9 mobilizado, e a subst\u00e2ncia \u00e9 passada pelo leite\u201d, explica a pesquisadora da Fiocruz Ana Cristina.<\/p>\n<p><strong>Cheiro de mofo e naftalina\u00a0<\/strong><br \/>\nA f\u00e1brica foi afinal demolida em 1995. Mas no local ainda d\u00e1 para sentir um odor forte que parece uma mistura de naftalina e mofo. \u201cQuase 30 anos depois da demoli\u00e7\u00e3o e retirada do p\u00f3 de broca, ainda d\u00e1 pra sentir o cheiro\u201d, comenta Miguel. Ele pega um peda\u00e7o de pau e cutuca o ch\u00e3o. \u201cOlha, isso aqui \u00e9 p\u00f3 de broca, p\u00f3 de broca puro\u201d, fala enquanto passa o dedo no p\u00f3 branco. Na mesma \u00e1rea, h\u00e1 ainda um esqueleto de algum animal que morreu por ali.<\/p>\n<p>A natureza tomou conta do territ\u00f3rio da antiga f\u00e1brica. Hoje, p\u00e9s de goiaba e tangerina dividem espa\u00e7o com algumas estruturas que ainda ficaram de p\u00e9. \u201cSe eu encontrar uma fruta, vou te dar para comer. N\u00e3o \u00e9 um veneno que come e cai babando n\u00e3o, \u00e9 bioacumulativo\u201d, diz, rindo, para o rep\u00f3rter. Significa que o efeito n\u00e3o \u00e9 imediato, a subst\u00e2ncia \u00e9 absorvida pelo organismo e pode gerar doen\u00e7as cr\u00f4nicas se acumulada em grande quantidade.<\/p>\n<p>No ch\u00e3o ainda h\u00e1 embalagens pl\u00e1sticas de produtos usados na f\u00e1brica e peda\u00e7os das bombas de cer\u00e2mica que guardavam algumas subst\u00e2ncias qu\u00edmicas. \u201cA gente se escondia dentro dessas bombonas aqui. O que tinha dentro delas antes a gente nunca vai saber\u201d, diz.<\/p>\n<p>Enquanto mostra os escombros da f\u00e1brica, Miguel relembra que no mesmo dia em que recebeu do governo a not\u00edcia de que a verba para a obra havia sido liberada, em 1993, a Justi\u00e7a decidiu fechar todas as escolas e o orfanato da Cidade dos Meninos. \u201cMuita gente acha que \u00e9 minha culpa. Dizem que eu fui o respons\u00e1vel por fechar as escolas, por acabar com o abrigo. At\u00e9 hoje tem gente que pensa isso.\u201d<\/p>\n<p>Vinte e cinco anos anos depois do fechamento, Miguel ainda tem que explicar para os vizinhos que n\u00e3o foi o respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cEu nasci depois que a f\u00e1brica foi fechada, n\u00e3o fui eu que deixei esse veneno aqui\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>O fechamento total do orfanato s\u00f3 ocorreu em 1996, quando o Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia e Assist\u00eancia Social extinguiu todos os conv\u00eanios assinados pela Legi\u00e3o Brasileira de Assist\u00eancia, que administrava a \u00e1rea. Com isso, cerca de 650 crian\u00e7as que continuavam nas instala\u00e7\u00f5es foram transferidas. O abrigo da Cidade dos Meninos foi definitivamente desativado.<\/p>\n<p><strong>Veneno no sangue\u00a0<\/strong><br \/>\nO que embasou a decis\u00e3o da Justi\u00e7a de fechar o orfanato foi uma pesquisa da Fiocruz que analisou o sangue de 186 internos da funda\u00e7\u00e3o e identificou em um quarto das amostras concentra\u00e7\u00f5es de HCH muito acima dos n\u00edveis encontrados em crian\u00e7as da mesma faixa et\u00e1ria, mas que viviam em regi\u00f5es onde n\u00e3o havia foco de contamina\u00e7\u00e3o. O que provava que a f\u00e1brica abandonada havia de fato contaminado os alunos.<\/p>\n<p>Um dos integrantes das \u00faltimas turmas do internato \u00e9 o R\u00f4mulo de Carvalho, que continua morando na Cidade dos Meninos. R\u00f4mulo tinha 14 anos quando chegou ao orfanato, em 1989.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o tinha fam\u00edlia, n\u00e3o tinha ningu\u00e9m\u201d, conta. Hoje ele tem 46 anos e mora no antigo pr\u00e9dio do Instituto Get\u00falio Vargas. \u201cAqui era show de bola, n\u00e3o faltava nada pra gente. Estudava de manh\u00e3 e \u00e0 tarde tinha atividade pra fazer, trabalh\u00e1vamos com horta, padaria e em est\u00e1bulo. Tinha de tudo\u201d, relembra. O pavilh\u00e3o onde ele morava tinha aulas de m\u00fasica, biblioteca e at\u00e9 mesmo teatro.<\/p>\n<p>Em 1993, ap\u00f3s a decis\u00e3o judicial, ele foi realocado para o Abrigo de S\u00e3o Bento, no centro do Rio de Janeiro, onde ficou por poucos meses, at\u00e9 completar 18 anos. Depois disso, foi morar na rua.<\/p>\n<p>Cinco anos depois, R\u00f4mulo voltou \u00e0 Cidade dos Meninos e ao Instituto Get\u00falio Vargas, mas dessa vez n\u00e3o como aluno. \u201cEu improvisei uma casinha pra mim\u201d, diz, em frente \u00e0 fachada da antiga escola.<\/p>\n<p>R\u00f4mulo convida a reportagem para conhecer sua casa. A sala e a cozinha ficam instaladas onde antes era a coordenadoria da escola, e o quarto onde dorme com a esposa e tr\u00eas filhos fica no lugar antes ocupado pela sala do diretor.<\/p>\n<p>\u201cNunca imaginei que um dia iria dormir na sala do diretor, mas o jeito foi improvisar. Eu at\u00e9 gostaria de sair daqui, mas n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es\u201d, conta, dando um sorriso t\u00edmido e ligando o ventilador usado para refrescar o c\u00f4modo que n\u00e3o foi estruturado para abrigar moradores.<\/p>\n<p>R\u00f4mulo est\u00e1 desempregado, mas faz bicos para sustentar a fam\u00edlia. Ajuda em obras, capina lotes, pega qualquer oportunidade que aparece. \u201cMas com essa pandemia ficou dif\u00edcil\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>Ele mostra que onde antes era o corredor da escola em breve ser\u00e1 a casa da ex-mulher. \u201cFechei aqui e estou construindo, com a terra daqui mesmo, terrinha preta e boa. Aqui vai ser o arm\u00e1rio dela.\u201d<\/p>\n<p>No quintal em frente ao instituto, ele improvisou um balan\u00e7o em uma \u00e1rvore \u2013 um brinquedo para os filhos, uma tentativa de transformar a escola abandonada em um lar.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dele, outras dez fam\u00edlias vivem no pr\u00e9dio onde antes ficava o Instituto Get\u00falio Vargas. Dos quatro pr\u00e9dios do orfanato, tr\u00eas foram invadidos e transformados em dezenas de moradias. Uma igreja neopentecostal foi montada onde antes era uma sala de aula.<\/p>\n<p>R\u00f4mulo garante n\u00e3o ter medo dos efeitos do agrot\u00f3xico. \u201cEu como fruta daqui, goiaba, jaca. Brincava na terra, pegava p\u00f3 de broca na m\u00e3o para matar formiga. Muita gente aqui morre de c\u00e2ncer, mas ningu\u00e9m sabe se \u00e9 por culpa do veneno ou n\u00e3o. Tem pessoas idosas aqui, da \u00e9poca do p\u00f3 de broca, que est\u00e3o vivas at\u00e9 hoje\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>O ex-interno e a esposa fizeram diversos exames de sangue desde 1993, mas nunca receberam nem um resultado sequer. \u201c\u00c9 uma prova da contamina\u00e7\u00e3o, eles n\u00e3o d\u00e3o, sen\u00e3o teriam que pagar indeniza\u00e7\u00e3o pra gente.\u201d<\/p>\n<p>O maior lamento sobre o p\u00f3 de broca, para R\u00f4mulo, \u00e9 o fechamento das escolas e do abrigo. \u201cNosso amigo Miguel que foi levantar a poeira, incentivou que olhassem, e a\u00ed acabou fechando tudo. Se ele n\u00e3o mexesse, n\u00e3o tinha fechado, n\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p><strong>Associa\u00e7\u00e3o de moradores<\/strong><br \/>\nA Associa\u00e7\u00e3o de Moradores e Amigos da Cidade dos Meninos foi criada por Miguel em 1987. Hoje, o presidente \u00e9 Avelino da Silva, de 63 anos. No domingo em que a reportagem esteve na comunidade, houve uma reuni\u00e3o com alguns membros. Al\u00e9m de Miguel e Avelino, estavam presentes o diretor financeiro, Renato dos Santos, e o vice-presidente, Jair Jovelino.<\/p>\n<p>Avelino chegou \u00e0 comunidade depois do fechamento da f\u00e1brica e mesmo assim apresenta res\u00edduos do agrot\u00f3xico no corpo. \u201cEu tenho os documentos e exames da Fiocruz que comprovam que sofro com a contamina\u00e7\u00e3o do HCH. L\u00e1 em casa, eu e o meu filho estamos contaminados\u201d, diz o presidente da associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Avelino entra em um escrit\u00f3rio improvisado da associa\u00e7\u00e3o para buscar uma pasta com documentos. L\u00e1, uma imagem de santa Margarida aben\u00e7oa o que antes era uma sala de aula. Ao voltar, ele caminha bem devagar. \u201cEu tive um acidente vascular isqu\u00eamico\u201d, diz, explicando por que manca.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas anos ele ficou em coma por tr\u00eas dias depois de um acidente vascular cerebral isqu\u00eamico (AVCI). Quando n\u00e3o mata na hora, o AVCI deixa sequelas como paralisias. \u201cUm dos principais efeitos do HCH \u00e9 no sistema nervoso. Eu tive esse problema, uma bolha no c\u00e9rebro, mas n\u00e3o sei se foi por consequ\u00eancia da contamina\u00e7\u00e3o ou porque eu trabalho demais\u201d, diz.<\/p>\n<p>J\u00e1 Renato, de 69 anos, que vive na Cidade dos Meninos desde 1980, n\u00e3o apresentou res\u00edduos de p\u00f3 de broca no sangue. Sua esposa, que foi funcion\u00e1ria da funda\u00e7\u00e3o, testou positivo para a contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1993, diversos \u00f3rg\u00e3os federais, estaduais e municipais assinaram um Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta e de Obriga\u00e7\u00f5es (TAC) sobre a contamina\u00e7\u00e3o na Cidade dos Meninos. Na primeira cl\u00e1usula, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade assumia a responsabilidade pela \u201ccompleta e permanente descontamina\u00e7\u00e3o da \u00e1rea denominada Cidade dos Meninos, bem como pela assist\u00eancia \u00e0 popula\u00e7\u00e3o afetada pela contamina\u00e7\u00e3o pelo HCH proveniente de sua extinta f\u00e1brica, arcando com a integralidade dos recursos necess\u00e1rios \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o das medidas propostas pelos \u00f3rg\u00e3os t\u00e9cnicos\u201d.<\/p>\n<p>Para descontaminar a \u00e1rea, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade escolheu uma das maiores produtoras nacionais de agrot\u00f3xico, a Nortox Agro Qu\u00edmica. Em 1992, a Nortox, junto \u00e0 Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), resolveu utilizar cal virgem para cobrir a contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes da aplica\u00e7\u00e3o, a Nortox fez an\u00e1lises cromatogr\u00e1ficas em 26 amostras de solo contaminado \u00e0s quais foram misturadas cal em laborat\u00f3rio. Os testes mostraram uma desativa\u00e7\u00e3o da ordem de 72% de HCH ap\u00f3s 22 dias da aplica\u00e7\u00e3o da cal, em condi\u00e7\u00f5es de laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o se tornou um evento na comunidade, e os moradores acompanharam de perto a demoli\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica e a aplica\u00e7\u00e3o de cal, que ocorreu em setembro de 1995. \u201cDemoliram tudo, fizeram uma montanha de entulho. A\u00ed eles furaram um po\u00e7o, jogaram tudo dentro, ligaram uma bomba que jogou o cal virgem em cima de tudo. Misturaram e regaram todo dia, depois que o cal encobriu tudo, eles fizeram a terraplanagem\u201d, detalha Miguel.<\/p>\n<p>Miguel conta que o per\u00edodo da a\u00e7\u00e3o da Nortox foi a \u201cpior \u00e9poca\u201d para os moradores. \u201cEles criaram um problema maior. Foi o per\u00edodo que mais vizinhos morreram\u201d, garante. V\u00e1rios vizinhos ouvidos relataram a mesma situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como morava na casa mais pr\u00f3xima \u00e0 f\u00e1brica, Miguel acompanhou os t\u00e9cnicos da Nortox at\u00e9 o local. \u201cEles ficaram surpresos com a quantidade de subst\u00e2ncia, diziam: \u2018O cheiro t\u00e1 forte, \u00e9 organoclorado, t\u00e1 em tudo que \u00e9 profundidade, vamos cavar 5 metros aqui e ainda vamos achar\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Miguel contou a pesquisadores da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC) o que ouviu, temendo que a solu\u00e7\u00e3o adotada pela empresa n\u00e3o funcionasse \u2013 o que acabou sendo confirmado. Pesquisadores da PUC e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) levaram o caso \u00e0 Procuradoria da Rep\u00fablica no Rio de Janeiro. Eles alegavam que o processo de aplica\u00e7\u00e3o de cal virgem poderia resultar na forma\u00e7\u00e3o de compostos mais t\u00f3xicos e vol\u00e1teis, al\u00e9m de aumentar a possibilidade de contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas subterr\u00e2neas e amplia\u00e7\u00e3o da \u00e1rea contaminada.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade afirmava que o tratamento havia removido 98% dos contaminantes. E a Nortox corroborou. \u201cTendo em vista a situa\u00e7\u00e3o que prevaleceu no local por longos 30 anos, as quantidades existentes do t\u00f3xico ativo j\u00e1 n\u00e3o representam mais qualquer amea\u00e7a \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e ao meio ambiente\u201d, declarou a empresa em 1996, em um relat\u00f3rio sobre a descontamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas pelo menos dez pesquisas feitas nos anos seguintes comprovaram que o tratamento com cal foi ineficaz. Duas delas s\u00e3o disserta\u00e7\u00f5es de mestrado apresentadas \u00e0 Fiocruz em que s\u00e3o relatadas an\u00e1lises de amostras de solo coletadas no per\u00edodo de 1994 a 1999. O terceiro foi o relat\u00f3rio \u201cInvestiga\u00e7\u00e3o de \u00e1reas contaminadas por HCH \u2013 Cidade dos Meninos\u201d, feito pela Feema, Cetesb e a Ag\u00eancia Alem\u00e3 de Coopera\u00e7\u00e3o T\u00e9cnica.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise feita pela pesquisadora da Fiocruz L\u00facia Helena Pinto Bastos em 1999 foi al\u00e9m e mostrou que a tentativa frustrada de tratamento feita pela Nortox piorou a situa\u00e7\u00e3o. Em 1989, a Feema havia determinado que a \u00e1rea contaminada era de 13 mil metros quadrados. Por\u00e9m, a \u00e1rea na qual a Nortox enterrou os rejeitos da demoli\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica tratados com cal era de 33 mil metros quadrados. Como a descontamina\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi bem-sucedida, toda terra que entrou em contato com o produto acabou contaminada, triplicando o tamanho da \u00e1rea afetada.<\/p>\n<p>\u201cMesmo ap\u00f3s o tratamento, o odor de mofo, caracter\u00edstico do HCH, permanecia na \u00e1rea foco, indicando a inefic\u00e1cia do processo. Al\u00e9m disso, considerando-se a estabilidade qu\u00edmica do HCH, tornava-se improv\u00e1vel que a rea\u00e7\u00e3o qu\u00edmica de degrada\u00e7\u00e3o do HCH a triclorobenzenos (TCB), na presen\u00e7a de cal, ocorresse em condi\u00e7\u00f5es ambientais brandas e sem controle reacional\u201d, identificou o estudo.<\/p>\n<p>Procurada, a Nortox respondeu que n\u00e3o se pronunciar\u00e1 a respeito do assunto.<\/p>\n<p>Como a contamina\u00e7\u00e3o continuou, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade passou a procurar novos m\u00e9todos para remediar a \u00e1rea. A pasta consultou as embaixadas do Jap\u00e3o, Alemanha, Pa\u00edses Baixos, Estados Unidos da Am\u00e9rica, Reino Unido e Canad\u00e1. Mas at\u00e9 hoje nenhuma proposta foi executada.<\/p>\n<p>Em 2000 o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade realizou uma grande avalia\u00e7\u00e3o de risco no solo, \u00e1gua, ar, alimentos e no sangue da popula\u00e7\u00e3o da Cidade dos Meninos. O resultado s\u00f3 saiu em 2005, sob grande press\u00e3o dos moradores, que amea\u00e7avam entrar na Justi\u00e7a com um mandado de busca e apreens\u00e3o dos laudos.<\/p>\n<p>Os testes laboratoriais foram feitos pela Fiocruz. O resultado mostrou que aproximadamente 95% dos 1.400 moradores testados estavam contaminados, com 30% apresentando n\u00edveis elevados de toxicidade. Em apenas 2% da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi encontrada evid\u00eancia de contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ana Cristina, que atua no Centro de Estudos da Sa\u00fade do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh) da Fiocruz, respons\u00e1vel pelos testes, explica: \u201cO estudo constatou que a popula\u00e7\u00e3o tinha altera\u00e7\u00f5es de horm\u00f4nios da tireoide. Altera\u00e7\u00e3o nos horm\u00f4nios da testosterona em homens e do estr\u00f3geno em mulheres\u201d.<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o seguinte s\u00f3 come\u00e7ou a ser feita em 2018 \u2013 e por causa da pandemia ainda n\u00e3o foi conclu\u00edda.<\/p>\n<p>Mas a reportagem teve acesso a um relat\u00f3rio entregue aos moradores com os resultados dos exames de sangue feitos at\u00e9 2019. Setecentas e quinze pessoas participaram do teste. Foram encontrados res\u00edduos de organoclorados, como o HCH e o DDT, em 73,5% dos casos.<\/p>\n<p>O exame trouxe boas not\u00edcias tamb\u00e9m. A contamina\u00e7\u00e3o \u00e9 dez vezes menor do que a encontrada nos testes divulgados em 2005. \u201cEssas mol\u00e9culas v\u00e3o se degradando com o passar do tempo\u201d, explica Ana Cristina.<\/p>\n<p>Agora, os moradores reclamam do acompanhamento de sa\u00fade. Quando algu\u00e9m se sente mal, o atendimento mais pr\u00f3ximo \u00e9 no postinho da comunidade, localizado pr\u00f3ximo \u00e0 igreja cat\u00f3lica. E l\u00e1 s\u00f3 tem um m\u00e9dico. De acordo com o Minist\u00e9rio de Sa\u00fade, a Unidade B\u00e1sica de Sa\u00fade da Cidade dos Meninos emprega seis agentes comunit\u00e1rios, uma enfermeira, um t\u00e9cnico de enfermagem e um dentista, al\u00e9m de um auxiliar de sa\u00fade bucal.<\/p>\n<p>A reportagem questionou o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade se j\u00e1 foram definidos novos planos de descontamina\u00e7\u00e3o da Cidade dos Meninos, mas n\u00e3o obteve respostas.<\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e1rnia\u201d para os jovens\u00a0<\/strong><br \/>\n\u201cN\u00f3s somos um acidente ambiental\u201d, diz Fernanda de Barros, sentada atr\u00e1s do balc\u00e3o da Toca do Raul. A ideia de abrir um bar na zona rural pode parecer um mau neg\u00f3cio, mas ela garante que n\u00e3o. Os clientes s\u00e3o principalmente colegas, um p\u00fablico \u201cmais restrito\u201d, como ela mesmo diz, e que gosta das m\u00fasicas que tocam por l\u00e1. Rock antigo, na maior parte do tempo.<\/p>\n<p>\u201cAqui \u00e9 muito bom de morar, n\u00e3o tem perigo, n\u00e3o tem bala perdida\u201d, diz enquanto v\u00ea o filho de 5 anos brincar no quintal. \u201c\u00c9 um bom lugar para construir fam\u00edlia\u201d, completa.<\/p>\n<p>Do outro lado do port\u00e3o de entrada da Cidade dos Meninos, a Baixada Fluminense re\u00fane os maiores \u00edndices de criminalidade do Rio de Janeiro. \u00c9 onde ocorrem mais assaltos de pedestres e roubos de carros e \u00f4nibus no estado. Um relat\u00f3rio da plataforma Fogo Cruzado mostrou que foram registrados 1.033 tiroteios na regi\u00e3o apenas em 2020: 293 pessoas morreram, oito destas foram v\u00edtimas de balas perdidas. E seis eram crian\u00e7as. Duque de Caxias foi o munic\u00edpio que mais registrou tiroteios.<\/p>\n<p>Os dados ajudam a explicar por que grande parte dos \u201cnativos\u201d pensa como Fernanda. Eles n\u00e3o veem motivos para sair da comunidade, mesmo vivendo h\u00e1 d\u00e9cadas sob risco de ter a casa desapropriada, como j\u00e1 aconteceu com muitos moradores.<\/p>\n<p>Quando os funcion\u00e1rios vieram trabalhar no orfanato, receberam casas para morar, e d\u00e9cadas depois o governo disse que precisava dos im\u00f3veis de volta. \u201cEles tiravam a fam\u00edlia da casa e depois derrubavam. Ou seja, n\u00e3o estavam precisando. Eles s\u00f3 queriam tirar o povo daqui\u201d, conta Miguel.<\/p>\n<p>Em 1999, o Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia e Assist\u00eancia Social (MPAS), respons\u00e1vel pela \u00e1rea, instituiu uma comiss\u00e3o t\u00e9cnica, junto ao governo do Rio de Janeiro e o munic\u00edpio de Duque de Caxias, para definir o futuro uso da \u00e1rea da Cidade dos Meninos. No ano seguinte, dez fam\u00edlias foram removidas da \u00e1rea pr\u00f3xima \u00e0 antiga f\u00e1brica. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade assinou um termo de responsabilidade para pagar o aluguel de im\u00f3veis para essas dez fam\u00edlias at\u00e9 que novas resid\u00eancias fossem constru\u00eddas em \u00e1reas descontaminadas da Cidade dos Meninos.<\/p>\n<p>O que nunca aconteceu.<\/p>\n<p>Em 2003, quase 400 moradores fizeram um cadastramento para serem removidos da \u00e1rea e receberem indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que tamb\u00e9m nunca aconteceu.<\/p>\n<p>\u201cOs moradores nunca fazem parte dos planos\u201d, diz Jair Jovelino, vice-presidente da associa\u00e7\u00e3o de moradores. Ele \u00e9 \u201cgoiaba da terra\u201d, como chamam por l\u00e1 as pessoas que nasceram e cresceram na Cidade dos Meninos. \u201cSe tivermos que sair, a associa\u00e7\u00e3o vai lutar para sairmos com condi\u00e7\u00f5es de morar bem l\u00e1 fora. N\u00e3o ser jogado em um Minha Casa Minha Vida em \u00e1rea comandada por milicianos. Aqui n\u00f3s temos paz e tranquilidade, nada paga isso\u201d, diz.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os \u201cnativos\u201d que pensam assim. Entre os moradores mais recentes tamb\u00e9m existe identifica\u00e7\u00e3o com a cidade. \u00c9 o caso de Julia Moraes e Stefanny Souza, ambas com 22 anos. Stefanny faz faculdade de direito na parte urbana de Duque de Caxias e volta para a Cidade dos Meninos ap\u00f3s as aulas. Recentemente, ela fez um trabalho sobre a hist\u00f3ria da comunidade. \u201cTinha muita coisa que eu n\u00e3o sabia. Um dos mortos na chacina da Candel\u00e1ria era \u00f3rf\u00e3o daqui, sabia?\u201d, pergunta.<\/p>\n<p>Elas n\u00e3o costumam usar o nome \u201cCidade dos Meninos\u201d. Para os mais jovens, \u00e9 apenas \u201cFunda\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cN\u00e1rnia\u201d. \u201cQuando chega na Funda\u00e7\u00e3o \u00e0 noite, tem muita neblina. Lembra o primeiro filme de N\u00e1rnia. O portal de entrada seria como o guarda-roupa que eles usam no filme para chegar em N\u00e1rnia\u201d, explica Stefanny.<\/p>\n<p>As meninas dizem que \u201cN\u00e1rnia\u201d \u00e9 um ref\u00fagio do resto do mundo. \u201cFica longe de todos os problemas l\u00e1 de fora. Chegaram at\u00e9 a falar em tirar a gente daqui, de indenizar. Mas eu sei que n\u00e3o v\u00e3o disponibilizar tanta grana pra pagar e todo mundo sair daqui. E quanto v\u00e3o dar? Com R$ 50 ou R$ 150 mil voc\u00ea n\u00e3o compra algo t\u00e3o bom quanto o que temos aqui\u201d, diz a aluna de direito.<\/p>\n<p>Miguel e fam\u00edlia pensam o mesmo. O maior denunciante da contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xico n\u00e3o imagina uma vida longe da Cidade dos Meninos. Sentado novamente em um banco na Toca do Raul, ele aponta para a \u201ccasa da bruxinha\u201d. \u201cQuero morrer ali. Quero viver aqui at\u00e9 morrer. Depois quero que minhas cinzas sejam espalhadas por aqui. Sai o p\u00f3 de broca, fica o p\u00f3 do Miguel.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um portal em arco amarelo de arquitetura mexicana separa a Cidade dos Meninos do resto do mundo. Erguida na d\u00e9cada de 1940 \u00e0s margens do quil\u00f4metro 12,5 da Rodovia Presidente Kennedy, aquela estrutura com pintura desgastada separa o estado do Rio de Janeiro de uma \u00e1rea federal esquecida no tempo. 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