{"id":265384,"date":"2021-08-07T12:16:36","date_gmt":"2021-08-07T15:16:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=265384"},"modified":"2021-08-07T12:16:36","modified_gmt":"2021-08-07T15:16:36","slug":"fahrenheit-451-brasileiro-incentiva-a-politica-de-terra-arrasada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fahrenheit-451-brasileiro-incentiva-a-politica-de-terra-arrasada\/","title":{"rendered":"Fahrenheit 451 brasileiro incentiva a pol\u00edtica de terra arrasada"},"content":{"rendered":"<p>Escrita em 1953, no auge do macarthismo (1950-1957), protegida pelo disfarce da futurologia cient\u00edfica, a obra-prima de Ray Bradbury nos falava ent\u00e3o e nos fala agora de um presente real, este no qual nos foi dado viver, dominado pela crise letal do que chamamos de civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Como Admir\u00e1vel mundo novo, e A Revolu\u00e7\u00e3o dos bichos e 1984, os cl\u00e1ssicos de Aldous Huxley e Georges Orwell, Fahrenheit 451 \u00e9 ensaio que desconsidera os limites temporais para nos convidar a uma reflex\u00e3o sobre a realidade pol\u00edtica que governa nossas vidas. Trata-se de revis\u00e3o quase sempre inc\u00f4moda, porque a crise que se esbate sobre o futuro da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a nossa trag\u00e9dia de cada dia, e a tomada de consci\u00eancia da realidade tem a for\u00e7a de romper com a aliena\u00e7\u00e3o, transformando em desassossego a paz de esp\u00edrito com que sonham os niilistas.<\/p>\n<p>A crise da dita civiliza\u00e7\u00e3o ocidental \u2013 moral, \u00e9tica, pol\u00edtica, filos\u00f3fica \u2013, escamoteada pelos avan\u00e7os da ci\u00eancia e da tecnologia, parece renovar-se em ciclos de autoritarismo: nazismo, fascismo, salazarismo, franquismo, stalinismo, macarthismo. Os primeiros dec\u00eanios do terceiro mil\u00eanio prometem trazer de volta os fantasmas do s\u00e9culo passado. Esta \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel para, ap\u00f3s tanta experi\u00eancia hist\u00f3rica, vivermos a emerg\u00eancia de lideran\u00e7as da estatura liliputiana de Donald Trump, Boris Johnson, Viktor Orban e do capit\u00e3o que ocupa o terceiro andar do Pal\u00e1cio do Planalto, guardado pelas costas largas de seus generais de estima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem poderia supor que ap\u00f3s as li\u00e7\u00f5es ensejadas pelo ciclo da ditadura militar viver\u00edamos a insanidade do bolsonarismo?<\/p>\n<p>Os bombeiros de Bradbury, observa Manuel da Costa Pinto no pref\u00e1cio \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o brasileira (Biblioteca Azul, 2012), &#8220;s\u00e3o agentes da higiene p\u00fablica que queimam livros para evitar que suas quimeras perturbem o sono dos cidad\u00e3os honestos, cujas inquieta\u00e7\u00f5es s\u00e3o cotidianamente sufocadas por doses maci\u00e7as de comprimidos narcotizantes e pela onipresen\u00e7a da televis\u00e3o&#8221;, e, acrescento, por doses maci\u00e7as de doutrinamento evang\u00e9lico, fake news. a manipula\u00e7\u00e3o rob\u00f3tica das redes sociais e o unilateralismo ideol\u00f3gico dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o. A fogueira de livros, uma presen\u00e7a em toda a hist\u00f3ria da humanidade, \u00e9 simb\u00f3lica da luta entre o saber que inquieta e a ignor\u00e2ncia que abre caminho para a conforma\u00e7\u00e3o do dominado.<\/p>\n<p>A direita de todos os tempos e de todas as latitudes \u2013 como a assembleia que condenou S\u00f3crates, os tribunais da santa inquisi\u00e7\u00e3o, as depura\u00e7\u00f5es de St\u00e1lin e os julgamentos do macarthismo \u2013 detesta o saber, porque ele \u00e9 a chave da liberdade; detesta a intelig\u00eancia e a liberdade de pensamento, detesta os intelectuais, pois eles t\u00eam o v\u00edcio de duvidar.<\/p>\n<p>Nos idos de 1933, os nazistas alem\u00e3es, como os fascistas italianos, queimavam livros em pra\u00e7a p\u00fablica e aprisionavam escritores, a Espanha franquista matava poetas, o salazarismo os prendia ou exilava. O obscurantismo reinava nos dois lados do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>No Estado Novo (1937-1945), o DIP censurava a imprensa e muitos intelectuais e cientistas, como Nisi da Silveira, e escritores como Graciliano Ramos conheceram o c\u00e1rcere. A ditadura instalada em 1\u00ba de abril de 1964, demitiu professores e cientistas, prendeu escritores e exilou nossos s\u00e1bios, e decretou a censura geral e irrestrita \u00e0 imprensa. O general Ernesto Geisel imp\u00f4s a censura pr\u00e9via aos livros. Os nazistas atearam fogo, entre outros muitos, em livros de Marx, Kafka, Thomas Mann, Einstein e Freud. No governo do capit\u00e3o, o pr\u00e9-neandertal que assumiu a presid\u00eancia da Funda\u00e7\u00e3o Palmares, para destru\u00ed-la, expele como indesej\u00e1vel a obra fotogr\u00e1fica de Sebasti\u00e3o Salgado e bane da biblioteca da institui\u00e7\u00e3o livros como Almas mortas, de Nikolai Gogol, Dicion\u00e1rio do folclore brasileiro, de Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo e obras de autores como Marx, Engels, Weber, Caio Prado Jr., Eric Hobsbawn e Celso Furtado.<\/p>\n<p>O impacto com que, assustado e impotente, acompanhei pela televis\u00e3o o festival macabro das labaredas consumindo a mem\u00f3ria nacional depositada na Cinemateca Brasileira, levou-me \u00e0s primeiras p\u00e1ginas de Fahrenheit 451:<\/p>\n<p>&#8220;Era um prazer especial ver as coisas serem devoradas, ver as coisas serem enegrecidas e alteradas. Empunhando o bocal de bronze, a grande v\u00edbora cuspindo seu querosene pe\u00e7onhento sobre o mundo, o sangue latejava em sua cabe\u00e7a e suas m\u00e3os eram as de um prodigioso maestro regendo todas as sinfonias de chamas e labaredas para derrubar os farrapos e as ru\u00ednas carbonizadas da hist\u00f3ria. [&#8230;] A passos largos ele avan\u00e7ou em meio a um enxame de vaga-lumes. Como na velha brincadeira, o que ele mais desejava era levar \u00e0 fornalha um marshmallow na ponta de uma vareta, enquanto os livros morriam num estertor de pombos na varanda e no gramado da casa. Enquanto os livros se consumiam em redemoinhos de fagulhas e se dissolviam no vento escurecido da fuligem&#8221;.<\/p>\n<p>A alegoria de Bradbury \u00e9 simb\u00f3lica; e simb\u00f3licos de nossos tempos devem ser considerados tanto o inc\u00eandio premeditado da Cinemateca (pois fruto de planejado corte de verbas) quanto a destrui\u00e7\u00e3o em chamas do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, propositalmente desamparado de recursos de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ainda presidente da Rep\u00fablica, parvo e pulha, por\u00e9m, n\u00e3o se d\u00e1 por satisfeito em destruir o passado, incinerando nossa mem\u00f3ria. Tenta apagar o futuro. Destr\u00f3i o Minist\u00e9rio da Cultura, reduzido a um ap\u00eandice do Minist\u00e9rio do Turismo, e entrega o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o a uma tr\u00edade de apedeutos; move tenaz persegui\u00e7\u00e3o aos institutos de ensino e pesquisa, como o INPE, reduz os recursos para a \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o e tenta inviabilizar as universidades federais com a asfixia or\u00e7ament\u00e1ria. Os recursos dos principais fundos destinados ao apoio \u00e0 pesquisa cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica ca\u00edram, de R$ 13.971.751124 em 2015, para 4.401.561.381 em 2020 (dados do IPEA). No mesmo ano de 2015, os recursos destinados ao CNPq somavam 2,6 bilh\u00f5es, reduzidos a 1,6 bilh\u00e3o em 2019 (Fonte: SIOP\/Minist\u00e9rio do Planejamento). \u00c9 o garrote financeiro que visa a estrangular o ensino e a pesquisa, ao inviabilizar a forma\u00e7\u00e3o de mestres e doutores.<\/p>\n<p>O Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico &#8211; CNPq, criado em 1951 com o objetivo de promover o desenvolvimento da investiga\u00e7\u00e3o cientifica e tecnol\u00f3gica, vive a pior crise de sua hist\u00f3ria de 70 anos de bons servi\u00e7os prestados ao pa\u00eds. Administra a maior e mais importante plataforma cient\u00edfica do Brasil, reunindo toda a produ\u00e7\u00e3o nacional, como projetos, pesquisas e trabalhos desenvolvidos por pesquisadores e universidades brasileiras, e ainda \u00e9 respons\u00e1vel pelas bolsas a cientistas brasileiros. Toda a sua base de dados est\u00e1 amea\u00e7ada porque, por falta de manuten\u00e7\u00e3o, derivada da rapina de recursos, sucateamento e obsolesc\u00eancia de equipamentos, o sistema de inform\u00e1tica da institui\u00e7\u00e3o saiu do ar.<\/p>\n<p>As bolsas est\u00e3o congeladas desde 2012 em n\u00famero e valor (R$ 4.100, no caso de p\u00f3s-doutorado), o que estimula o \u00eaxodo de nossos melhores quadros: pobres, estamos formando pesquisadores para os EUA e a Europa. Daqui a pouco tamb\u00e9m para a China.<\/p>\n<p>Na sexta-feira, 6, reuniu-se o Conselho Diretor do Fundo Nacional para o Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (FNDCT), quando apreciou a estapaf\u00fardia proposta do governo que visa a carrear R$ 800 milh\u00f5es a quatro ou cinco organiza\u00e7\u00f5es sociais, cifra que corresponde ao dobro do que \u00e9 destinado a mais de 200 universidades brasileiras. Este \u00e9 o outro lado da pol\u00edtica em vigor: malversa\u00e7\u00e3o dos recursos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>O quadro desolador da ci\u00eancia e da tecnologia se soma \u00e0 pol\u00edtica de terra arrasada levada \u00e0 cultura e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o; n\u00e3o se trata, por\u00e9m, pura e simplesmente, de uma pol\u00edtica de descaso ou omiss\u00e3o: ao contr\u00e1rio, o projeto do governo \u00e9 determinado, \u00e9 consciente e obedece a um planejamento cujo objetivo \u00e9 destruir quaisquer veleidades nacionais de soberania. A quest\u00e3o, \u00e9, pois, fundamentalmente pol\u00edtica, e o arrocho financeiro n\u00e3o \u00e9 opera\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma. Deriva do projeto maior: nossa destina\u00e7\u00e3o ao papel de grande prov\u00edncia do Imp\u00e9rio. Pol\u00edtica, a amea\u00e7a de sucateamento de nossos laborat\u00f3rios e esvaziamento do ensino e da pesquisa s\u00f3 ser\u00e1 enfrentada se conseguirmos alterar a atual correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. N\u00e3o h\u00e1 concilia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel; recusar o combate \u00e9 fortalecer o statu quo. O desafio diz que est\u00e1 mais do que na hora de as lideran\u00e7as universit\u00e1rias, por exemplo, procurarem a articula\u00e7\u00e3o com a sociedade, denunciando o projeto e explicando de forma clara os preju\u00edzos que advir\u00e3o, para o pa\u00eds, se a pol\u00edtica do desmonte e aliena\u00e7\u00e3o n\u00e3o for detida.<\/p>\n<p><strong>Ex-ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia de Lula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrita em 1953, no auge do macarthismo (1950-1957), protegida pelo disfarce da futurologia cient\u00edfica, a obra-prima de Ray Bradbury nos falava ent\u00e3o e nos fala agora de um presente real, este no qual nos foi dado viver, dominado pela crise letal do que chamamos de civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. 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