{"id":265393,"date":"2021-08-07T16:13:35","date_gmt":"2021-08-07T19:13:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=265393"},"modified":"2021-08-07T16:14:55","modified_gmt":"2021-08-07T19:14:55","slug":"tres-geracoes-de-sobreviventes-a-violencia-de-genero-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tres-geracoes-de-sobreviventes-a-violencia-de-genero-no-brasil\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es sobrevivem \u00e0 triste viol\u00eancia de g\u00eanero"},"content":{"rendered":"<p>Aos 15 anos da lei Maria da Penha, av\u00f3, m\u00e3e e neta contam suas hist\u00f3rias, que se misturam com a evolu\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o. \u201cQuando eu falo nisso, minha cabe\u00e7a d\u00f3i. \u00c9 muito doloroso reviver todas as coisas ruins da minha vida\u201d, diz Marlene, olhando para o alto para evitar que as l\u00e1grimas caiam. Marlene Romano de Jesus, 63 anos, auxiliar de enfermagem aposentada, \u00e9 a mais velha de uma fam\u00edlia de mulheres marcadas pela viol\u00eancia de g\u00eanero. Al\u00e9m dela, a <em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em> conversou com sua filha, Cristiane Romano Matias, de 43 anos, e sua neta, Jaqueline Romano Matias dos Santos, de 29 anos, que tamb\u00e9m viveram situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia ao longo de suas vidas.<\/p>\n<p>Aos 15 anos da Lei Maria da Penha \u2013 considerada uma das melhores leis contra viol\u00eancia dom\u00e9stica no mundo \u2013 completos nesta sexta-feira 6 de agosto, o Brasil ainda \u00e9 o quinto pa\u00eds que mais mata mulheres pelo simples fato de serem mulheres, segundo o Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). S\u00f3 estamos atr\u00e1s de El Salvador, Col\u00f4mbia, Guatemala e R\u00fassia em n\u00famero de casos de assassinato de mulheres.<\/p>\n<p>Mas na \u00e9poca da viol\u00eancia contra a farmac\u00eautica Maria da Penha, na d\u00e9cada de 1980, o Brasil ainda estava muito distante de reconhecer que a viol\u00eancia contra a mulher sequer existia. Ela foi v\u00edtima de dupla tentativa de feminic\u00eddio por parte de Marco Antonio Heredia Viveros, seu marido \u00e0 \u00e9poca. Em 1983, Marco Ant\u00f4nio disparou um tiro em suas costas enquanto ela dormia, deixando-a parapl\u00e9gica devido a les\u00f5es irrevers\u00edveis em sua medula. A primeira Delegacia de Defesa da Mulher foi criada apenas em 1985, em S\u00e3o Paulo, e nesta \u00e9poca ainda era necess\u00e1rio que a pr\u00f3pria v\u00edtima entregasse a intima\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os do agressor.<\/p>\n<p>Com o tempo, e a partir da lei Maria da Penha de 2006, considerada inovadora por n\u00e3o prever apenas assist\u00eancia \u00e0 fam\u00edlia e responsabiliza\u00e7\u00e3o dos autores, como tamb\u00e9m a inclus\u00e3o dos agressores em programas de reeduca\u00e7\u00e3o, outras leis de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres v\u00eam, aos poucos, evoluindo \u2014 caso da Lei do Feminic\u00eddio, de 2015, que tornou o crime de feminic\u00eddio um homic\u00eddio qualificado, colocando-o na lista de crimes hediondos e exigindo penas mais altas, de 12 a 30 anos e mais recentemente, em julho de 2021, o projeto sancionado pelo governo federal que incluiu no C\u00f3digo Penal o crime de viol\u00eancia psicol\u00f3gica contra a mulher.<\/p>\n<p>Os casos de viol\u00eancia, no entanto, continuam aumentando: Segundo o levantamento do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica publicado em junho deste ano, 8 mulheres foram agredidas por minuto em 2020.<\/p>\n<p><strong>Prazer em agredir<\/strong><br \/>\nMarlene conheceu a viol\u00eancia com apenas sete anos, em 1965, quando morava em Nanuque, no interior de Minas Gerais. A mais nova dos doze filhos afirma ter perdido as contas de quantas vezes foi sexualmente abusada pelo irm\u00e3o, quinze anos mais velho, e alguns de seus amigos. \u201cMuitas vezes, acordava com ele passando a m\u00e3o em mim. Outras, acordava e achava que eu tinha feito xixi na roupa\u201d. Ela conta, com a voz tr\u00eamula, que o irm\u00e3o a arrastava at\u00e9 os p\u00e9s de mamona, nos fundos da casa, e tampava sua boca para que n\u00e3o gritasse. \u201cDepois, ele come\u00e7ou a trazer uns amigos. E ali, eles me machucavam muito, me beijavam \u00e0 for\u00e7a. Eu ia pra escola com muita dor\u201d.<\/p>\n<p>Ainda segundo o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica publicado em junho de 2021, mais de 73% dos crimes de estupro s\u00e3o cometidos contra pessoas vulner\u00e1veis. A Lei 12.015\/2018 diz que \u201cestupro de vulner\u00e1vel refere-se \u00e0quele contra toda pessoa menor de 14 anos ou que seja incapaz de consentir sobre o ato, seja por conta de sua condi\u00e7\u00e3o (enfermidade ou defici\u00eancia, ainda conforme a lei) ou por n\u00e3o possuir discernimento para tanto\u201d. O levantamento traz ainda que \u201c85,2% dos autores eram conhecidos das v\u00edtimas, quase sempre (96,3%) do sexo masculino, muitas vezes parentes e outras pessoas pr\u00f3ximas que t\u00eam livre acesso \u00e0s crian\u00e7as e tornam qualquer den\u00fancia ainda mais dif\u00edcil\u201d.<\/p>\n<p>Depois da morte de sua m\u00e3e, aos quatorze anos, Marlene se mudou com alguns irm\u00e3os e uma tia para a cidade de Po\u00e1, na grande S\u00e3o Paulo, onde os abusos continuaram. Por ser mais velha, Marlene j\u00e1 conseguia ler e escrever. Foi lendo em revistas de adolescentes reportagens sobre abuso sexual intrafamiliar que compreendeu que podia recusar os ass\u00e9dios cometidos por seu irm\u00e3o. \u201cEu n\u00e3o tinha voz ativa, n\u00e3o podia falar nada. Primeiro porque os pais n\u00e3o acreditavam, n\u00e3o davam ouvidos pros filhos. E segundo, por medo. Ele me amea\u00e7ava com foices, machadinhas. Naquela \u00e9poca, o irm\u00e3o mais velho tinha que ser respeitado como o pai da gente\u201d, diz.<\/p>\n<p>Aos 15 anos, ap\u00f3s uma crise de ci\u00fames do irm\u00e3o, Marlene conta que foi espancada e perdeu seis dentes. \u201cFiquei banguela at\u00e9 os 25 anos\u201d. Numa tentativa de fugir das agress\u00f5es constantes, decidiu mudar-se para a casa de uma fam\u00edlia e trabalhar como empregada dom\u00e9stica, na Zona Leste da capital paulista.<\/p>\n<p>L\u00e1, continuou sofrendo abusos sexuais, desta vez cometidos pelo irm\u00e3o de sua patroa. Em determinado momento, a menina descobriu estar gr\u00e1vida do agressor, aos dezesseis anos de idade. Constrangida e com medo de repres\u00e1lias, Marlene n\u00e3o quis contar a verdade e preferiu deixar a casa. Gr\u00e1vida e menor de idade, passou algumas semanas dormindo na rua.<\/p>\n<p>Desde 1940, o aborto \u00e9 garantido por lei no Brasil quando a gravidez resulta de um abuso sexual, quando coloca em risco a sa\u00fade da m\u00e3e ou em caso de anencefalia do feto. No entanto, a legisla\u00e7\u00e3o ainda enfrenta uma grande resist\u00eancia na sociedade brasileira e em alguns hospitais da rede p\u00fablica que deveriam prestar atendimento. Em 2018, a Ag\u00eancia P\u00fablica contou a hist\u00f3ria de mulheres impedidas de decidir sobre a contracep\u00e7\u00e3o e sobre a interrup\u00e7\u00e3o legal da gravidez em Pernambuco. Um ano depois, a P\u00fablica mostrou que um grupo cat\u00f3lico pr\u00f3-vida se organizava para constranger e initimidar v\u00edtimas de estupro em frente ao hospital P\u00e9rola Byington, em S\u00e3o Paulo. Tamb\u00e9m em 2019, o direito ao aborto legal no Brasil foi novamente amea\u00e7ado, mas desta vez a n\u00edvel federal. Apoiada pela bancada evang\u00e9lica, a Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o, Justi\u00e7a e Cidadania reabriu a vota\u00e7\u00e3o para a chamada \u201cPEC da vida\u201d, proposta de 2015 que visava modificar o artigo 5\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o Federal para garantir o direito \u00e0 vida \u201cdesde a concep\u00e7\u00e3o\u201d, e dificultar altera\u00e7\u00f5es legais favor\u00e1veis ao aborto. A proposta ainda est\u00e1 em an\u00e1lise, mas sem previs\u00e3o de vota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marlene manteve a gravidez fruto da viol\u00eancia. Na rua, conheceu seu futuro companheiro e pai de tr\u00eas outros filhos, com quem decidiu morar, sem saber que o ciclo de viol\u00eancia voltaria a fazer parte de sua rotina. Al\u00e9m dos abusos sexuais e psicol\u00f3gicos, foi submetida a agress\u00f5es f\u00edsicas graves. \u201cEsse homem\u201d, ela diz, sempre evitando mencionar seu nome, \u201cs\u00f3 podia ser psicopata\u201d. \u201cEle tinha prazer em me agredir. Me batia, chutava, mordia, passava pimenta na minha boca, me queimava com cigarro, me obrigava a ter rela\u00e7\u00f5es sexuais\u201d, conta.<\/p>\n<p>Alguns meses depois, Marlene deu \u00e0 luz ao seu primeiro filho. Ela conta que, pelo fato do homem n\u00e3o aceitar a crian\u00e7a, ela teve que deix\u00e1-lo com familiares que ainda moravam no interior de Minas Gerais.<\/p>\n<p>Marlene mostrou \u00e0 reportagem as cicatrizes que carrega na pele, fruto das agress\u00f5es. Em meados dos anos 1970, programas sociais como abrigos e aux\u00edlios financeiros destinados a v\u00edtimas de viol\u00eancia n\u00e3o existiam. Por n\u00e3o ter renda nem moradia, Marlene foi submetida a duas d\u00e9cadas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Segundo levantamento do Minist\u00e9rio P\u00fablico de S\u00e3o Paulo, uma em cada quatro mulheres n\u00e3o denuncia o companheiro por depender financeiramente dele.<\/p>\n<p>Ao longo de seu relacionamento, Marlene afirma ter ido \u00e0 delegacia mais de trinta vezes para tentar, sem sucesso, prestar queixa contra o companheiro agressor. \u201cSe a Lei Maria da Penha existisse na minha \u00e9poca, eu n\u00e3o teria passado tudo o que passei\u201d, avalia. \u201cOs policiais me disseram: \u2018mas ele s\u00f3\u00a0 te bateu?\u2019. E me aconselharam a voltar para casa e tentar conversar. Se ele tentasse me agredir, que eu tentasse fugir de novo\u201d, relata. Um processo judicial foi aberto contra o companheiro na \u00e9poca, o que de nada adiantou, recorda.<\/p>\n<p>O derradeiro epis\u00f3dio de viol\u00eancia que a fez sair de casa com seus tr\u00eas filhos por pouco n\u00e3o a matou. Marlene levou dez facadas e sobreviveu. Acolhida por uma amiga, fugiu das persegui\u00e7\u00f5es do ex-marido durante alguns anos, at\u00e9 o dia em que soube que o agressor morreu em consequ\u00eancia de um AVC hemorr\u00e1gico. Ela conta, ofegante, que quando teve de reconhecer o corpo do pai de seus filhos no Instituto M\u00e9dico Legal, o sacudiu para verificar se ele realmente estava sem vida. \u201cEu tinha que ter certeza de que ele estava morto. Sa\u00ed de l\u00e1 aliviada. S\u00f3 a partir daquele momento, eu era uma mulher livre. S\u00f3 depois da morte dele\u201d.<\/p>\n<p>Nos anos em que esteve casada com seu agressor, teve duas filhas e um filho. Com uma delas, Marlene que tamb\u00e9m presenciou cenas de agress\u00e3o \u00e0 sua m\u00e3e durante a inf\u00e2ncia, viu a hist\u00f3ria se repetir com a filha.<\/p>\n<p>Segundo Isabela Del Monde, advogada e fundadora da Gema Consultoria em equidade, a viol\u00eancia geracional, tanto no polo das v\u00edtimas como no de agressores, \u00e9 explicada por dois grandes motivos:\u00a0 \u201cO primeiro dele \u00e9 relacionado ao machismo estrutural, ou seja, as mulheres de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es s\u00e3o atingidas pelas mesmas consequ\u00eancias de termos uma sociedade organizada pelo dom\u00ednio masculino sobre as mulheres. J\u00e1 o segundo motivo se relaciona com aspectos individuais e ps\u00edquicos\u201d, argumenta. Isabela explica que quando se cresce em um lar com viol\u00eancia dom\u00e9stica, a pessoa associa amor ao caos, \u00e0 viol\u00eancia e, portanto, acaba se envolvendo tamb\u00e9m, muitas vezes de forma inconsciente, em rela\u00e7\u00f5es ca\u00f3ticas e violentas pois s\u00e3o nelas que sente mais familiaridade. \u201cPor isso, \u00e9 extremamente importante oferecer suporte psicol\u00f3gico a v\u00edtimas diretas e indiretas, como crian\u00e7as, para que a viol\u00eancia familiar que testemunhou na inf\u00e2ncia n\u00e3o seja o destino delas quando adultas. E, claro, as pessoas adultas que passaram por situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia, seja como v\u00edtimas ou como agressores, tamb\u00e9m devem contar com apoio psicossocial para evitarem a reincid\u00eancia\u201d, completa.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ter se separado de seu primeiro marido, dependente qu\u00edmico, Cristiane come\u00e7ou a se prostituir. Sem o ensino fundamental completo e sem nenhuma experi\u00eancia profissional, ela conta que foi a solu\u00e7\u00e3o que encontrou para sustentar as tr\u00eas filhas, que tinham entre seis e nove anos. Pouco tempo depois, conheceu Alexandre, que se tornou seu namorado e agenciador. As agress\u00f5es vieram logo no come\u00e7o da rela\u00e7\u00e3o. \u201cEle me batia muito, me chutava no meio da rua igual a um saco de lixo. At\u00e9 hoje eu sinto dores nas costas e na barriga\u201d, diz.<\/p>\n<p>Aos 23 anos, Cristiane, que havia presenciado cenas de viol\u00eancia dom\u00e9stica na inf\u00e2ncia, via a hist\u00f3ria se repetir. \u201cTinha m\u00eas que ele tava bem. Outros, menos. Quando ele bebia, ficava mais agressivo e violento\u201d.<\/p>\n<p>Durante a rela\u00e7\u00e3o, que durou cinco anos, ela relata ter sido for\u00e7ada a manter rela\u00e7\u00f5es sexuais com Alexandre. Em um dos epis\u00f3dios de viol\u00eancia, Cristiane decidiu ir \u00e0 delegacia e fazer um boletim de ocorr\u00eancia mas, segundo ela, \u201cn\u00e3o deu em nada\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9 o ano de 2005, segundo a Lei 11.106 do C\u00f3digo Penal, se a v\u00edtima de viol\u00eancia sexual se casasse com seu agressor ou com outro homem, o crime era anulado. A legisla\u00e7\u00e3o estava em vigor desde 1940 e integrava os chamados \u201cCrimes contra os costumes\u201d. A lei foi modificada somente em 2005, retirando tamb\u00e9m do C\u00f3digo Penal Brasileiro termos como \u201cmulher honesta\u201d e \u201cmulher virgem\u201d.<\/p>\n<p>Era o come\u00e7o dos anos 2000, cinco anos antes da cria\u00e7\u00e3o da Lei Maria da Penha e das medidas protetivas, que impedem que o agressor se aproxime da v\u00edtima. Ap\u00f3s um novo epis\u00f3dio de viol\u00eancia, em que Cristiane chegou a desmaiar devido aos golpes, ela decidiu se separar. \u201cEu vi meu pai bater na minha m\u00e3e a vida inteira. Quando me dei conta de que era eu quem pagava todas as contas da casa, pensei: por que eu estou me obrigando a passar por isso?\u201d. Desde a separa\u00e7\u00e3o, ela diz nunca mais ter visto Alexandre, mas afirma que ele ainda tenta contato telef\u00f4nico at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Pela terceira gera\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, a viol\u00eancia voltou a assombrar a vida das mulheres da fam\u00edlia Romano. Desta vez, a v\u00edtima seria Jaqueline, filha de Cristiane e neta de Marlene.<\/p>\n<p>Jaqueline Romano Matias, auxiliar de administra\u00e7\u00e3o, teve um relacionamento de tr\u00eas anos com um homem mais velho. \u201cMinha v\u00f3 nunca gostou dele\u201d, conta. As agress\u00f5es, f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas, se iniciaram nos primeiros meses do relacionamento, em 2012. Segundo ela, sempre relacionadas a sentimentos de ci\u00fames e de possess\u00e3o do ent\u00e3o companheiro: \u201cEle n\u00e3o me deixava trabalhar, ver minha fam\u00edlia, falar com outros homens\u201d.<\/p>\n<p>Em 2015, quando o ent\u00e3o companheiro tentou enforc\u00e1-la, Jaqueline e sua m\u00e3e foram at\u00e9 a delegacia. Ela relata ter ficado mais de cinco horas esperando para prestar queixa at\u00e9 que por fim acabou desistindo de fazer um boletim de ocorr\u00eancia. As agress\u00f5es continuaram. \u201cUma vez ele me prendeu dentro de casa e me amea\u00e7ou com uma faca. Minhas vizinhas me ajudaram, eu tive que pular o muro para fugir\u201d. Jaqueline conta que conseguiu se esconder na casa dos vizinhos e chamar a pol\u00edcia, mas n\u00e3o quis prestar queixa. O medo constante, a tens\u00e3o e as atitudes violentas tornaram-se cada vez mais frequentes.<\/p>\n<p>Alguns meses depois, as agress\u00f5es se intensificaram, at\u00e9 que Jaqueline foi v\u00edtima de uma tentativa de feminic\u00eddio. \u201cEle chegou em casa b\u00eabado, louco, drogado. Come\u00e7amos a discutir, ele me bateu e me derrubou no ch\u00e3o. Eu s\u00f3 vi o vulto da faca antes dele me atingir\u201d. O homem a havia golpeado com uma peixeira \u2014 faca muito comprida e afiada \u2014 na regi\u00e3o do pesco\u00e7o. \u201cA primeira rea\u00e7\u00e3o que uma pessoa tem \u00e9 colocar a m\u00e3o na ferida, tentar levantar, falar. Mas eu n\u00e3o conseguia fazer nada disso. A partir da\u00ed, fiquei no ch\u00e3o e s\u00f3 escutava o barulho do sangue escorrendo\u2026 \u2018glu, glu, glu&#8217;\u201d, conta, como quem descreve uma cena chocante de um filme de terror. \u201cEle ainda me disse \u2018levanta da\u00ed e para de gra\u00e7a!&#8217;\u201d. Depois de ter visto que Jaqueline havia perdido a consci\u00eancia, o homem se dirigiu \u00e0 padaria mais pr\u00f3xima e, segundo ela, \u201cfoi tomar mais um drink, com a camiseta suja de sangue\u201d.<\/p>\n<p>Jaqueline ficou cerca de uma hora no ch\u00e3o, oscilando entre momentos em que estava desacordada, e outros em que recuperava a consci\u00eancia. \u201cNo ch\u00e3o, eu s\u00f3 pedia pra Deus n\u00e3o me deixar morrer sozinha\u201d. Jaqueline conta que, enquanto aguardava para ser socorrida, pensava em sua m\u00e3e e em sua av\u00f3. \u201cBem que minha av\u00f3 me avisou: esse homem vai te matar, ou vai te deixar aleijada\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Segurando sua bengala, ela explica que at\u00e9 aquele ponto n\u00e3o havia pedido nenhuma medida protetiva ou feito boletim de ocorr\u00eancia pois n\u00e3o imaginava que o marido seria capaz de feri-la ou mat\u00e1-la. A facada, com profundidade de 8 cent\u00edmetros, atingiu a coluna e a medula cervical de Jaqueline, deixando-a tetrapl\u00e9gica.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Jaqueline se assemelha com a da pr\u00f3pria Maria da Penha, l\u00edder de movimentos de defesa dos direitos das mulheres e v\u00edtima emblem\u00e1tica da viol\u00eancia dom\u00e9stica que batizou a lei que leva seu nome. Assim como Maria da Penha, Jaqueline acreditou que as agress\u00f5es n\u00e3o voltariam a se repetir. Ambos epis\u00f3dios ocorreram na vida das duas mulheres durante a \u201clua de mel\u201d, uma das fases do ciclo de viol\u00eancia em que o agressor mostra arrependimento e adquire um comportamento am\u00e1vel, despertando nas mulheres uma esperan\u00e7a de mudan\u00e7a real da parte de seus companheiros.<\/p>\n<p>\u201cEle n\u00e3o me matou, mas conseguiu acabar com a minha vida\u201d, continua Jaqueline. Ela conta que os m\u00e9dicos que a atenderam nos primeiros dias de recupera\u00e7\u00e3o haviam diagnosticado que ela n\u00e3o recuperaria os movimentos do corpo. Por ter perdido grande quantidade de l\u00edquido da medula cervical, preferiram n\u00e3o oper\u00e1-la por achar que o procedimento seria muito arriscado.<\/p>\n<p>Durante o ano que se seguiu, em 2015, Jaqueline ficou im\u00f3vel, acamada. Ap\u00f3s passar por uma cirurgia e meses de sess\u00f5es de fisioterapia intensiva, ela conseguiu, aos poucos, recuperar parte dos movimentos do lado direito do corpo. Hoje, consegue caminhar, ainda com certa dificuldade, e com a ajuda de uma bengala e de uma bota ortop\u00e9dica. Ela conta, emocionada, que encontrou for\u00e7as em sua m\u00e3e, Cristiane, para continuar vivendo. \u201cMinha m\u00e3e teve que trabalhar muito para sustentar n\u00f3s tr\u00eas, eu e minhas irm\u00e3s. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ter uma filha inv\u00e1lida aos vinte e tr\u00eas anos\u201d. Por ter um laudo de tetraplegia, Jaqueline conseguiu se aposentar e vive gra\u00e7as a um Benef\u00edcio Assistencial.<\/p>\n<p>Seu agressor foi preso em flagrante e permaneceu 5 anos encarcerado. Quando soube de sua absolvi\u00e7\u00e3o, mesmo com medidas protetivas que o proibiam de se aproximar dela, Jaqueline confessa ter sido tomada por um sentimento de injusti\u00e7a e de temor. \u201cMinha m\u00e3e n\u00e3o me deixava sair sozinha, e eu evitava ir nos lugares onde ele poderia estar.\u00a0 Ficava olhando para todos os lados quando sa\u00eda\u201d. Ap\u00f3s um ano de liberdade, o homem, acometido por um c\u00e2ncer de est\u00f4mago, faleceu. Usando as mesmas palavras de sua av\u00f3, Jaqueline confessa s\u00f3 ter se sentido realmente livre ap\u00f3s a morte do seu agressor. \u201cEu pedi perd\u00e3o a Deus, porque quando ele morreu, eu fiquei feliz. N\u00e3o pela morte dele, mas porque s\u00f3 assim eu me senti em paz\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das cicatrizes e dos traumas psicol\u00f3gicos, estas tr\u00eas mulheres permanecem com graves sequelas f\u00edsicas. Marlene sofre uma hipertens\u00e3o severa, e aos trinta e quatro anos, a rec\u00e9m formada t\u00e9cnica em enfermagem teve que se aposentar. Cristiane sofreu um AVC hemorr\u00e1gico aos vinte e seis anos, mesma \u00e9poca em que sofreu as agress\u00f5es do ex-companheiro. Teve a vis\u00e3o do olho esquerdo comprometida e ainda sofre com lapsos de mem\u00f3ria, entre outras sequelas neurol\u00f3gicas. Marlene conclui, como quem resume o sentimento das tr\u00eas: \u201cAcho que essas feridas nunca v\u00e3o cicatrizar. N\u00e3o consigo mais ser a Marlene. N\u00e3o consigo mais ser uma mulher\u201d.<\/p>\n<p><strong>Avan\u00e7os e falhas<\/strong><br \/>\nIsabela Del Monde explica que o maior impacto que a Lei Maria da Penha teve na sociedade brasileira foi colocar a tem\u00e1tica no embate p\u00fablico. At\u00e9 sua cria\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia dom\u00e9stica ainda era um tema muito ligado \u00e0 esfera privada, tratada no que se chamava anteriormente juizado de pequenas causas (hoje denominados Juizados Especiais Civeis ou Criminais), o que revelava uma naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra as mulheres. \u201cUma das grandes conquistas da lei foi ter dilu\u00eddo a ideia de que o problema da viol\u00eancia dom\u00e9stica \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o, um problema privado, do casal, ou ainda de que a culpa \u00e9 da mulher\u201d, explica a especialista.<\/p>\n<p>Segundo ela, outra contribui\u00e7\u00e3o importante da cria\u00e7\u00e3o da lei foi ter feito uma distin\u00e7\u00e3o entre viol\u00eancia f\u00edsica e viol\u00eancia contra a mulher. Hoje, cinco tipos de viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar contra a mulher est\u00e3o previstas na Lei Maria da Penha: f\u00edsica, psicol\u00f3gica, moral, sexual e patrimonial. \u201cAs mulheres est\u00e3o percebendo que o comportamento de xingar, humilhar e mentir ou dizer que ela \u00e9 doida significa que tem alguma coisa errada. \u00c9 uma lei que permitiu \u00e0s mulheres se reapropriarem de suas vidas\u201d, completa.<\/p>\n<p>De forma mais concreta, a Lei Maria da Penha provocou mudan\u00e7as significativas no intuito de romper o ciclo de viol\u00eancias criando, entre outros dispositivos, a medida protetiva de urg\u00eancia \u2014 uma ferramenta que impede que o agressor se reaproxime das v\u00edtimas. Isabela explica que as medidas protetivas funcionam, embora alguns agressores as descumpram. \u201cElas t\u00eam um forte car\u00e1ter inibidor, pois se trata de uma medida judicial, e seu descumprimento \u00e9 punido com reclus\u00e3o. O agressor pode n\u00e3o ter medo, mas \u00e9 um alerta\u201d, diz.<\/p>\n<p>Isabela explica que as falhas da Lei Maria da Penha n\u00e3o est\u00e3o na lei em si, e sim na sua aplica\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o d\u00e1 pra garantir uma viatura policial na casa de cada v\u00edtima. Para que as medidas funcionem, dever\u00edamos ter um acompanhamento do estado para garantir a seguran\u00e7a da v\u00edtima, a aus\u00eancia desse acompanhamento acaba se tornando um terreno f\u00e9rtil para que o agressor descumpra a medida protetiva\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Ainda segundo Isabela Del Monde, enquanto n\u00e3o houver um programa integrado de combate \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica que se preocupe n\u00e3o somente com \u00e2mbito da seguran\u00e7a, da sa\u00fade, mas tamb\u00e9m econ\u00f4mica de uma maneira integrada oferecendo solu\u00e7\u00f5es eficientes, o Brasil continuar\u00e1 batendo recordes de feminic\u00eddio e viol\u00eancia contra a mulher. \u00c9 preciso falar sobre o assunto nas escolas, faculdades e para quem est\u00e1 fora das institui\u00e7\u00f5es de ensino. \u201cN\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica. Se combate a viol\u00eancia com educa\u00e7\u00e3o, com campanhas e com pol\u00edticas p\u00fablicas, e isso n\u00e3o \u00e9 feito porque n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edticas p\u00fablicas nem vontade pol\u00edtica de investir em transforma\u00e7\u00e3o cultural\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Em um pa\u00eds majoritariamente dirigido por homens, onde cinco mulheres foram assassinadas por dia em 2020 segundo a Rede de Observat\u00f3rio da Seguran\u00e7a, fica o questionamento de Marlene Romano: \u201cser\u00e1 que se a gente tivesse nascido homem, tudo isso teria acontecido com a gente?\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 15 anos da lei Maria da Penha, av\u00f3, m\u00e3e e neta contam suas hist\u00f3rias, que se misturam com a evolu\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o. \u201cQuando eu falo nisso, minha cabe\u00e7a d\u00f3i. \u00c9 muito doloroso reviver todas as coisas ruins da minha vida\u201d, diz Marlene, olhando para o alto para evitar que as l\u00e1grimas caiam. Marlene Romano [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":265394,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-265393","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265393","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=265393"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265393\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":265397,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265393\/revisions\/265397"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/265394"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=265393"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=265393"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=265393"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}