{"id":266220,"date":"2021-08-15T11:13:40","date_gmt":"2021-08-15T14:13:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=266220"},"modified":"2021-08-15T11:30:16","modified_gmt":"2021-08-15T14:30:16","slug":"inseguranca-alimentar-reflete-desigualdade-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/inseguranca-alimentar-reflete-desigualdade-social\/","title":{"rendered":"Inseguran\u00e7a alimentar reflete desigualdade social"},"content":{"rendered":"<p>Nada melhor do que lembrar Ivon Curi, que para fazer economia for\u00e7ada (afinal, dinheiro que era bom, nada) foi morar numa pens\u00e3o, onde a boia todo dia era s\u00f3 feij\u00e3o, feij\u00e3o.\u00a0 Esse realismo pulsante, que serve para ontem e hoje, vem a prop\u00f3sito de reportagem da <em>Sputnik Brasil<\/em> que conversou com especialista sobre o aparente paradoxo de o agroneg\u00f3cio nacional bater recordes enquanto parte dos brasileiros passa dias sem se alimentar.<\/p>\n<p>Pesquisadores do grupo Alimento para Justi\u00e7a: Poder, Pol\u00edtica e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, uma parceria entre a Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de Bras\u00edlia (UnB) estimam que 125,6 milh\u00f5es de brasileiros sofreram com inseguran\u00e7a alimentar durante a pandemia do novo coronav\u00edrus. O n\u00famero equivale a cerca de 59% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e se baseia em pesquisa realizada entre agosto e dezembro do ano passado.<\/p>\n<p>Por outro lado, o Brasil bate recordes de produ\u00e7\u00e3o no campo. Em 2020, o agroneg\u00f3cio foi o \u00fanico setor a crescer, o Produto Interno Bruto (PIB) do agroneg\u00f3cio cresceu 24,31%, um valor recorde para o setor. Com o resultado, o agroneg\u00f3cio expandiu para 26,6% sua participa\u00e7\u00e3o no PIB total, contra 20,5% de 2019.<\/p>\n<p>Essa aparente contradi\u00e7\u00e3o chamou a aten\u00e7\u00e3o de senadores, onde tramitam uma s\u00e9rie de projetos para enfrentar o problema da fome. \u201cA inseguran\u00e7a alimentar grave no Brasil, quando se come uma s\u00f3 vez por dia, atingiu 7,5 milh\u00f5es de pessoas em 2020, contra 3,9 milh\u00f5es em 2016. E com o agroneg\u00f3cio \u2018bombando\u2019! Para matar a fome do mundo, precisamos primeiro matar a fome dos nossos irm\u00e3os\u201d, afirmou a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) h\u00e1 algumas semanas.<\/p>\n<p>A<em> Sputnik Brasil<\/em> conversou com Nilson Maciel de Paula, professor s\u00eanior Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) e membro da coordena\u00e7\u00e3o da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) sobre as caracter\u00edsticas da inseguran\u00e7a alimentar no Brasil e poss\u00edveis estrat\u00e9gias para reverter o quadro atual.<\/p>\n<p><strong>Inseguran\u00e7a alimentar desde antes da pandemia<\/strong><br \/>\nO Brasil \u00e9 o segundo maior exportador de alimentos do mundo, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC), mas relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o da ONU para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO, em ingl\u00eas) divulgado em meados de julho estima que 23,5% da popula\u00e7\u00e3o brasileira vivenciou inseguran\u00e7a alimentar moderada ou severa entre 2018 e 2020, um crescimento de 5,2% em compara\u00e7\u00e3o com o \u00faltimo per\u00edodo analisado, de 2014 a 2016.<\/p>\n<p>Nilson Maciel de Paula explica que at\u00e9 2013 o n\u00edvel de seguran\u00e7a alimentar da popula\u00e7\u00e3o se elevou. Inclusive, o Brasil deixou o chamado Mapa da Fome, sobre a situa\u00e7\u00e3o global de car\u00eancia alimentar, em 2014 com o amplo alcance do programa Bolsa Fam\u00edlia. Estudo do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) baseado em dados de 2001 a 2017 mostrou que, no decorrer de 15 anos, o programa reduziu a pobreza em 15% e a extrema pobreza em 25%.<\/p>\n<p>\u201cA partir da\u00ed [depois de 2013], temos uma invers\u00e3o do processo, que se agrava a partir de 2015, quando a pol\u00edtica econ\u00f4mica sofre uma guinada na dire\u00e7\u00e3o de uma maior obedi\u00eancia ao mercado financeiro, que \u00e9 quando h\u00e1 um desmonte das pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o social que viam sendo executadas at\u00e9 ent\u00e3o [\u2026]. Quando chegamos no contexto atual da pandemia n\u00f3s observamos praticamente uma confirma\u00e7\u00e3o dessa tend\u00eancia de 2015, que j\u00e1 \u00e9 identificada nos levantamentos feitos em 2018, quando h\u00e1 um aumento significativo nos n\u00edveis de inseguran\u00e7a alimentar\u201d, afirma o especialista.<\/p>\n<p>Nilson de Paula destaca que h\u00e1 um agravamento dessa situa\u00e7\u00e3o durante a pandemia devido \u00e0s fragilidades sociais, com o aumento do desemprego, a precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, o trabalho informal, a perda de renda etc.<\/p>\n<p>O professor da UFPR frisa ainda que a inseguran\u00e7a alimentar n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tica, atingindo algumas regi\u00f5es, classes e ra\u00e7as com mais \u00edmpeto.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s verificamos que no Norte e no Nordeste do pa\u00eds, onde o n\u00edvel de renda e de emprego s\u00e3o mais preocupantes, o n\u00edvel de inseguran\u00e7a [alimentar] \u00e9 mais elevado [\u2026]. As popula\u00e7\u00f5es urbanas localizadas na periferia, em condi\u00e7\u00f5es de moradia mais prec\u00e1rias, tamb\u00e9m apresentam um n\u00edvel de inseguran\u00e7a alimentar mais elevado [\u2026] [e] as pessoas de cor parda e preta [\u2026] em compara\u00e7\u00e3o com aquelas que se declaram como brancas. Isso sugere que o fen\u00f4meno da inseguran\u00e7a alimentar reflete o fen\u00f4meno maior da desigualdade social, predominantemente, mas tamb\u00e9m da desigualdade regional do pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p><strong>Alimentos proibitivos para mercado interno<\/strong><br \/>\nNilson de Paula recorda que a posi\u00e7\u00e3o do Brasil nos mercados globais \u00e9 de um grande protagonismo, com um modelo de agricultura baseado na alta escala de produ\u00e7\u00e3o e em elevados n\u00edveis de produtividade. E isso se reflete em uma desconex\u00e3o com o mercado interno do ponto de vista das necessidades alimentares da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEsse modelo tem sido estimulado e impulsionado pela pol\u00edtica econ\u00f4mica, que acaba valorizando muito o papel do agroneg\u00f3cio, do papel das exporta\u00e7\u00f5es de commodities agr\u00edcolas para o equil\u00edbrio da balan\u00e7a comercial. [Essa] agricultura exportadora tem um papel na din\u00e2mica macroecon\u00f4mica do pa\u00eds que acaba se distanciando daquilo que \u00e9 algo essencial para a popula\u00e7\u00e3o que tem a ver com a seguran\u00e7a alimentar, com o abastecimento alimentar interno. Claro que isso \u00e9 uma parte da quest\u00e3o, a outra est\u00e1 localizada na demanda, ou seja, as condi\u00e7\u00f5es de demanda da popula\u00e7\u00e3o\u201d, contextualiza o especialista.<\/p>\n<p>Com a alta da infla\u00e7\u00e3o e quase 14,8 milh\u00f5es de desempregados, as fam\u00edlias brasileiras viram o seu poder de compra cair e foram obrigadas a mudar seu comportamento de consumo e, dessa forma, a diversidade dos alimentos comprados caiu.<\/p>\n<p>\u201cV\u00e1rios produtos que comp\u00f5em a cesta b\u00e1sica de consumo tiveram aumentos desproporcionais, aumentos que acabaram inviabilizando o consumo regular. Nesse sentido h\u00e1 uma precariza\u00e7\u00e3o na qualidade da alimenta\u00e7\u00e3o porque as pessoas passaram, lamentavelmente, a consumir mais produtos processados, industrializados, que s\u00e3o mais baratos [\u2026] e esses produtos mais baratos s\u00e3o aqueles que, do ponto de vista nutricional, n\u00e3o s\u00e3o os mais adequados. A resultante disso \u00e9 um empobrecimento da qualidade, uma piora na qualidade da alimenta\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong>Como reverter o quadro?<\/strong><br \/>\nNa segunda-feira (9), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) entregou \u00e0 C\u00e2mara dos Deputados a medida provis\u00f3ria que prev\u00ea a implementa\u00e7\u00e3o do Aux\u00edlio Brasil, novo programa social que pretende substituir o Bolsa Fam\u00edlia. O Aux\u00edlio Brasil tem o objetivo de aumentar o valor dos pagamentos em pelo 50%, assim como a base de benefici\u00e1rios, indo de 14,6 milh\u00f5es para mais de 16 milh\u00f5es. O valor m\u00e9dio do Bolsa Fam\u00edlia atualmente \u00e9 de R$ 189.<\/p>\n<p>Nilson de Paula afirma que qualquer ajuda monet\u00e1ria \u00e9 importante para as fam\u00edlias que est\u00e3o sem renda e vivem em uma condi\u00e7\u00e3o de pen\u00faria. Todavia, o especialista teme pela sustentabilidade do novo programa.<\/p>\n<p>\u201cA quest\u00e3o \u00e9 que esse aux\u00edlio est\u00e1 sujeito \u00e0 pr\u00f3pria racionalidade da pol\u00edtica econ\u00f4mica, da pol\u00edtica fiscal que talvez impe\u00e7a a sua implementa\u00e7\u00e3o nas dimens\u00f5es daquilo que \u00e9 necess\u00e1rio [\u2026]. Temos que olhar isso do ponto de vista da sua sustentabilidade e da sua extens\u00e3o social. Porque isso vai depender das decis\u00f5es pol\u00edticas de um governo que \u00e9 ca\u00f3tico, de um governo que n\u00e3o consegue colocar uma certa racionalidade da pol\u00edtica econ\u00f4mica, adotada por eles mesmos, n\u00e3o conseguem combinar isso com as aspira\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do governo. H\u00e1 uma inconsist\u00eancia, uma contradi\u00e7\u00e3o que n\u00f3s ainda n\u00e3o sabemos [como ser\u00e3o solucionadas].\u201d<\/p>\n<p>O professor da UFPR acredita que a inseguran\u00e7a alimentar que aflige milh\u00f5es de fam\u00edlias brasileiras continuar\u00e1 mesmo ap\u00f3s o fim da pandemia da COVID-19, mas admite que mudan\u00e7as s\u00e3o poss\u00edveis caso o ambiente pol\u00edtico no pa\u00eds mude.<\/p>\n<p>\u201cUma vez superado o quadro da pandemia, \u00e9 muito dif\u00edcil que essa situa\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a alimentar seja revertida [\u2026]. \u00c9 mais prov\u00e1vel que reestabele\u00e7amos o normal anterior, que era um quadro de profunda desigualdade social [\u2026]. [Mas] tudo isso vai depender do ambiente pol\u00edtico. A sociedade brasileira est\u00e1 imersa em uma din\u00e2mica social muito preocupante. A constru\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es para a supera\u00e7\u00e3o da crise atual est\u00e1 situada no terreno da pol\u00edtica e do engajamento da sociedade para recolocar o pa\u00eds em sintonia com as suas necessidades, com as necessidades mais prementes do ponto de vista da popula\u00e7\u00e3o mais empobrecida. N\u00e3o acredito que isso v\u00e1 acontecer no curto prazo\u201d, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nada melhor do que lembrar Ivon Curi, que para fazer economia for\u00e7ada (afinal, dinheiro que era bom, nada) foi morar numa pens\u00e3o, onde a boia todo dia era s\u00f3 feij\u00e3o, feij\u00e3o.\u00a0 Esse realismo pulsante, que serve para ontem e hoje, vem a prop\u00f3sito de reportagem da Sputnik Brasil que conversou com especialista sobre o aparente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":266221,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-266220","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/266220","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=266220"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/266220\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":266223,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/266220\/revisions\/266223"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/266221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=266220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=266220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=266220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}