{"id":266406,"date":"2021-08-17T08:28:03","date_gmt":"2021-08-17T11:28:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=266406"},"modified":"2021-08-17T12:32:52","modified_gmt":"2021-08-17T15:32:52","slug":"cocaina-e-madeira-ilegal-tem-relacoes-intimas-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cocaina-e-madeira-ilegal-tem-relacoes-intimas-na-amazonia\/","title":{"rendered":"Coca\u00edna e madeira ilegal t\u00eam liga\u00e7\u00e3o \u00edntima na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p>Os produtos florestais, frequentemente oriundos de crimes ambientais, v\u00eam servindo cada vez mais de maquiagem para o envio de drogas ao exterior. O destaque vai para as cargas de madeira, campe\u00e3s de apreens\u00f5es nos cont\u00eaineres enviados do Brasil \u00e0 Europa.<\/p>\n<p>Pesquisas recentes j\u00e1 apontam o volume significativo de explora\u00e7\u00e3o ilegal no mercado madeireiro nacional e sua rela\u00e7\u00e3o com o desmatamento na Amaz\u00f4nia. Segundo um estudo da ONG Imazon publicado em 2020, cerca de 70% da madeira explorada no Par\u00e1 entre agosto de 2017 e julho de 2018 tinha origem il\u00edcita \u2014 a explora\u00e7\u00e3o ocorreu em \u00e1reas onde n\u00e3o havia autoriza\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de apontar a grilagem e a extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira como duas das principais causas do desmatamento, o relat\u00f3rio \u201cM\u00e1fias do Ip\u00ea\u201d, produzido pela ONG Human Rights Watch em 2019, mostrou a rela\u00e7\u00e3o dessa atividade com a viol\u00eancia. A pesquisa analisou 28 casos de assassinatos, 4 tentativas de assassinato e outros 40 casos de amea\u00e7as relacionadas \u00e0 extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira entre 2015 e 2019.<\/p>\n<p>A novidade apontada pelos entrevistados \u00e9 a sobreposi\u00e7\u00e3o cada vez maior das rotas entre as fac\u00e7\u00f5es criminosas do narcotr\u00e1fico e os grupos ligados aos crimes ambientais. Pesquisadores dizem que o crime ambiental pode estar servindo como uma nova forma de capitaliza\u00e7\u00e3o para os narcotraficantes, com ind\u00edcios do uso de cargas de origem florestal para maquiar o envio de drogas ao exterior.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 apontada por fontes ligadas \u00e0 Pol\u00edcia Federal (PF) e por pesquisadores da \u00e1rea de seguran\u00e7a p\u00fablica ouvidos pela P\u00fablica. \u201cO principal produto florestal usado para a exporta\u00e7\u00e3o de drogas para a Europa \u00e9 a madeira\u201d, afirma Aiala Couto, ge\u00f3grafo da Universidade do Estado do Par\u00e1 (Uepa) e pesquisador associado ao F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica e ao Instituto Clima e Sociedade. Couto desenvolve uma pesquisa a ser publicada neste ano que trata da territorializa\u00e7\u00e3o do crime organizado na Amaz\u00f4nia e a rela\u00e7\u00e3o deste com os crimes ambientais. Segundo ele, os produtos minerais, com destaque para o mangan\u00eas, ocupam o segundo lugar na lista de apreens\u00f5es.<\/p>\n<p>Um levantamento da P\u00fablica feito com base em not\u00edcias das apreens\u00f5es nos sites oficiais do governo e na imprensa identificou ao menos 16 grandes apreens\u00f5es de coca\u00edna em cargas de madeira destinadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o por via mar\u00edtima entre 2017 e 2021.\u00a0 Ao todo, as apreens\u00f5es somaram cerca de 9 toneladas da droga e tinham como destino pa\u00edses europeus como Espanha, B\u00e9lgica, Fran\u00e7a, Alemanha, Portugal, It\u00e1lia e Eslov\u00eania. Elas ocorreram com mais frequ\u00eancia em portos do Sul e Sudeste do Brasil em cargas de madeira em toras, vigas, pallets e laminados.<\/p>\n<p>A pesquisa de Couto mostra que cerca de 9 toneladas de drogas foram apreendidas na Amaz\u00f4nia Legal \u2014 principalmente coca\u00edna e maconha \u2014, vindas do Suriname, Col\u00f4mbia, Bol\u00edvia, Venezuela e Peru entre 2017 e 2020. As drogas vieram principalmente por via fluvial e terrestre. Os dados foram compilados tamb\u00e9m em not\u00edcias a respeito das apreens\u00f5es. A informa\u00e7\u00e3o colhida pelo pesquisador aponta para uma sobreposi\u00e7\u00e3o entre \u00e1reas onde h\u00e1 apreens\u00e3o de madeira ilegal e contrabando de min\u00e9rio e \u00e1reas de apreens\u00e3o de drogas.<\/p>\n<p>De acordo com informa\u00e7\u00f5es da Receita Federal repassadas \u00e0 P\u00fablica, mais de 2 toneladas de narc\u00f3ticos acondicionados em produtos de origem extrativista foram apreendidas somente no porto de Santos (SP) entre 2019 e 2021. As drogas foram encontradas em pallets de madeira, fibras de amianto, cargas de grafite, micross\u00edlica e corindo (mineral \u00e0 base de \u00f3xido de alum\u00ednio).<\/p>\n<p>Segundo o delegado titular da Delegacia de Repress\u00e3o a Entorpecentes (DRE) da PF no Amazonas, Victor Mota, j\u00e1 se constatou que a madeira \u00e9 a carga mais usada pelo narcotr\u00e1fico na exporta\u00e7\u00e3o de drogas. \u201cA gente j\u00e1 fez um levantamento das exporta\u00e7\u00f5es do tr\u00e1fico de drogas para a Europa e a primeira carga disparada [onde as drogas s\u00e3o escondidas] \u00e9 a madeira. Seja na forma de m\u00f3veis, seja na forma de vigas, seja em outras formas. A principal forma que eles escondem a droga para o envio para a Europa \u00e9 a madeira\u201d, diz o delegado, em entrevista \u00e0 P\u00fablica. Segundo Mota, essa informa\u00e7\u00e3o consta em um levantamento interno j\u00e1 produzido pela PF, mas a institui\u00e7\u00e3o negou o acesso ao documento ap\u00f3s um pedido da reportagem.<\/p>\n<p><strong>Fac\u00e7\u00f5es acumulam capital<\/strong><br \/>\n\u201cAs rotas que s\u00e3o utilizadas para o tr\u00e1fico de drogas tamb\u00e9m s\u00e3o utilizadas para o contrabando de madeira, e algumas est\u00e3o pr\u00f3ximas em \u00e1reas de contrabando de min\u00e9rio, sobretudo na explora\u00e7\u00e3o ilegal de ouro\u201d, afirma o pesquisador Aiala Couto. \u201cH\u00e1 uma mistura nessas rela\u00e7\u00f5es [entre o narcotr\u00e1fico e os crimes ambientais]. E isso faz com que a gente consiga associar o discurso do governo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o ambiental com esse fortalecimento das a\u00e7\u00f5es dessas atividades criminosas que dizem respeito ao meio ambiente. Isso possibilitou que grupos criminosos organizados enxergassem esses crimes como uma possibilidade dentro do seu campo de a\u00e7\u00e3o para acumula\u00e7\u00e3o de capital\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Couto aponta que j\u00e1 h\u00e1 registros de fac\u00e7\u00f5es criminosas comprando ilegalmente \u00e1reas de floresta para lucrar com a explora\u00e7\u00e3o ilegal de madeira e at\u00e9 mesmo para montar \u00e1reas de produ\u00e7\u00e3o de maconha, como tem ocorrido no chamado \u201cpol\u00edgono da maconha\u201d ou \u201cpol\u00edgono do capim\u201d, situado no nordeste do Par\u00e1, nos munic\u00edpios de S\u00e3o Domingos do Capim, Conc\u00f3rdia do Par\u00e1, Bujaru, Tom\u00e9-A\u00e7u, Cachoeira do Piri\u00e1, Nova Esperan\u00e7a do Piri\u00e1, Garraf\u00e3o do Norte, Moju e Tail\u00e2ndia.<\/p>\n<p>A pesquisa de Couto registra a apreens\u00e3o de mais de 2 milh\u00f5es de p\u00e9s de maconha na Amaz\u00f4nia Legal entre 2015 e 2020, 55% do total apreendido no estado do Par\u00e1, com grande destaque para os munic\u00edpios do pol\u00edgono. Em agosto de 2020, a Opera\u00e7\u00e3o Colheita Maldita, deflagrada em conjunto pela PF e pela Pol\u00edcia Civil do Par\u00e1, apreendeu cerca de 200 toneladas de maconha no nordeste paraense (mais de 400 mil p\u00e9s). Segundo a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), j\u00e1 h\u00e1 registros de conflito entre traficantes e comunidades tradicionais, como um caso de ataque de piratas \u00e0 comunidade ribeirinha de Itamimbuca, no munic\u00edpio de Igarap\u00e9-Miri, ocorrido em janeiro deste ano.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 relatos de pessoas envolvidas em conflitos agr\u00e1rios com essa quest\u00e3o [das organiza\u00e7\u00f5es criminosas]\u201d, afirma a coordenadora do N\u00facleo de Quest\u00f5es Agr\u00e1rias e Fundi\u00e1rias do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado do Par\u00e1 (MP-PA), Ione Nakamura. A promotora, por\u00e9m, diz que o tema ainda \u00e9 incipiente no MP e que nunca foi alvo de investiga\u00e7\u00e3o da promotoria agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>H\u00e1 associa\u00e7\u00e3o de grupos criminosos com grupos econ\u00f4micos que j\u00e1 exploram ativamente o garimpo ilegal na Amaz\u00f4nia, como revelado pela Amaz\u00f4nia Real no caso dos garimpos clandestinos situados em \u00e1reas Yanomami, em Roraima.<\/p>\n<p>Mais do que o mero compartilhamento de rotas, Couto v\u00ea um entrela\u00e7amento crescente entre o narcotr\u00e1fico e o crime ambiental que acelerou acompanhando a disputa dos grupos criminosos pelas principais rotas da Amaz\u00f4nia, que frequentemente coincidem com as dos crimes ambientais. Apesar disso, o combate ao crime na Amaz\u00f4nia por vezes desconsidera essa liga\u00e7\u00e3o e isso acaba por fortalecer as fac\u00e7\u00f5es. \u201cH\u00e1 v\u00e1rias \u00e1reas da Amaz\u00f4nia onde existe esta sobreposi\u00e7\u00e3o entre estas atividades criminosas como o garimpo ilegal, a explora\u00e7\u00e3o ilegal de madeira, o narcotr\u00e1fico\u201d, argumenta Aiala.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s temos um governo que se elegeu com a bandeira da seguran\u00e7a p\u00fablica, mas que n\u00e3o consegue enxergar que existe essa rela\u00e7\u00e3o entre seguran\u00e7a p\u00fablica e o meio ambiente. E toda a narrativa, o discurso e a a\u00e7\u00e3o [do governo] potencializou o crescimento do crime organizado na Amaz\u00f4nia hoje. Os n\u00fameros se intensificaram do governo Bolsonaro para c\u00e1. O crime organizado tem que ser entendido para al\u00e9m da sigla PCC e Comando Vermelho, por exemplo, h\u00e1 grupos que se envolvem no garimpo ilegal, na grilagem de terras, na extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira, no contrabando de ouro, na invas\u00e3o de terras ind\u00edgenas. Esses grupos criam empresas, lavam dinheiro, participam do contrabando, do tr\u00e1fico de drogas e armas. A rela\u00e7\u00e3o \u00e9 ampla e complexa\u201d, alerta.<\/p>\n<p>Para o ex-superintendente da PF no Amazonas, o delegado Alexandre Saraiva, as puni\u00e7\u00f5es leves para os crimes ambientais na legisla\u00e7\u00e3o e a possibilidade de lucros atraem cada vez mais as organiza\u00e7\u00f5es criminosas para o crime ambiental. \u201cH\u00e1 uma simples an\u00e1lise de risco por parte do criminoso. Ele olha l\u00e1 na legisla\u00e7\u00e3o ambiental e v\u00ea que, se for aplicada apenas a legisla\u00e7\u00e3o ambiental, ela \u00e9 extremamente limitada. Ele n\u00e3o precisa pensar muito. \u00c9 poss\u00edvel ver pessoas ligadas \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es criminosas atuando no com\u00e9rcio ilegal de madeira\u201d, diz Saraiva, que comandou uma das maiores opera\u00e7\u00f5es de combate \u00e0 madeira ilegal da hist\u00f3ria do pa\u00eds, a Opera\u00e7\u00e3o Arquimedes.<\/p>\n<p><strong>Sa\u00edda por Barcarena<\/strong><br \/>\nO porto de Vila do Conde, em Barcarena, vem se consolidando como uma das principais rotas de sa\u00edda de entorpecentes da Amaz\u00f4nia para a Europa. \u00c9 comum que cargas de entorpecentes saiam de l\u00e1 e passem por portos do Sul e Sudeste do pa\u00eds, como os de Santos e Paranagu\u00e1 (PR), antes de ir ao exterior, mas \u00e9 cada vez mais frequente o envio direto. \u201cQuanto \u00e0 remessa da coca\u00edna para outros pa\u00edses, o que se tem notado \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o de outros portos para despachar a droga, na esp\u00e9cie, pode-se citar o porto de Vila do Conde no estado do Par\u00e1\u201d, afirmou em entrevista ao Valor Econ\u00f4mico, o delegado Elvis Secco, ex-coordenador-geral de Pol\u00edcia de Repress\u00e3o a Drogas e Fac\u00e7\u00f5es Criminosas (CGPRE) da PF.<\/p>\n<p>Barcarena j\u00e1 \u00e9 uma regi\u00e3o f\u00e9rtil em conflitos agr\u00e1rios, segundo os dados da CPT. A organiza\u00e7\u00e3o registra mais de 12 mil fam\u00edlias envolvidas em conflitos de \u00e1gua e terra no munic\u00edpio entre 2011 e 2021 e mais de 22 casos de viol\u00eancia contra pessoas no campo no mesmo per\u00edodo (incluindo dois assassinatos). A crescente import\u00e2ncia do local como rota do narcotr\u00e1fico pode agravar o quadro de viol\u00eancia geral nas \u00e1reas urbanas e rurais da cidade.<\/p>\n<p>Opera\u00e7\u00f5es recentes da PF e da Pol\u00edcia Civil do Par\u00e1 v\u00eam focando as exporta\u00e7\u00f5es por Barcarena e a viol\u00eancia em munic\u00edpios pr\u00f3ximos nos \u00faltimos anos. \u00c9 o caso, por exemplo, da Opera\u00e7\u00e3o Flashback, que, deflagrada pela PF em 2017, desarticulou uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa que tinha dois portos como polos principais de suas opera\u00e7\u00f5es. O porto de Paranagu\u00e1 e o porto de Vila do Conde, em Barcarena. Este era comandado, segundo as investiga\u00e7\u00f5es, por Ant\u00f4nio Salazar Nuez, chamado de \u201cTony Filipino\u201d. Nascido nas Filipinas e baseado em Bel\u00e9m (PA), Tony foi descrito pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) como \u201cidealizador do esquema de tr\u00e1fico de drogas para a Europa, a partir do Porto de Vila do Conde no Par\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o MPF, Tony aliciava tripulantes, normalmente conterr\u00e2neos filipinos, de embarca\u00e7\u00f5es que iam a pa\u00edses do exterior. Ainda em 2015, di\u00e1logos interceptados pela PF mostraram que ele articulou o envio de coca\u00edna em uma carga de madeira destinada \u00e0 Turquia. Tony foi condenado a 24 anos de pris\u00e3o por enviar outros\u00a0 22 kg de coca\u00edna para a B\u00e9lgica e atualmente cumpre pena em regime fechado.<\/p>\n<p>Opera\u00e7\u00f5es mais recentes v\u00eam confirmando a import\u00e2ncia da regi\u00e3o portu\u00e1ria de Barcarena na rota do narcotr\u00e1fico na Amaz\u00f4nia. Em mar\u00e7o deste ano, a Pol\u00edcia Civil do Par\u00e1 apreendeu 120 kg de coca\u00edna, que, distribu\u00eddos em 117 tabletes, seriam exportadas \u00e0 Europa em vigas de madeira. Quatro pessoas foram presas e uma quantia de aproximadamente R$ 200 mil em esp\u00e9cie foi apreendida pelos policiais. A pol\u00edcia informou, segundo decis\u00f5es judiciais, que a opera\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado de mais de um ano de investiga\u00e7\u00f5es sobre um suposto esquema de envio de drogas ao exterior que j\u00e1 movimentou \u201cmilh\u00f5es de d\u00f3lares, euros e reais em um complexo sistema de remessa de coca\u00edna para destinos variados\u201d.<\/p>\n<p>Um dos suspeitos apontados como l\u00edder do esquema possui uma empresa regularizada na Secretaria de Estado da Fazenda (Sefa) do Par\u00e1 para exporta\u00e7\u00e3o de madeira pelo porto de Vila dos Cabanos, outro distrito de Barcarena. Segundo a pol\u00edcia, a droga era acondicionada nas toras de madeira e posteriormente vendida a clientes no exterior. O processo segue em sigilo de justi\u00e7a. Nem a Pol\u00edcia Civil nem o MP-PA quiseram dar entrevista \u00e0 P\u00fablica.<\/p>\n<p>Para o delegado Victor Mota, uma legisla\u00e7\u00e3o ambiental fr\u00e1gil pode acabar colaborando para que outros crimes, como a exporta\u00e7\u00e3o de drogas, cres\u00e7am. Um exemplo \u00e9 o despacho 7036900, de fevereiro de 2020, publicado pelo ex-presidente do Ibama Eduardo Bim, que foi afastado do cargo por determina\u00e7\u00e3o judicial. O despacho motivou as investiga\u00e7\u00f5es que culminaram na Opera\u00e7\u00e3o Akuanduba, que tem o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e Bim como investigados.<\/p>\n<p>O documento dispensava a autoriza\u00e7\u00e3o do Ibama para as exporta\u00e7\u00f5es de madeira, mas foi suspenso por decis\u00e3o do ministro Alexandre de Moraes em maio deste ano. \u201cIsso facilita [o envio de drogas ao exterior]. \u00c9 uma coisa que acaba puxando a outra. Se voc\u00ea n\u00e3o tem uma fiscaliza\u00e7\u00e3o de que tipo de madeira est\u00e1 ali, o quanto de madeira est\u00e1 sendo transportado, se essa madeira pode ser exportada, de onde ela foi retirada. Se voc\u00ea n\u00e3o tem essa primeira desconfian\u00e7a quanto ao material, como a gente vai desconfiar que l\u00e1 dentro tem ou n\u00e3o entorpecente? Se voc\u00ea come\u00e7a a criar uma vista grossa com esse material, os caras v\u00e3o cada vez mais usar aquilo como esconderijo\u201d, avalia.<\/p>\n<p>O delegado Victor Mota foi respons\u00e1vel por uma das opera\u00e7\u00f5es mais recentes a relacionar crimes ambientais e pessoas ligadas ao narcotr\u00e1fico. Deflagrada em julho de 2020, a Opera\u00e7\u00e3o Schelde investigou quem estava por tr\u00e1s do envio de 250 kg de coca\u00edna para a B\u00e9lgica em uma carga de vigas de madeira de origem il\u00edcita em 2019. A investiga\u00e7\u00e3o foi rec\u00e9m-conclu\u00edda pela PF e mostra a participa\u00e7\u00e3o de pessoas com passado vinculado a fac\u00e7\u00f5es criminosas no esquema.<\/p>\n<p><strong>Coca\u00edna em cont\u00eainer de madeira<\/strong><br \/>\nEm seis de junho de 2019, uma carga de madeira oriunda do Brasil foi interceptada no porto de Antu\u00e9rpia, na B\u00e9lgica. Os policiais belgas se surpreenderam quando fiscalizavam um cont\u00eainer de madeira em vigas enviado pela empresa brasileira J. S. Com\u00e9rcio Varejista de Ferragens e Ferramentas, sediada em Manaus (AM). O motivo da surpresa: as autoridades belgas encontraram 250 kg de coca\u00edna refinada na carga de madeira, que tinha como destino a Holanda.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia belga imediatamente alertou a PF no Brasil. Foi ali o in\u00edcio de uma investiga\u00e7\u00e3o de dois anos, conduzida pela PF no Amazonas e recentemente encaminhada para an\u00e1lise do MPF. Para a PF, a J. S. era uma empresa de fachada usada por pessoas com passado ligado ao tr\u00e1fico de drogas e a fac\u00e7\u00f5es criminosas para maquiar o envio de drogas ao exterior. A madeira tinha origem ilegal segundo o inqu\u00e9rito policial.<\/p>\n<p>A J. S. tem como \u00fanico s\u00f3cio Gil Vicente Valle Miraval. No decorrer das investiga\u00e7\u00f5es, os policiais o classificaram como o protagonista da empreitada que levou os 250 kg de Manaus \u00e0 B\u00e9lgica. Com a quebra de seus sigilos banc\u00e1rio e telem\u00e1tico, a PF descobriu que ele se encontrava na Europa no per\u00edodo em que estava prevista a chegada da carga de coca\u00edna, transitando entre a Holanda e a B\u00e9lgica. \u201cAs investiga\u00e7\u00f5es apontam que ele faria o recebimento da droga na Europa, receberia o valor do comprador e voltaria ao Brasil com esse valor em esp\u00e9cie, coisa que ele j\u00e1 tentou fazer em uma outra ocasi\u00e3o\u201d, afirma em entrevista \u00e0 P\u00fablica o delegado Victor Mota, respons\u00e1vel pela investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Descobriu-se tamb\u00e9m, em conversas obtidas com as quebras de sigilo, que Gil Vicente estava negociando carregamentos de maconha com outros contatos.<\/p>\n<p>Na quebra de sigilo telem\u00e1tico de Gil Vicente, apareceram comunica\u00e7\u00f5es com Osmerino Muca de Souza. Osmerino \u00e9 um velho conhecido da PF amazonense. Em 2015, ele foi preso na Opera\u00e7\u00e3o La Muralla, a primeira grande opera\u00e7\u00e3o da PF que atingiu em cheio a fac\u00e7\u00e3o criminosa Fam\u00edlia do Norte (FDN).<\/p>\n<p>No relat\u00f3rio final da Opera\u00e7\u00e3o La Muralla, Osmerino \u00e9 descrito como um dos principais comparsas do colombiano Juan Angel Ocampo Cruz, vulgo \u201cChin\u00eas\u201d, apontado com um dos grandes fornecedores de drogas do l\u00edder da FDN, Jos\u00e9 Roberto Fernandes Barbosa, o \u201cZ\u00e9 Roberto da Compensa\u201d,\u00a0 que cumpre pena de 130 anos de pris\u00e3o na Penitenci\u00e1ria Federal de Seguran\u00e7a M\u00e1xima de Campo Grande (MS).<\/p>\n<p>Em setembro de 2015, Osmerino foi preso junto com Chin\u00eas em um s\u00edtio de sua propriedade, no munic\u00edpio de Manacapuru (AM), na regi\u00e3o metropolitana de Manaus. Na ocasi\u00e3o, a PF apreendeu 27 kg de coca\u00edna e outros 217 kg de maconha, al\u00e9m de armas de grosso calibre.<\/p>\n<p>Na investiga\u00e7\u00e3o contra Gil Vicente, a PF encontrou registros de contatos telef\u00f4nicos entre ele e Osmerino. \u201cEssas liga\u00e7\u00f5es por vezes falavam de d\u00edvidas e de uma antecipa\u00e7\u00e3o de uma certa quantidade de dinheiro. Se a gente analisar os antecedentes do Osmerino, ele j\u00e1 foi preso e n\u00f3s temos informa\u00e7\u00f5es que ele, depois de solto, continuava praticando o crime de tr\u00e1fico de drogas\u201d, explica o delegado Victor Mota. \u201cPara mim ficou claro que ele [Osmerino] servia como um fornecedor de entorpecentes\u201d, explica, referindo-se ao envio de drogas para a B\u00e9lgica.<\/p>\n<p>Em julho do ano passado, houve a fase ostensiva das investiga\u00e7\u00f5es. Batizada de Opera\u00e7\u00e3o Schelde, em refer\u00eancia ao rio que banha o porto de Antu\u00e9rpia, a PF cumpriu sete mandados de busca e apreens\u00e3o e dois de pris\u00e3o contra Gil Vicente e Osmerino.<\/p>\n<p>Conclu\u00eddo pela PF, o caso est\u00e1 em an\u00e1lise pelo MPF no Amazonas. O procurador respons\u00e1vel, Filipe Pessoa de Lucena, do 11o Of\u00edcio da Procuradoria da Rep\u00fablica no Amazonas, n\u00e3o quis dar entrevista \u00e0 P\u00fablica. Gil Vicente foi solto e est\u00e1 em liberdade condicional desde dezembro de 2020, aguardando a manifesta\u00e7\u00e3o do MPF. Osmerino n\u00e3o teve o pedido de liberdade condicional aceito pela Justi\u00e7a e segue em pris\u00e3o tempor\u00e1ria.<\/p>\n<p>A P\u00fablica buscou contato com o advogado de Gil Vicente, Euthiciano Mendes Muniz, em um n\u00famero de telefone informado em um pedido de liberdade provis\u00f3ria, e enviou a ele quatro perguntas sobre os fatos imputados pela PF, mas n\u00e3o houve resposta at\u00e9 o fechamento. A reportagem n\u00e3o conseguiu contato com a defesa de Osmerino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os produtos florestais, frequentemente oriundos de crimes ambientais, v\u00eam servindo cada vez mais de maquiagem para o envio de drogas ao exterior. O destaque vai para as cargas de madeira, campe\u00e3s de apreens\u00f5es nos cont\u00eaineres enviados do Brasil \u00e0 Europa. 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