{"id":266579,"date":"2021-08-19T08:19:27","date_gmt":"2021-08-19T11:19:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=266579"},"modified":"2021-08-19T08:56:19","modified_gmt":"2021-08-19T11:56:19","slug":"construtora-odebrecht-vai-levando-com-sua-internacionalizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/construtora-odebrecht-vai-levando-com-sua-internacionalizacao\/","title":{"rendered":"Construtora Odebrecht vai levando com sua Internacionaliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Ao colocar em perspectiva hist\u00f3rica a consolida\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o internacional da Odebrecht j\u00e1 se nota a porosidade de perspectivas que trataram de datar a forma\u00e7\u00e3o do \u201cEstado Odebrecht\u201d durante os governos Lula. Mas ao mudar as lentes para os anos 1980-1990 estar\u00edamos, corretamente, encontrando o nascimento de um \u201cEstado Odebrecht\u201d?<\/p>\n<p>Uma r\u00e1pida pesquisa nos principais sites de busca e a palavra \u201cOdebrecht\u201d logo aparece relacionada a adjetivos n\u00e3o muito nobres: corrup\u00e7\u00e3o, propina e lavagem de dinheiro s\u00e3o alguns dos mais comuns.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 para menos: a espetaculariza\u00e7\u00e3o promovida pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato serviu ao prop\u00f3sito de suplantar o debate sobre o fortalecimento das empresas nacionais ou mesmo do funcionamento das rela\u00e7\u00f5es que se operam entre grandes agentes do capital e Estados nas economias capitalistas mundiais. Em seu lugar, se disseminou um discurso que, ao fim e ao cabo, vilanizou a atividade pol\u00edtica e imp\u00f4s uma pecha \u00e0s empresas nacionais.<\/p>\n<p>Para construir essa narrativa hegem\u00f4nica, a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato contou com uma simbi\u00f3tica atua\u00e7\u00e3o junto aos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, justificativa essa depreendida da pr\u00f3pria an\u00e1lise da Opera\u00e7\u00e3o \u201cM\u00e3os limpas\u201d, escrita por Sergio Moro. Rememorando a opera\u00e7\u00e3o de combate a corrup\u00e7\u00e3o italiana, afirmou o juiz que, naquela situa\u00e7\u00e3o: \u201cos vazamentos serviram a um prop\u00f3sito \u00fatil. O constante fluxo de revela\u00e7\u00f5es manteve o interesse p\u00fablico elevado e os l\u00edderes partid\u00e1rios na defensiva\u201d.<\/p>\n<p>Os reflexos disso faziam se notar nas p\u00e1ginas de importantes jornais latino-americanos: \u201ccapitalismo mafioso latino-americano\u201d e \u201cEstado-Odebrecht nascido sob as asas de Lula\u201d, s\u00e3o no\u00e7\u00f5es que avan\u00e7aram fronteiras e serviram ao prop\u00f3sito da constru\u00e7\u00e3o de uma ideia que articulava de forma umbilical Odebrecht, governos petistas e, em alguns casos, \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d.<\/p>\n<p>Os artigos jornal\u00edsticos n\u00e3o devem ser reduzidos a ensaios de opini\u00e3o pessoal, mas vistos como uma esp\u00e9cie de ponta de lan\u00e7a p\u00fablica de matriz te\u00f3rica acad\u00eamica, o que respalda a vis\u00e3o difundida pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o. Talvez o conceito de Capitalismo de la\u00e7os, de Sergio Lazzarini, se apresente como paradigma de um vi\u00e9s liberal interpretativo n\u00e3o s\u00f3 da quest\u00e3o da Odebrecht, mas do capitalismo brasileiro como um todo.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de Lazzarini, Capitalismo de la\u00e7os se trata de um modelo assentado no uso de rela\u00e7\u00f5es particulares para explorar oportunidades de mercado ou para influenciar determinadas decis\u00f5es de interesses. Conforma-se, assim, em um \u201cemaranhado de contatos, alian\u00e7as e estrat\u00e9gias de apoio gravitando em torno de interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos\u201d.[1] De forma que, corrup\u00e7\u00e3o, clientelismo, privil\u00e9gios e favorecimentos, escassez de cr\u00e9dito e burocracia ineficiente, al\u00e9m de inger\u00eancia estatal nas transa\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do mercado s\u00e3o, na vis\u00e3o do autor, pedras angulares do nosso \u201ccapitalismo de la\u00e7os\u201d, maculado pela atua\u00e7\u00e3o estatal. [2]<\/p>\n<p>Essa am\u00e1lgama entre esfera privada e p\u00fablica, por sua vez, seria decorrente da aus\u00eancia de \u201cinstitui\u00e7\u00f5es que promovam e facilitem o funcionamento de seus mercados\u201d, institui\u00e7\u00f5es capazes de intermediar as rela\u00e7\u00f5es entre vendedores e compradores, o que torna essa rela\u00e7\u00e3o \u201cmenos transparente e mais dificultosa\u201d. \u00c9 justamente a aus\u00eancia desses intermedi\u00e1rios que abriria caminho aos Institucional Voids [vazios institucionais], esp\u00e9cies de gaps que representam a singularidade primordial das economias emergentes nessa vis\u00e3o.[3]<\/p>\n<p>Negar o envolvimento da holding em esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o cuja natureza se assenta, de fato, em rela\u00e7\u00f5es perniciosas entre esferas p\u00fablica e privada, consistiria em um negacionismo. O que propomos \u00e9 retirar o foco exclusivo das p\u00e1ginas policiais em que a empresa tem aparecido, para, atrav\u00e9s de uma an\u00e1lise da consolida\u00e7\u00e3o de sua atua\u00e7\u00e3o internacional, compreender que, para al\u00e9m de fruto de um processo hist\u00f3rico iniciado durante a ditadura militar brasileira, a articula\u00e7\u00e3o entre esse agente capitalista e o Estado nacional representou um processo de m\u00e3o dupla e de interesses particulares convergentes.<\/p>\n<p><strong>Da Bahia para o mundo<\/strong><br \/>\nAs narrativas que apontam para os governos Lula o nascimento da rela\u00e7\u00e3o Odebrecht-Estado nacional obedecem a prop\u00f3sitos pol\u00edticos que prescindem de um apagamento hist\u00f3rico de, pelo menos, sessenta anos e, em especial, dos anos 1980 e 1990, quando a empresa j\u00e1 consolidara sua atua\u00e7\u00e3o internacional e, em especial, na Am\u00e9rica. A Construtora Norberto Odebrecht (CNO) foi fundada em 1945, na Bahia e atuou enquanto empresa de engenharia pesada de alcance regional at\u00e9 fins dos anos 1950, com algumas obras de destaque, como a Usina Hidrel\u00e9trica de Correntina, na Bahia.[4]<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o come\u00e7a a se alterar quando, em 1954, a empresa se torna cliente da Petrobras com a obra do oleoduto Catu-Candeias, abrindo as portas de uma rela\u00e7\u00e3o que prosseguiria com a realiza\u00e7\u00e3o de obras para constru\u00e7\u00e3o de instala\u00e7\u00f5es de apoio, esta\u00e7\u00f5es de tratamento de \u00e1gua, plataformas mar\u00edtimas, pontes, canais e barragens, por exemplo.<\/p>\n<p>A despeito de algumas inova\u00e7\u00f5es que garantiram seu crescimento, por exemplo, a realiza\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de todas as etapas de suas constru\u00e7\u00f5es \u2013 substituindo a ent\u00e3o consagrada t\u00e9cnica de levantamento de estrutura primeiro, paredes e rebocos depois \u2013 respons\u00e1vel por maior agilidade na entrega das obras, \u00e9 not\u00f3rio que os v\u00ednculos pol\u00edticos estabelecidos com os \u00f3rg\u00e3os de governos estatais[5] foram condi\u00e7\u00e3o imperiosa para a ascens\u00e3o da empreiteira. No in\u00edcio dos anos 1970, a ent\u00e3o 19\u00aa maior construtora brasileira (atr\u00e1s, entre outras, da tamb\u00e9m nordestina Queiroz Galv\u00e3o) muda de patamar, deixando de ser uma construtora com respaldo regional para se \u201cnacionalizar\u201d.<\/p>\n<p>As vit\u00f3rias em licita\u00e7\u00f5es no Rio de Janeiro para a constru\u00e7\u00e3o do campus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), do edif\u00edcio-sede da Petrobras (aproveitando-se de liga\u00e7\u00e3o estabelecida com Geisel, ex-comandante da Petrobras e ent\u00e3o presidente do Brasil), do Aeroporto Internacional do Gale\u00e3o e da Usina Termonuclear Angra, entre 1970 e 1976, al\u00e7am a CNO a um novo status.<\/p>\n<p>Embora nacionalmente consolidada e vivendo um ciclo de grandes obras no pa\u00eds \u2013 como o Complexo Hidrel\u00e9trico Pedra do Cavalo, em Cachoeira, na Bahia, o Sistema de Abastecimento de \u00c1gua Riach\u00e3o Potengi, no Cear\u00e1, e o Complexo sider\u00fargico da A\u00e7ominas, em Ouro Branco, Minas Gerais \u2013, o Grupo Odebrecht se encontrava ante um cen\u00e1rio de dificuldades com a retra\u00e7\u00e3o do mercado da constru\u00e7\u00e3o pesada no pa\u00eds. O montante de obras encurtara pela metade entre 1975 e 1976, passando de cerca de U$14 bilh\u00f5es para U$7 bilh\u00f5es.[6]<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o se encontrava ante um impasse: seguir a op\u00e7\u00e3o por diversificar os neg\u00f3cios, fortalecer a posi\u00e7\u00e3o de engenharia no pa\u00eds mediante aquisi\u00e7\u00f5es ou ir para o exterior. A op\u00e7\u00e3o foi pelos tr\u00eas: entre 1979 e 1985, a ent\u00e3o construtora adentra no neg\u00f3cio da petroqu\u00edmica, com o polo Petroqu\u00edmico de Cama\u00e7ari, na Bahia, convertendo-se, assim, em uma holding; adquire construtoras concorrentes, como a Tenenge e a CBPO; e, por fim, assina seu primeiro contrato internacional.<\/p>\n<p>A escolha da Am\u00e9rica do Sul como ponto de partida da internacionaliza\u00e7\u00e3o se explicava, principalmente, por dois fatores. O primeiro \u00e9 geogr\u00e1fico: em um tipo de atividade econ\u00f4mica cuja tecnologia vem j\u00e1 embutida no pr\u00f3prio equipamento, \u00e9 estrat\u00e9gico garantir o transporte do maquin\u00e1rio e de suporte log\u00edstico o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Assim, a Am\u00e9rica do Sul era uma regi\u00e3o com maior possibilidade de coordena\u00e7\u00e3o e apoio.<\/p>\n<p>O segundo fator \u00e9 de ordem geopol\u00edtica. N\u00e3o \u00e9 exagero afirmar que a atua\u00e7\u00e3o se baseava na vis\u00e3o estrat\u00e9gica de que a construtora deveria buscar oportunidades onde houvesse interesse do governo brasileiro em estreitar rela\u00e7\u00f5es com o cliente. Sendo o Estado o principal cliente das empreiteiras em geral, seguir a \u00f3rbita geopol\u00edtica brasileira n\u00e3o s\u00f3 garantiria o fornecimento de recursos mediante cr\u00e9ditos vantajosos \u2013 especialmente aqueles liberados pela Carteira de Com\u00e9rcio Exterior do Banco do Brasil (Cacex) \u2013 como, tamb\u00e9m, contatos privilegiados junto aos governos locais.<\/p>\n<p>A respeito dessa vincula\u00e7\u00e3o entre empresa e governo brasileiro, n\u00e3o \u00e9 por acaso que a assinatura do primeiro contrato internacional da CNO \u2013 a constru\u00e7\u00e3o da Hidrel\u00e9trica de Charcani V, na regi\u00e3o de Arequipa, no Peru \u2013 seja parte integrante da declara\u00e7\u00e3o conjunta entre os presidentes Jo\u00e3o Figueiredo (1979-1985) e Morales Berm\u00fadez (1975-1980), do Peru, durante visita deste ao Brasil.<\/p>\n<p>Com o intuito de reafirmar a import\u00e2ncia de se manter a integra\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses latino-americanos, o contrato assinado entre a Electroperu e a CNO, em cons\u00f3rcio com a Harrison Overseas Construction (Canad\u00e1) \u2013 que detinha 10% da obra \u2013, estipula um cr\u00e9dito entre o Banco do Brasil e o governo do Peru, no valor de US$ 89 milh\u00f5es. Ampliando a capacidade geradora de 35Mw para 135Mw em Arequipa, a obra foi considerada de grande dificuldade t\u00e9cnica: 95% das atividades realizadas seriam subterr\u00e2neas, em uma regi\u00e3o da Cordilheira dos Andes constantemente sujeita a abalos s\u00edsmicos.<\/p>\n<p>A segunda obra internacional da CNO se d\u00e1 no Chile, em 1981, com a realiza\u00e7\u00e3o do desvio do Rio Maule, na regi\u00e3o de Maule, zona central do pa\u00eds andino, para a constru\u00e7\u00e3o da Hidrel\u00e9trica de Colb\u00fan-Machicura. Esta abastecia a regi\u00e3o central do Chile, entre Santiago e Concepci\u00f3n, e era respons\u00e1vel por um ter\u00e7o da demanda energ\u00e9tica do pa\u00eds. A \u201cconquista\u201d da obra se deu atrav\u00e9s de um cons\u00f3rcio no qual, junto \u00e0 Odebrecht, participou a brasileira Engesa e que teve a coordena\u00e7\u00e3o de Ot\u00e1vio Medeiros \u2013 chefe do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es no governo Figueiredo.<\/p>\n<p>O terceiro ponto de atua\u00e7\u00e3o da construtora no continente se d\u00e1 no Equador. Pa\u00eds que, junto ao Peru, det\u00e9m maior presen\u00e7a da empreiteira, contou primeiramente com a obra de irriga\u00e7\u00e3o da pen\u00ednsula de Santa Elena. A empreitada n\u00e3o s\u00f3 marca a entrada da CNO em mais um pa\u00eds latino-americano, como consolida uma forma de atua\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica, pautada pelo envolvimento direto de \u00f3rg\u00e3os do Estado brasileiro como facilitadores dessa empreitada. Or\u00e7ada, \u00e0 \u00e9poca, em US$ 200 milh\u00f5es, a obra conta novamente com financiamento do Banco do Brasil, atrav\u00e9s da Cacex. Como contrapartida, al\u00e9m da proje\u00e7\u00e3o de uma empresa nacional no exterior e o posterior pagamento do financiamento, ela gera exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de bens de capital de aproximadamente US$ 48mi, e de bens intermedi\u00e1rios e de consumo dur\u00e1vel de quase US$ 33mi (ODEBRECHT INFORMA, 1988b, p. 9).<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3: o apoio dado pelo Estado brasileiro n\u00e3o se restringe apenas ao aporte financeiro. A exporta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os da construtora \u00e9 respons\u00e1vel por transformar o Brasil em um dos quatro principais parceiros comerciais do Equador. A diplomacia brasileira, logo, mant\u00e9m atua\u00e7\u00e3o direta no apoio aos exportadores de produtos e servi\u00e7os. A pr\u00f3pria obra de Santa Elena \u00e9 detectada e comunicada pela embaixada brasileira em Quito \u00e0s empresas nacionais de constru\u00e7\u00e3o pesada. Ademais, a embaixada \u00e9 respons\u00e1vel direta pela cria\u00e7\u00e3o de redes de contato entre o empresariado nacional e o governo equatoriano, ao promover miss\u00f5es comerciais e eventos como feiras de cat\u00e1logos, bem como, principalmente, por importante lobby junto ao governo brasileiro, o que facilita a importa\u00e7\u00e3o de produtos equatorianos (evitando uma poss\u00edvel retalia\u00e7\u00e3o comercial por parte dos andinos). (ODEBRECHT INFORMA, 1988b, p. 11).<\/p>\n<p>\u00c9 a partir desses tr\u00eas pa\u00edses que a presen\u00e7a da CNO se irradia para o continente, entre os anos 1980 e 1990. Argentina, com a constru\u00e7\u00e3o da Hidrel\u00e9trica de Pichi Pic\u00fan Leuf\u00fa, em 1987; M\u00e9xico, Venezuela e Col\u00f4mbia, com as obras da barragem de Los Hu\u00edtes, o Centro Comercial de El Lago e a ferrovia La Loma \u2013 Santa Marta, respectivamente, em 1992, al\u00e9m de novas obras no Peru, como os canais de Chavimochic, em 1995 (ODEBRECHT INFORMA, 1987, p. 22). J\u00e1 nos anos 1990, cerca de 1\/3 de todo conjunto de obras da CNO se encontrava em mercados internacionais.<\/p>\n<p>As pontes com governos e sociedades locais, no entanto, n\u00e3o se restringiam aos canais diplom\u00e1ticos oficiais. Embora decorrente de um reconhecimento brasileiro da independ\u00eancia angolana ainda no governo Geisel, a obra da hidrel\u00e9trica de Capanda \u2013 respons\u00e1vel por gerar 520Mw -, em 1986, com o aproveitamento da barragem do M\u00e9dio Kwanza, se deu em um contexto bastante particular.<\/p>\n<p>Em um cen\u00e1rio de guerra civil opondo Unita \u2013 apoiada pelos Estados Unidos e pelo apartheid sul-africano \u2013 e o Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (MPLA), foi com o apoio especial do coronel Antonio dos Santos Fran\u00e7a N\u2019Dalu, amigo pessoal de integrantes da construtora brasileira, e seu subalterno Jorge Silva \u201cSapo\u201d, chefe do gabinete militar respons\u00e1vel por garantir a seguran\u00e7a da \u00e1rea onde transcorriam as obras de Capanda, que a constru\u00e7\u00e3o, que contou com a parceira da construtora sovi\u00e9tica Technopromexport, se torna poss\u00edvel. [7]<\/p>\n<p>Mas se, em Angola, o interm\u00e9dio com governos locais se deu pelo \u201clado sovi\u00e9tico\u201d na Guerra Fria, o caso estadunidense \u00e9 oposto. Para adentrar no mercado da Fl\u00f3rida, com a constru\u00e7\u00e3o do Metromover nos anos 1990, a CNO contou com a parceria da Church &amp; Tower, empresa presidida pelo cubano fugitivo Jorge Mas Canosa. Personalidade mais influente da comunidade cubana local, Mas Canosa \u00e9 respons\u00e1vel direto pela funda\u00e7\u00e3o da Cuban American National Foundation (CANF), institui\u00e7\u00e3o que atuou pela desestabiliza\u00e7\u00e3o do regime Castrista.<\/p>\n<p>Dessa forma, j\u00e1 nos anos 1990, a CNO se afirmava enquanto um importante ator do mercado mundial de obras, com destaque especial para Am\u00e9rica Latina, combinando uma atua\u00e7\u00e3o empresarial que contava com canais estabelecidos junto ao Estado brasileiro e contatos privilegiados junto a sociedades locais.<\/p>\n<p><strong>Capitalismo de la\u00e7os ou capitalismo?<\/strong><br \/>\nAo colocar em perspectiva hist\u00f3rica a consolida\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o internacional da CNO j\u00e1 se nota a porosidade de perspectivas que trataram de datar a forma\u00e7\u00e3o do \u201cEstado Odebrecht\u201d durante os governos Lula. Mas ao mudar as lentes para os anos 1980-1990 estar\u00edamos, corretamente, encontrando o nascimento de um \u201cEstado Odebrecht\u201d? Essa n\u00e3o me parece a perspectiva mais correta.<\/p>\n<p>No lugar de conceituar a conforma\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as entre Estados nacionais e grandes empresas enquanto uma especificidade da periferia do capital, ou em um Capitalismo de la\u00e7os, parece-me mais correto nos valermos de um outro paradigma para explicar essa rela\u00e7\u00e3o: capitalismo.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, conv\u00e9m salientar que essa inser\u00e7\u00e3o internacional n\u00e3o pode significar, de fato, uma am\u00e1lgama que dissolve as singularidades entre esses dois espa\u00e7os de an\u00e1lise \u2013 Estado e grande empresariado. Partindo dos postulados de Eli Diniz e Renato Boschi, torna-se central n\u00e3o se perder de vista facetas espec\u00edficas desses organismos, recha\u00e7ando uma vis\u00e3o que objetive a cria\u00e7\u00e3o de um bloco unit\u00e1rio composto pelo Estado e o grande empresariado. Dessa maneira, conseguimos n\u00e3o perder de vista toda a riqueza de detalhes que comp\u00f5e essa rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora historicamente se conformem in\u00fameros exemplos de interesses que levam a uma atua\u00e7\u00e3o conjunta entre essas duas entidades, n\u00e3o podemos ignorar a autonomia de atua\u00e7\u00e3o de cada uma dessas entidades. A despeito de historicamente convergirem em diversos momentos, a CNO e o Estado brasileiro enxergam essa aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 luz de objetivos particulares e interesses pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Para a CNO a aproxima\u00e7\u00e3o junto ao Estado \u00e9 vista como estrat\u00e9gica. Primeiro, ao garantir condi\u00e7\u00f5es materiais e de articula\u00e7\u00f5es com agentes estatais para promover sua internacionaliza\u00e7\u00e3o. J\u00e1 em fins dos anos 1990, a CNO \u00e9 uma das principais empreiteiras nacionais, o que preparar\u00e1 terreno para, nos anos 2000, a levar ao posto de segundo grupo empresarial brasileiro mais internacionalizado, em 2008.[8]<\/p>\n<p>J\u00e1 para o Estado brasileiro, por seu turno, essa aproxima\u00e7\u00e3o junto \u00e0 CNO, ao longo das d\u00e9cadas finais do s\u00e9culo passado, mostra-se interessante sob um duplo prisma. Primeiro, pensando em um contexto dos anos 1980 marcado por tentativas de articula\u00e7\u00f5es com pa\u00edses vizinhos em busca de amplia\u00e7\u00e3o de acordos comerciais, tarif\u00e1rios e integrativos em geral, a CNO se apresenta enquanto um importante instrumento de aproxima\u00e7\u00e3o junto a essas na\u00e7\u00f5es, a partir da constru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica externa \u201cparceira\u201d e atuante para solucionar os gargalos das na\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas. Por outro lado, a atividade de exporta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de engenharia, naturalmente, reverte-se em benef\u00edcios diversos para o pr\u00f3prio pa\u00eds, como arrecada\u00e7\u00e3o de divisas, gera\u00e7\u00e3o de empregos e patentes tecnol\u00f3gicas.[9]<\/p>\n<p>Assim, a essa movimenta\u00e7\u00e3o de agentes com interesses particulares que se articulam para operar em uma economia mundial dominada por grandes grupos conglomerados empresariais, n\u00e3o podemos visualiz\u00e1-la enquanto algo que n\u00e3o a pr\u00f3pria din\u00e2mica capitalista. Isso porque n\u00e3o interpretamos o \u201ccapitalismo original\u201d como um \u201ccapitalismo sem la\u00e7os\u201d, enquanto uma esp\u00e9cie de \u2018sistema et\u00e9reo\u2019, livre da a\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o de agentes sociais particulares historicamente constitu\u00eddos. Julgamos mais interessante, aqui, por exemplo, interpretar enquanto um dos elementos centrais do capitalismo a exist\u00eancia da camada de um \u2018contramercado\u2019, que representa, em realidade, a manipula\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria economia de mercado.[10]<\/p>\n<p>Dessa forma, mais do que locus capacitador de institui\u00e7\u00f5es que garantiriam a imparcialidade estatal para o bom funcionamento da \u201cm\u00e3o invis\u00edvel\u201d do mercado, livre de interfer\u00eancias externas, devemos entender esse espa\u00e7o de interconex\u00f5es entre grandes empresas e Estado enquanto uma visible hand. [11] Logo, sem negar a exist\u00eancia de v\u00ednculos entre agentes privados e p\u00fablicos ou, porventura, a ilicitude de determinadas pr\u00e1ticas, o que a an\u00e1lise da internacionaliza\u00e7\u00e3o das CNO nos anos 1980-1990 nos demonstra, \u00e9 a inexor\u00e1vel tend\u00eancia de reprodu\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao colocar em perspectiva hist\u00f3rica a consolida\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o internacional da Odebrecht j\u00e1 se nota a porosidade de perspectivas que trataram de datar a forma\u00e7\u00e3o do \u201cEstado Odebrecht\u201d durante os governos Lula. Mas ao mudar as lentes para os anos 1980-1990 estar\u00edamos, corretamente, encontrando o nascimento de um \u201cEstado Odebrecht\u201d? 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