{"id":266726,"date":"2021-08-20T10:39:13","date_gmt":"2021-08-20T13:39:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=266726"},"modified":"2021-08-20T10:39:13","modified_gmt":"2021-08-20T13:39:13","slug":"archer-da-licoes-de-estadista-a-republica-submissa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/archer-da-licoes-de-estadista-a-republica-submissa\/","title":{"rendered":"&#8216;Archer d\u00e1 li\u00e7\u00f5es de estadista \u00e0 rep\u00fablica submissa&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Debru\u00e7ado sobre nossa aventura entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o t\u00e9rmino da Guerra Fria, com o suic\u00eddio da URSS, Renato Archer deita luzes sobre a intimidade da rep\u00fablica que frequentou como ator privilegiado (Depoimento Ed. Contraponto, 2006). \u00c9 did\u00e1tico, por exemplo, no desvendar o papel de diplomatas e militares na pol\u00edtica, e disserta sobre a ades\u00e3o acr\u00edtica dos fardados, como corpora\u00e7\u00e3o, aos projetos geopol\u00edticos dos EUA, em detrimento dos nossos interesses como povo, na\u00e7\u00e3o e pa\u00eds. Trata-se, pois, de livro precioso cuja leitura ajuda a compreender a trag\u00e9dia pol\u00edtica de nossos dias.<\/p>\n<p>Militar de carreira (foi capit\u00e3o para a reserva como de fragata), secret\u00e1rio de governo no Maranh\u00e3o, empres\u00e1rio, deputado federal, ministro das rela\u00e7\u00f5es exteriores, advers\u00e1rio da ditadura, articulador da frente ampla (Juscelino, Jo\u00e3o Goulart e Carlos Lacerda, 1966), ministro da ci\u00eancia e tecnologia no governo da nova rep\u00fablica, ministro da previd\u00eancia social, presidente da Embratel, t\u00edpico filho da casa-grande, Renato Archer assume o papel de dissidente olig\u00e1rquico, e se faz pol\u00edtico na contram\u00e3o dos interesses de sua origem de classe. Pr\u00f3cer de destaque no movimento nacionalista dos anos 50\/60 do s\u00e9culo passado, foi cassado e preso pela ditadura de seus pares.<\/p>\n<p>Destaco seu papel como colaborador de San Tiago Dantas na estrutura\u00e7\u00e3o dos primeiros marcos de uma pol\u00edtica externa que visava \u00e0 independ\u00eancia, e sua longa defesa (seguindo os passos de \u00c1lvaro Alberto) do desenvolvimento da energia nuclear para a produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica, projeto sabotado pelo marechal Juarez T\u00e1vora, quando chefe da Casa Militar de Caf\u00e9 Filho (1955). O destrinchar das maquina\u00e7\u00f5es marcou a atua\u00e7\u00e3o parlamentar de Renato Archer e constitui um dos cap\u00edtulos de maior revela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de seu Depoimento, ditado de extrema coragem em pa\u00eds que mais aprecia as acomoda\u00e7\u00f5es (pp 115 e segts). De sua den\u00fancia resultou uma CPI na C\u00e2mara dos Deputados cujas conclus\u00f5es resultaram pouco lisonjeiras ao velho cabo de guerra compelido a requerer a reserva, que nos anos vinte do s\u00e9culo passado lustrara a farda com a condecora\u00e7\u00e3o do len\u00e7o vermelho dos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Juarez \u00e9 o perdedor na li\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, mas ao fim e ao cabo estava reduzida a p\u00f3 a pol\u00edtica de energia nuclear de Get\u00falio Vargas, concebida como instrumento de capacita\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tecnol\u00f3gica e, por fim, como instrumento fundamental para nossa industrializa\u00e7\u00e3o, pensada como meio de nos levar \u00e0 independ\u00eancia econ\u00f4mica, antessala da conquista da soberania. Dos tempos de Archer para c\u00e1 o pa\u00eds avan\u00e7ou, domina o ciclo completo do enriquecimento do ur\u00e2nio e fabrica, com tecnologia pr\u00f3pria, as ultracentr\u00edfugas que tentou importar da Alemanha nos anos 50. Mas o pa\u00eds permanece sem defini\u00e7\u00e3o, sem clareza quanto ao que pretende, caminhando e recuando, &#8220;como envergonhado de sua tradi\u00e7\u00e3o, credibilidade e compet\u00eancia nessa \u00e1rea estrat\u00e9gica.&#8221;<\/p>\n<p>Archer acusa os embaixadores brasileiros na ONU, a saber, Raul Fernandes, Edmundo Barbosa da Silva e Vasco Leit\u00e3o da Cunha, de jamais haverem defendido a pol\u00edtica brasileira de energia nuclear nas negocia\u00e7\u00f5es com a Casa Branca. Peja o embaixador Edmundo Barbosa da Silva, servindo no gabinete do presidente da Rep\u00fablica (JK), passando ao Departamento de Estado dos EUA &#8211; em telefonema no pr\u00f3prio pal\u00e1cio do Catete &#8211; informa\u00e7\u00f5es sobre documentos secretos da diplomacia brasileira. Esse mesmo Edmundo Barbosa da Silva \u00e9 acusado de, ainda no governo Vargas, informar ao Departamento de Estado que o Brasil estava importando ultracentr\u00edfugas da ent\u00e3o Alemanha Federal, levando \u00e0 apreens\u00e3o da carga pelos americanos.<\/p>\n<p>O desservi\u00e7o aos interesses nacionais ocupa os altos escal\u00f5es. Renato Archer relata decis\u00e3o do ministro da Fazenda, Walter Moreira Salles, consp\u00edcuo representante da burguesia nacional, cancelando acordo de trocas entre o Brasil e a Finl\u00e2ndia, por meio do qual importar\u00edamos papel de imprensa em troca de fornecimento de caf\u00e9. Alegava o banqueiro-ministro que tal acordo violava a &#8220;liberdade de com\u00e9rcio.&#8221; Por consequ\u00eancia, passamos a importar papel dos EUA e do Canad\u00e1, por um pre\u00e7o significativamente maior enquanto a Finl\u00e2ndia deixou de importar nosso caf\u00e9, passando a faz\u00ea-lo da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Para a grande maioria dos int\u00e9rpretes, a preemin\u00eancia ideol\u00f3gica dos EUA sobre os militares brasileiros, com as conhecidas e lament\u00e1veis consequ\u00eancias na vida pol\u00edtica, se acentuam ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. Filiado a esta linha, Renato Archer destaca a pol\u00edtica do Pent\u00e1gono impondo-se como fornecedor praticamente \u00fanico de armamentos aos pa\u00edses perif\u00e9ricos, o que ensejava aos EUA tanto o dom\u00ednio estrat\u00e9gico-pol\u00edtico quanto a preemin\u00eancia ideol\u00f3gica, ao tempo em que alimentava o complexo industrial militar denunciado por Dwight Eisenhower em seu famoso discurso de transmiss\u00e3o da presid\u00eancia a John Kennedy. O mercado cativo dos pa\u00edses dependentes assegurava o funcionamento da m\u00e1quina industrial e financiava as inova\u00e7\u00f5es exigidas pela corrida armamentista.<\/p>\n<p>Dou a palavra a Renato Archer:<\/p>\n<p>&#8220;Um dia, o general Segadas Viana, ministro do Ex\u00e9rcito [na verdade, da Guerra, a nomenclatura de ent\u00e3o] no gabinete Tancredo Neves [primeiro governo parlamentarista], me telefonou. Eu estava ent\u00e3o interinamente no Minist\u00e9rio do Exterior. Ele me disse: &#8216;Ministro, o professor San Tiago Dantas [ministro das rela\u00e7\u00f5es exteriores] quer fechar o meu minist\u00e9rio.&#8217; Como? Fechar o minist\u00e9rio? Pergunto eu. &#8216;Ele deu uma entrevista ao jornal franc\u00eas Le Monde, dizendo que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds n\u00e3o alinhado. E o Brasil \u00e9 um pa\u00eds alinhado na luta contra o comunismo!&#8217; Respondi: &#8220;Pa\u00eds n\u00e3o alinhado, em nossa terminologia, \u00e9 um pa\u00eds que n\u00e3o faz parte nem do Pacto de Vars\u00f3via, nem do tratado do Atl\u00e2ntico Norte, do qual n\u00e3o podemos participar por motivos geogr\u00e1ficos. N\u00f3s somos fatalmente n\u00e3o alinhados.&#8217; &#8216;N\u00e3o!&#8217;, respondeu o general: &#8216;Os americanos est\u00e3o me dizendo que quem n\u00e3o \u00e9 alinhado na luta contra o comunismo n\u00e3o vai receber armas. E n\u00f3s somos a favor da luta contra o comunismo.'&#8221; (Pp. 86-7). Pois essa era a condi\u00e7\u00e3o para ser bem visto pelo establishment da guerra.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia vinha a cavalo: jamais aspirar o pa\u00eds a dispor de tropas aptas \u00e0 sua defesa (afinal delegada aos EUA); as importa\u00e7\u00f5es n\u00e3o atendiam a encomendas de nosso governo, mas aos interesses do fornecedor, e assim se limitavam a equipamentos de segunda linha, descartados pela pol\u00edtica de permanente moderniza\u00e7\u00e3o imposta ao Pent\u00e1gono pela corrida armamentista levada a cabo contra a URSS. A mesma embalagem acondicionava armas e ideologia, e nossos fardados ficavam satisfeitos, pois o sonho de todas as armas, desde o Imp\u00e9rio, foi sempre cuidar da ordem herdada da escravatura e do latif\u00fandio. Nossa participa\u00e7\u00e3o por procura\u00e7\u00e3o na Guerra Fria inventou o anticomunismo, para haver um inimigo interno a combater; a exist\u00eancia de suposta contesta\u00e7\u00e3o interna era o pretexto para amplificar o acesso de nossas tropas a armas de segundo e terceiro n\u00edveis tecnol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Archer observa que a pol\u00edtica armamentista do grande imp\u00e9rio do norte, determinando a depend\u00eancia estrat\u00e9gica e ideol\u00f3gica dos ex\u00e9rcitos latino-americanos, levou os militares, independentemente de seus governos, a se reunir e a promover a padroniza\u00e7\u00e3o de doutrinas, equipamentos e procedimentos. \u00c9 a fonte dos &#8220;pronunciamentos&#8221; militares, das interven\u00e7\u00f5es, dos golpes de Estado e das ditaduras que afligiram o continente sul-americano.<\/p>\n<p>Essa depend\u00eancia ensejou o di\u00e1logo direto entre os militares dos diversos pa\u00edses da regi\u00e3o\u200b, e a &#8220;coopera\u00e7\u00e3o&#8221; chegou a operar-se mesmo em confronto com decis\u00f5es dos governos. Renato conta o epis\u00f3dio de um curso de doutrina\u00e7\u00e3o no Col\u00e9gio Americano de Defesa (EUA), para o qual o Brasil foi &#8220;convidado&#8221; a enviar oficiais superiores e ainda pagar 10 milh\u00f5es de d\u00f3lares. O curso foi recusado pelo gabinete (era ainda o governo parlamentarista), inclusive com o voto dos ministros militares. Quando a decis\u00e3o foi comunicada ao general-chefe do Estado Maior das For\u00e7as Armadas brasileiras, nossos militares j\u00e1 haviam viajado&#8230; O fato consumado ficou por isso mesmo, e assim pag\u00e1vamos, e continuamos pagando, para formar nossos generais com uma vis\u00e3o pol\u00edtica contr\u00e1ria aos nossos interesses.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo oferecer ao leitor o resumo do depoimento de Renato Archer. Limitei-me a pin\u00e7ar fatos que me pareceram relevantes, quando, sob o neoliberalismo negacionista, a educa\u00e7\u00e3o, a ci\u00eancia e a tecnologia sofrem o mais ousado e duradouro ataque de que se tem not\u00edcia no pa\u00eds. A ofensiva \u00e9 tanto mais grave quanto conta com a a\u00e7\u00e3o direta dos militares, que no passado tiveram papel decisivo em algumas das inova\u00e7\u00f5es mais significativas da hist\u00f3ria da ci\u00eancia em nosso pa\u00eds, como a cria\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico &#8211; CNPq, hoje condenado \u00e0 inani\u00e7\u00e3o em face do corte dr\u00e1stico e permanente de seus recursos &#8211; o que, ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 ainda o pior dos males, pois este \u00e9 a planejada pol\u00edtica predat\u00f3ria do governo negacionista, anti-ci\u00eancia, anti-conhecimento, desmontando com desvelo e compet\u00eancia inusitada o sistema nacional de ci\u00eancia e tecnologia, investindo contra a universidade p\u00fablica, cortando bolsas de estudos, inviabilizando a pesquisa.<\/p>\n<p><strong>*Ex-ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia de Lula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Debru\u00e7ado sobre nossa aventura entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o t\u00e9rmino da Guerra Fria, com o suic\u00eddio da URSS, Renato Archer deita luzes sobre a intimidade da rep\u00fablica que frequentou como ator privilegiado (Depoimento Ed. 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