{"id":267260,"date":"2021-08-26T09:30:56","date_gmt":"2021-08-26T12:30:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=267260"},"modified":"2021-08-26T15:34:48","modified_gmt":"2021-08-26T18:34:48","slug":"brasil-enfrenta-sua-maior-crise-politica-desde-o-golpe-de-64","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-enfrenta-sua-maior-crise-politica-desde-o-golpe-de-64\/","title":{"rendered":"&#8216;Brasil enfrenta sua maior crise pol\u00edtica desde 64&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>A Rep\u00fablica vive sua maior crise desde o final da ditadura de 1964. Para muitos analistas o desassossego tem nome e sobrenome: Jair Messias Bolsonaro. Seria simples e pr\u00e1tico reduzir assim o desafio, mas estar\u00edamos simplesmente tomando a apar\u00eancia pela realidade, pois o problema tem outra identidade, e por isso mesmo \u00e9 mais grave: as For\u00e7as Armadas brasileiras, respons\u00e1veis pelos graves momentos de desestabiliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-institucional que caracterizam a hist\u00f3ria republicana.<\/p>\n<p>Elas respondem pelo projeto de poder que culminou com as elei\u00e7\u00f5es de 2018, levadas a cabo com os resultados que alcan\u00e7aram gra\u00e7as ao emprego de modos e meios n\u00e3o republicanos, aos quais n\u00e3o estiveram alheios os fardados. E s\u00e3o ainda elas que emprestam sustenta\u00e7\u00e3o ao atual regime, assumidamente lesa-p\u00e1tria, que em t\u00e3o pouco tempo est\u00e1 destruindo nossa soberania e condenando a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e0 pobreza: 14,8 milh\u00f5es de desempregados, 30 milh\u00f5es de brasileiros na informalidade, 19 milh\u00f5es passando fome.<\/p>\n<p>Em poucos dias somaremos 600 mil v\u00edtimas fatais da Covid, contingente superior a todas as nossas perdas na guerra da Cisplatina (na qual o Ex\u00e9rcito brasileiro foi fragorosamente derrotado), na guerra do Paraguai e na Segunda Guerra Mundial. A calamidade sanit\u00e1ria \u00e9 o tonitruante certificado da incompet\u00eancia dos militares, gestores diretos da pol\u00edtica de sa\u00fade, e do descaso (para dizer o m\u00ednimo) do capit\u00e3o. Sua atua\u00e7\u00e3o em \u00e1reas cruciais como educa\u00e7\u00e3o, cultura, meio ambiente e ci\u00eancia e tecnologia vai al\u00e9m da in\u00e9pcia; sugere o prop\u00f3sito destrutivo do pa\u00eds.<\/p>\n<p>N\u00e3o se discute mais o processo eleitoral de 2018, que verdadeiramente come\u00e7a com o golpe de 2016, a deposi\u00e7\u00e3o de Dilma e a posse de Michel Temer, o perjuro: a mobiliza\u00e7\u00e3o dos quart\u00e9is como comit\u00eas do candidato verde-oliva, a politiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de seguran\u00e7a p\u00fablica, as manobras il\u00edcitas da Lava Jato, a condena\u00e7\u00e3o de Lula e seu linchamento pol\u00edtico pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, o tweet do general Villas B\u00f4as acossando o STF, e o muito mais ou menos conhecido mas que aguarda tempo para ser revelado.<\/p>\n<p>O fato objetivo \u00e9 que temos um delinquente na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica que diariamente desafia as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, amea\u00e7a o processo eleitoral, agride os demais poderes e, n\u00e3o obstante seus crimes de toda ordem, penais, pol\u00edticos e \u00e9ticos, permanece intoc\u00e1vel. Protegem-no a guarda engalanada e uma C\u00e2mara dos Deputados presidida por um representante do baixo clero. \u00c9 a pobreza de nossas chamadas lideran\u00e7as civis.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria \u2013 incontorn\u00e1vel e implac\u00e1vel \u2013 certamente esquecer\u00e1 os Helenos e quejandos, como os Vilas B\u00f4as e os Braga Netos e outros assemelhados do pelot\u00e3o palaciano. Mas jamais deixar\u00e1 de julgar a corpora\u00e7\u00e3o que hoje se confunde com seus chefes passageiros, e lhes d\u00e1 respaldo em todos os desmandos. Todas as impreca\u00e7\u00f5es do capit\u00e3o, at\u00e9 mesmo a provoca\u00e7\u00e3o do voto impresso, t\u00eam sido referendadas pelos cinco estrelas comandantes.<\/p>\n<p>Os grandes jornais noticiam, sem se darem conta do vexame seus articulistas, que uma luzidia caravana de ex-ministros e similares foi ao encontro dos comandantes militares, para, por delega\u00e7\u00e3o de nossos ex-presidentes (registre-se a honrosa exce\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff) perguntar-lhes se as For\u00e7as Armadas v\u00e3o ou n\u00e3o dar golpe no golpe (como reiteradamente vem sugerindo o capit\u00e3o, com o apoio dos engalanados do terceiro andar do Pal\u00e1cio do Planalto), e se o eleito em 2022 (&#8220;fosse quem fosse&#8221;) tomaria posse. Os delegados voltaram felizes da vida porque ouviram um n\u00e3o e um sim: n\u00e3o haveria golpe e o eleito tomaria posse. Eis a pequena estatura pol\u00edtica do poder civil (que n\u00e3o se d\u00e1 ao respeito) e a dimens\u00e3o nanica de nossa democracia.<\/p>\n<p>Em que pa\u00eds razoavelmente s\u00e9rio a rep\u00fablica, prostrada, precisa perguntar aos militares (que vestem farda por delega\u00e7\u00e3o sua!) se eles v\u00e3o ou n\u00e3o dar golpe nas institui\u00e7\u00f5es, se v\u00e3o garantir elei\u00e7\u00f5es previstas na Constitui\u00e7\u00e3o, se dar\u00e3o posse aos eleitos?<\/p>\n<p>A tutela, pois, j\u00e1 prescinde da espada, introjetada, assimilada, aceita pela nossa classe dirigente, que continua desempenhando aquele papel de vivandeiras a que se referiu o ditador Castello Branco, rondando os quart\u00e9is, fazendo rapap\u00e9s aos fardados, ora lhes pedindo que rompam o pacto democr\u00e1tico (quando suspeitam da emerg\u00eancia das massas), ora pedindo para que n\u00e3o o rompam.<\/p>\n<p>Aos nossos l\u00edderes n\u00e3o ocorreu inverter o jogo e dizer aos golpistas de todas as inst\u00e2ncias que a democracia rejeita paternidade e tutela. Conquista da sociedade, projeto hist\u00f3rico jamais conclu\u00eddo, permanentemente amea\u00e7ado, sua sobreviv\u00eancia \u00e9 a medida da organiza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Os militares, com a inef\u00e1vel contribui\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos not\u00e1veis, transformam o Brasil a um oximoro: uma grande republiqueta.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o, que foi a conting\u00eancia de que se utilizaram os militares para a retomada do poder, agora \u00e9 a espoleta do segundo tempo de uma pe\u00e7a tosca de final conhecido. Provocador, cabe-lhe a agita\u00e7\u00e3o. Seu papel, relevante na trama, \u00e9 preparar o terreno para futuras manobras, construir o caos, instigar a insubordina\u00e7\u00e3o, provocar o conflito, desafiar os poderes, instaurar a anarquia.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia ter\u00e1 que vir algu\u00e9m para &#8220;arrumar a casa&#8221;, e, em face da inseguran\u00e7a, todos querer\u00e3o a ordem: os editorialistas que hoje defendem conosco a democracia, os liberais, os socialdemocratas, a Faria Lima, o grande capital, os especuladores das bolsas, os rentistas daqui e d&#8217;al\u00e9m mar, o Departamento de Estado dos EUA. A\u00ed ent\u00e3o, possivelmente ao som de hinos gospel, nossos pr\u00edncipes da pol\u00edtica e nossos homens de neg\u00f3cios concertar\u00e3o com os fardados mais uma trafic\u00e2ncia institucional, e assim voltaremos todos para casa e para o trabalho, para viver tudo outra vez, nessa nossa \u00f3pera grotesca sem <em>gran finale<\/em> que \u00e9 a vida republicana sob a tutela militar, girando entre a com\u00e9dia e o drama, a farsa e a trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Certamente sem se darem conta do real significado do papel que as circunst\u00e2ncias lhes destinaram, os governadores se aprestam no palco da salva\u00e7\u00e3o nacional. Para denunciar as amea\u00e7as \u00e0 ordem institucional? Para exigirem respeito \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o? Para dizer aos militares qual \u00e9 o papel que lhes cabe numa rep\u00fablica que se d\u00e1 ao respeito? Para concertarem a unidade do povo em defesa de suas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, t\u00e3o dolorosamente salvas da ditadura militar? N\u00e3o, lamentavelmente, n\u00e3o. Sem terem uma s\u00f3 palavra para dirigir ao povo, os governadores se voltam ao capit\u00e3o para lhe solicitarem bons modos, e chamam os demais chefes de poderes para a comunh\u00e3o de boas inten\u00e7\u00f5es. Em nome da paz, \u00e9 hora de esquecer as diverg\u00eancias, e jogar para debaixo do tapete os crimes que est\u00e3o na ordem do dia. O auge da tens\u00e3o \u00e9 a hora prometida para a concilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Consabidamente, a hist\u00f3ria n\u00e3o se repete, mas no Brasil ela \u00e9 recorrente e mon\u00f3tona, desde a col\u00f4nia. As crises se resolvem mediante a concilia\u00e7\u00e3o, que \u00e9 tamb\u00e9m transa\u00e7\u00e3o e trafic\u00e2ncia, ditada de cima para baixo, pela classe dominante, a casa-grande de sempre. Resolvem-se pelo alto os interesses do <em>establishment<\/em>, e empurra-se com a barriga tudo que diga respeito ao povo ou ao interesse nacional.<\/p>\n<p>Os convites dos governadores para o grande convescote com os chefes dos poderes j\u00e1 foram expedidos e certamente ningu\u00e9m se negar\u00e1 a &#8220;um grande entendimento&#8221;. Ap\u00f3s cumprimentos de praxe, tapinhas nas costas, cada um voltar\u00e1 para seu ninho e dar-se-\u00e1 por feito o que n\u00e3o foi feito, e tudo continuar\u00e1 como dantes no castelo de Abranches, at\u00e9 o pr\u00f3ximo vexame que pode vir a caminho, na sela do 7 de Setembro.<\/p>\n<p>E o povo?<\/p>\n<p>Na plateia, como de h\u00e1bito, ser\u00e1 informado no seu devido tempo do que seus representantes ter\u00e3o concertado em seu nome com os donos do poder.<\/p>\n<p><strong>*Ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia de Lula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Rep\u00fablica vive sua maior crise desde o final da ditadura de 1964. Para muitos analistas o desassossego tem nome e sobrenome: Jair Messias Bolsonaro. 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