{"id":267621,"date":"2021-08-29T07:49:45","date_gmt":"2021-08-29T10:49:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=267621"},"modified":"2021-08-29T00:52:25","modified_gmt":"2021-08-29T03:52:25","slug":"ruralistas-agora-compram-midia-e-vendem-gato-por-lebre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ruralistas-agora-compram-midia-e-vendem-gato-por-lebre\/","title":{"rendered":"Ruralistas agora &#8216;compram&#8217; m\u00eddia e vendem gato por lebre"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea certamente viu as imagens emocionantes. Neste momento, em Bras\u00edlia, milhares de ind\u00edgenas de 170 etnias est\u00e3o em vig\u00edlia esperando a vota\u00e7\u00e3o do Supremo Tribunal Federal que decidir\u00e1 sobre o futuro de suas terras. Em jogo est\u00e1 a tese do \u201cmarco temporal\u201d, que determina que etnias s\u00f3 podem reivindicar demarca\u00e7\u00e3o das terras em que j\u00e1 estivessem fisicamente na data da promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p>Povos origin\u00e1rios se op\u00f5em \u00e0 tese por uma raz\u00e3o \u00f3bvia. Perseguidas, massacradas e expulsas, muitas etnias n\u00e3o estavam em seus territ\u00f3rios originais em 1988 porque foram arrancadas deles. Outra foram arrancadas inclusive depois, por grileiros e garimpeiros. Que sentido faz o marco temporal diante disso? Todo, mas s\u00f3 para os grileiros, garimpeiros e ruralistas.<\/p>\n<p>Os ruralistas, com um forte apoio dos deputados e senadores da Frente Parlamentar de Agricultura, defendem que, se o STF derrubar a tese pr\u00e9-88, haver\u00e1 um caos nas demarca\u00e7\u00f5es e eles perder\u00e3o milh\u00f5es e milh\u00f5es de hectares de suas terras para os povos ind\u00edgenas. Jair Bolsonaro concordou: disse que, caso o marco temporal seja rejeitado, o agroneg\u00f3cio \u2018pode acabar\u2019 e o Brasil pode ter que importar alimentos. Para o presidente, \u00e9 uma \u201cpol\u00edtica que vem de fora para inviabilizar o agroneg\u00f3cio\u201d.<\/p>\n<p>O mesmo discurso de caos e medo foi replicado com destaque nas p\u00e1ginas do <em>Estad\u00e3o<\/em>. \u201cJulgamento do STF pode afetar propriedades de todo o Brasil\u201d, estampou a manchete em uma p\u00e1gina dupla no primeiro caderno da edi\u00e7\u00e3o de domingo, 22.<\/p>\n<p>Nas p\u00e1ginas, infogr\u00e1ficos mostravam os \u201cmilh\u00f5es de hectares\u201d que estavam em risco. Outro texto afirmava que as novas demarca\u00e7\u00f5es teriam impacto negativo de R$ 1,95 bilh\u00e3o s\u00f3 no Mato Grosso e uma entrevista de Aldo Rebelo levava o leitor para uma suposta motiva\u00e7\u00e3o oculta por tr\u00e1s do julgamento. \u201cDemarca\u00e7\u00f5es de novas \u00e1reas atendem a interesses de ONGs e associados\u201d, diz a manchete. Na entrevista, Rebelo chega a sugerir que a rejei\u00e7\u00e3o ao marco temporal poderia fazer com que \u201cqualquer descendente do Cacique Tibiri\u00e7\u00e1 e da \u00cdndia Bartira\u201d reivindicassem a demarca\u00e7\u00e3o da \u00e1rea da cidade de S\u00e3o Paulo \u201csob muitos pretextos\u201d.<\/p>\n<p>Embora diagramada como uma p\u00e1gina de jornal, a p\u00e1gina dupla trazia o selo \u201c<em>Estad\u00e3o Blue Studio<\/em>\u201d \u2013 o que significa que \u00e9 um publieditorial, ou seja, publicidade disfar\u00e7ada de jornalismo. Os pre\u00e7os dos an\u00fancios do Estad\u00e3o Blue Studio n\u00e3o s\u00e3o p\u00fablicos, mas d\u00e1 para ter uma ideia do valor gasto: uma p\u00e1gina inteira no primeiro caderno do Estad\u00e3o, segundo a tabela de 2021, custa R$ 630 mil. Multiplique isso por dois. Some o valor da publicidade customizada. Como os artigos \u2013 ou melhor, propagandas \u2013 tamb\u00e9m est\u00e3o dispon\u00edveis na internet, esse valor pode ultrapassar facilmente R$ 1 milh\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem assinou o an\u00fancio foi a Agrosaber, uma plataforma que afirma ter sido criada para \u201cdesmistificar fake news ligadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e consumo de alimentos\u201d com base em ci\u00eancia. Mas n\u00e3o \u00e9 uma ag\u00eancia de checagem qualquer: foi uma campanha bancada por associa\u00e7\u00f5es de produtores de algod\u00e3o, soja e agrot\u00f3xicos para defender os interesses do agroneg\u00f3cio nos debates sobre o PL do Veneno, reivindica\u00e7\u00e3o antiga da bancada ruralista para flexibilizar a venda de defensivos agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>Uma reportagem do <em>De Olho Nos Ruralistas<\/em> j\u00e1 mostrou que quem financia a Agrosaber s\u00e3o as mesmas associa\u00e7\u00f5es que bancam a Frente Parlamentar de Agropecu\u00e1ria. S\u00e3o entidades de produtores como a Abrapa, de algod\u00e3o, Aprosoja, de soja, e Abrass, de sementes. Elas custeiam o Instituto Pensar Agro, uma institui\u00e7\u00e3o discreta que presta suporte t\u00e9cnico \u2013 e envia recursos \u2013 \u00e0 FPA. Quase todas essas entidades s\u00e3o ligadas a grandes empresas, inclusive multinacionais: Bayer, Basf, BRF, JBS, Bunge, Syngenta e Cargill est\u00e3o na lista.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s da Agrosaber, segundo seu site, ainda h\u00e1 a Companhia das Cooperativas Agr\u00edcolas do Brasil, que se autointitula \u201ca maior companhia de registro de defensivos agr\u00edcolas gen\u00e9ricos do pa\u00eds\u201d. Mas nada disso est\u00e1 claro no an\u00fancio do Estad\u00e3o: tudo o que aparece s\u00e3o as mensagens alarmistas e o inofensivo logotipo da Agrosaber. As mensagens alarmistas, ali\u00e1s, levam a um racioc\u00ednio falso. O Instituto Socioambiental p\u00f5e as coisas no devido lugar: \u201cMais de 98% da extens\u00e3o das terras ind\u00edgenas fica na Amaz\u00f4nia Legal, muitas vezes em locais remotos e sem aptid\u00e3o para a agropecu\u00e1ria extensiva. E apenas 0,6% do resto do Brasil \u00e9 ocupado por ind\u00edgenas. A principal demanda por demarca\u00e7\u00f5es est\u00e1 fora da regi\u00e3o amaz\u00f4nica.\u201d<\/p>\n<p>J\u00e1 mostramos no <em>Intercept<\/em> como, \u00e0s v\u00e9speras de um outro julgamento no STF sobre quebra de patentes, lobistas tamb\u00e9m usaram a m\u00eddia para convencer os leitores a tomarem partido em propagandas disfar\u00e7adas de jornalismo.<\/p>\n<p>O mecanismo foi parecido. S\u00e3o intermedi\u00e1rios \u2013 associa\u00e7\u00f5es, institutos e escrit\u00f3rios de advocacia \u2013 assinando as propagandas. Assim, disfar\u00e7am suas liga\u00e7\u00f5es diretas com as ind\u00fastrias interessadas nos resultados do julgamento. A linguagem tamb\u00e9m \u00e9 semelhante: o medo. As milion\u00e1rias manchetes alarmistas, em posi\u00e7\u00e3o de destaque em um jornal de credibilidade, ajudam a movimentar a opini\u00e3o p\u00fablica. \u00c9 amea\u00e7a \u00e0 economia, \u00e9 o fim da inova\u00e7\u00e3o, s\u00e3o as propriedades em risco.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca do julgamento de patentes, o ministro Dias Toffoli se manifestou de forma dura contra os an\u00fancios disfar\u00e7ados de jornalismo. \u201cSe isso vira moda, daqui a pouco v\u00e3o colocar ataques a decis\u00f5es no jornal, no r\u00e1dio, na televis\u00e3o. Isso \u00e9 deslealdade com outros advogados e outras partes, pois manifesta\u00e7\u00f5es t\u00eam que ocorrer nos autos\u201d, ele afirmou. \u201c\u00c9 m\u00e1-f\u00e9 processual, \u00e9 deslealdade processual\u201d.<\/p>\n<p>Parece que n\u00e3o adiantou, virou moda. At\u00e9 agora, nenhum ministro se manifestou sobre os an\u00fancios pr\u00f3-agroneg\u00f3cio. O julgamento s\u00f3 deve ser retomado no dia 1\u00ba de setembro. Enquanto isso, ind\u00edgenas seguem em Bras\u00edlia, esperando. Vamos ver que an\u00fancios-surpresa nos trar\u00e3o os jornais neste domingo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea certamente viu as imagens emocionantes. Neste momento, em Bras\u00edlia, milhares de ind\u00edgenas de 170 etnias est\u00e3o em vig\u00edlia esperando a vota\u00e7\u00e3o do Supremo Tribunal Federal que decidir\u00e1 sobre o futuro de suas terras. 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