{"id":269434,"date":"2021-09-15T09:22:41","date_gmt":"2021-09-15T12:22:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=269434"},"modified":"2021-09-15T09:31:08","modified_gmt":"2021-09-15T12:31:08","slug":"fora-bolsonaro-deve-unir-forcas-populares-e-mudar-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fora-bolsonaro-deve-unir-forcas-populares-e-mudar-o-brasil\/","title":{"rendered":"&#8216;Fora Bolsonaro deve unir for\u00e7as populares e mudar o Brasil&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>O que \u00e9 &#8220;Fora Bolsonaro&#8221;? Uma palavra de ordem, que \u00e9 a soma das particularidades de uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica objetiva, transformada em proposta de a\u00e7\u00e3o. \u00c9 a chave do que fazer. Ela resume an\u00e1lise e leva \u00e0 a\u00e7\u00e3o; \u00e9 did\u00e1tica, por ser autoexplicativa. Quando L\u00eanin proclamava &#8220;Todo poder aos sovietes&#8221;, ele tanto interpretava e explicava o processo hist\u00f3rico russo naquela altura, quanto transformava essa interpreta\u00e7\u00e3o em comando para a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica das massas revolucion\u00e1rias: a tomada pac\u00edfica do poder. Mas, ao mesmo tempo levava \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as insurgentes e as mobilizava para as tarefas revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No crep\u00fasculo da ditadura de 1964-1985, a palavra de ordem &#8220;Diretas j\u00e1&#8221; &#8212; que unificou as grandes massas naquela que talvez tenha sido a maior mobiliza\u00e7\u00e3o popular da hist\u00f3ria republicana brasileira &#8211;, implicava n\u00e3o s\u00f3 a retomada do direito popular \u00e0 escolha de seu presidente, como tamb\u00e9m se inseria no embate pelo fim do regime militar. Seu corol\u00e1rio era a redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A boa palavra de ordem resume teses.<\/p>\n<p>A consigna &#8220;O petr\u00f3leo \u00e9 nosso&#8221;, nos anos 50 do s\u00e9culo passado, sintetizava em poucas palavras os pleitos que vinham de d\u00e9cadas anteriores, enfunados pela saga nacionalista que tomava conta da academia e dos debates populares: o desenvolvimento econ\u00f4mico como base da soberania nacional; o monop\u00f3lio estatal do petr\u00f3leo e a cria\u00e7\u00e3o da Petrobras como uma necessidade. Sem petr\u00f3leo n\u00e3o haveria ind\u00fastria, e sem ind\u00fastria n\u00e3o teria como o pa\u00eds cogitar de sua independ\u00eancia. A quest\u00e3o ainda n\u00e3o foi superada.<\/p>\n<p>Tudo isso estava inscrito naquelas poucas palavras e, ainda hoje, quando o governo de Bolsonaro e seus fardados comandantes investem contra a Petrobras, distribuindo com os rentistas da Faria Lima e os procuradores do imp\u00e9rio seus principais ativos, sabe a mem\u00f3ria nacional que, para al\u00e9m de graves atentados \u00e0 maior empresa brasileira, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 o desenvolvimento nacional. Esse sentimento, no leito da saga nacionalista, \u00e9 o que anima ainda hoje a defesa da Eletrobras, da Caixa Econ\u00f4mica Federal, do Banco do Brasil e dos Correios, as pr\u00f3ximas presas anunciadas pelo falido &#8220;Posto Ipiranga&#8221;.<\/p>\n<p>Essas considera\u00e7\u00f5es v\u00eam a prop\u00f3sito do &#8220;Fora Bolsonaro&#8221;, que a muitos parece inconsequente quando o capit\u00e3o disp\u00f5e de s\u00f3lida maioria parlamentar e conta com a prote\u00e7\u00e3o de um delegado do Centr\u00e3o na presid\u00eancia da C\u00e2mara dos Deputados &#8211; o que lhe oferta a seguran\u00e7a de absoluta impunidade. Com o &#8220;Fora Bolsonaro&#8221;, por\u00e9m, uma vez mais estamos diante de uma s\u00edntese de projetos pol\u00edticos, indicadora de uma a\u00e7\u00e3o concreta. Para al\u00e9m da remo\u00e7\u00e3o do perigoso delinquente, a palavra de ordem grita um N\u00e3o! rotundo ao projeto protofascista que pretende sobreviver independente de seu porta-estandarte; \u00e9 um clamor contra o neoliberalismo e, portanto, indica uma tomada de posi\u00e7\u00e3o em defesa da economia nacional e dos interesses dos trabalhadores. De f\u00e1cil compreens\u00e3o, como as grandes s\u00ednteses, trata-se de palavra de ordem que orienta os militantes dos partidos de nosso campo e o movimento social. E tem, ainda, o cond\u00e3o de unificar as for\u00e7as populares (ou, de pelo menos tentar&#8230;) facilitando a interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica numa conting\u00eancia de dif\u00edcil mobiliza\u00e7\u00e3o popular, quando essa mobiliza\u00e7\u00e3o se faz necess\u00e1ria e inadi\u00e1vel. \u00c9, por fim, possibilitando o debate, um instrumento de politiza\u00e7\u00e3o das massas, a tarefa-desafio das condi\u00e7\u00f5es atuais do processo social.<\/p>\n<p>Para tais efeitos \u00e9 irrelevante, hoje, a medida das possibilidades de efetiva\u00e7\u00e3o do impeachment; cumpre aos desdobramento da campanha que a palavra de ordem incita criar as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis. A campana pelas Diretas n\u00e3o levou \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da emenda Dante de Oliveira pelo Congresso Nacional (em abril de 1984), \u00e9 certo, mas nem por isso pode ser dito que foi derrotada, pois (como a defesa da anistia) se transformou em poderoso ar\u00edete contra o regime que tombaria em 1985 ao dar um rumo comum \u00e0 a\u00e7\u00e3o das diversas for\u00e7as (um extenso caleidosc\u00f3pio pol\u00edtico-ideol\u00f3gico) que enfrentavam a ditadura.<\/p>\n<p>O &#8220;Fora Bolsonaro&#8221; pode n\u00e3o levar ao impeachment, o que seria lament\u00e1vel, mas sem nenhuma d\u00favida contribuir\u00e1 para o combate ao governo que a\u00ed est\u00e1 e \u00e0 defesa do processo democr\u00e1tico, nosso objetivo-fim, mediante a mobiliza\u00e7\u00e3o popular com vistas a garantir as elei\u00e7\u00f5es de 2022, ainda mais amea\u00e7adas com os fatos que se desdobram desde a noite do \u00faltimo 6 de setembro, marcado pela amea\u00e7a de invas\u00e3o da Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, em Bras\u00edlia, pelas mil\u00edcias bolsonaristas aparelhadas pelo agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1 n\u00e3o ocorreram mudan\u00e7as substanciais no quadro pol\u00edtico, e, quaisquer que sejam as apar\u00eancias, o bolsonarismo manter\u00e1 sua guerra contra as institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mais do que um recuo t\u00e1tico do delinquente (useiro e vezeiro na arte de morder e assoprar para morder de novo), o que vimos no dia 9\/9 foi um &#8220;freio de arruma\u00e7\u00e3o&#8221; ditado pela casa-grande, senhora dos cord\u00e9is que regem os movimentos dos supostos atores de nossa enferma rep\u00fablica. N\u00e3o cogita a Faria Lima do destino da democracia, mobilizada t\u00e3o-somente pelo receio de que a turbul\u00eancia pol\u00edtica possa amea\u00e7ar seus sagrados interesses. Do acord\u00e3o anunciado com pompa e circunst\u00e2ncia, a cujo concerto n\u00e3o estiveram ausentes os fardados mais engalanados, sabe-se das partes nele notoriamente envolvidas, mas desconhece-se como as prendas e as prebendas, os avan\u00e7os e os recuos foram dados, recebidos e concedidos, negociados e trapaceados. Aparentemente, os togados, antes abespinhados, se deram por satisfeitos, e o dito ser\u00e1 tido por n\u00e3o ouvido. O \u00f3bvio ululante \u00e9 que em rodada de mesa na qual Michel Temer, o perjuro, desembaralhou e distribuiu as cartas, \u00e9 imposs\u00edvel pensar num jogo sem um m\u00ednimo, que nesse caso deve ser um m\u00e1ximo, de velhacaria.<\/p>\n<p>Quaisquer que tenham sido as apostas e os pagamentos, os ganhos e as perdas, o certo \u00e9 que a trafic\u00e2ncia ter\u00e1 desconsiderado o interesse p\u00fablico, essa figura de ret\u00f3rica do discurso da classe dominante. Vencedora foi a ordem da concilia\u00e7\u00e3o prussiana que caracteriza nossa hist\u00f3ria: os acordos de c\u00fapula, tramados \u00e0 socapa contra os interesses nacionais. A trampa, desta feita, \u00e9 a prorroga\u00e7\u00e3o do bolsonarismo (com ou sem o capit\u00e3o), que, escancaradamente (e at\u00e9 aqui impunemente) forceja a derrui\u00e7\u00e3o da ordem democr\u00e1tica. Para os eternos donos do poder, tudo vale a pena quando o objetivo \u00e9 preservar a pol\u00edtica neoliberal que destr\u00f3i a economia nacional, desemprega os trabalhadores, privatiza o Estado, aumenta a pobreza e a fome. Trag\u00e9dia para a qual o capit\u00e3o conta com a mesma s\u00facia de apoios de que desfrutava no dia 7 de setembro: os fardados engalanados, o sistema policial, os interesses do capital internacional, os medos da banca financeira, a maioria do Congresso e consider\u00e1vel sustenta\u00e7\u00e3o popular, de uma massa excitada no limite da patologia e do crime.<\/p>\n<p>A manuten\u00e7\u00e3o do poder \u00e9 o ponto de arrimo dessas for\u00e7as, e sua tradu\u00e7\u00e3o imediata \u00e9 a incolumidade do atual mandato presidencial, seja salvando-o do impeachment reclamado pelas ruas, seja retirando de pauta a cassa\u00e7\u00e3o da chapa capit\u00e3o-general, acusada de fraude eleitoral. Se o capit\u00e3o se revelar competitivo, as elei\u00e7\u00f5es poder\u00e3o ser garantidas; para tanto o presidente precisa desfazer-se das amea\u00e7as de decreta\u00e7\u00e3o de sua inelegibilidade, face ao extens\u00edssimo rol de crimes de responsabilidades, j\u00e1 objeto de apura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A direita, cujo isolamento ficou patente no fracasso de suas manifesta\u00e7\u00f5es do \u00faltimo domingo, dia 12 de setembro, procura a alternativa de uma &#8220;terceira via&#8221;, com a qual tamb\u00e9m trabalham o &#8220;PIB&#8221; e seus jornal\u00f5es. \u00c9 parceira da extrema-direita no projeto de inviabilizar a alternativa eleitoral de centro-esquerda tentando colocar no mesmo balaio Lula e o presidente celerado. O \u00f3dio \u00e0 esquerda e a Lula faz a ponte entre a Faria Lima, o Departamento de Estado dos EUA e os generais, e pode ensejar, at\u00e9, a neutraliza\u00e7\u00e3o do delinquente. Os empres\u00e1rios podem alegar a defesa de interesses reais no projeto neoliberal. Dos militares n\u00e3o se tem explica\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o subalternidade ideol\u00f3gica, servida de oportunismo. Esta \u00e9 a marca do golpe de Estado institucional, no qual a alian\u00e7a da japona com a toga nos fez mergulhar em 2016.<\/p>\n<p>A na\u00e7\u00e3o jamais conhecer\u00e1 a ata da tramoia do dia 9, mas \u00e9 evidente que o elemento unificador do encontro de interesses \u00e9 o veto (express\u00e3o da caserna) a uma altern\u00e2ncia substantiva de governo, como seria tomada a elei\u00e7\u00e3o de Lula ou de qualquer quadro \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>O &#8220;Fora Bolsonaro&#8221; responde igualmente a esta conting\u00eancia. A unifica\u00e7\u00e3o do movimento das for\u00e7as populares parte do combate ao atual sistema e se completa na defesa da ordem democr\u00e1tica e das elei\u00e7\u00f5es de um candidato de centro-esquerda. Faz a batalha de 2021 para assegurar-se de seu papel em 2022. Nada obstante as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas favor\u00e1veis (nacional e internacionalmente) que presidiram as elei\u00e7\u00f5es de 2002, o governo Lula enfrentou s\u00e9rias dificuldades de sustenta\u00e7\u00e3o, principalmente em 2005. Desses percal\u00e7os n\u00e3o o livraram as concess\u00f5es \u00e0 direita e ao sistema financeiro. Nenhum concess\u00e3o, por\u00e9m, salvaria o governo Dilma, impedida de governar no segundo mandato e finalmente deposta numa maquina\u00e7\u00e3o comandada por dentro do governo pelo seu comandante do ex\u00e9rcito (gal. Villas B\u00f4as) e pelo seu vice-presidente, o articulador e principal escriv\u00e3o da carta levada para a assinatura do capit\u00e3o. N\u00e3o se pense (e principalmente n\u00e3o pensem Lula e o PT) que a hist\u00f3ria terminou. Subestimar o advers\u00e1rio \u00e9, na pol\u00edtica como na guerra, um erro geralmente fatal.<\/p>\n<p>O &#8220;Fora Bolsonaro&#8221; de hoje, com o capit\u00e3o no planalto ou fora dele, \u00e9, como ponto de partida, o chamamento das for\u00e7as populares \u00e0 defesa da democracia; na continuidade, abrir\u00e1 caminho a uma candidatura de centro-esquerda, \u00e0 sua vit\u00f3ria eleitoral e posterior sustenta\u00e7\u00e3o no governo. S\u00f3 um grande movimento de massas poder\u00e1 p\u00f4r cobro \u00e0 preemin\u00eancia da farda sobre a vida nacional, impor a ordem democr\u00e1tica e salvaguardar os interesses nacionais.<\/p>\n<p><strong>*Roberto Amaral \u00e9 escritor e ex-ministro de Ci\u00eancia e Tecnologia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 &#8220;Fora Bolsonaro&#8221;? 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