{"id":270311,"date":"2021-09-23T18:25:05","date_gmt":"2021-09-23T21:25:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=270311"},"modified":"2021-09-23T18:26:55","modified_gmt":"2021-09-23T21:26:55","slug":"esquerda-se-une-para-tirar-bolsonaro-ou-enfrenta-ruptura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/esquerda-se-une-para-tirar-bolsonaro-ou-enfrenta-ruptura\/","title":{"rendered":"&#8216;Esquerda se une para tirar Bolsonaro ou enfrenta ruptura&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>O &#8220;Fora Bolsonaro!&#8221;, a palavra de ordem que unifica a a\u00e7\u00e3o das massas, cobra da esquerda socialista a tarefa pedag\u00f3gica de den\u00fancia da sociedade de classes. A campanha pelo impeachment, portanto, \u00e9, a um tempo, t\u00e1tica e estrat\u00e9gica, pelo seu claro objeto, em si, e por constituir espa\u00e7o privilegiado para a retomada do papel de sujeito pelo movimento popular. Para al\u00e9m da remo\u00e7\u00e3o do entulho presidencial nosso objetivo mira a constru\u00e7\u00e3o de um novo pacto que aponte para uma nova ordem econ\u00f4mico-social. N\u00e3o h\u00e1 hierarquia de metas, mas simultaneidade na a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O bolsonarismo deve ser denunciado, por si mesmo (trata-se de uma esquizofrenia pol\u00edtica) e como produto da desordem estrutural gestada pelo capitalismo tupiniquim, subdesenvolvido, inconcluso, trabalhado pela depend\u00eancia ideol\u00f3gica de uma burguesia alienada e for\u00e2nea, rentista, anti-industrialista e antirreformista. O regime antinacional e antipopular gerado a partir das condi\u00e7\u00f5es abertas pelo golpe de 2016 exaspera os efeitos da crise: ela \u00e9 mais severa do que pode sugerir sua apar\u00eancia, e n\u00e3o conhecer\u00e1 alternativa no atual regime, que possibilita o governo de 1% de brancos milion\u00e1rios sobre o conjunto da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante o car\u00e1ter dependente e subalterno como o pa\u00eds, \u00e0 merc\u00ea dos interesses da casa-grande, se inseriu na economia internacional, fracassaram at\u00e9 aqui todas as tentativas de integra\u00e7\u00e3o com o capitalismo: na primeira rep\u00fablica, o liberalismo associado ao latif\u00fandio; o liberalismo da &#8220;revolu\u00e7\u00e3o&#8221; de 1930 e o intervencionismo do Estado Novo; a industrializa\u00e7\u00e3o dependente dos anos 1950; a moderniza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria do mandarinato militar; o neoliberalismo democr\u00e1tico ap\u00f3s a ditadura; a integra\u00e7\u00e3o acr\u00edtica ao globalismo com Collor e FHC, e, finalmente, o neoliberalismo autorit\u00e1rio decorrente do golpe de 2016.<\/p>\n<p>At\u00e9 meados dos anos 1930 do s\u00e9culo passado o caf\u00e9 respondia por 70% das receitas brasileiras de exporta\u00e7\u00e3o. Quando ingressamos no terceiro dec\u00eanio do s\u00e9culo 21 nossa balan\u00e7a comercial \u00e9 dependente do agroneg\u00f3cio. A atividade econ\u00f4mica regrediu 7% desde 2014; de 6\u00ba parque industrial do mundo, somos hoje o 16\u00ba; representamos apenas 1,6% do PIB mundial. Somos a 10\u00aa sociedade mais desigual do planeta, num ranking de 140 pa\u00edses. A col\u00f4nia pelo visto, n\u00e3o \u00e9 uma fase ou per\u00edodo de nossa forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, \u00e9 nossa permanente dana\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Convertidos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de p\u00e1ria internacional, permanecemos na periferia do capitalismo e, de regresso em regresso, retornamos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de economia agroexportadora, a classifica\u00e7\u00e3o que trazemos da col\u00f4nia, fundada no latif\u00fandio, na escravid\u00e3o negra e no genoc\u00eddio dos povos nativos. Passados cinco s\u00e9culos somos ainda predominantemente exportadores de commodities: madeira da Amaz\u00f4nia devastada, min\u00e9rio in natura, soja e outros cereais e prote\u00edna animal. O agroneg\u00f3cio representa \u00bc do PIB nacional e 48% do total das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras em 2020. Quanto mais se desenvolve, isto \u00e9, quanto mais se consolida como empresa capitalista, mais expulsa para as periferias das grandes cidades as popula\u00e7\u00f5es rurais. A ind\u00fastria, que nos anos 80 do s\u00e9culo passado respondia por 40% da composi\u00e7\u00e3o do PIB, hoje gira entre 13% e 11%.<\/p>\n<p>Na segunda metade dos anos 1940, precisamente em 1945, depois das insurg\u00eancias de 1922 e 1924, do crash da bolsa de Nova York (1929), da chamada revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e da queda dos pre\u00e7os do caf\u00e9, da intentona de 1932 (levante das oligarquias paulistas contra as promessas industrializantes do novo regime), depois da Segunda Guerra Mundial \u2013 o confronto de pot\u00eancias altamente industrializadas \u2013, isto \u00e9, j\u00e1 no final do Estado Novo, Eug\u00eanio Gudin, um dos mais festejados e poderosos economistas brasileiros, emin\u00eancia do monetarismo nacional, contrapunha-se ao projeto de Roberto Simonsen, empres\u00e1rio paulista, que defendia a industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Escrevia o fundador do IBRE\/FGV: &#8220;(&#8230;) precisamos \u00e9 de aumentar nossa produtividade agr\u00edcola, em vez de menosprezar a \u00fanica atividade econ\u00f4mica em que demonstramos capacidade para produzir vantajosamente, isto \u00e9, para exportar&#8221;. (A controv\u00e9rsia do planejamento na economia brasileira. IPEA. 2010).<\/p>\n<p>Naquele ent\u00e3o, Roberto Simonsen, at\u00e9 hoje o mais importante intelectual org\u00e2nico da burguesia nacional (esta categoria em extin\u00e7\u00e3o), defendia, na pol\u00eamica com Gudin, a interven\u00e7\u00e3o do Estado, o planejamento e a industrializa\u00e7\u00e3o. No Brasil de nossos tristes dias \u00e9 retirado do Estado seu papel como vetor de desenvolvimento, respons\u00e1vel pelo crescimento que experimentamos at\u00e9 os anos 80 do s\u00e9culo passado; o planejamento estrat\u00e9gico \u00e9 descartado e as pol\u00edticas de gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda s\u00e3o substitu\u00eddas pelo arrocho fiscal, que o monetarismo sacraliza como uma raz\u00e3o em si. A amea\u00e7a em 2021 \u00e9 de mais neoliberalismo e mais arrocho fiscal, menos investimento em educa\u00e7\u00e3o, em ci\u00eancia e tecnologia, donde menos desenvolvimento, menos produ\u00e7\u00e3o de riqueza, mais desemprego, redu\u00e7\u00e3o do PIB (a previs\u00e3o para 2021 \u00e9 de um &#8220;crescimento'&#8221; de 1,0% e de 0,4% para 2022), menor renda per capita, por fim, maior concentra\u00e7\u00e3o de renda. Nada disso afeta a classe dominante, porque seus interesses, internacionalizados, independem da economia dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Um pressuposto de desenvolvimento \u00e9 a exist\u00eancia de mercado de consumo de massa, base da pot\u00eancia das economias dos EUA e da China. A necessidade de se constituir em grande mercado \u00e9 o que levou na\u00e7\u00f5es at\u00e9 a v\u00e9spera em guerra a ensarilhar armas e se reunir na Uni\u00e3o Europeia. \u00c9 o caminho coletivo da Eur\u00e1sia, consolidando-se como novo eixo hegem\u00f4nico do mundo. N\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, a op\u00e7\u00e3o do capitalismo brasileiro.<\/p>\n<p>Como pensar em mercado interno, no Brasil, com o fim dos investimentos p\u00fablicos, com o aumento dos juros que travam a expans\u00e3o econ\u00f4mica, com o desemprego crescente e a queda da renda dos assalariados?<\/p>\n<p>Temos mais de 15 milh\u00f5es de desempregados. Cerca de 70 milh\u00f5es de brasileiras e brasileiros integram o mundo dos sem trabalho, dos desesperan\u00e7ados, dos que n\u00e3o procuram mais emprego, dos que tentam sobreviver mediante atividades informais, biscates, e no precariado, a caminho do lupenato. A \u00fanica alternativa conhecida pelo neoliberalismo para a crise \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o dos encargos trabalhistas das empresas e a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>A desigualdade de renda \u2013 o outro nome da concentra\u00e7\u00e3o, \u2013 n\u00e3o \u00e9 um ente monet\u00e1rio, um simples indicador estat\u00edstico. Tem consequ\u00eancias na vida do indiv\u00edduo: quanto menos renda, mais exilado da sociedade: sem terra, sem teto, sem escola, sem sa\u00fade.<\/p>\n<p>O Brasil ocupa o 3\u00ba lugar no ranking mundial de mortes de adolescentes: 10 adolescentes por dia; sete negros para cada jovem branco (dados do Mapa da viol\u00eancia). Quantos s\u00e3o moradores dos Jardins paulistanos ou de Ipanema?<br \/>\nA tend\u00eancia, por\u00e9m, no curto e no m\u00e9dio prazos, \u00e9 o agravamento da concentra\u00e7\u00e3o de renda. Trata-se de um determinismo do capitalismo monopolista levado aos extremos pelo car\u00e1ter de nosso capitalismo perif\u00e9rico e dependente. Esse capitalismo n\u00e3o d\u00e1 conta das consequ\u00eancias sociais derivadas do inevit\u00e1vel, r\u00e1pido e intenso desenvolvimento das novas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e suas implica\u00e7\u00f5es nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho: as novas tecnologias, a era digital, a inform\u00e1tica, a rob\u00f3tica, a chamada quarta revolu\u00e7\u00e3o industrial, de que deriva a redu\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra. O que se pode ver a olho nu, \u00e9, portanto, o agravamento das condi\u00e7\u00f5es de vida das grandes massas. O enfrentamento de tais desafios depende da radical altera\u00e7\u00e3o da atual correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as.<\/p>\n<p>Para sair do atoleiro &#8212; uma esp\u00e9cie de ponto morto hist\u00f3rico, um momento de indecis\u00e3o entre o passado e o futuro, a inercia e a a\u00e7\u00e3o, o velho e o novo que o passado sobrevivente aprisiona &#8211;, poucas s\u00e3o as alternativas: juntar for\u00e7as para formar uma nova maioria ou nos prepararmos para enfrentar o ponto de ruptura gestado pelo processo social. Em qualquer hip\u00f3tese, o &#8220;Fora Bolsonaro!&#8221; \u00e9 o ponto de partida para a a\u00e7\u00e3o da esquerda socialista.<\/p>\n<p><strong>*Escritor e ex-ministro de Ci\u00eancia e Tecnologia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O &#8220;Fora Bolsonaro!&#8221;, a palavra de ordem que unifica a a\u00e7\u00e3o das massas, cobra da esquerda socialista a tarefa pedag\u00f3gica de den\u00fancia da sociedade de classes. 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