{"id":270365,"date":"2021-09-24T12:13:28","date_gmt":"2021-09-24T15:13:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=270365"},"modified":"2021-09-24T15:22:31","modified_gmt":"2021-09-24T18:22:31","slug":"tudo-ou-nada-de-bolsonaro-acaba-sempre-em-coisa-alguma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tudo-ou-nada-de-bolsonaro-acaba-sempre-em-coisa-alguma\/","title":{"rendered":"Tudo ou nada de Bolsonaro acaba sempre em coisa alguma"},"content":{"rendered":"<p>Entre as numerosas bravatas de padaria da famiglia Bolsonaro, uma delas at\u00e9 hoje \u00e9 motivo de gargalhadas nos corredores, gabinetes e plen\u00e1rios do Supremo Tribunal Federal. Na verdade, a fanfarronice serve para mostrar o qu\u00e3o galhofeiro \u00e9 o cl\u00e3 que ainda domina a pol\u00edtica nacional. Refiro-me a um v\u00eddeo gravado em julho de 2018 pelo deputado Eduardo Bolsonaro, filho do ent\u00e3o presidenci\u00e1vel Jair Bolsonaro, mas que s\u00f3 foi divulgado a uma semana do segundo turno eleitoral, lamentavelmente vencido pelo capit\u00e3o.<\/p>\n<p>Respondendo a uma hipot\u00e9tica possibilidade de a\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito em caso de o STF impedir a posse de Bolsonaro, disse o deputado: &#8220;Se quiser fechar o SFT, n\u00e3o manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. N\u00e3o \u00e9 querer desmerecer o soldado e o cabo&#8221;. Quase tr\u00eas anos ap\u00f3s, provavelmente o jipe, o cabo e o soldado ser\u00e3o usados para uma empreitada inversa. N\u00e3o tor\u00e7o por isso, mas todos os indicativos s\u00e3o nesse sentido. Se querem ter certeza, esperem mais alguns meses e ver\u00e3o. Infelizmente, talvez haja necessidade de uma camisa de for\u00e7a.<\/p>\n<p>O imbr\u00f3glio entre os Bolsonaros e o Supremo Tribunal Federal n\u00e3o \u00e9 novo. Tamb\u00e9m \u00e9 antiga a coragem dos ministros do STF, especialmente a de Luiz Fux, Luiz Roberto Barroso e de Alexandre de Moraes, os mais atacados pela grife pol\u00edtica instalada no Pal\u00e1cio do Planalto, Senado Federal, C\u00e2mara dos Deputados e C\u00e2mara Municipal do Rio de Janeiro. Novidade \u00e9 o tudo ou nada do presidente que acabou em coisa alguma. O aumento da fragiliza\u00e7\u00e3o interna e o irrevers\u00edvel isolamento externo do governo s\u00e3o reflexos de uma desidrata\u00e7\u00e3o familiar iniciada com a s\u00e9rie de equ\u00edvocos oficiais e que culminou no fracasso do golpe acertado para 7 de Setembro. Mais relevante \u00e9 n\u00e3o esquecer da bestial escorregadela de Eduardo Bolsonaro.<\/p>\n<p>Para avivar a mem\u00f3ria dos meninos Bolsonaros, em 1965 o general Arthur da Costa e Silva tentou emparedar o STF e n\u00e3o conseguiu. Ministro da Guerra do governo Castelo Branco, o primeiro do longo per\u00edodo ditatorial, Costa e Silva se op\u00f4s ao presidente da Corte, ministro \u00c1lvaro Ribeiro da Costa, que n\u00e3o aceitava determinados posicionamentos a respeito da reforma do tribunal. O \u00e1pice do conflito ocorreu no dia 20 de outubro daquele ano, quando o jornal <em>Folha<\/em> <em>de S. Paulo<\/em> publicou um longo artigo do ministro intitulado &#8220;A reforma do STF\u00a8. Nele, o magistrado fez dura defesa da autonomia do tribunal em face da possibilidade de investida dos militares sobre a Corte. No texto, uma frase de efeito at\u00e9 hoje \u00e9 lembrada. &#8220;J\u00e1 \u00e9 tempo de os militares se compenetrarem de que, nos regimes democr\u00e1ticos, n\u00e3o lhes cabe o papel de mentores da na\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Sete dias ap\u00f3s o artigo de Ribeiro da Costa, o chefe de Governo Civil da Presid\u00eancia, Lu\u00eds Vianna Filho, lia, no Pal\u00e1cio do Planalto, a minuta do AI-2, cujo texto, entre outras coisas, alterou a Constitui\u00e7\u00e3o de 1946, elevando de 11 para 16 o n\u00famero de ministros no STF e de duas para tr\u00eas o de turmas julgadoras. O embate entre o magistrado e o general linha dura foi um cap\u00edtulo decisivo naquele momento da hist\u00f3ria do Poder Judici\u00e1rio. Mais contundente do que a repercuss\u00e3o do artigo no Congresso foi a resposta de Ribeiro da Costa a uma tentativa de ataque da ditadura ao Supremo: &#8220;Fecho a porta e entrego as chaves ao presidente Castelo Branco&#8221;. A amea\u00e7a n\u00e3o se configurou, mas a promessa do ministro, feita inicialmente em car\u00e1ter reservado, o envolve at\u00e9 hoje numa esp\u00e9cie de manto de hero\u00edsmo. O fato hist\u00f3rico \u00e9 que ficou tudo no campo das amea\u00e7as. Em outras palavras, amea\u00e7aram e n\u00e3o fecharam o STF.<\/p>\n<p>Tudo a ver com nossos dias. A grande diferen\u00e7a s\u00e3o as patentes. Em 1965 era uma pl\u00eaiade de generais. Hoje, al\u00e9m do soldado, do cabo, de parte dos policiais militares do Distrito Federal e de outras unidades da Federa\u00e7\u00e3o, o governo do capit\u00e3o das fake news convocou caminhoneiros e uma bolha de v\u00e2ndalos para tentar invadir o STF e o Congresso. Perdeu tempo, pois esqueceu o principal: os russos do outro lado da Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes. A fam\u00edlia Bolsonaro n\u00e3o contava com a ast\u00facia de Luiz Fux. A surpreendente e r\u00e1pida rea\u00e7\u00e3o do presidente do STF ao fracassado golpe de 6 e 7 de setembro mostrou ao pa\u00eds, ao bolsonarismo e ao mundo que o 03 errou feio com a prosa sobre os coitados do cabo e do soldado. Com a Constitui\u00e7\u00e3o aberta e o celular ligado, Fux enquadrou generais e emparedou o governador do DF, Ibaneis Rocha, sem dar um \u00fanico tiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisou sequer a amea\u00e7a de jogar a chave fora. Com apoio dos pares e do Congresso, Fux deve ter lido em voz alta o artigo da Carta Magna que prev\u00ea a decreta\u00e7\u00e3o da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), mecanismo aceito em situa\u00e7\u00f5es reais de ruptura da democracia, ou seja quando h\u00e1 esgotamento das for\u00e7as tradicionais de seguran\u00e7a p\u00fablica em em situa\u00e7\u00f5es graves de perturba\u00e7\u00e3o da ordem. Era o caso, principalmente ap\u00f3s as constata\u00e7\u00f5es da f\u00faria dos bolsominions e da expl\u00edcita leni\u00eancia da PMDF. N\u00e3o houve necessidade da GLO. Melhor que tenha sido assim. N\u00e3o fosse, como estaria o Brasil hoje, dia 24 de setembro? Indiscutivelmente na merda. O pre\u00e7o seria alt\u00edssimo para todos. A moral da hist\u00f3ria \u00e9 que, quando muito, um soldado e um cabo, com todo respeito a eles, servem para controlar a meia d\u00fazia de fan\u00e1ticos que n\u00e3o arredam p\u00e9 do cercadinho. A outra meia d\u00fazia se perdeu pelo caminho ou est\u00e1 fugida de Xand\u00e3o do Supremo.<\/p>\n<p><strong>*Mathuzal\u00e9m J\u00fanior \u00e9 jornalista profissional desde 1978<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre as numerosas bravatas de padaria da famiglia Bolsonaro, uma delas at\u00e9 hoje \u00e9 motivo de gargalhadas nos corredores, gabinetes e plen\u00e1rios do Supremo Tribunal Federal. Na verdade, a fanfarronice serve para mostrar o qu\u00e3o galhofeiro \u00e9 o cl\u00e3 que ainda domina a pol\u00edtica nacional. 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