{"id":270958,"date":"2021-09-30T08:03:53","date_gmt":"2021-09-30T11:03:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=270958"},"modified":"2021-09-30T08:03:23","modified_gmt":"2021-09-30T11:03:23","slug":"brasil-vive-as-desventuras-de-gigante-esquecido-pelo-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-vive-as-desventuras-de-gigante-esquecido-pelo-mundo\/","title":{"rendered":"Brasil vive as desventuras de gigante esquecido pelo mundo"},"content":{"rendered":"<p>Embora aberto ao mundo como uma feitoria agroexportadora de produtos tropicais demandados pela Europa (de in\u00edcio o pau de tinta que lhe deu o nome, \u00edndios apresados, papagaios e peles e, depois e por largo tempo, a\u00e7\u00facar, algod\u00e3o, ouro, prata etc.), e assim tendo crescido e se consolidado no Imp\u00e9rio (como na col\u00f4nia, ainda exportador de produtos prim\u00e1rios), o Brasil carregaria consigo o complexo do ensimesmamento. Indicadores dessa aliena\u00e7\u00e3o foram registrados j\u00e1 nos primeiros anos do s\u00e9culo 19 por Thomas Lindsey, o primeiro aventureiro ingl\u00eas a deixar depoimento sobre nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por aqui zanzou uns dois anos, entre a Bahia e, suspeita-se, uma ou outra viagem ao Rio, sempre \u00e0s voltas com as autoridades rein\u00f3is que o acusavam de contrabandista. Viu nossa gente dominada pelo sentimento da autossufici\u00eancia, e inteiramente desinteressada do mundo. Registrou: &#8220;[&#8230;] E quanto a informa\u00e7\u00f5es de brasileiros, estavam inteiramente fora de cogita\u00e7\u00f5es, porquanto nunca encontrei um povo t\u00e3o estupidamente destitu\u00eddo de curiosidade. S\u00f3 conhece os fatos mais not\u00f3rios, como, talvez, os relativos \u00e0 paz e \u00e0 guerra.&#8221; [Narrativa de uma viagem ao Brasil. Londres, 1805 (S\u00e3o Paulo, 1969). Companhia Editora Nacional, p. 76]<\/p>\n<p>Nos primeiros tempos da coloniza\u00e7\u00e3o ficamos aterrados ao litoral, &#8220;arranhando as costas como caranguejos&#8221;, como observou Frei Vicente de Salvador em sua pioneira Hist\u00f3ria do Brasil. Quando desbravou o sert\u00e3o, na busca do ouro, da prata e do apresamento dos silv\u00edcolas, para a escravid\u00e3o e o tr\u00e1fico, o conquistador \u2013 frentes de paulistas, nortistas, caboclos e mamelucos \u2013 isolou-se ainda mais em aldeamentos perdidos em meio \u00e0 imensid\u00e3o do territ\u00f3rio desconhecido.<\/p>\n<p>O andar da hist\u00f3ria parece haver aprofundado esse sentimento de insularidade que se manifesta, at\u00e9, na distante rela\u00e7\u00e3o que mantemos com nossos vizinhos, vistos sempre de soslaio. No continente somos como uma ilha, uma civiliza\u00e7\u00e3o \u00e0 parte, autarquia de costas para a civiliza\u00e7\u00e3o hisp\u00e2nica.<\/p>\n<p>Para o comum de nosso povo (que em sua maioria vive longe das fronteiras internacionais), o mundo se apresenta de quatro em quatro anos, nas rodadas da copa do mundo de futebol. E mesmo assim s\u00f3 tomamos conhecimento daqueles pa\u00edses que s\u00e3o escalados para jogar conosco, segundo s\u00e3o apresentados pelos programas de televis\u00e3o financiados pelos patrocinadores do evento. Passada a refrega, logo nos esquecemos das pequenas li\u00e7\u00f5es de geografia. Fora desses epis\u00f3dios, reina, majestosa, a absoluta ignor\u00e2ncia de outros pa\u00edses e continentes, a come\u00e7ar pela \u00c1frica, de cujos povos, escravizados e martirizados, descende mais da metade dos brasileiros.<\/p>\n<p>A casa-grande se descarta desse passado, como se fosse poss\u00edvel fugir de sua condi\u00e7\u00e3o de herdeira do escravismo colonial; detesta nossa forma\u00e7\u00e3o de povo (e por isso mesmo com ele n\u00e3o se identifica) e de pa\u00eds (por isso n\u00e3o se sente comprometida com seu destino). Sua vis\u00e3o de mundo \u00e9 ditada pelos interesses imediatos, que est\u00e3o sempre nas metr\u00f3poles hegem\u00f4nicas da vez: Portugal, Inglaterra e, na rep\u00fablica, EUA, principalmente depois da segunda grande guerra, a partir de quando a influ\u00eancia assumiu os contornos de tutela. Tais interesses e essa depend\u00eancia, que entrela\u00e7a o econ\u00f4mico-militar com o ideol\u00f3gico, presidem a vida nacional em todos os campos de sua manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o provinciana do mundo est\u00e1 grafada nas p\u00e1ginas e nas telas do notici\u00e1rio da imprensa, e reflete uma leitura reducionista da realidade que nos faz ver a humanidade e a hist\u00f3ria a partir das lentes e dos conceitos de duas ou tr\u00eas ag\u00eancias internacionais de not\u00edcias com sede no imp\u00e9rio. O notici\u00e1rio dos grandes meios e os coment\u00e1rios e an\u00e1lises dos chamados &#8220;especialistas&#8221; (no mais das vezes tradutores de releases) meramente reproduzem o que nos vendem essas ag\u00eancias, rigorosamente atentas aos interesses de suas matrizes.<\/p>\n<p>O mundo para a\u00ed. Nos tempos da Guerra Fria a fonte de &#8220;conhecimento&#8221; eram as Sele\u00e7\u00f5es do Reader&#8217;s Digest, j\u00e1 ent\u00e3o arcaicas. Hoje, os mais ilustrados leem The Economist ou o Financial Times, sem qualquer vi\u00e9s cr\u00edtico. E passam a desempenhar o papel de correias de transmiss\u00e3o da propaganda ideol\u00f3gica do Departamento de Estado dos EUA. O insulado pa\u00eds descrito por Lindsey, que s\u00f3 olhava para seu umbigo, agora se encontra \u00e0 m\u00edngua de identifica\u00e7\u00e3o, porque o que conhece de si chega pelo prisma da depend\u00eancia ideol\u00f3gica, necessariamente reducionista, a nos impedir de ver o mundo em sua complexa heterogeneidade, e a compreender a hist\u00f3ria em seu amplo leque de possibilidades. Cegos e condicionados, renunciamos \u00e0 escolha de nosso papel, de nossa inser\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p>\n<p>Esse isolamento, trabalhado pela tutela ideol\u00f3gica, tem afastado das an\u00e1lises \u00e0 trag\u00e9dia contempor\u00e2nea a considera\u00e7\u00e3o do papel desempenhado pelo establishment dos EUA na desestabiliza\u00e7\u00e3o do governo Dilma (consabidamente os abalos come\u00e7am a ser encetados j\u00e1 na presid\u00eancia de Barack Obama), e na organiza\u00e7\u00e3o da extrema-direita brasileira, a partir das elei\u00e7\u00f5es de 2018 e vit\u00f3ria do ins\u00f3lito capit\u00e3o, a que n\u00e3o faltou a participa\u00e7\u00e3o ativa dos recursos monet\u00e1rios e pol\u00edticos da Faria Lima. Os EUA de Trump e Biden nada t\u00eam por reclamar do atual governo brasileiro, posto que se trata de aliado subalterno ocupando espa\u00e7o estrat\u00e9gico no Atl\u00e2ntico Sul, quando sua melhor aten\u00e7\u00e3o \u2013 isto \u00e9, da diplomacia canhoneira \u2013 se volta para a Eur\u00e1sia, onde est\u00e1 sendo jogado seu destino como pot\u00eancia hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o da China n\u00e3o apenas implica competi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica (que n\u00e3o ocorria ao tempo da URSS), como sinaliza a aparentemente inevit\u00e1vel transi\u00e7\u00e3o de poder recalcitrante do Ocidente para a Eur\u00e1sia, transi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o conhece precedente hist\u00f3rico que tenha prescindido de conflito militar, preparado, como agora, por escaramu\u00e7as econ\u00f4micas e diatribes pol\u00edticas, como tem lembrado o professor Manuel Domingos Neto em seu curso &#8220;Estudo do militar brasileiro&#8221;.<\/p>\n<p>Mais do que nunca o imp\u00e9rio precisa de seguran\u00e7a em seu quintal, que compreende tudo \u2013 gente, povos, pa\u00edses \u2013 que se encontre ao sul do rio grande.<\/p>\n<p>O imp\u00e9rio n\u00e3o pode dispensar nem a alian\u00e7a autom\u00e1tica de nossas for\u00e7as armadas nem a subservi\u00eancia do atual Itamaraty, t\u00e3o longe estamos dos bons tempos de pol\u00edtica &#8220;ativa e altiva&#8221; de Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimar\u00e3es e Marco Aur\u00e9lio Garcia, t\u00e3o pr\u00f3ximos estamos da abje\u00e7\u00e3o dos tempos do marechal Castello Branco, quando o general Juracy Magalh\u00e3es, nosso embaixador em Washington, declarava que &#8220;o que \u00e9 bom para os EUA \u00e9 bom para o Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o avan\u00e7aremos na exata compreens\u00e3o do que seja e implique o golpe de Estado continuado instalado em 2016, e muito menos avan\u00e7aremos na discuss\u00e3o sobre a estrat\u00e9gia de luta sem nos determos sobre o papel do imperialismo e do capitalismo brasileiro, rentista e dependente, associado ao grande capital financeiro internacional, hoje receoso de cumprir o papel do molusco no choque das grandes ondas contra o rochedo pois este \u00e9 o conflito que se avizinha entre EUA e China. A busca do desfecho \u00e9 mais ag\u00f4nica para o imp\u00e9rio, pois v\u00ea o tempo como aliado do fortalecimento econ\u00f4mico e militar do grande advers\u00e1rio e seus aliados, entre os quais se encontra uma R\u00fassia armada de m\u00edsseis intercontinentais carregados com ogivas nucleares. Especialistas cogitam de uma alternativa \u00e0 hecatombe nuclear, que seria uma guerra convencional pelo dom\u00ednio do Pac\u00edfico&#8230;<\/p>\n<p>No quadro de hoje, e se n\u00e3o houver altera\u00e7\u00e3o na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as internas, n\u00e3o teremos, sequer, a oportunidade de escolher a forma de nossa inser\u00e7\u00e3o no conflito, que, embora sendo dos outros, nos atingir\u00e1.<\/p>\n<p>A este quadro internacional ensejador de muitas interroga\u00e7\u00f5es do ponto de vista estrat\u00e9gico-militar, soma-se a crise geral do capitalismo agu\u00e7ada a partir de 2008 com a explos\u00e3o da bolha imobili\u00e1ria nos EUA e a quebra do Lehman Brothers corroendo a Uni\u00e3o Europeia, chegando at\u00e9 n\u00f3s. O analista precatado n\u00e3o deve ignorar a possibilidade do efeito cascata da anunciada bancarrota da gigante chinesa da ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil que entre n\u00f3s afetou o \u00edndice Ibovespa, na medida em que derrubou as a\u00e7\u00f5es da Vale. No plano nacional, o dito mercado j\u00e1 trabalha com uma infla\u00e7\u00e3o de dois d\u00edgitos, com o aumento da taxa Selic, a queda das estimativas do crescimento do PIB (vari\u00e1vel entre 1,0 e 0,4% sobre 2020), e, em s\u00edntese, com o que os economistas de plant\u00e3o chamam de estagfla\u00e7\u00e3o, que nos alcan\u00e7a ap\u00f3s mais de dez anos de recess\u00e3o e desemprego crescente. Os juros crescem pelo segundo m\u00eas seguido, e alcan\u00e7am o patamar de 21,1%, enquanto cai o cr\u00e9dito para as empresas.<\/p>\n<p>Beco sem sa\u00edda? N\u00e3o. Se n\u00e3o nos faltarem \u00e2nimo e compet\u00eancia para a organiza\u00e7\u00e3o popular, para levar a cabo o mais amplo esfor\u00e7o visando \u00e0 politiza\u00e7\u00e3o das grandes massas \u2013 das quais se afastaram o discurso e a a\u00e7\u00e3o da esquerda socialista (principalmente a partir da campanha presidencial de 2002), e dos governos de centro-esquerda, quando confundiram a necessidade t\u00e1tica da alian\u00e7a conservadora (as &#8220;raz\u00f5es de Estado&#8221;) com a ren\u00fancia estrat\u00e9gica \u00e0 luta de classes.<\/p>\n<p><strong>*Escritor e ex-ministro de Ci\u00eancia e Tecnologia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embora aberto ao mundo como uma feitoria agroexportadora de produtos tropicais demandados pela Europa (de in\u00edcio o pau de tinta que lhe deu o nome, \u00edndios apresados, papagaios e peles e, depois e por largo tempo, a\u00e7\u00facar, algod\u00e3o, ouro, prata etc.), e assim tendo crescido e se consolidado no Imp\u00e9rio (como na col\u00f4nia, ainda exportador [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":270962,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-270958","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/270958","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=270958"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/270958\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":270963,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/270958\/revisions\/270963"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/270962"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=270958"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=270958"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=270958"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}