{"id":271250,"date":"2021-10-03T09:25:32","date_gmt":"2021-10-03T12:25:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=271250"},"modified":"2021-10-03T09:26:13","modified_gmt":"2021-10-03T12:26:13","slug":"seca-que-matou-500-mil-no-nordeste-teve-ate-cpi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/seca-que-matou-500-mil-no-nordeste-teve-ate-cpi\/","title":{"rendered":"Seca que matou 500 mil no Nordeste teve at\u00e9 CPI"},"content":{"rendered":"<p>Em 1877, quando chegou o dia 19 de mar\u00e7o e nenhuma gota de \u00e1gua caiu do c\u00e9u, os sertanejos anteviram a desgra\u00e7a. Esse \u00e9 o Dia de S\u00e3o Jos\u00e9, padroeiro do Cear\u00e1 e das chuvas. At\u00e9 hoje, quando n\u00e3o chove nessa data, eles j\u00e1 sabem que ter\u00e3o pela frente um ano inteiro de seca.<\/p>\n<p>Naquele dia, por\u00e9m, os sertanejos do Imp\u00e9rio n\u00e3o podiam imaginar que a estiagem que apenas come\u00e7ava seria t\u00e3o violenta e prolongada e provocaria a maior cat\u00e1strofe da hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>A chamada Grande Seca se arrastou por tr\u00eas anos e provocou 500 mil mortes em oito prov\u00edncias, tanto por sede e fome, quanto por doen\u00e7as. O n\u00famero representa 5% da popula\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio que, na \u00e9poca, rondava os 10 milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>Nenhuma outra calamidade matou uma parcela t\u00e3o grande da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Como compara\u00e7\u00e3o, a atual pandemia de covid-19 tirou a vida de 0,3% da popula\u00e7\u00e3o at\u00e9 o momento. Dos 213 milh\u00f5es de brasileiros, 600 mil morreram em raz\u00e3o do coronav\u00edrus. Em termos proporcionais, a Grande Seca foi 17 vezes mais mort\u00edfera que a pandemia.<\/p>\n<p>O primeiro parlamentar a levar a trag\u00e9dia ao conhecimento do Senado foi Figueira de Melo (CE). Um m\u00eas depois daquele Dia de S\u00e3o Jos\u00e9, o senador discursou:<\/p>\n<p>\u2014 As not\u00edcias que acabam de nos chegar da prov\u00edncia do Cear\u00e1, pelo \u00faltimo paquete, n\u00e3o podem deixar de contristar todos os cora\u00e7\u00f5es brasileiros. As catadupas do c\u00e9u parecem ter-se fechado. Um sol ardente dardeja seus raios sobre o pa\u00eds. As \u00e1rvores e tudo quanto tem vida desaparecem. A horrorosa seca inutilizou todas as esperan\u00e7as de que a Provid\u00eancia Divina mandasse em tempo chuvas suficientes para a alimenta\u00e7\u00e3o do gado e as planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Meses mais tarde, o senador Visconde de Jaguaribe (CE) apresentou um retrato ainda mais dram\u00e1tico. Num pronunciamento, ele pediu que uma elei\u00e7\u00e3o que se realizaria em sua prov\u00edncia fosse cancelada:<\/p>\n<p>\u2014 A prov\u00edncia do Cear\u00e1 \u00e9 hoje um vasto cemit\u00e9rio. Em vez de popula\u00e7\u00e3o que vote, se h\u00e3o de encontrar cad\u00e1veres e sombras.<\/p>\n<p>Os discursos fazem parte do acervo hist\u00f3rico do Arquivo do Senado. Os documentos do per\u00edodo 1877-1879 indicam que, assim que a not\u00edcia da Grande Seca chegou ao Rio de Janeiro, capital do Imp\u00e9rio, os senadores das prov\u00edncias atingidas logo se mobilizaram para tentar mitigar os estragos.<\/p>\n<p>Juntos, Figueira de Melo e o Visconde de Jaguaribe escreveram um projeto de lei prevendo o envio de 400 contos de r\u00e9is para socorrer a popula\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>No mesmo dia, alguns deputados apresentaram \u00e0 C\u00e2mara uma proposta mais abrangente, determinando a libera\u00e7\u00e3o de 2 mil contos para as prov\u00edncias do Norte, localizadas entre o Piau\u00ed e a Bahia \u2014 n\u00e3o se dizia Nordeste; o Imp\u00e9rio se dividia em duas regi\u00f5es, Sul e Norte.<\/p>\n<p>Ao longo dos tr\u00eas anos, sucessivas leis aprovadas pelo Parlamento e decretos baixados pelo governo, destinaram verbas do Or\u00e7amento imperial \u00e0s prov\u00edncias sem chuva. O dinheiro foi aplicado principalmente em comida \u2014 toneladas de farinha, arroz, feij\u00e3o, milho, carne seca e bacalhau. Navios procedentes do Rio de Janeiro aportavam em cidades, como Recife e Fortaleza, carregados de v\u00edveres.<\/p>\n<p>Esse aux\u00edlio emergencial estava previsto em lei. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1824 determinava que, sempre que a popula\u00e7\u00e3o se encontrasse em situa\u00e7\u00e3o de calamidade, o Imp\u00e9rio deveria prover os \u201csocorros p\u00fablicos\u201d necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Os jornais publicaram retratos chocantes de crian\u00e7as sertanejas esqu\u00e1lidas. Comovida pelas not\u00edcias vindas do Norte, a popula\u00e7\u00e3o do Sul organizou a\u00e7\u00f5es beneficentes, como leil\u00f5es, concertos e at\u00e9 banquetes.<\/p>\n<p>\u2014 Na cidade do Rio de Janeiro e em todas as prov\u00edncias se t\u00eam formado comiss\u00f5es que procuram meios mais ou menos engenhosos a fim de obter esmolas e donativos para os desgra\u00e7ados. E o belo sexo, em cujo cora\u00e7\u00e3o os sentimentos de benevol\u00eancia mais dominam, n\u00e3o tem sido insens\u00edvel ao espet\u00e1culo do sofrimento, chegando at\u00e9 a ir representar em teatros para ser a esmola mais abundante \u2014 afirmou Figueira de Melo.<\/p>\n<p>\u2014 A Augusta Regente [princesa Isabel], atual chefe do Estado, tem se mostrado pessoalmente incans\u00e1vel em acudir \u00e0s v\u00edtimas. Abstraindo dos recursos de que pode o governo lan\u00e7ar m\u00e3o, ela n\u00e3o se dedigna de p\u00f4r-se \u00e0 testa do movimento caritativo, de por si mesma promover concertos e leil\u00f5es de objetos de que possam provir socorros, certa, como est\u00e1, de que a caridade brasileira jamais \u00e9 invocada em v\u00e3o\u00a0\u2014 acrescentou o Visconde de Jaguaribe.<\/p>\n<p>Deputados chegaram a propor que uma parte do dinheiro arrecadado com as loterias fosse reservada para o aux\u00edlio \u00e0s prov\u00edncias do Norte, mas a proposta foi rejeitada.<\/p>\n<p>Logo se criou pol\u00eamica em torno dos socorros p\u00fablicos. Alguns senadores avaliaram que a pol\u00edtica de oferecer comida de gra\u00e7a \u00e0 popula\u00e7\u00e3o sertaneja era equivocada. Um deles foi Silveira da Mota (GO), que analisou:<\/p>\n<p>\u2014 Na Europa, as classes propriet\u00e1rias do capital e do solo desfrutam a sociedade, e as classes pobres parecem sacrificadas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios e dos capitalistas. Da\u00ed agita-se a quest\u00e3o do socialismo e v\u00eam a rea\u00e7\u00e3o das classes obreiras contra governos solidamente constitu\u00eddos. No Brasil, estamos vendo o contr\u00e1rio do socialismo europeu. Nas prov\u00edncias do Norte, as classes pobres est\u00e3o se acostumando a viver sem trabalhar, \u00e0 custa das classes que t\u00eam trabalhado e acumulado capitais. \u00c9 um novo socialismo, que o governo tem alimentado com o seu mau sistema de presta\u00e7\u00e3o de socorros.<\/p>\n<p>Para esses senadores, a solu\u00e7\u00e3o seria exigir dos sertanejos, em troca do alimento enviado pelo governo, que trabalhassem em obras p\u00fablicas, como a abertura de ferrovias, a extens\u00e3o de cabos telegr\u00e1ficos e a constru\u00e7\u00e3o de a\u00e7udes. O senador Teixeira J\u00fanior (RJ) discursou:<\/p>\n<p>\u2014 Vejo pretextos para se manter a ociosidade daqueles que, tendo-se habituado \u00e0 indol\u00eancia, vivendo \u00e0 custa do \u00f3bolo da caridade que o governo distribui em farinha e carne seca, n\u00e3o querem mais sujeitar-se \u00e0 condi\u00e7\u00e3o absoluta que rege a sociedade: o trabalho. Fogem do trabalho que se lhes oferece e depois reaparecem para reclamar a competente ra\u00e7\u00e3o di\u00e1ria.<\/p>\n<p>Falando na condi\u00e7\u00e3o de ministro da Fazenda, o senador Afonso Celso (MG) contou que alguns presidentes de prov\u00edncia (os atuais governadores de estado) j\u00e1 vinham exigindo o trabalho dos flagelados:<\/p>\n<p>\u2014 O presidente do Cear\u00e1 preferiu, em vez de dar esmola, que humilha e abate a quem a recebe, proporcionar trabalho assalariado aos indigentes, minorando destarte os sacrif\u00edcios do Estado, aproveitando nas obras que h\u00e3o de perdurar longos anos e ao mesmo tempo mantendo na popula\u00e7\u00e3o os h\u00e1bitos de ordem e atividade. Esse pensamento sempre me pareceu acertado e digno de anima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A elite pol\u00edtica e econ\u00f4mica acreditava que era preciso \u201cdomesticar\u201d os pobres livres, pois entendia que eles, sendo majoritariamente mesti\u00e7os, n\u00e3o tinham a disciplina necess\u00e1ria para o trabalho assalariado na lavoura.<\/p>\n<p>Os poderosos do Imp\u00e9rio se preocupavam com essa quest\u00e3o porque j\u00e1 sabiam que, cedo ou tarde, a escravid\u00e3o acabaria. A Lei do Ventre Livre, por exemplo, vigorava desde 1871. Para substituir os escravizados nas planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9, os fazendeiros preferiam imigrantes europeus, mas n\u00e3o descartavam a m\u00e3o de obra livre nacional, apesar de consider\u00e1-la de qualidade inferior.<\/p>\n<p>\u2014 Precisamos evitar que os nossos concidad\u00e3os morram \u00e0 fome. Para o pa\u00eds, \u00e9 um grande infort\u00fanio e um preju\u00edzo perder tantos bra\u00e7os quando deles temos tanta necessidade \u2014 afirmou o Visconde de Jaguaribe. \u2014 Quando o governo se preocupa constantemente com a necessidade de importar bra\u00e7os estrangeiros, era muito mais vantajoso aproveitar os que existem no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra dos sertanejos em obras durante a Grande Seca, segundo certos senadores, seria ben\u00e9fica tamb\u00e9m para os cofres p\u00fablicos, pois os flagelados aceitariam at\u00e9 os sal\u00e1rios mais aviltantes. Figueira de Melo exemplificou:<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 diferentes obras de que a prov\u00edncia do Cear\u00e1 necessita, e uma elas \u00e9 a estrada de ferro de Fortaleza a Baturit\u00e9. Os sal\u00e1rios, que ali andavam por 1,2 mil ou 1,5 mil r\u00e9is nos casos ordin\u00e1rios, talvez possam ser reduzidos a 500 r\u00e9is hoje, dizem as cartas dos meus amigos. Portanto, se a popula\u00e7\u00e3o v\u00e1lida, mas pobre e faminta, for empregada nesse servi\u00e7o, poder-se-\u00e3o fazer muitas obras com pouco disp\u00eandio.<\/p>\n<p>O sert\u00e3o se transformou num grande vazio demogr\u00e1fico, n\u00e3o s\u00f3 por causa das mortes, mas tamb\u00e9m pelo \u00eaxodo. Nas ro\u00e7as, n\u00e3o se p\u00f4de mais criar gado ou plantar. Nos povoados, devido \u00e0 escassez, o pre\u00e7o dos alimentos disparou. Milhares de pessoas ent\u00e3o migraram para as cidades do litoral, como Recife e Fortaleza.<\/p>\n<p>Em busca da sobreviv\u00eancia, muitos retirantes \u2014 termo que j\u00e1 se usava na \u00e9poca \u2014\u00a0 viajaram a cavalo ou em carro\u00e7a. Os mais miser\u00e1veis tiveram que ir a p\u00e9. Alguns, contudo, acabaram morrendo pelo caminho. Os cronistas relatam que, pelas estradas do sert\u00e3o, tornaram-se comuns pequenas cruzes de madeira fincadas na terra \u00e1rida.<\/p>\n<p>Outro fator contribuiu para a migra\u00e7\u00e3o em massa. Boa parte dos socorros p\u00fablicos enviados pelo Sul n\u00e3o conseguia chegar ao destino. Como a \u00e1gua e a pastagem haviam desaparecido, os animais que puxavam as carro\u00e7as nas quais iriam os alimentos para os flagelados n\u00e3o tinham como adentrar o sert\u00e3o. Os socorros p\u00fablicos acabaram se acumulando nas cidades do litoral. Tamb\u00e9m por essa raz\u00e3o, os sertanejos se viram for\u00e7ados a se dirigir para a costa.<\/p>\n<p>Fortaleza, que tinha 25 mil habitantes, de repente se viu com 140 mil. As classes altas das prov\u00edncias do Norte n\u00e3o gostaram de ver suas capitais abarrotadas de retirantes, parte deles convertida em pedintes. Estat\u00edsticas de seguran\u00e7a apontaram aumento de roubos e furtos.<\/p>\n<p>Atendendo aos desejos da elite, os governantes adotaram dois planos. O primeiro foi criar col\u00f4nias fora das cidades e nelas enclausurar \u2014 \u00e0 for\u00e7a, quando necess\u00e1rio \u2014 parte dessa multid\u00e3o.<\/p>\n<p>O ministro e senador Afonso Celso leu no Senado trechos de uma carta escrita pelo presidente de Pernambuco a respeito da Col\u00f4nia Socorro, que fora instalada a mais de 100 quil\u00f4metros do Recife e contava com capela, orfanato e escola:<\/p>\n<p>\u2014 A experi\u00eancia tem assaz demonstrado os inconvenientes das grandes aglomera\u00e7\u00f5es de retirantes famintos e ociosos nos pontos do litoral. Muito mais proveitoso ser\u00e1 coloc\u00e1-los em estabelecimentos como a Col\u00f4nia Socorro, onde, aplicados a trabalhos agr\u00edcolas, deixar\u00e3o de ser est\u00e9reis consumidores.<\/p>\n<p>Na realidade, a situa\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias de flagelados nada tinha de pac\u00edfica. O senador Diogo Velho (RN) relatou que os quase 7 mil retirantes da Col\u00f4nia Sinimbu, localizada nos arrabaldes de Natal, eram tratados sem nenhuma humanidade. No Senado, ele leu um relat\u00f3rio do vice-presidente da prov\u00edncia do Rio Grande do Norte:<\/p>\n<p>\u2014 Os g\u00eaneros, que em t\u00e3o larga profus\u00e3o eram remetidos ao diretor da col\u00f4nia, se distribu\u00edam com intervalo de 10, 12 e at\u00e9 20 dias, em diminutas quantidades, dando isso lugar a que morresse um grande n\u00famero de pessoas inanidas de fome. O chicote era muita vez o p\u00e3o que eles recebiam quando diziam \u201ctemos fome\u201d. E ai daquele que ousava levantar a voz e queixar-se de seus sofrimentos! Durante a esta\u00e7\u00e3o invernosa dos meses de junho a agosto, desenvolveram-se entre os habitantes da col\u00f4nia diversas mol\u00e9stias originadas j\u00e1 pelas intemp\u00e9ries a que se achavam expostos em suas m\u00edseras choupanas, j\u00e1 pelo miasma que exalava do alagadi\u00e7o vizinho.<\/p>\n<p>Das mol\u00e9stias que se espalharam durante a Grande Seca, a que mais mortes provocou entre os sertanejos aglomerados nas col\u00f4nias foi a var\u00edola, apesar de na \u00e9poca j\u00e1 existir vacina contra ela.<\/p>\n<p>Mais tarde, nas primeiras secas do s\u00e9culo 20, as col\u00f4nias de retirantes passaram a ser chamadas de campos de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O segundo plano dos governantes para \u201climpar\u201d aquelas capitais foi embarcar os sertanejos, de gra\u00e7a, em navios para bem longe. Alguns foram mandados para o Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, com destino \u00e0s planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9. Outros foram despachados para a Amaz\u00f4nia, em dire\u00e7\u00e3o aos seringais. Os retirantes quase nunca eram bem-vindos.<\/p>\n<p>\u2014 Os que vieram para a corte [Rio de Janeiro] mostraram grande repugn\u00e2ncia para o servi\u00e7o da lavoura. Eles o que queriam era n\u00e3o trabalhar \u2013 criticou Silveira da Mota.<\/p>\n<p>\u2014 Notamos a indol\u00eancia \u2014 refor\u00e7ou Cruz Machado (MG).<\/p>\n<p>\u2014 O governo \u00e9 o culpado da indol\u00eancia, mandando muita farinha \u2014 alfinetou Teixeira J\u00fanior.<\/p>\n<p>Notando o tom preconceituoso, o Visconde de Jaguaribe saiu em defesa dos sertanejos:<\/p>\n<p>\u2014 Aqueles que nascem na abund\u00e2ncia, que n\u00e3o precisam lutar com a natureza para alimentar-se, naturalmente entregam-se \u00e0 indol\u00eancia sem nenhuma obje\u00e7\u00e3o s\u00e9ria. Mas quem nasce cercado de precis\u00f5es e v\u00ea que, se n\u00e3o trabalhar, se n\u00e3o fizer uso de suas for\u00e7as, h\u00e1 de morrer \u00e0 m\u00edngua, necessariamente cede \u00e0 lei da necessidade. \u00c9 por isso que eu digo que o cearense em geral tem por \u00edndole uma certa atividade.<\/p>\n<p>Para diversos senadores, o governo imperial tinha culpa pela situa\u00e7\u00e3o calamitosa dos flagelados. Eles acusaram o poder p\u00fablico de ser imprevidente, pois, mesmo sabendo que as secas no Norte eram peri\u00f3dicas, deixou de tomar com anteced\u00eancia as medidas necess\u00e1rias, como a constru\u00e7\u00e3o de a\u00e7udes e armaz\u00e9ns de alimentos no sert\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 O governo, quando iguais calamidades t\u00eam perseguido essas prov\u00edncias, tem prometido fazer obras que garantam a n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o, mas tem-se descuidado. E n\u00e3o \u00e9 o minist\u00e9rio atual somente. S\u00e3o tamb\u00e9m os anteriores. Todos eles t\u00eam deixado de mandar abrir po\u00e7os artesianos e de fazer o plantio de \u00e1rvores de sombra \u2014 criticou Silveira da Motta.<\/p>\n<p>\u2014 No tempo da prosperidade, facilmente nos esquecemos das desgra\u00e7as passadas \u2014 acrescentou o senador Bar\u00e3o de Cotegipe (BA).<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 deitamos fechaduras nas portas depois que os ladr\u00f5es t\u00eam roubado \u2014 concordou Figueira de Melo.<\/p>\n<p>O governo imperial respondia que, diante de uma cat\u00e1strofe natural, pouco podia fazer.<\/p>\n<p>\u2014 A solu\u00e7\u00e3o depende da Divina Provid\u00eancia, e n\u00e3o de n\u00f3s \u2014 disse o senador Cansan\u00e7\u00e3o de Sinimbu (AL), na \u00e9poca o primeiro-ministro do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 O governo n\u00e3o pode fazer chuva \u2014 afirmou, na condi\u00e7\u00e3o de ministro de Estrangeiros, o senador Diogo Velho.<\/p>\n<p>Por causa da Grande Seca, o Brasil passou um ano inteiro sem Parlamento. No in\u00edcio de 1878, por quest\u00f5es pol\u00edticas, D. Pedro II derrubou o gabinete ministerial do Partido Conservador e nomeou outro do Partido Liberal. No parlamentarismo brasileiro, sempre que um gabinete ca\u00eda, a C\u00e2mara dos Deputados era dissolvida (o Senado n\u00e3o, por ser vital\u00edcio) e uma nova elei\u00e7\u00e3o parlamentar se realizava.<\/p>\n<p>Naquele ano, contudo, in\u00fameros povoados das prov\u00edncias afetadas n\u00e3o tinham eleitores suficientes. Para n\u00e3o desequilibrar a composi\u00e7\u00e3o da nova C\u00e2mara em preju\u00edzo do Norte, o imperador resolveu adiar as elei\u00e7\u00f5es para o fim de 1878. Como a Constitui\u00e7\u00e3o dizia que uma Casa do Parlamento n\u00e3o podia funcionar sem a outra, o Senado tamb\u00e9m precisou fechar as portas.<\/p>\n<p>Ao longo desse ano, o governo p\u00f4de remeter ao Norte as verbas dos socorros p\u00fablicos por meio de uma sucess\u00e3o de decretos, sem precisar de leis aprovadas pelo Parlamento. No fim de 1878, apesar da persist\u00eancia da seca, o eleitorado foi \u00e0s urnas. No in\u00edcio de 1879, o Senado e a C\u00e2mara finalmente reabriram.<\/p>\n<p>A Grande Seca tirou a vida de 12% da popula\u00e7\u00e3o das oito prov\u00edncias afetadas. As mortes s\u00f3 n\u00e3o ultrapassaram a marca de 500 mil porque naquele momento existiam relativamente poucos escravizados no Norte. Em 1850, a Lei Eus\u00e9bio de Queiroz havia proibido a chegada de navios negreiros aos portos do Imp\u00e9rio. Impossibilitados de importar m\u00e3o de obra nova da \u00c1frica, os bar\u00f5es do caf\u00e9 do Sul passaram a comprar escravizados das fazendas do Norte, onde as planta\u00e7\u00f5es de cana-de-a\u00e7\u00facar e algod\u00e3o estavam em decl\u00ednio.<\/p>\n<p>Hoje se sabe que a seca de 1877-1879 n\u00e3o foi um fen\u00f4meno exclusivamente brasileiro Teve alcance global. Regi\u00f5es como a Austr\u00e1lia, a China, a \u00c1frica do Sul e o Egito tamb\u00e9m foram afetadas. A \u00cdndia viveu a chamada Grande Fome. A principal causa foi um El Ni\u00f1o extraordinariamente intenso \u2014 o fen\u00f4meno eleva a temperatura das \u00e1guas superficiais do Oceano Pac\u00edfico equatorial e provoca altera\u00e7\u00f5es no clima.<\/p>\n<p>Sem dispor dessa informa\u00e7\u00e3o, \u00e0 qual os cientistas s\u00f3 chegaram recentemente, Figueira de Melo apresentou sua explica\u00e7\u00e3o ao Senado recorrendo a Deus:<\/p>\n<p>\u2014 Na minha humildade e com grande sentimento de verdade, senhores, reconhe\u00e7o que a m\u00e3o da Provid\u00eancia Divina fere a minha prov\u00edncia e outras vizinhas como castigo de se terem afastado das leis divinas e das leis morais.<\/p>\n<p>Diante daquela seca que parecia n\u00e3o ter fim, os senadores come\u00e7aram a ficar incomodados com as somas que o governo imperial continuava enviando para as prov\u00edncias do norte.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o podemos gastar s\u00f3 com algumas prov\u00edncias metade da renda anual do Imp\u00e9rio. \u00c9 dinheiro gasto improdutivamente, ainda que por alto sentimento de religi\u00e3o e humanidade. Despendemos muito e sabe Deus se teremos mais tarde recursos de onde possamos haver os meios necess\u00e1rios para o provimento dessa despesa enorme e espantosa \u2014 queixou-se o senador Fernandes da Cunha (BA).<\/p>\n<p>\u2014 A Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o admite socorros permanentes. Isso seria criar o proletariado oficial \u2014 avaliou Cruz Machado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00a0O Paraguai est\u00e1 sendo substitu\u00eddo pelo Cear\u00e1 \u2014 sentenciou o senador Mendes de Almeida (MA), referindo-se \u00e0 Guerra do Paraguai, que uma d\u00e9cada antes havia praticamente secado os cofres p\u00fablicos do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 O principal respons\u00e1vel \u00e9 o senhor ministro da Fazenda, porque em nosso pa\u00eds, segundo dizia um not\u00e1vel homem de Estado, o ministro da Fazenda deve estar sempre \u00e0 porta do Tesouro de arma engatilhada \u2014 discursou Silveira da Mota.<\/p>\n<p>Den\u00fancias de desvio de socorros p\u00fablicos come\u00e7aram a aparecer nos jornais. As not\u00edcias falavam de remessas de carne podre e farinha misturada com cal que eram dadas aos retirantes, sacas compradas pelo governo que chegavam com menos alimento que o contratado, funcion\u00e1rios p\u00fablicos das prov\u00edncias que repentinamente enriqueciam e intermedi\u00e1rios entre o governo, os empres\u00e1rios e os flagelados que contabilizavam lucros estratosf\u00e9ricos.<\/p>\n<p>\u2014 Os fatos de dilapida\u00e7\u00e3o geral abundam em todo o Cear\u00e1 \u2014 denunciou o Visconde de Jaguaribe, em seguida citando um dos esquemas. \u2014 Com a necessidade de remeter g\u00eaneros para o interior, surgiu alguma ind\u00fastria e de fato apareceu a dos contratadores de fretes. Apareceram para esses contratos os protegidos das potestades do dia, que muitas vezes eram indiv\u00edduos que n\u00e3o possu\u00edam cavalos e nunca tinham feito viagens. Assim, muitas vezes sucedia que, enquanto uma localidade tinha aviso de que tal remessa lhe fora feita, os respectivos g\u00eaneros jamais chegavam.<\/p>\n<p>\u2014 A presid\u00eancia do Cear\u00e1 hoje vive em bailes e at\u00e9 se distribuem sorvetes. O que l\u00e1 se deseja \u00e9 a seca do Tesouro p\u00fablico \u2014 ironizou Mendes de Almeida.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se est\u00e3o mandando enormes quantias para matar a fome de quem a tem. \u00c9 para matar a fome dos fornecedores \u2014 afirmou Silveira da Mota, acrescentando que estes \u00faltimos faziam press\u00e3o sobre o poder p\u00fablico para que n\u00e3o se fechassem as col\u00f4nias de retirantes.<\/p>\n<p>Diante da enxurrada de acusa\u00e7\u00f5es, o governo acabou dando o bra\u00e7o a torcer. Num discurso, o senador e ministro Afonso Celso se explicou:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 fora de quest\u00e3o que o flagelo da seca trouxe para o Tesouro despesas excessivas. \u00c9 indubit\u00e1vel que tais despesas devem cessar no mais curto prazo poss\u00edvel, sob pena de ficarem completamente desorganizadas as finan\u00e7as por largos anos. Admito ainda a possibilidade de abusos por parte de agentes subalternos da administra\u00e7\u00e3o ou de fornecedores de g\u00eaneros, porque os abusos s\u00e3o inevit\u00e1veis em tempos ordin\u00e1rios, quanto mais em \u00e9pocas calamitosas. Uma vez provadas, as fraudes devem acarretar contra seu autores toda a severidade das leis. Mas, senhores, concluir daqui que o governo e seus delegados nas prov\u00edncias t\u00eam-se esquecido de seus deveres ou deixado de fazer tudo quanto era humanamente poss\u00edvel \u00e9 o que me parece clamorosa injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>Chegou-se a pedir a abertura de uma CPI no Senado para investigar as den\u00fancias relativas aos socorros p\u00fablicos da Grande Seca. A proposta, apresentada por Silveira da Mota, n\u00e3o foi aprovada. Se tivesse sido criada, a Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito, provavelmente, prejudicaria tanto o Partido Conservador, que governou o Imp\u00e9rio em 1877, quanto o Partido Liberal, que esteve no poder em 1878 e 1879.<\/p>\n<p>A historiadora Mar\u00eda Ver\u00f3nica Secreto, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de um estudo sobre a Grande Seca, explica que esse \u201cfen\u00f4meno clim\u00e1tico que virou crise social\u201d, apesar de ser pouco conhecido no pa\u00eds hoje, produziu impactos nacionais t\u00e3o profundos que podem ser sentidos at\u00e9 agora, passados mais de 140 anos:<\/p>\n<p>\u2014 Muito da imagem estigmatizada e preconceituosa que o Brasil tem hoje do Nordeste, a daquela regi\u00e3o miser\u00e1vel, atrasada e est\u00e9ril, vem daqueles tr\u00eas anos da Grande Seca. Os nordestinos passaram a ser vistos como incapazes de se sustentar sozinhos e dependentes da caridade ou da assist\u00eancia p\u00fablica. Al\u00e9m disso, a Grande Seca marcou o in\u00edcio da chamada ind\u00fastria da seca. O poder p\u00fablico organiza a ajuda, mas, diante da exist\u00eancia de tantos intermedi\u00e1rios em busca de lucro, o socorro vai se desidratando pelo caminho at\u00e9 finalmente chegar ao cidad\u00e3o. Isso ocorre n\u00e3o s\u00f3 nas a\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 seca, mas nas mais diversas pol\u00edticas p\u00fablicas. Veja, por exemplo, quantos intermedi\u00e1rios indevidos t\u00eam surgido no caso das vacinas contra a covid-19.<\/p>\n<p>A historiadora entende que, apesar de todos os problemas, n\u00e3o se pode culpar o Imp\u00e9rio pela trag\u00e9dia da Grande Seca:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o podemos cobrar do Imp\u00e9rio o mesmo que devemos cobrar da Rep\u00fablica. S\u00e3o dois momentos hist\u00f3ricos muito distintos. Em primeiro lugar, porque na \u00e9poca de D. Pedro II n\u00e3o existia o conceito moderno de pol\u00edtica p\u00fablica. As a\u00e7\u00f5es do Estado que beneficiavam os cidad\u00e3os eram vistas como caridade. Agora as entendemos como direito, inclusive os programas de renda m\u00ednima. Em segundo lugar, porque o Imp\u00e9rio tinha muito menos poder econ\u00f4mico que a Rep\u00fablica. N\u00e3o existiam tantos impostos quanto agora. A arrecada\u00e7\u00e3o n\u00e3o era t\u00e3o forte. Diante de calamidades, portanto, a Rep\u00fablica n\u00e3o poderia cometer erros semelhantes aos que foram cometidos pelo Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Em 1880, quando chegou o Dia de S\u00e3o Jos\u00e9 e caiu \u00e1gua do c\u00e9u, os sertanejos respiraram aliviados. O governo imperial tamb\u00e9m. A Grande Seca finalmente ficava para tr\u00e1s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1877, quando chegou o dia 19 de mar\u00e7o e nenhuma gota de \u00e1gua caiu do c\u00e9u, os sertanejos anteviram a desgra\u00e7a. Esse \u00e9 o Dia de S\u00e3o Jos\u00e9, padroeiro do Cear\u00e1 e das chuvas. 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