{"id":271267,"date":"2021-10-03T11:05:53","date_gmt":"2021-10-03T14:05:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=271267"},"modified":"2021-10-03T19:52:42","modified_gmt":"2021-10-03T22:52:42","slug":"jobim-sobre-as-urnas-mata-a-cobra-e-mostra-garra-da-jaguatirica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jobim-sobre-as-urnas-mata-a-cobra-e-mostra-garra-da-jaguatirica\/","title":{"rendered":"Jobim, sobre as urnas, mata cobra e afaga jaguatirica"},"content":{"rendered":"<p>Em meados de 2001, o ministro Nelson de Azevedo Jobim assumiu a presid\u00eancia do Tribunal Superior Eleitoral. Chegamos juntos ao TSE, cujos ministros, servidores, advogados, membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico, comissionados, terceirizados e jornalistas lotavam os dois andares e mais um anexo da ent\u00e3o acanhada sede do tribunal. A lota\u00e7\u00e3o m\u00e1xima ocorria nas noites de ter\u00e7as e quintas-feiras, dias de sess\u00f5es intermin\u00e1veis \u00e0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es gerais de 2002. Afinal, seria o primeiro pleito com 100% de urnas eletr\u00f4nicas e com a real possibilidade de um oper\u00e1rio chegar ao poder. N\u00e3o foi um pleito qualquer. N\u00e3o era uma simples contagem de sufr\u00e1gios. Ministros, assessores e pessoas envolvidas com os julgamentos do dia tinham apenas hora de chegar. N\u00e3o consegu\u00edamos deixar o TSE antes das duas da madrugada.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o perder tempo, Jobim reuniu a Corte e resolveu criar o jantar interativo e de cotas. O rango era servido na salinha destinada \u00e0s sess\u00f5es administrativas. Cada ministro e mais o procurador-geral, Geraldo Brindeiro, dispunham de uma verba mensal ou semanal para cobrir as despesas com a &#8220;gororoba&#8221; especial. Era uma farra gastron\u00f4mica, origin\u00e1ria de diferentes e nada moderados restaurantes da cidade. Brindeiro nunca deixou de cooperar, mas era um problema para co\u00e7ar o bolso. Embora pudesse ter direito \u00e0 nobil\u00edssima sobra, preferia a companhia de alguns &#8220;amigos&#8221; para refrescar a mem\u00f3ria fora das quatro linhas do tribunal. Restaurante de servi\u00e7o r\u00e1pido, simples e com um fil\u00e9 acebolado dos deuses, o Fais\u00e3o Dourado era preferido. A &#8220;fuga&#8221; normalmente ocorria \u00e0s quintas-feiras, quando o jantar da corte era mais demorado.<\/p>\n<p>Fugia da corte sempre na companhia aliciante \u2013 e tamb\u00e9m nobre \u2013 de representantes de partidos pol\u00edticos na Justi\u00e7a Eleitoral: os advogados Torquato Jardim, Eduardo Alckmin, S\u00e9rgio Banhos, Admar Gonzaga e Jos\u00e9 Dias Toffoli, ministro e ex-presidente o STF e do pr\u00f3prio TSE. Abro um par\u00eantese para falar um pouco mais de Toffoli. Com ascens\u00e3o vertiginosa e inesperada, estava no lugar, na hora e com a pessoa certa no momento em que surgiu a vaga. Foi indicado para o STF em setembro de 2009, assumindo a cadeira deixada pelo ministro Carlos Alberto Direito, que havia morrido no in\u00edcio daquele m\u00eas. Advogado nas tr\u00eas campanhas de Lula \u00e0 Presid\u00eancia, antes do STF foi subchefe para Assuntos Jur\u00eddicos da Casa Civil e Advogado-Geral da Uni\u00e3o. Portanto, n\u00e3o ter sido aprovado em provas para juiz acabou sendo um mero detalhe.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, t\u00ednhamos um pouco mais de tempo, porque, entre a sess\u00e3o plen\u00e1ria e a administrativa, Jobim conversava com Paulo Camar\u00e3o, um dos criadores do sistema eletr\u00f4nico de vota\u00e7\u00e3o, sobre a movimenta\u00e7\u00e3o da inform\u00e1tica e a implanta\u00e7\u00e3o do novo software da urna. Era comum, de surpresa, ele perguntar a Camar\u00e3o se o trabalho para dificultar a &#8220;penetra\u00e7\u00e3o&#8221; na servidora havia sido conclu\u00eddo. Na verdade, o que que ele queria saber era se os t\u00e9cnicos tinham sanado os &#8220;buracos&#8221; que pudessem gerar eventuais fraudes no servidor, que nada mais \u00e9 do que um computador equipado com um ou mais processadores, bancos de mem\u00f3ria, portas de comunica\u00e7\u00e3o e, ocasionalmente, algum sistema para armazenamento de dados como hard disks internos ou mem\u00f3ria SSD. Ou seja, jamais uma servidora foi assediada nas depend\u00eancias do tribunal.<\/p>\n<p>Pouco polido, mas de cora\u00e7\u00e3o proporcional ao seu tamanho, Nelson Jobim, durante uma viagem ao Pantanal, patrocinada pelo ent\u00e3o presidente do TRE do Mato Grosso do Sul, estava em um restaurante e viu-se em uma saia justa com um gar\u00e7om mal humorado que insistia em lhe servir o peixe hipogl\u00f3s. S\u00e9rio e sem entender a extens\u00e3o da oferta, o ministro chegou a pensar em reagir, mas, do alto de seus quase 1,90m, resolveu perguntar que raio de prato era aquele. O gar\u00e7om, na verdade um ator local, respondeu de forma ainda mais s\u00e9ria: &#8220;\u00c9 pacu assado, senhor&#8221;. Ao perceber a goza\u00e7\u00e3o, vermelho da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, Jobim foi obrigado a dar as mesmas gargalhadas do restante da comitiva que participava do jantar. Assim foi e assim \u00e9 Jobim, um ministro aposentado que nunca fugiu do arranca rabo na Justi\u00e7a Eleitoral.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rias oportunidades, defendeu a urna eletr\u00f4nica da sanha dos que, desavisadamente, acreditavam (e acreditam) no voto impresso como solu\u00e7\u00e3o contra fraudes. A exemplo dos ministros de hoje, ele sempre conseguiu mostrar que o inverso \u00e9 verdadeiro, isto \u00e9, se h\u00e1 alguma possibilidade de fraudar o sistema ela atende pela denomina\u00e7\u00e3o auditagem do voto. Parece bajula\u00e7\u00e3o barata ou necessidade de lembrar de algu\u00e9m que se achou acima da m\u00e9dia, mas n\u00e3o \u00e9. Convivi com ministros que tamb\u00e9m &#8220;brigavam&#8221; para defender a urna eletr\u00f4nica, entre eles Carlos Velloso, Sep\u00falveda Pertence e Gilmar Mendes. Entretanto, faz alguns anos Jobim \u00e9 convocado pela corte ou por parlamentares convictos da seguran\u00e7a do sistema sempre que o equipamento \u00e9 amea\u00e7ado.<\/p>\n<p>A \u00faltima estocada nos poucos cr\u00edticos do TSE ocorreu pouco antes do sepultamento da PEC apresentada pela deputada Bia Kicis (PSL-DF). Durante audi\u00eancia na comiss\u00e3o especial que discutia a mat\u00e9ria, Nelson Jobim definiu a urna eletr\u00f4nica com voto impresso como &#8220;cruza de jaguatirica com cobra d&#8217;\u00e1gua&#8221;. Como s\u00e3o dois predadores e podem ser encontrados no cerrado, onde at\u00e9 jacar\u00e9 no seco anda, deputados e senadores preferiram ouvir Jobim. A pouco mais de um ano da elei\u00e7\u00e3o geral de 2022, acharam melhor reduzir a quase zero a pe\u00e7onha da jararaca do Planalto. Em outubro do ano que vem talvez n\u00e3o haja nem a jararaca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meados de 2001, o ministro Nelson de Azevedo Jobim assumiu a presid\u00eancia do Tribunal Superior Eleitoral. Chegamos juntos ao TSE, cujos ministros, servidores, advogados, membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico, comissionados, terceirizados e jornalistas lotavam os dois andares e mais um anexo da ent\u00e3o acanhada sede do tribunal. 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