{"id":271555,"date":"2021-10-06T13:03:10","date_gmt":"2021-10-06T16:03:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=271555"},"modified":"2021-10-06T13:04:37","modified_gmt":"2021-10-06T16:04:37","slug":"calma-madame-liberdade-religiosa-e-um-bem-de-todos-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/calma-madame-liberdade-religiosa-e-um-bem-de-todos-nos\/","title":{"rendered":"&#8216;Calma, madame. Liberdade religiosa \u00e9 um bem de todos n\u00f3s&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Cansado da pol\u00edtica, resolvi sair pelo menos um dia da rotina. Provisoriamente decidi enveredar por caminhos tortuosos, mas tamb\u00e9m interessantes. Debutei para a vida nu e, orgulhosamente, em um long\u00ednquo sub\u00farbio do Rio de Janeiro. Hoje estou vestido e vivendo na capital da Rep\u00fablica. Entretanto, foi na periferia que forjei todos os valores de um ser humano de bem. Evolui? Nem tanto. Entre os numerosos exemplos dos mais velhos, jamais esqueci o respeito a tudo que \u00e9 ou vem dos semelhantes. Aprendi bem cedo que meu espa\u00e7o termina exatamente onde come\u00e7a o de outrem. Tamb\u00e9m ouvi, assimilei e, na medida do poss\u00edvel, repasso para filhos, netos e agregados a m\u00e1xima de que religi\u00e3o, futebol e pol\u00edtica n\u00e3o se discute. Cada um tem sua prefer\u00eancia, embora fa\u00e7am parte de uma grande por\u00e7\u00e3o de nossas vidas individuais e coletivas.<\/p>\n<p>Em muitos sentidos, a religi\u00e3o influencia e define a trajet\u00f3ria de um indiv\u00edduo e, em se tratando do poder de a\u00e7\u00e3o de seus fi\u00e9is, no dia a dia da coletividade. N\u00e3o tenho o dom da verdade, tampouco a primazia do conhecimento. Ao longo do tempo, o que adquiri foram algumas simbologias. A principal delas \u00e9 baseada no respeito, substantivo masculino que incorpora cuidado, empatia, considera\u00e7\u00e3o, defer\u00eancia e, em alguns casos, temor. Embora esteja mais para leigo, acredito que, para definir uma religi\u00e3o, precisamos antes entender que n\u00e3o podemos partir de no\u00e7\u00f5es individuais, predefinidas e tendenciosas sobre a forma como se constr\u00f3i a cren\u00e7a de um grupo. O mesmo se aplica a Deus, conceito de Ser Supremo presente em diversas religi\u00f5es monote\u00edstas, henote\u00edstas ou polite\u00edstas. Ele \u00e9 definido como o esp\u00edrito infinito e eterno, criador e preservador do Universo.<\/p>\n<p>Onipotente, onipresente, \u00fanico e sin\u00f4nimo de amor, Deus quer ser respeitado pelo que Ele representa para n\u00f3s. A tacanha divis\u00e3o de Deus \u00e9 apenas mais uma das necessidades humanas. Viemos e voltaremos para o mesmo lugar. No entanto, nada disso nos habilita a tentarmos ser iguais. \u00c9 visceral o desejo de ser diferente do vizinho, de n\u00e3o aceitar aconselhamentos da doutrina alheia. Infelizmente, somente a nossa presta, somente a nossa \u00e9 de Deus. As &#8220;concorrentes&#8221; s\u00e3o do Diabo. Por raz\u00f5es que n\u00e3o merecem an\u00e1lise, a do outro \u00e9 sempre melhor. A indaga\u00e7\u00e3o sobre uma eventual evolu\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a sa\u00edda da periferia e chegada \u00e0 capital n\u00e3o \u00e9 s\u00f3cio-econ\u00f4mica. \u00c9 apenas uma vis\u00e3o conceitual. Ser\u00e1 que aprendi a respeitar os valores dos demais? Acho que sim. Todavia, continuo sem entender o inverso, isto \u00e9, a raz\u00e3o pela qual nem sempre respeitam os meus.<\/p>\n<p>Acho que a charada \u00e9 mais ideol\u00f3gica do que religiosa. Como desacredito daquele presidente, logo sou comunista, diab\u00f3lico, um anticristo. Concretamente, evolui. Por\u00e9m, involui em outros aspectos. A bem da verdade, n\u00e3o posso assumir essa culpa sozinho. Sendo ainda mais verdadeiro, como ser culpado de coisas que abomino? Ainda que n\u00e3o deva torn\u00e1-las p\u00fablicas, \u00e9 meu direito contest\u00e1-las, n\u00e3o ach\u00e1-las normais. Como disse o ex-jogador Dario Maravilha, o Rei Dad\u00e1, n\u00e3o existe gol feio. Feio \u00e9 n\u00e3o fazer gol. Nada tenho a ver com a vida alheia. Dessa forma, a religi\u00e3o professada por eventuais antagonistas a mim merece tanto respeito quanto a minha. Nem sempre a rec\u00edproca \u00e9 verdadeira. N\u00e3o importa. Com base no sincretismo brasileiro (fus\u00e3o de diferentes cultos ou doutrinas, com reinterpreta\u00e7\u00e3o de seus elementos) e, sobretudo, por quest\u00f5es culturais, procuro frequentar igrejas e templos de variados matizes da f\u00e9.<\/p>\n<p>Em um dessas incurs\u00f5es bem recentes me veio &#8220;inspira\u00e7\u00e3o&#8221; para essa narrativa sobre um sentimento que considero dos mais nefastos: a estupidez religiosa. Perdoem-me o nariz de cera, mas tive de ser prolixo para escrever minha hist\u00f3ria de hoje com mais naturalidade. Por escolha pr\u00f3pria, desde a mais tenra idade sou devoto de Cosme e Dami\u00e3o, irm\u00e3os g\u00eameos, que morreram por volta de 300 d.C. Eu e milh\u00f5es de brasileiros acreditamos que eles foram m\u00e9dicos e que a santidade de ambos foi motivada pelo exerc\u00edcio gratuito da medicina. S\u00e3o considerados protetores dos g\u00eameos e das crian\u00e7as. Por isso, o costume de distribuir doces para homenage\u00e1-los ou para cumprir promessas feitas a eles. No meu caso, &#8220;fi-lo porque qui-lo&#8221; e fa\u00e7o porque \u00e9 espiritualmente prazeroso.<\/p>\n<p>Nada mais do que isso. Nenhuma vincula\u00e7\u00e3o diab\u00f3lica. Faz pouco mais de uma semana resolvi espernear. No dia devotado aos santos, sa\u00ed \u00e0s ruas com sacolas edulcoradas para satisfazer meu prazer de quase cinco d\u00e9cadas. Ao oferecer doces para duas crian\u00e7as acompanhadas de uma jovem senhora com pose de madame, acabei sendo tratado como o dem\u00f4nio travestido de doador de guloseimas. Quase me fazendo engolir os saquinhos, a falsa lady respondeu grosseiramente que ela e os filhos n\u00e3o comem nada doado que venha do Diabo. N\u00e3o sou rancoroso, mas costumo retribuir imbecilidades com algum aconselhamento. Dessa vez, mudei o tom. Subi nas tamancas e discursei para a meia d\u00fazia de meninos e meninas que aceitaram a carinhosa doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Dona mo\u00e7a, na minha casa todos comem doce de Cosme e Dami\u00e3o. Do mesmo modo, comemos os salgadinhos da cantina da Assembleia de Deus, tomamos o a\u00e7a\u00ed da Igreja Universal, adoramos o pastel de vento da Igreja Cat\u00f3lica e n\u00e3o perdemos por nada deste mundo a deliciosa feijoada de S\u00e3o Jorge ou o churrasquinho de Buda. A maldade est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o das pessoas e n\u00e3o nos doces, comidas e afins&#8221;. Aspeei porque, naquele momento, me vi falando em nome de uma silenciosa multid\u00e3o que n\u00e3o aceita, mas engole a hipocrisia barata de quem chegou \u00e0 capital, mas ainda n\u00e3o aprendeu que coletividade \u00e9 sin\u00f4nimo de pluralidade, de pluripartidarismo, de respeito ao pr\u00f3ximo. Ainda vou apanhar por isso, mas n\u00e3o deixo de reagir. Salve S\u00e3o Cosme e S\u00e3o Dami\u00e3o!! Salvem as crian\u00e7as!! Salve a liberdade religiosa!!<\/p>\n<p><strong>*Mathuzal\u00e9m J\u00fanior \u00e9 jornalista profissional desde 1978<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cansado da pol\u00edtica, resolvi sair pelo menos um dia da rotina. Provisoriamente decidi enveredar por caminhos tortuosos, mas tamb\u00e9m interessantes. Debutei para a vida nu e, orgulhosamente, em um long\u00ednquo sub\u00farbio do Rio de Janeiro. Hoje estou vestido e vivendo na capital da Rep\u00fablica. 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