{"id":271755,"date":"2021-10-08T07:39:05","date_gmt":"2021-10-08T10:39:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=271755"},"modified":"2021-10-08T09:48:38","modified_gmt":"2021-10-08T12:48:38","slug":"povo-precisa-agir-para-acabar-com-escravismo-que-criou-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/povo-precisa-agir-para-acabar-com-escravismo-que-criou-o-brasil\/","title":{"rendered":"Povo precisa agir contra escravismo no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Somos filhos do escravismo, a chaga colonial que pautou o imp\u00e9rio, argamassa daquilo que chamamos de na\u00e7\u00e3o, uma aspira\u00e7\u00e3o de povo, um projeto de pa\u00eds: &#8220;N\u00e3o h\u00e1, nunca houve, aqui, um povo livre, regendo seu destino na busca da pr\u00f3pria prosperidade. [&#8230;] N\u00f3s, brasileiros, somos um povo em ser impedido de s\u00ea-lo&#8221; (Darcy Ribeiro, O povo brasileiro). Continuamos como um projeto, um advir, olhando com justo mal-estar para nossa forma\u00e7\u00e3o de povo, na\u00e7\u00e3o, pa\u00eds, uma expectativa sempre adiada, uma realidade sempre anacr\u00f4nica, um permanente descompasso em face do mundo.<\/p>\n<p>Uma civiliza\u00e7\u00e3o que carrega a pena de S\u00edsifo, sempre a refazer suas pegadas quando tudo indica haver-se encontrado com o progresso humano. Mas civiliza\u00e7\u00e3o incans\u00e1vel, que at\u00e9 aqui n\u00e3o renunciou ao of\u00edcio de tentar chegar ao topo da montanha, esperan\u00e7a ap\u00f3s esperan\u00e7a, frustra\u00e7\u00e3o ap\u00f3s frustra\u00e7\u00e3o: o imp\u00e9rio que reproduz a col\u00f4nia; a rep\u00fablica que convive com a hegemonia do latif\u00fandio; uma &#8220;revolu\u00e7\u00e3o&#8221; que n\u00e3o toca na ordem econ\u00f4mico-social; uma democracia que n\u00e3o convive com a emerg\u00eancia das massas.<\/p>\n<p>Os sonhos dos anos 1960 destru\u00eddos pela ditadura de 1964; as expectativas de um novo pacto social desfeitas pelo golpe de 2016; a irrup\u00e7\u00e3o da extrema-direita em pa\u00eds que se supunha democr\u00e1tico e progressista. A tutela militar quando o pa\u00eds da &#8220;Constitui\u00e7\u00e3o cidad\u00e3&#8221; aspirava \u00e0 sua maioridade. Se continuamos lutando e nos nutrindo de esperan\u00e7as, tem-nos faltado, por\u00e9m, at\u00e9 aqui, engenho e arte para impedir que o destino desejado resvale de nossas m\u00e3os como a pedra que S\u00edsifo, condenado a uma vida sem sentido, n\u00e3o consegue manter no alto.<\/p>\n<p>Este, o grande desafio da esfinge.<\/p>\n<p>A base de nossa forma\u00e7\u00e3o s\u00e3o o etnoc\u00eddio e o escravismo, a viol\u00eancia do senhor da terra sobre o trabalhador, o mando da casa-grande sobre a senzala, do engenho sobre o eito; do capital crescentemente monopolista e a\u00e7ambarcador sobre o trabalho humano, explorado em n\u00edveis chocantes at\u00e9 mesmo para os padr\u00f5es do capitalismo internacional. Assim se explica nossa sociedade estruturalmente autorit\u00e1ria e racista apta a reproduzir, no capitalismo que a tanto se presta, as formas mais indignas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho humano.<\/p>\n<p>Da lavoura do a\u00e7\u00facar ao agroneg\u00f3cio moderno; das feitorias ao pa\u00eds moderno; do engenho \u00e0s grandes f\u00e1bricas, bancos e conglomerados, quase tudo mudou nesses 500 anos de exist\u00eancia. Conhecemos, irrup\u00e7\u00f5es, insurg\u00eancias e guerras. Guerreamos um pa\u00eds vizinho e dizimamos seu povo. Participamos de um conflito mundial lutando em teatro estrangeiro. Intoc\u00e1vel, por\u00e9m, permaneceu o mando. Os donos do poder de hoje s\u00e3o os herdeiros do poder que, em cinco s\u00e9culos de explora\u00e7\u00e3o e sobrexplora\u00e7\u00e3o, constru\u00edram uma das mais injustas sociedades jamais conhecidas pela humanidade.<\/p>\n<p>Deste ponto de vista o atual regime n\u00e3o pode ser considerado &#8220;um ponto fora da curva&#8221;. Nos 67 anos do imp\u00e9rio, com dois monarcas e v\u00e1rios gabinetes, tivemos um s\u00f3 governante: os interesses do latif\u00fandio. Os tumultuados 132 anos da vida republicana registram a elei\u00e7\u00e3o de apenas quatro governos de centro-esquerda, o \u00faltimo dos quais defenestrado.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia do Brasil de hoje n\u00e3o \u00e9 fruto do acaso, nem encontrar\u00e1 sa\u00edda, qualquer que seja a voz das elei\u00e7\u00f5es de 2022, no repert\u00f3rio do neoliberalismo, a exacerba\u00e7\u00e3o da disfuncionalidade do capitalismo em sua crise contempor\u00e2nea, ainda longe do \u00e1pice. O mundo, e o Brasil no mundo (pa\u00eds nenhum \u00e9 uma ilha), caminham para grandes abalos que vir\u00e3o \u00e0 tona na sequ\u00eancia de profundas transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, em curso, e grandes traumas sociais. N\u00e3o se trata, t\u00e3o s\u00f3, das consequ\u00eancias, para a economia e para a pol\u00edtica, da chamada revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, rompendo com as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, alterando mesmo o papel do proletariado como vanguarda revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em meio a tais transforma\u00e7\u00f5es, certamente as mais profundas em dois s\u00e9culos, assiste-se ao sempre traum\u00e1tico processo de mudan\u00e7a da hegemonia pol\u00edtico-econ\u00f4mica, transitando de um Ocidente decadente (mas altamente belicoso) para uma Eur\u00e1sia emergente. As implica\u00e7\u00f5es sobre nossa hist\u00f3ria dom\u00e9stica s\u00e3o mais que evidentes e quaisquer que sejam os desafios interpostos eles n\u00e3o poder\u00e3o ser enfrentados vantajosamente se n\u00e3o conseguirmos derrotar a atual hegemonia da classe dominante brasileira, colonizada, atrasada, for\u00e2nea.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 interdepend\u00eancia imposta pelo capitalismo em sua fase monopolista, em cen\u00e1rio internacional que n\u00e3o enseja proje\u00e7\u00f5es sen\u00e3o no curt\u00edssimo prazo, o Brasil, nada obstante as for\u00e7as dominantes, ingressa em processo de profunda transforma\u00e7\u00e3o estrutural que ser\u00e1 ditado pelas contradi\u00e7\u00f5es que o regime de classes n\u00e3o pode resolver e o neoliberalismo est\u00e1 levando ao paroxismo. O conflito entre o passado e o futuro est\u00e1 estabelecido gerando novas for\u00e7as e, certamente, novas formas de luta que cobrar\u00e3o das forma\u00e7\u00f5es progressistas, especialmente da esquerda socialista, inusitada capacidade de constitui\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as diretas com as grandes massas. O que Jean-Marie Gu\u00e9henno chama de &#8220;rio subterr\u00e2neo que incha fora de vista&#8221; (Valor,1\u00ba\/10\/21) pode vir \u00e0 tona e levar\u00e1 de rold\u00e3o aquelas for\u00e7as que n\u00e3o souberem navegar em suas \u00e1guas, dando destino e rumo ao fato social.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o desafio que a hist\u00f3ria coloca para as for\u00e7as progressistas brasileiras.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es de 2022 n\u00e3o ser\u00e3o o porto seguro com o qual os socialistas poder\u00e3o voltar a sonhar, nem evitar\u00e3o a ruptura (que n\u00e3o devemos temer), qualquer que seja seu resultado. Trata-se de ponto de partida sem o qual dificilmente haver\u00e1 um segundo degrau, neste sentido constituindo marco da maior import\u00e2ncia, indicador das condi\u00e7\u00f5es de lutas futuras. Da\u00ed seu car\u00e1ter ag\u00f4nico. A conquista da presid\u00eancia da rep\u00fablica por for\u00e7as de centro-esquerda e nessa altura a constru\u00e7\u00e3o de uma alian\u00e7a pol\u00edtico-popular de sustenta\u00e7\u00e3o de uma nova ordem, adversa da atual, adquirem o car\u00e1ter de etapa priorit\u00e1ria do projeto estrat\u00e9gico de uma sociedade em busca da supress\u00e3o da ditadura de classe. Mas ainda n\u00e3o ser\u00e1 o ponto de chegada.<\/p>\n<p>Quaisquer que sejam as condi\u00e7\u00f5es de luta colocadas pelo processo social, imp\u00f5e-se, desde j\u00e1, o esfor\u00e7o por mobilizar uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na sociedade, sem o que n\u00e3o contaremos com alternativas favor\u00e1veis de m\u00e9dio e longo prazo. Ao contr\u00e1rio do que parecia cr\u00edvel em 2003, e principalmente em 2014, a concilia\u00e7\u00e3o de classes, ou, sua vari\u00e1vel, a alian\u00e7a conservadora, e muito menos a desastrada ren\u00fancia \u00e0 defesa das teses da esquerda socialista, jamais ser\u00e3o suficientes para sustentar um governo simplesmente progressista. De outra parte, o impasse pol\u00edtico de nossos dias, um de cujos aspectos \u00e9 a resist\u00eancia do advers\u00e1rio, exige a imediata revis\u00e3o das t\u00e1ticas de nosso campo. \u00c9 \u00f3bvio que a estrat\u00e9gia da reconquista da hegemonia da centro-esquerda (perdida em 2014 mesmo havendo ganho as elei\u00e7\u00f5es!) desenvolve-se em tr\u00eas etapas intranspon\u00edveis, sequenciais e auto comunicantes, que s\u00e3o a luta pr\u00f3pria de 2021, as elei\u00e7\u00f5es de 2022 (etapas que integram o movimento que podemos chamar de &#8220;Fora Bolsonaro&#8221;) e a sustenta\u00e7\u00e3o de um eventual governo pol\u00edtica e fatualmente comprometido com as grandes massas.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta, pois, mirando 2022, supor que a tarefa se encerra na conquista de uma maioria simplesmente suficiente para ganhar o pleito. Isso seria ignorar as dram\u00e1ticas li\u00e7\u00f5es de 2014 e 2016. Somos fruto do nosso passado, mas essa evid\u00eancia n\u00e3o pode cair sobre nossos ombros como uma trag\u00e9dia ditada pelo Olimpo; cabe-nos intervir exercendo o papel de sujeito no processo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p><strong>*Escritor e ex-ministro de Ci\u00eancia e Tecnologia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somos filhos do escravismo, a chaga colonial que pautou o imp\u00e9rio, argamassa daquilo que chamamos de na\u00e7\u00e3o, uma aspira\u00e7\u00e3o de povo, um projeto de pa\u00eds: &#8220;N\u00e3o h\u00e1, nunca houve, aqui, um povo livre, regendo seu destino na busca da pr\u00f3pria prosperidade. 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