{"id":272023,"date":"2021-10-10T21:04:21","date_gmt":"2021-10-11T00:04:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=272023"},"modified":"2021-10-11T15:07:10","modified_gmt":"2021-10-11T18:07:10","slug":"ze-keti-profeta-previu-bem-antes-brasileiro-na-fila-do-osso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ze-keti-profeta-previu-bem-antes-brasileiro-na-fila-do-osso\/","title":{"rendered":"Z\u00e9 Keti, como profeta, previu brasileiro na fila do osso"},"content":{"rendered":"<p>\u201cSe n\u00e3o tem carne, eu compro um osso e ponho na sopa\/E deixo andar, deixo andar\u201d. (Z\u00e9 Keti. Opini\u00e3o. 1964)<\/p>\n<p>Meninas, eu vi. Vi e ouvi o Z\u00e9 Keti cantar seu samba \u201cOpini\u00e3o\u201d no Teatro de Arena, em Copacabana, no show com Jo\u00e3o do Vale e Maria Bet\u00e2nia. Foi um deslumbramento para o amazonense de 18 anos que havia se pirulitado de Manaus, em 1965, com uma m\u00e3o na frente e outra atr\u00e1s para estudar jornalismo e direito no Rio. De repente, estava ali, a um metro de dist\u00e2ncia de tr\u00eas artistas, que ora cantavam, ora narravam suas viv\u00eancias no tablado que servia de palco e permitia essa intimidade com o p\u00fablico. Uma semana depois, uma humilhante experi\u00eancia me daria a dimens\u00e3o do osso na sopa. Conto como foi.<\/p>\n<p>Antes, uma advert\u00eancia: \u00ednvios e tortuosos s\u00e3o os caminhos e as armadilhas da mem\u00f3ria! A lembran\u00e7a do Z\u00e9 Keti foi provocada nesta semana pelas discretas comemora\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio do compositor e cantor carioca nascido em 1921. A letra de \u201cOpini\u00e3o\u201d adquiriu, ent\u00e3o, um tom prof\u00e9tico ao permitir sua associa\u00e7\u00e3o com recentes cenas sinistras da fila do osso em v\u00e1rias cidades brasileiras.<\/p>\n<p>\u2013 Tem gente que pega o osso e j\u00e1 raspa os fiapos de carne crua com os dentes, ali mesmo na fila \u2013 disse Samara Rodrigues, dona do a\u00e7ougue Atacad\u00e3o da Carne, em Cuiab\u00e1. Ela contou chorando que nunca viu a fome t\u00e3o de perto quanto na fila dos ossos. No (des)governo Bolsonaro, a fila cresceu assustadoramente. O n\u00famero de brasileiros com fome duplicou nos \u00faltimos dois anos, s\u00e3o quase 20 milh\u00f5es, conforme reportagem do \u201c<em>Fant\u00e1stico<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que quando o cantor e compositor carioca cantou \u201cOpini\u00e3o\u201d, logo ap\u00f3s o golpe militar-empresarial de 1964, ele protestava contra a remo\u00e7\u00e3o for\u00e7ada das favelas promovida pelo governador do Rio, Carlos Lacerda: \u201cDaqui do morro, eu n\u00e3o saio n\u00e3o\u201d. Mas agora a letra do samba se torna ainda mais dram\u00e1tica. Brasileiros em situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade social disputam ossos e pelancas antes distribu\u00eddos a cachorros, sob o olhar insens\u00edvel da classe empresarial e de seus representantes no governo, o ministro Paulo Guedes Offshore e Bob Fields Grandson, que trocaram o inferno fiscal do Brasil pelo para\u00edso da Su\u00ed\u00e7a e das Ilhas do Caribe.<\/p>\n<p><strong>Televis\u00e3o de cachorro<\/strong><br \/>\nTal insensibilidade me fez evocar a experi\u00eancia ocasional com a fome de um estudante provinciano pobre numa sociedade mendicante. O fato, circunscrito ao \u00e2mbito pessoal, carece de qualquer dimens\u00e3o hist\u00f3rica. Embora irrelevante, ilustra de forma microsc\u00f3pica a desumanidade e indiferen\u00e7a daqueles que, podres de rico. humilham os famintos. Foi assim.<\/p>\n<p>Sem ter onde cair morto, assisti ao show do \u201cOpini\u00e3o\u201d gra\u00e7as ao professor Or\u00edgenes Martins, de quem eu havia sido aluno de Did\u00e1tica no Curso Pedag\u00f3gico do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o do Amazonas. Diretor e dono do col\u00e9gio Christus, ele me contratou naquela \u00e9poca para dar aulas no 5\u00ba ano do Ensino Prim\u00e1rio. Da\u00ed nasceu uma amizade. Agora, de passagem pelo Rio, convidou seu ex-aluno para ir ao teatro e, em seguida, para jantar, bancando os gastos na v\u00e9spera de seu retorno a Manaus. Beleza!<\/p>\n<p>No domingo seguinte, o restaurante do Calabou\u00e7o para estudantes estava fechado. Eu tinha, se bem me lembro, apenas Cr$500,00, o pre\u00e7o de um sandu\u00edche de queijo no Bob\u00b4s, o que era insuficiente para matar a fome de um mancebo saudoso do feij\u00e3o da mam\u00e3e. Precisava de algo mais consistente. Caminhei at\u00e9 a Cinel\u00e2ndia, L\u00e1, na rua \u00c1lvaro Alvim, o restaurante Spaghettil\u00e2ndia, que continua ainda hoje no mesmo endere\u00e7o, oferecia um espaguete \u00e0 bolonhesa com res\u00edduos de carne mo\u00edda por CR$700,00 Era o que havia de mais barato no menu.<\/p>\n<p>Sai explorando os arredores, em busca de algo compat\u00edvel com o capital que dispunha onshore, digo, no meu bolso. Na rua Senador Dantas, o restaurante Olona, que permanece atualmente no mesmo lugar, oferecia um prato de talharim ao alho e \u00f3leo ao pre\u00e7o de Cr$600,00, ou seja, aproximadamente 0,8% do sal\u00e1rio m\u00ednimo, que na \u00e9poca era Cr$84.000,00. Fiquei ali, como um cachorro diante de uma m\u00e1quina de assar frango, olhando o movimento e criando coragem para \u201centrar na fila dos ossos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Acender as velas<\/strong><br \/>\nDe repente, saiu do restaurante um senhor bem vestido que acabara de almo\u00e7ar. Nunca esquecerei suas fei\u00e7\u00f5es. Nunca. Ele parecia fisicamente com o Professor Scaramouche, o vil\u00e3o do filme Aviso aos Navegantes, vivido por Jos\u00e9 Lewgoy. N\u00e3o tinha a barbicha do personagem, mas era o mesmo formato do bigode. Parou na porta para acender um cigarro. Levantou a sobrancelha espessa. Aproveitei o momento, me aproximei e falei bem baixinho, discretamente, de cabe\u00e7a baixa, mostrando as notas do dinheiro na m\u00e3o como nos filmes em branco e preto do neorrealismo italiano:<\/p>\n<p>\u2013 Me desculpe. Sou um estudante amazonense. Estou com fome. Tenho esses Cr$500,00. Preciso de Cr$100,00 para poder comer um prato de macarr\u00e3o. Ser\u00e1 que o senhor pode completar?<\/p>\n<p>Cem cruzeiros era o pre\u00e7o de um cafezinho. Se ele me desse pequena parte da gorjeta do gar\u00e7om, matava minha fome. Sua rea\u00e7\u00e3o, no entanto, foi outra. Berrou em voz alta, tornando p\u00fablica a humilha\u00e7\u00e3o para o restaurante e at\u00e9 para quem passava na rua:<\/p>\n<p>\u2013 Vai criar vergonha, vai trabalhar. Um mo\u00e7o forte, que esbanja sa\u00fade, pedindo esmola como um vagabundo\u2026<\/p>\n<p>Santo rem\u00e9dio. A fome passou. O lado positivo do epis\u00f3dio foi que economizei os Cr$500,00. Fugi dali em disparada, t\u00e3o humilhado, que perdi at\u00e9 a vontade de comer o sanduiche de queijo no Bob\u2019s e nem tive \u00e2nimo para pegar um osso e colocar na sopa.<\/p>\n<p>As cenas de gente atr\u00e1s dos ossos, me fez evocar as diversas fomes, a minha e a hist\u00f3rica, que a humanidade sofre nos per\u00edodos de barb\u00e1rie. Lembrei o samba do Z\u00e9 Keti, filho de um marinheiro tocador de cavaquinho que morreu cedo. A crian\u00e7a t\u00edmida de tr\u00eas anos educada pelo av\u00f4 flautista e pianista legou ao Brasil um vasto repert\u00f3rio de mais de 200 m\u00fasicas. Participou de v\u00e1rios filmes como ator e como assistente de c\u00e2mara e atuou no Centro Popular de Cultura da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (CPC da UNE). Talvez seja desconhecido das novas gera\u00e7\u00f5es que, apesar disso, cantam suas m\u00fasicas no carnaval, entre elas a famosa marcha-rancho M\u00e1scara Negra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSe n\u00e3o tem carne, eu compro um osso e ponho na sopa\/E deixo andar, deixo andar\u201d. (Z\u00e9 Keti. Opini\u00e3o. 1964) Meninas, eu vi. Vi e ouvi o Z\u00e9 Keti cantar seu samba \u201cOpini\u00e3o\u201d no Teatro de Arena, em Copacabana, no show com Jo\u00e3o do Vale e Maria Bet\u00e2nia. 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