{"id":272103,"date":"2021-10-12T06:20:10","date_gmt":"2021-10-12T09:20:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=272103"},"modified":"2021-10-12T06:19:11","modified_gmt":"2021-10-12T09:19:11","slug":"fome-tira-o-prazer-de-brincar-de-9-milhoes-de-criancas-brasileiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fome-tira-o-prazer-de-brincar-de-9-milhoes-de-criancas-brasileiras\/","title":{"rendered":"Fome tira o prazer de brincar de 9 milh\u00f5es de crian\u00e7as brasileiras"},"content":{"rendered":"<p>As doa\u00e7\u00f5es de alimentos est\u00e3o rareando em Caranguejo Tabaiares, comunidade de 5 mil habitantes na periferia de Recife (PE). E, quando chegam, acabam muito antes suprir toda a demanda, que est\u00e1 cada vez maior, de pessoas sem comida o suficiente em casa.<\/p>\n<p>Ali, algumas m\u00e3es j\u00e1 vinham se queixando de colocar os filhos para dormir com fome meses atr\u00e1s, sem saber se teriam com o que aliment\u00e1-los no dia seguinte. Desde ent\u00e3o, dizem l\u00edderes comunit\u00e1rias, a situa\u00e7\u00e3o se agravou.<\/p>\n<p>&#8220;A fome j\u00e1 era uma constante na nossa periferia. S\u00f3 piorou com essa pandemia&#8221;, conta Daniele Lins da Paix\u00e3o, que integra a organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria Caranguejo Tabaiares Resiste. &#8220;Da\u00ed as crian\u00e7as pedem um biscoito e a m\u00e3e n\u00e3o consegue dar. E se sente culpada, incapaz. \u00c9 um sofrimento muito grande.&#8221;<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o de desemprego alto, crise econ\u00f4mica, assist\u00eancia social insuficiente e aumento nos pre\u00e7os dos alimentos, em plena pandemia, tem se refletido em um aumento na pobreza e na fome, que afeta ao menos 19 milh\u00f5es de brasileiros. E \u00e9 nas fam\u00edlias com crian\u00e7as que os efeitos s\u00e3o mais agudos.<\/p>\n<p>E uma vez que as crian\u00e7as est\u00e3o em uma fase crucial de seu desenvolvimento, \u00e9 nelas que a fome pode deixar mais impactos de longo prazo. \u00c0s vezes, para a vida toda.<\/p>\n<p>H\u00e1 ao menos 9,1 milh\u00f5es de crian\u00e7as de 0 a 14 anos em situa\u00e7\u00e3o domiciliar de extrema pobreza (vivendo com renda per capita mensal de no m\u00e1ximo R$ 275), calcula a Funda\u00e7\u00e3o Abrinq pelos Direitos da Crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, isso provavelmente significa que elas est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar, porque a fam\u00edlia n\u00e3o ter\u00e1 dinheiro o suficiente para garantir todas as refei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o em que \u00e0s vezes a fam\u00edlia consegue fazer o almo\u00e7o, mas n\u00e3o o jantar. E n\u00e3o sabe o que vai acontecer naquele mesmo dia&#8221;, explica C\u00edntia da Cunha Otoni, l\u00edder da \u00e1rea de sa\u00fade da Funda\u00e7\u00e3o Abrinq. &#8220;J\u00e1 existia uma situa\u00e7\u00e3o grande de inseguran\u00e7a alimentar, mas se agravou muito na pandemia devido \u00e0 queda na renda familiar.&#8221;<\/p>\n<p>O c\u00e1lculo da Abrinq foi feito com base em dados de 2019 do IBGE (da pesquisa Pnad Cont\u00ednua) e leva em conta inclusive o dinheiro recebido por essas fam\u00edlias via programas governamentais, como Bolsa Fam\u00edlia e Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada.<\/p>\n<p>Como a pobreza aumentou desde ent\u00e3o, esse n\u00famero de crian\u00e7as na pobreza extrema e com fome muito provavelmente cresceu neste ano \u2014 sobretudo porque o custo dos alimentos tem um peso muito grande no or\u00e7amento das fam\u00edlias mais pobres. Hoje, na m\u00e9dia, uma fam\u00edlia que ganha um sal\u00e1rio m\u00ednimo j\u00e1 gasta 55% dessa renda comprando os alimentos b\u00e1sicos suficientes para apenas uma pessoa adulta, aponta o Dieese.<\/p>\n<p>Outros dados refor\u00e7am essa percep\u00e7\u00e3o. Enquanto 56% da popula\u00e7\u00e3o adulta brasileira viu sua renda cair desde o in\u00edcio da pandemia, essa porcentagem sobe para 64% no subgrupo de adultos que moram com crian\u00e7as e adolescentes, segundo pesquisa do Unicef (bra\u00e7o da ONU para a inf\u00e2ncia) realizada em maio de 2021.<\/p>\n<p>&#8220;Embora a gente saiba que as crian\u00e7as n\u00e3o foram mais afetadas pelo v\u00edrus (da covid-19) em si, elas s\u00e3o as mais afetadas pelos impactos secund\u00e1rios que toda essa situa\u00e7\u00e3o trouxe e pela interrup\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os&#8221;, disse a representante do Unicef no Brasil, Florence Bauer, durante simp\u00f3sio realizado no dia 6 de outubro pelo N\u00facleo da Ci\u00eancia Pela Inf\u00e2ncia (NCPI).<\/p>\n<p><strong>Comendo menos e pior<\/strong><br \/>\nBauer destacou, tamb\u00e9m, como piorou a qualidade da comida ingerida: 29% das fam\u00edlias brasileiras est\u00e3o comendo mais alimentos industrializados, 22% est\u00e3o consumindo mais bebidas a\u00e7ucaradas, e 18% est\u00e3o ingerindo mais fast food, segundo a pesquisa do Unicef.<\/p>\n<p>Esses alimentos s\u00e3o mais baratos e fartamente dispon\u00edveis. Mas costumam ser p\u00e9ssimos para a sa\u00fade, por n\u00e3o serem nutritivos e conterem excesso de s\u00f3dio, a\u00e7\u00facares e gordura.<\/p>\n<p>Ou seja, al\u00e9m de eles n\u00e3o proverem as crian\u00e7as com os nutrientes presentes nos alimentos in natura, eles favorecem a obesidade, diabetes e outros problemas de sa\u00fade de longo prazo.<\/p>\n<p>Nas casas em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar (ou seja, com alimentos em quantidade insuficiente), o consumo de comida saud\u00e1vel caiu 85% na pandemia, aponta uma pesquisa do grupo Food For Justice lan\u00e7ada em abril.<\/p>\n<p>A carne vermelha, cujo pre\u00e7o subiu mais de 30% em 12 meses, segundo o IBGE, \u00e9 uma das principais fontes de ferro, um nutriente particularmente importante para as crian\u00e7as \u2014 e a defici\u00eancia de ferro (ou anemia) pode causar atrasos no desenvolvimento e deix\u00e1-las mais expostas a infec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A queda no consumo de carne, por sinal, desperta preocupa\u00e7\u00e3o por potencialmente agravar uma estat\u00edstica j\u00e1 considerada &#8220;tr\u00e1gica&#8221;: a de que uma em cada tr\u00eas crian\u00e7as brasileiras sofre de anemia.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o ter uma alimenta\u00e7\u00e3o adequada nessa fase do desenvolvimento (na inf\u00e2ncia) pode deixar impactos na sa\u00fade para o resto da vida, pelo risco de desenvolverem problemas mais para frente (na vida adulta)&#8221;, agregou Bauer.<\/p>\n<p>Ela lembrou, tamb\u00e9m, que quase a metade das crian\u00e7as da rede p\u00fablica de ensino ficaram sem acesso \u00e0 merenda escolar durante os meses de escolas fechadas. &#8220;E sabemos que, para muitas delas, essa era a principal refei\u00e7\u00e3o do dia.&#8221;<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o nutricional das crian\u00e7as brasileiras j\u00e1 era preocupante. Uma ampla pesquisa nacional, feita entre 2019 e 2020 com 13 mil fam\u00edlias com crian\u00e7as de at\u00e9 cinco anos, apontou que quase a metade delas vivia em algum grau de inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Isso corresponde a 6 milh\u00f5es de fam\u00edlias em todo o Brasil, com maior incid\u00eancia nas regi\u00f5es Norte e Nordeste, segundo os c\u00e1lculos do Estudo Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o e Nutri\u00e7\u00e3o Infantil (Enani), coordenado por Gilberto Kac, professor titular do Instituto de Nutri\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).<\/p>\n<p>&#8220;Como a coleta de dados foi realizada antes da pandemia de covid-19, avaliamos que a preval\u00eancia de inseguran\u00e7a alimentar pode ser ainda mais elevada&#8221;, afirmou Kac, em comunicado.<\/p>\n<p><strong>Aumento da desigualdade<\/strong><br \/>\nO risco \u00e9 que o aumento da pobreza, junto \u00e0s interrup\u00e7\u00f5es em servi\u00e7os b\u00e1sicos de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o durante a pandemia, coloque em risco avan\u00e7os conquistados a duras penas na redu\u00e7\u00e3o das desigualdades brasileiras, diz o economista Naercio Menezes Filho, pesquisador do Centro de Gest\u00e3o e Pol\u00edticas P\u00fablicas (CGPP) do Insper.<\/p>\n<p>Nesse sentido, vale lembrar que a piora em todos os indicadores sociais apontados nesta reportagem incidiu mais fortemente em crian\u00e7as negras, pardas e ind\u00edgenas, e tamb\u00e9m mais nas regi\u00f5es Norte e Nordeste, que j\u00e1 vinham de uma situa\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8220;A gente sabe que a pobreza tem impactos fort\u00edssimos no desenvolvimento infantil e no futuro dessas crian\u00e7as. Todos esses impactos (sentidos) hoje elas v\u00e3o carregar ao longo da vida se nada for feito para atenu\u00e1-los. \u00c9 uma gera\u00e7\u00e3o inteira que pode ser afetada&#8221;, apontou Menezes, tamb\u00e9m durante o simp\u00f3sio do NCPI.<\/p>\n<p>&#8220;Crian\u00e7as que t\u00eam seu desenvolvimento dificultado v\u00e3o ter problemas de permanecer na escola no ensino m\u00e9dio, de entrar no ensino superior, de encontrar um emprego legal com carteira assinada, de empreender, e v\u00e3o ter problemas ao longo do seu ciclo de vida.&#8221;<\/p>\n<p>O economista lembrou que, embora todos os grupos sociais tenham registrado perda de emprego durante a pandemia, a maior parte das demiss\u00f5es ocorreu entre as pessoas menos escolarizadas.<\/p>\n<p>E, mesmo agora no in\u00edcio da retomada econ\u00f4mica, esse \u00e9 o grupo que tamb\u00e9m est\u00e1 tendo mais dificuldade em voltar ao mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Isso reflete na capacidade desses pais de proverem o b\u00e1sico para seus filhos \u2014 e tamb\u00e9m de acreditarem que seus filhos ter\u00e3o condi\u00e7\u00e3o de sair da pobreza.<\/p>\n<p>Dados de uma pesquisa global da Gallup consolidados pela FGV Social apontam que, entre os 40% mais pobres do Brasil, 11% deixaram de acreditar que as crian\u00e7as teriam a oportunidade de aprender e crescer na pandemia, \u00edndice quase dez vezes maior do que a m\u00e9dia internacional nessa faixa de renda. Essa perda de esperan\u00e7a tem um impacto importante, explica \u00e0 BBC News Brasil o economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social.<\/p>\n<p>&#8220;Esses dados s\u00e3o subjetivos, mas refletem esse problema de transmiss\u00e3o da desigualdade entre gera\u00e7\u00f5es. Ferir essa percep\u00e7\u00e3o de que, mesmo quando se \u00e9 pobre, se pode subir na vida tem o efeito de frustrar a ascens\u00e3o social&#8221;, explica. &#8220;Apesar de os indicadores infantis e de educa\u00e7\u00e3o do Brasil serem (historicamente) muito ruins, eles vinham melhorando nos \u00faltimos 30 anos. Agora, o vento que soprava a favor est\u00e1 soprando contra.&#8221;<\/p>\n<p><strong>As sa\u00eddas<\/strong><br \/>\nMudar esse cen\u00e1rio depende de um esfor\u00e7o articulado, sugere Naercio Menezes: desde um empenho muito grande em recuperar a aprendizagem perdida pelas crian\u00e7as mais vulner\u00e1veis durante os meses de escolas fechadas at\u00e9 um refor\u00e7o nos programas de sa\u00fade familiar, que identifiquem lacunas deixadas pela pandemia.<\/p>\n<p>Mas um passo crucial e urgente, opina o economista, \u00e9 corrigir lacunas no Bolsa Fam\u00edlia, programa que o governo de Jair Bolsonaro pretende reformular sob o nome de Aux\u00edlio Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;O Bolsa Fam\u00edlia j\u00e1 tinha (antes da pandemia) uma fila muito grande, de forma que 35% das fam\u00edlias pobres com crian\u00e7as tinham direito a receb\u00ea-lo, mas n\u00e3o o recebiam. S\u00e3o problemas graves de pobreza que est\u00e3o se acentuando&#8221;, argumentou perante o NCPI.<\/p>\n<p>&#8220;Por isso eu ressalto a import\u00e2ncia de termos pol\u00edticas p\u00fablicas, agora que a vacina\u00e7\u00e3o est\u00e1 atingindo grande parte da popula\u00e7\u00e3o. Para o ano que vem, a gente precisa reconstruir toda essa rede de prote\u00e7\u00e3o social dos \u00faltimos 30 anos para n\u00e3o termos esse risco de aumento da desigualdade no futuro. Nosso objetivo \u00e9 gerar uma sociedade com mais igualdade de oportunidades, em que as chances de realizar seus sonhos na vida n\u00e3o dependam \u00fanica e exclusivamente se voc\u00ea nasceu numa fam\u00edlia mais pobre ou mais rica&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As doa\u00e7\u00f5es de alimentos est\u00e3o rareando em Caranguejo Tabaiares, comunidade de 5 mil habitantes na periferia de Recife (PE). E, quando chegam, acabam muito antes suprir toda a demanda, que est\u00e1 cada vez maior, de pessoas sem comida o suficiente em casa. Ali, algumas m\u00e3es j\u00e1 vinham se queixando de colocar os filhos para dormir [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":272104,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-272103","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/272103","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=272103"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/272103\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":272105,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/272103\/revisions\/272105"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/272104"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=272103"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=272103"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=272103"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}