{"id":272721,"date":"2021-10-19T23:52:15","date_gmt":"2021-10-20T02:52:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=272721"},"modified":"2021-10-20T00:24:13","modified_gmt":"2021-10-20T03:24:13","slug":"atraso-da-classe-dominante-atrasada-ainda-mais-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/atraso-da-classe-dominante-atrasada-ainda-mais-o-brasil\/","title":{"rendered":"Atraso da classe dominante atrasada atrasa mais o Brasil"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Por que o Brasil ainda n\u00e3o deu certo?&#8221; perguntava-se Darcy Ribeiro, pol\u00edtico, antrop\u00f3logo, ensa\u00edsta, conferencista e romancista, homem de grandes paix\u00f5es, certamente o mais inquieto dos pensadores brasileiros do s\u00e9culo passado, e, sem d\u00favida alguma, um dos mais prof\u00edcuos e desassombrados intelectuais-militantes que j\u00e1 tivemos. No seu estimulante O povo brasileiro, que come\u00e7ou a escrever no ex\u00edlio do Uruguai, aquela pergunta, a cuja busca de resposta dedica sua obra madura, \u00e9 formulada noutros termos, mais avan\u00e7ados, quando se indaga: &#8220;Por que, mais uma vez, a classe dominante nos vencia?&#8221; (referia-se \u00e0 vit\u00f3ria do golpe de 1964).<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o, como se v\u00ea, a pr\u00f3pria pergunta j\u00e1 trazia consigo a resposta, na indica\u00e7\u00e3o de nossa trag\u00e9dia hist\u00f3rica como resultado do controle do poder por uma gente med\u00edocre, perversa, anti-nacional, alienada e for\u00e2nea. Gente muito bem representada, ali\u00e1s, pelos comensais do regabofe na mans\u00e3o do especulador Naji Nahas, respons\u00e1vel pela quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, com o qual a casa-grande com seus procuradores (empres\u00e1rios, jornalistas, pol\u00edticos, advogados) comemorou o acordo inter-elite que, a pretexto de afastar as amea\u00e7as de golpe iminente, anunciado no dia 7 de setembro, assegurou ao capit\u00e3o Bolsonaro a inviabiliza\u00e7\u00e3o do impeachment e a impunidade de seus filhos.<\/p>\n<p>Fora o que n\u00e3o se conhece. Como sempre, os acordos se amarram no andar de cima da hierarquia mandante para observa\u00e7\u00e3o de todo o povo; desta vez o pacto foi traficado com militares, parlamentares e ministros do STF, tendo como costureiro e escriv\u00e3o o inef\u00e1vel ex-presidente Michel Temer, advogado com vasta experi\u00eancia nas Docas de Santos.<\/p>\n<p>A classe dominante brasileira \u00e9 uma das mais longevas do mundo, porque competente na preserva\u00e7\u00e3o do mando pol\u00edtico-econ\u00f4mico, o mesmo desde a col\u00f4nia, imune como se mostra a transforma\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Seu poder foi regado no escravismo e sobreviveria com a aboli\u00e7\u00e3o e o trabalho assalariado, mediante as mais variadas formas de explora\u00e7\u00e3o; proje\u00e7\u00e3o dos interesses rein\u00f3is, sobrevive na independ\u00eancia, e no imp\u00e9rio transitou do dom\u00ednio portugu\u00eas para o servi\u00e7o do colonialismo brit\u00e2nico. Hoje \u00e9 agente subalterno dos EUA. O pa\u00eds caminha do agrarismo \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo 20, da vida rural ao urbanismo; conhece insurg\u00eancias de toda ordem, e em todas elas o povo \u00e9 massacrado; desfaz-se da monarquia anacr\u00f4nica, a \u00faltima do continente, e adota a peculiar forma republicana de governo sem povo, de democracia juncada de golpes de Estado e ditaduras.<\/p>\n<p>Os antagonismos se resolvem na concilia\u00e7\u00e3o, sob o comando da classe dominante, que n\u00e3o permite reformas de fato. Seu objetivo, lembrava Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues, foi sempre acomodar as diverg\u00eancias dos grupos hegem\u00f4nicos e jamais conceder benef\u00edcios ao povo, posto de lado, capado e recapado de seu papel de sujeito hist\u00f3rico, como escreveu Capistrano de Abreu.<\/p>\n<p>O pa\u00eds conheceu momentos de turbul\u00eancia e momentos de progresso e expans\u00e3o capitalista. H\u00e1 quarenta anos convive com a estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, de par com desindustrializa\u00e7\u00e3o e brutal concentra\u00e7\u00e3o de renda. O poder da casa-grande, por\u00e9m, mais se fortalece. O pa\u00eds exportador de a\u00e7\u00facar e algod\u00e3o, na col\u00f4nia, enriqueceu a oligarquia paulista na rep\u00fablica com as exporta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9 a pre\u00e7os subsidiados pelo resto do pa\u00eds; hoje exporta gr\u00e3os e min\u00e9rio in natura, al\u00e9m de cientistas e pesquisadores, aos quais nega emprego, ap\u00f3s investir em sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aos trancos e barrancos, o Brasil se modernizou e hoje \u00e9 uma das dez principais pot\u00eancias do mundo, sem haver combatido as desigualdades sociais, o que revela o projeto de sociedade que nos governa. Em 500 anos de constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, nada amea\u00e7ou a classe dominante, imp\u00e1vida, insens\u00edvel, intocada, reproduzindo o mando da velha casa-grande, na col\u00f4nia e na rep\u00fablica, o poder da terra e do capital concentrado, financeirizado, globalizado.<br \/>\nEm 1930 comandou uma &#8220;revolu\u00e7\u00e3o&#8221; que n\u00e3o arranharia a ordem social e econ\u00f4mica; um de seus l\u00edderes, o governador mineiro Antonio Carlos de Andrada, proclamava: &#8220;Fa\u00e7amos a revolu\u00e7\u00e3o antes que o povo a fa\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>Modernizando o pa\u00eds a partir de uma ditadura (o &#8220;Estado novo&#8221;), o movimento de 1930 fortaleceu a ordem capitalista, e a &#8220;elite&#8221; econ\u00f4mica conservou o mando que n\u00e3o admite concess\u00f5es \u00e0 emerg\u00eancia de interesses nacionais ou populares. Talvez, nesse processo hist\u00f3rico, estejamos pr\u00f3ximos de encontrar explica\u00e7\u00e3o para o atraso da burguesia aqui vivente (e da\u00ed o atraso do pa\u00eds &#8220;que n\u00e3o d\u00e1 certo&#8221;): sendo brasileira, n\u00e3o \u00e9 nacional, pois jamais se conciliou, seja com os interesses da na\u00e7\u00e3o, seja com os interesses de seu povo; n\u00e3o tendo sido, jamais, progressista, nunca se conflitou com a aristocracia feudal, nem conheceu a menor contradi\u00e7\u00e3o com os interesses do imperialismo, do qual desde cedo se fez s\u00f3cia menor. A contradi\u00e7\u00e3o capital nacional versus imperialismo se resolveu numa composi\u00e7\u00e3o de interesses.<\/p>\n<p>Para essa burguesia, o povo \u00e9 um inc\u00f4modo e qualquer sorte de projeto nacional um anacronismo. Essas observa\u00e7\u00f5es me chegam com a leitura de entrevista concedida ao Estad\u00e3o (16) pelo presidente do conglomerado controlador do banco Ita\u00fa e uma s\u00e9rie de outras empresas.<\/p>\n<p>O banqueiro pede mais reforma trabalhista; n\u00e3o est\u00e1 satisfeito com os direitos j\u00e1 surrupiados dos trabalhadores. Quer mais abertura econ\u00f4mica, mais privatiza\u00e7\u00f5es, defende o aumento de juros, embora saiba que n\u00e3o sofremos de infla\u00e7\u00e3o de demanda. \u00c9 calorosamente contra o impeachment de Bolsonaro. Com o mesmo entusiasmo se diz eleitor de Jo\u00e3o Doria, que considera &#8220;um grande gestor p\u00fablico&#8221;, injusti\u00e7ado pela avalia\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 longa. Nenhuma palavra lhe ocorreu, por\u00e9m, sobre o desemprego, que atinge 14,7% da popula\u00e7\u00e3o ativa do pa\u00eds. Nada sobre a carestia que maltrata a popula\u00e7\u00e3o brasileira: a cesta b\u00e1sica passa de 60% do sal\u00e1rio m\u00ednimo, e 50% da popula\u00e7\u00e3o brasileira com mais de 16 anos mora em resid\u00eancia cuja receita n\u00e3o ultrapassa um sal\u00e1rio-m\u00ednimo. O endividamento das pessoas representa 59,9% da renda m\u00e9dia nacional, o pior resultado desde 2005, quando o indicador come\u00e7ou a ser apurado. Pelo menos 110 milh\u00f5es de brasileiros convivem com algum grau de inseguran\u00e7a alimentar (dados de 2020). Nenhuma palavra sobre as mais de 603 mil vidas levadas pela pandemia.<\/p>\n<p>Muitas palavras, por\u00e9m, para defender uma alternativa a Bolsonaro que n\u00e3o seja Lula. O sr. Alfredo Set\u00fabal n\u00e3o \u00e9 um ponto fora da curva, pelo contr\u00e1rio: suas opini\u00f5es, sua vis\u00e3o de mundo e de Brasil refletem o pensamento da atrasada classe dominante brasileira.<\/p>\n<p>H\u00e1 algumas poucas semanas, um analista da pol\u00edtica visitou as pra\u00e7as do Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo para conhecer a vis\u00e3o do grande empresariado sobre o quadro pol\u00edtico brasileiro e as expectativas para 2022, delineadas a partir das pesquisas de opini\u00e3o, fartamente divulgadas pela imprensa. De suas entrevistas colheu a manifesta rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 candidatura do ex-presidente Lula, a mesma rejei\u00e7\u00e3o que a grande oficialidade n\u00e3o cuida de disfar\u00e7ar. \u00c9 essa gente desapartada do pa\u00eds e do povo que dita o ritmo da pol\u00edtica e economia. \u00c9 com ela, portanto, que Lula ter\u00e1 de sentar para discutir um pacto de governabilidade, se conseguir se eleger mais uma vez. N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil; Dilma n\u00e3o conseguiu.<\/p>\n<p>*Escritor\u00a0 ministro da Ci\u00eancia\u00a0 Tecnologia de Lula<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Por que o Brasil ainda n\u00e3o deu certo?&#8221; perguntava-se Darcy Ribeiro, pol\u00edtico, antrop\u00f3logo, ensa\u00edsta, conferencista e romancista, homem de grandes paix\u00f5es, certamente o mais inquieto dos pensadores brasileiros do s\u00e9culo passado, e, sem d\u00favida alguma, um dos mais prof\u00edcuos e desassombrados intelectuais-militantes que j\u00e1 tivemos. No seu estimulante O povo brasileiro, que come\u00e7ou a escrever [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":272722,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-272721","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/272721","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=272721"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/272721\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":272730,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/272721\/revisions\/272730"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/272722"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=272721"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=272721"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=272721"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}