{"id":272787,"date":"2021-10-21T07:58:11","date_gmt":"2021-10-21T10:58:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=272787"},"modified":"2021-10-21T12:03:16","modified_gmt":"2021-10-21T15:03:16","slug":"mochila-nas-costas-pe-no-pedal-menino-vira-escravo-do-delivery","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mochila-nas-costas-pe-no-pedal-menino-vira-escravo-do-delivery\/","title":{"rendered":"Mochila nas costas, p\u00e9 no pedal; escravos do delivery"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto um grupo de entregadores, que utilizam bicicletas com a finalidade de trabalhar para empresas de aplicativos de delivery, conversava no Largo da Batata, regi\u00e3o de Pinheiros, Zona Oeste de S\u00e3o Paulo, *Diego dividia a aten\u00e7\u00e3o entre o papo e o celular. O di\u00e1logo com os colegas de labuta era sobre a redu\u00e7\u00e3o de chamadas nos \u00faltimos dias e o aumento da concorr\u00eancia nas ruas. A turma, que reunia cerca de oito homens, se desfazia \u00e0 medida que os pedidos chegavam. Depois de alguns minutos parado, chegou a vez de Diego ir at\u00e9 o estabelecimento para retirar a entrega. Depressa, pegou a mochila t\u00e9rmica \u2013 pendurada no galho de uma pequena \u00e1rvore \u2013 , e saiu em disparada at\u00e9 o endere\u00e7o, cerca de 2 km do restaurante. Em 10 minutos, o entregador havia executado a demanda e estava livre para a pr\u00f3xima solicita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessa rotina h\u00e1 quatro meses, Diego se mistura a milhares de entregadores que utilizam bicicletas para trabalhar em aplicativos de\u00a0delivery. No entanto, o que o distingue da maioria dos colegas \u00e9 a idade: ele tem 14 anos.<\/p>\n<p>Pelo menos tr\u00eas vezes por semana, ele pega o \u00f4nibus no Jardim Horizonte Azul, um bairro popular na Zona Sul, em dire\u00e7\u00e3o ao Largo da Batata, a cerca de 30 km de dist\u00e2ncia, para fazer as entregas na regi\u00e3o de Pinheiros, onde est\u00e3o alguns dos endere\u00e7os mais valorizados de S\u00e3o Paulo. \u201cN\u00e3o d\u00e1 para ficar l\u00e1 [no bairro] parado vendo o mundo girar. Como todo mundo, eu tamb\u00e9m preciso das minhas coisas.\u201d, justifica, enquanto confere onde ser\u00e1 a pr\u00f3xima retirada do pedido que acabara de receber.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico adolescente que tem trabalhado para aplicativos de entregas de delivery. Durante dois meses, a reportagem da Ag\u00eancia P\u00fablica conversou com meninos, com idades entre 14 e 17 anos, sobre a rotina de trabalho como entregadores de bike.<\/p>\n<p>Um deles \u00e9 *Felipe, que tem 17 anos e mora em Parais\u00f3polis, tamb\u00e9m na Zona Sul de S\u00e3o Paulo. Diariamente, ele pedala em torno de 10 quil\u00f4metros at\u00e9 a regi\u00e3o do Itaim Bibi, bairro de classe m\u00e9dia onde se concentram diversos hipermercados, restaurantes, lanchonetes, pr\u00e9dios residenciais e comerciais.<\/p>\n<p>O adolescente come\u00e7ou a labutar nas ruas h\u00e1 10 meses, depois de ser mandado embora do trabalho em um mercado na Vila Nova Concei\u00e7\u00e3o, o bairro com o metro quadrado mais caro da cidade. \u201cComecei a trabalhar l\u00e1 como Jovem Aprendiz aos 16 anos. Eles me mandaram embora por conta da pandemia. Eu era empacotador. Trabalhei l\u00e1 por uns 5 meses. At\u00e9 falaram que iam me chamar de novo, mas ficou s\u00f3 na conversa mesmo\u201d, conta.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ser dispensado do mercado, Felipe passou a trabalhar \u00e0s sextas, s\u00e1bados e domingos fazendo entregas de bicicleta para um restaurante em Parais\u00f3polis, uma das maiores favelas da capital paulista. No entanto, o propriet\u00e1rio, amigo da sua fam\u00edlia, foi infectado com a Covid-19 e faleceu. Por conta disso, o estabelecimento ficou fechado por um per\u00edodo e foi neste momento que Felipe se cadastrou como entregador nas plataformas Ifood e UberEats.<\/p>\n<p>Com o dinheiro que recebeu quando saiu do restaurante, o adolescente comprou uma bicicleta usada por R$ 100 e uma bag (mochila t\u00e9rmica para entregas) usada por R$ 60 e, com as dicas de alguns amigos, tamb\u00e9m adolescentes, decidiu se arriscar a fazer entregas fora da comunidade.<\/p>\n<p>Por conta do cansa\u00e7o f\u00edsico, Felipe prefere fazer as entregas no hor\u00e1rio da janta, entre 18h e 22h. \u00c0s vezes, ele tamb\u00e9m se arrisca no per\u00edodo do almo\u00e7o. No entanto, diz ser dif\u00edcil manter a rotina de dois turnos, por achar muito cansativa. Trabalhando s\u00f3 na parte da noite, pedala mais ou menos 60 km por dia. Fora o trajeto de ida e volta, que soma cerca de 20 km.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 noite, a minha perna d\u00f3i bastante. Hoje mesmo eu n\u00e3o fui trabalhar; meus joelhos est\u00e3o doendo. \u00c9 como se voc\u00ea fosse para academia e no outro dia estivesse todo dolorido. Tem dia que tem muitos pedidos e com o sangue quente, voc\u00ea nem sente. Por\u00e9m, quando eu chego em casa, depois que me sento, n\u00e3o consigo nem levantar direito. Normalmente nem sento. J\u00e1 tomo banho, me deito e morro de tanto cansa\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>Em janeiro deste ano, na segunda semana de trabalho, *Eduardo, de 15 anos, colidiu com um carro, na regi\u00e3o da\u00a0Faria Lima, uma importante avenida de S\u00e3o Paulo, quando estava a caminho de uma entrega. Ele presta servi\u00e7os para as empresas Rappi e Ifood. \u201cEu machuquei o meu rosto, bati a cabe\u00e7a no vidro e fiquei inconsciente. Chamaram a ambul\u00e2ncia, ligaram para o meu pai e me levaram para o hospital. Quando eu fui para delegacia para fazer o boletim, a motorista do carro que bati perguntou para meu pai se eu n\u00e3o era muito novo para trabalhar com isso. A\u00ed o policial falou para ela: \u2018\u00c9 melhor ele est\u00e1 trabalhando do que ele estar em casa fazendo nada ou at\u00e9 fazendo coisa errada&#8217;\u201d.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o do policial n\u00e3o \u00e9 um ponto de vista isolado. Isa Oliveira, coordenadora do F\u00f3rum Nacional de Preven\u00e7\u00e3o e Erradica\u00e7\u00e3o do Trabalho Infantil (FNPETI), diz que \u201co trabalho \u00e9 um valor muito forte na sociedade, ent\u00e3o as pessoas banalizam, desconhecem ou acham que o trabalho infantil \u00e9 um problema menor\u201d. \u201c A quest\u00e3o \u00e9: quem s\u00e3o os adolescentes e crian\u00e7as envolvidos no trabalho infantil? S\u00e3o crian\u00e7as de fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, de maior vulnerabilidade e um percentual elevado s\u00e3o negras. Ainda se tem uma quest\u00e3o racial. \u00c9 racismo mesmo. Esse \u00e9 um fato muito importante. A banaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 muito forte\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Em agosto passado, o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT) de S\u00e3o Paulo, por meio da Coordenadoria Regional de Combate a Explora\u00e7\u00e3o do Trabalho da Crian\u00e7a e Adolescente da 2\u00aa regi\u00e3o, encaminhou para os representantes de aplicativos de entrega uma notifica\u00e7\u00e3o recomendat\u00f3ria em que pede para as empresas se absterem \u201cde contratar ou utilizar, diretamente, ou por meio de terceiros, o trabalho de crian\u00e7a ou adolescente com idade inferior a 18 anos em qualquer atividade que implique a perman\u00eancia em ruas, avenidas e outros logradouros p\u00fablicos ou em locais que exponham a situa\u00e7\u00f5es de risco ou perigo\u201d. O documento tamb\u00e9m orienta as companhias a \u201cexercerem fiscaliza\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s atividades realizadas por terceiros como prestadores de servi\u00e7os como: entregadores, estabelecimentos comerciais, inclusive restaurantes, bares, lanchonetes\u201d, entre outros itens.\u201d<\/p>\n<p>O \u00f3rg\u00e3o abriu um Procedimento Promocional para apurar e conhecer os fatos relacionados \u00e0 den\u00fancia tratada na mat\u00e9ria publicada pela Reuters em dezembro do ano passado, que denuncia o trabalho de crian\u00e7as e adolescentes em empresas de delivery. As empresas Carbono Zero, 99, Rappi e Ifood foram convidadas para uma audi\u00eancia que aconteceu no dia 12 de agosto, na capital paulista. Segundo o procurador Bernardo Le\u00f4ncio,\u00a0ficou acordado que \u201cas empresas dever\u00e3o tomar medidas para evitar que menores de idade trabalhem fazendo entregas.\u201d Atualmente, o MPT est\u00e1 fiscalizando o cumprimento da recomenda\u00e7\u00e3o. Caso algum adolescente seja flagrado trabalhando com entregas, as partes ser\u00e3o chamadas para discutir o que ser\u00e1 feito em cada caso individualmente.<\/p>\n<p>\u201cAs empresas de aplicativos n\u00e3o podem ficar sem serem responsabilizadas\u201d, diz a coordenadora do F\u00f3rum Nacional de Preven\u00e7\u00e3o e Erradica\u00e7\u00e3o do Trabalho Infantil , Isa Oliveira.\u00a0 O procurador Le\u00f4ncio do MPT acredita que \u201ctoda cadeia produtiva precisa ser responsabilizada\u201d. \u201cN\u00f3s entendemos que \u00e9 uma quest\u00e3o da cadeia produtiva. A partir do momento que existe toda uma rede, quem t\u00e1 em cima, que no caso s\u00e3o os aplicativos, tem que se responsabilizar pela legalidade at\u00e9 a entrega do produto\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>Viola\u00e7\u00e3o de direitos<\/strong><br \/>\nS\u00e3o diversos os motivos que t\u00eam levado crian\u00e7as e adolescentes a trabalharem, principalmente durante a pandemia. Para a coordenadora do FNPETI, \u201ca redu\u00e7\u00e3o do aux\u00edlio emergencial est\u00e1 entre os principais. \u00c9 uma verdadeira piada, esse aux\u00edlio, primeiro porque ele \u00e9 intermitente, ele acontece de vez em quando e n\u00e3o em outros momentos, como se a quest\u00e3o da sobreviv\u00eancia, da alimenta\u00e7\u00e3o e do abrigo pudesse parar. A culpa n\u00e3o \u00e9 das fam\u00edlias, \u00e9 da aus\u00eancia e da omiss\u00e3o do Estado\u201d, diz. Para ela, \u201cna pandemia, as causas estruturais do trabalho infantil se tornaram mais graves e mais fortes\u201d. \u201cVoc\u00ea tem mais desigualdade social, o desemprego vem aumentando, as escolas fecharam e por isso a gente n\u00e3o pode responsabilizar s\u00f3 a pandemia, j\u00e1 havia uma inefici\u00eancia do estado, nesse per\u00edodo que antecedeu a pandemia e que ficou mais vis\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 importante levar em considera\u00e7\u00e3o quest\u00f5es estruturais para entender o trabalho infantil no Brasil,\u00a0 aponta a gestora do projeto Crian\u00e7a Livre do Trabalho Infantil, Bruna Ribeiro. \u201cA gente precisa entender que o trabalho infantil \u00e9 fruto da desigualdade social, do racismo estrutural e da pobreza. Se trabalho infantil fosse bom, seria previl\u00e9gio dos ricos. \u00c9 sim, de fato, um problema social e estrutural do nosso pa\u00eds, que tem uma rela\u00e7\u00e3o direta com a escraviza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra\u201d.<\/p>\n<p>Foram justamente alguns desses fatores estruturais que levaram Diego* a come\u00e7ar com as entregas de bike, mesmo sem o consentimento da m\u00e3e \u2013 que atualmente est\u00e1 desempregada e cria ele e os dois irm\u00e3os mais novos sozinha. *Meire, 34 anos, desde os 17 anos trabalha como manicure e cabeleireira. Desde o in\u00edcio da pandemia n\u00e3o tem conseguido atuar na \u00e1rea como antes e lamenta ter conseguido o aux\u00edlio emergencial apenas na libera\u00e7\u00e3o da primeira remessa.<\/p>\n<p>Meire, ao falar dos sal\u00f5es de beleza em que trabalhou \u2013 todos nas ricas regi\u00f5es das avenidas Paulista e Faria Lima \u2013 se diz orgulhosa por conta da experi\u00eancia que adquiriu. Para ela, o contato que teve com bons produtos e a maneira como as clientes eram tratadas a inspirou para abrir seu pr\u00f3prio sal\u00e3o. \u201cEu queria levar esse tipo de atendimento para as mulheres do meu bairro e ter o pr\u00f3prio neg\u00f3cio\u201d, conta.<\/p>\n<p>Focada no sonho de empreender em seu pr\u00f3prio estabelecimento,\u00a0no segundo semestre de 2019, ela investiu em um neg\u00f3cio pr\u00f3prio.\u00a0Trabalhou todos os dias do m\u00eas, incluindo natal e ano novo. Virou o ano na esperan\u00e7a de que o neg\u00f3cio daria certo. Por\u00e9m, em mar\u00e7o de 2020, se viu obrigada a fechar o sal\u00e3o por conta das medidas de restri\u00e7\u00e3o adotadas pelo munic\u00edpio. \u201cA minha renda diminuiu e s\u00f3 dava para comprar comida. As contas de \u00e1gua e luz atrasaram. Depois de um tempo, comecei a me sentir triste. Me tranquei e n\u00e3o tinha vontade de sair. S\u00f3 pensava nas contas, me bateu um desespero que nunca senti antes.\u201d<\/p>\n<p>Para ajudar no or\u00e7amento da fam\u00edlia, Diego come\u00e7ou a pegar material recicl\u00e1vel, sem a autoriza\u00e7\u00e3o da m\u00e3e. \u201c Teve um s\u00e1bado que ele chegou aqui em casa com R$ 12 dizendo que era para comprar p\u00e3o e caf\u00e9. Ele disse que tinha passado a semana pegando latinhas com mais dois amigos, venderam e conseguiram o dinheiro. N\u00e3o me contou por medo de eu brigar com ele, porque sempre estou dizendo que ele tem que estudar e n\u00e3o trabalhar\u201d, conta Meire.<\/p>\n<p>Diego passou a fazer entregas de bike a convite dos amigos, que tamb\u00e9m s\u00e3o adolescentes. \u201cPedi para um primo me cadastrar, mas depois de uma semana eles me bloquearam. Apareceu uma mensagem que eu tinha descumprido as normas. Depois me cadastrei com [os dados] outro amigo e n\u00e3o deu mais problemas\u201d, revela.<\/p>\n<p>Em m\u00e9dia, Diego ganhava R$500 por m\u00eas fazendo entregas. \u201c\u00c9 mais do que eu ganhava quando vendia reciclagem, s\u00f3 que \u00e9 mais cansativo e mais perigoso\u201d, diz. Por medo de acontecer algo com o filho, Meire o obrigou a sair dos aplicativos. \u201cEle vai ter que esperar mais um pouco pra come\u00e7ar a trabalhar. Pelo menos com 16 [anos] e de uma forma segura\u201d.<\/p>\n<p>Bruna Ribeiro, gestora do projeto Crian\u00e7a Livre do Trabalho Infantil, refor\u00e7a que \u00e9 importante \u201cn\u00e3o criminalizar as fam\u00edlias\u201d e diz que \u00e9 necess\u00e1rio um conjunto de esfor\u00e7os para combater trabalho infantil. \u201cN\u00e3o existe uma bala de prata. Exige medidas intersetoriais de pol\u00edticas p\u00fablicas, ent\u00e3o voc\u00ea precisa gerar emprego, gerar renda, formar os jovens e adultos, profissionalizar esses pais, dar acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de qualidade e integral. Ter atividades para essas crian\u00e7as, moradia digna, acesso \u00e0 sa\u00fade. Transfer\u00eancia de renda. Porque as pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e3o insuficientes para o enfrentamento ao trabalho infantil, a gente fala que n\u00e3o pode trabalhar, mas ao mesmo tempo n\u00e3o responde a altura da necessidade dessas fam\u00edlias. \u00c9 a pobreza. Este \u00e9 o problema!\u201d.<\/p>\n<p>A P\u00fablica procurou as empresas Ifood, Rappi e UberEats, citadas por entregadores adolescentes, solicitando entrevistas com seus representantes. Questionamos se as empresas tinham conhecimento de que adolescentes est\u00e3o fazendo entregas, se t\u00eam alguma a\u00e7\u00e3o para evitar o trabalho infantil. Tamb\u00e9m perguntamos se foram notificadas pelo MPT. At\u00e9 o fechamento da reportagem, somente a Rappi se posicionou.<\/p>\n<p>Por nota, a Rappi informou que \u201cpara atuar como entregador \u00e9 preciso ter mais de 18 anos e se cadastrar na plataforma com a inclus\u00e3o de fotos, documentos pessoais e outros dados comprobat\u00f3rios. Aos motociclistas e motoristas tamb\u00e9m \u00e9 exigida CNH v\u00e1lida. O sistema faz reconhecimento facial em tempo real, para confirmar a identidade do entregador quando ele realiza o login na plataforma\u201d. A plataforma informou ainda que \u201cn\u00e3o compactua com o trabalho infantil, sendo este um compromisso da empresa, e atua para identificar casos desta natureza, decorrentes do n\u00e3o cumprimento das regras contra o trabalho infantil na plataforma. A empresa criou um canal de ouvidoria no aplicativo, no qual entregadores, usu\u00e1rios e lojas podem denunciar eventuais casos de menores de idade atuando como entregadores. A plataforma tamb\u00e9m estabeleceu comunica\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas aos seus usu\u00e1rios, em seus canais oficiais e no pr\u00f3prio aplicativo, sobre o combate ao trabalho infantil.\u201d<\/p>\n<p>Com base na resposta, perguntamos qual o n\u00famero de entregadores de bicicleta cadastrados no aplicativo e quantas den\u00fancias sobre trabalho infantil foram registradas nos canais oficiais da empresa no Brasil. A Rappi n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p><strong>Abuso de trabalho infantil\u00a0<\/strong><br \/>\nO trabalho que tem sido realizado por entregadores adolescentes, geralmente em centros urbanos do pa\u00eds, est\u00e1 entre as 93 piores formas de trabalho infantil, de acordo com a Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP). O Brasil \u00e9 signat\u00e1rio da Lista desde 2008, quando o ent\u00e3o presidente Lu\u00eds In\u00e1cio Lula da Silva (PT) ratificou o Decreto 6.481.<\/p>\n<p>O conceito surgiu na conven\u00e7\u00e3o 182 da OIT (Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho), quando os pa\u00edses listaram as piores formas de trabalho infantil, que s\u00e3o as atividades insalubres, perigosas e que podem causar danos \u00e0 seguran\u00e7a, \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 moral. O item 73 da Lista aponta que \u201ctrabalhos em ruas e logradouros p\u00fablicos apresentam alguns riscos ocupacionais como: exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia, drogas, ass\u00e9dio sexual e tr\u00e1fico de pessoas; exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 radia\u00e7\u00e3o solar, chuva e frio; acidentes de tr\u00e2nsito; atropelamento. Causando algumas consequ\u00eancias para sa\u00fade das crian\u00e7as do tipo: ferimentos e comprometimento do desenvolvimento afetivo; c\u00e2ncer de pele; desidrata\u00e7\u00e3o; doen\u00e7as respirat\u00f3rias; hipertermia; traumatismos; ferimentos entre outros\u201d.<\/p>\n<p>Conforme dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o Brasil, entre os anos de 2007 e 2019 registrou 27.971 acidentes de trabalho com crian\u00e7as e adolescentes. A maioria das v\u00edtimas eram meninos, da regi\u00e3o Sudeste e que tinham entre 14 e 17 anos. Entre as crian\u00e7as de 5 e 13 anos de idade, a maioria eram pardas e pretas, e na faixa et\u00e1ria entre 14 e 17 anos a maioria eram brancas.<\/p>\n<p>De acordo com Isa Oliveira, a m\u00e1xima\u00a0de que \u201ctrabalhar n\u00e3o mata\u201d n\u00e3o \u00e9 verdadeira. \u201cO trabalho infantil leva a \u00f3bito sim e a mutila\u00e7\u00f5es muitos graves. Ele tem consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas que s\u00e3o menos percept\u00edveis. Muitas dessas consequ\u00eancias acompanham a crian\u00e7a e o adolescente na vida adulta\u201d, aponta.<\/p>\n<p>No Brasil, os dados mais recentes sobre trabalho infantil s\u00e3o de dezembro de 2020. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua\u00a0(Pnad Cont\u00ednua)\u00a0sobre Trabalho de Crian\u00e7as e Adolescentes, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), mostrou que 1,8 milh\u00e3o de crian\u00e7as e jovens de 5 a 17 anos estavam em situa\u00e7\u00e3o de trabalho infantil no pa\u00eds antes da pandemia. Desses, 66,4% eram do sexo masculino e 33,6% do feminino. O percentual de pessoas pretas ou pardas era de 66,1% e o n\u00famero de brancas de 32,8%. Havia 706 mil pessoas em ocupa\u00e7\u00f5es consideradas piores formas de trabalho infantil.<\/p>\n<p>Na perspectiva municipal, em S\u00e3o Paulo, de acordo com os dados coletados pelo UNICEF (Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia), houve aumento do trabalho infantil durante a pandemia. O \u00f3rg\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas realizou o levantamento de dados sobre a situa\u00e7\u00e3o de renda e trabalho com 52.744 fam\u00edlias vulner\u00e1veis de diferentes regi\u00f5es da capital paulista, que receberam doa\u00e7\u00f5es da organiza\u00e7\u00e3o e seus parceiros. De abril a julho de 2020, houve um aumento de 26% do trabalho infantil.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo \u00e9 um modesto recorte do que poder\u00e1 acontecer no mundo at\u00e9 2022. De acordo com um relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) e da UNICEF, divulgado em junho passado, cerca de 8,9 milh\u00f5es de meninos e meninas correm o risco de entrar nessa situa\u00e7\u00e3o at\u00e9 o pr\u00f3ximo ano. Entre 2016 e 2020, 8,4 milh\u00f5es de crian\u00e7as e adolescente entraram para o censo do trabalho infantil, chegando a 160 milh\u00f5es no mundo, patamar atingido pela primeira vez em duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Para Isa Oliveira, o aumento no pa\u00eds j\u00e1 \u00e9 dado como realidade. \u201cIsso \u00e9 um progn\u00f3stico que vai ficar se confirmando, porque a gente n\u00e3o tem resposta, voc\u00ea n\u00e3o tem nenhuma estrat\u00e9gia do Estado para o enfrentamento dessa situa\u00e7\u00e3o do trabalho infantil na pandemia. O Brasil tem uma import\u00e2ncia muito grande dentro da Am\u00e9rica Latina, porque 20% do trabalho infantil que ocorre na regi\u00e3o, acontece no Brasil. Claro que \u00e9 o pa\u00eds mais populoso, pa\u00eds mais diverso, mas isso n\u00e3o justifica a viola\u00e7\u00e3o de direitos, porque tamb\u00e9m \u00e9 o mais rico.\u201d<\/p>\n<p>Para atender o compromisso de extinguir todas as formas de trabalho infantil at\u00e9 2025, como previsto na meta 8.7 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS), da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), o Brasil criou o III Plano Nacional de Preven\u00e7\u00e3o e Erradica\u00e7\u00e3o do Trabalho Infantil (2019-2022). No entanto, no \u00faltimo ano o Brasil n\u00e3o apresentou progresso satisfat\u00f3rio. A meta que visa medidas para acabar com o trabalho infantil foi classificada como \u201cem retrocesso\u201d no \u201cRelat\u00f3rio Luz da Sociedade Civil sobre a Agenda 2030\u201d, estudo feito a partir de dados governamentais analisados por 106 especialistas de diversas \u00e1reas, que comp\u00f5em o Grupo de Trabalho da Sociedade Civil, formado por 57 organiza\u00e7\u00f5es e f\u00f3runs de todo o pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto um grupo de entregadores, que utilizam bicicletas com a finalidade de trabalhar para empresas de aplicativos de delivery, conversava no Largo da Batata, regi\u00e3o de Pinheiros, Zona Oeste de S\u00e3o Paulo, *Diego dividia a aten\u00e7\u00e3o entre o papo e o celular. 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